sábado, 26 de outubro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Violência no Rio expõe política de segurança deficiente

O Globo

Enquanto não houver coordenação de governos federal e estaduais, crime organizado continuará a vencer

Não há como ficar indiferente às cenas de horror registradas na manhã de quinta-feira durante operação da Polícia Militar no Complexo de Israel, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio, para reprimir o roubo de veículos e de carga. Os bandidos que dominam as comunidades reagiram de forma violenta, impondo caos e medo. Em meio à chuva de tiros, três inocentes morreram baleados a caminho do trabalho. Outros três ficaram feridos. Principal via do município, a Avenida Brasil, por onde circulam 200 mil veículos diariamente, teve de ser interrompida por duas horas. Escolas, unidades de saúde, estações de trem e BRT também precisaram ser fechadas.

Causaram perplexidade não apenas as imagens dramáticas de cidadãos deitados no asfalto, escondidos sob ônibus ou agachados. Chocou também o recuo da polícia ante a resistência dos bandidos. A PM reconheceu não esperar reação tão forte dos traficantes. A decisão de recuar para evitar mais mortes foi acertada, mas é inevitável constatar que as organizações criminosas estão mais bem preparadas e são mais ousadas que as forças de segurança. No Rio, bandidos fazem o que querem. Em comunidades como a Muzema, andam armados à luz do dia.

Marco Aurélio Nogueira - Dilemas e desafios

O Estado de S. Paulo

A extrema direita não mostrou tanta força e se dividiu; a esquerda não conseguiu se projetar. Ambas não captaram a cabeça do eleitorado, que carrega novas pautas e hábitos

As eleições municipais de 2024 puseram em xeque uma polarização que já não corresponde à realidade nacional. Lula da Silva e Jair Bolsonaro não se confrontaram. Dobraram-se a uma clara inclinação eleitoral ao centro, que se derramou pelo País todo. Houve mais moderação do que radicalização. Mais cálculo. O eleitorado parece ter se “acomodado”, fez escolhas conservadoras e cautelosas, referendando a maior parte dos prefeitos que se lançaram à reeleição. O eleitor se manifestou com clareza, e é pueril tratá-lo como se fosse um alienado que ignora os perigos do reacionarismo ou uma vítima indefesa das redes.

Em São Paulo, esquerda e direita ficaram nos bastidores, esmagadas pela baixaria que dominou o primeiro turno e se estendeu ao segundo.

Pablo Ortellado - Polarização ou extremismo?

O Globo

Há uma perigosa evolução de intolerância mútua

Há um debate interessante em curso sobre se vivemos um período de polarização política ou de ascensão do extremismo de direita. Aqueles que defendem a ideia de polarização argumentam que há aumento do fanatismo e da intolerância em relação aos adversários, o que poderia, em última instância, levar à violência política.

Os que veem a ampliação do extremismo criticam a ideia de polarização, dizendo que ela pressupõe, pelo menos tacitamente, os dois polos se radicalizando, na mesma medida. Mas a tendência, dizem, não é simétrica, já que, enquanto a esquerda se torna mais moderada, a direita caminha para o extremismo antidemocrático.

Carlos Alberto Sardenberg - Para que servem as previsões?

O Globo

Pode-se fazer uma previsão bem aproximada do consumo de energia e, pois, dos preços do petróleo. Até que estoura uma guerra

O Fundo Monetário Internacional trouxe notícias sobre o Brasil nesta semana. A boa: pela nova projeção, que aparece no Panorama Econômico Mundial, a economia brasileira deverá crescer 3% neste ano. A ruim: a dívida pública continuará subindo neste e nos próximos dois anos, de acordo com o relatório Monitor Fiscal.

O governo, claro, gostou da primeira e rejeitou a segunda. Mas uma ampla opinião entre economistas brasileiros concorda com as duas informações. Na verdade, é o contrário. O FMI é que chegou agora às projeções já feitas por aqui. É normal.

Eduardo Affonso - Seu mundo você é quem faz

O Globo

Há os que são contra a eutanásia. Mas deixem ir em paz quem não compartilha a mesma crença e os mesmos temores

Quando Roberto Carlos quis se casar, em 1968, teve de sair do país: a noiva, Nice Rossi, era desquitada, e a legislação brasileira não permitia uma segunda chance no casamento. Graças ao empenho do senador Nélson Carneiro, o divórcio foi, finalmente, aprovado em 1977, e hoje ninguém mais precisa cruzar a fronteira para reconstruir a vida conjugal.

Quando, em 2024, o poeta e filósofo Antonio Cicero quis acabar com a angústia de ver o passado se esvair, não conseguir mais filosofar e sentir que lhe escapava a poesia, teve de fazer as malas e ir à Suíça para dar a sua vida um fim digno.

Não há no Brasil de hoje um Nélson Carneiro disposto a lutar contra o conservadorismo e os dogmas religiosos para devolver ao cidadão o direito inato e irrenunciável de dispor da própria existência como quiser, exercendo a liberdade de escolha em tudo que diga respeito a si mesmo e à própria felicidade.

Hélio Schwartsman - Como o eleitor racional deve agir?

Folha de S. Paulo

Num mundo hiper-racional, o mais vantajoso seria não sair de casa, mas não vivemos num mundo hiper-racional

Como o eleitor racional deve agir neste domingo (27)? Se o Brasil adotasse o voto facultativo, a resposta seria simples: não votar. Mas, como por aqui o comparecimento é em tese obrigatório, é necessário fazer uma conta antes de chegar a uma conclusão.

Se os seus custos com transporte mais o preço que você atribui a seu tempo excederem R$ 3,51 (valor da multa por turno perdido), fique em casa ou vá passear e depois regularize sua situação com a Justiça Eleitoral. Dá para fazer tudo pela internet, em tempo inferior ao que você levaria para votar.

Dora Kramer - Parece, mas ainda não é

Folha de S. Paulo

Congresso resiste a cumprir exigências, e impasse com STF sobre emendas persiste

Foi cedo em agosto —quando se anunciou um pacto— para se comemorar um acerto disciplinar no uso de emendas parlamentares. Agora ainda é cedo para se acreditar que o problema esteja resolvido com a promessa de votação de um projeto de lei com novas regras de transparência.

Há mais de dois meses se reuniram representantes dos três Poderes no Supremo Tribunal Federal e ali se estabeleceu que em dez dias o Congresso Nacional apresentaria suas credenciais no tema; daria as informações necessárias e diria como iria atender as exigências do Judiciário ao qual se aliava o Executivo.

Alvaro Costa e Silva - Saúde pública fatiada e arruinada

Folha de S. Paulo

Depois de receber mais de R$ 21 milhões, laboratório investigado tem aspecto de muquifo

Responsável por mais de 50 unidades de saúde —entre as quais o laboratório Saleme, investigado por erros em laudos que fizeram com que órgãos contaminados com o vírus HIV fossem transplantados em seis pacientes—, a Fundação Rio cresceu após um escândalo de corrupção. Uma corrupção sem fim que arruína a saúde pública no país, fatiada e privatizada, permitindo que grupos de criminosos metam a mão no dinheiro destinado a salvar vidas.

Criada em 2007 como alternativa para contratar profissionais e comprar insumos de forma rápida, a fundação ganhou status de supersecretaria a partir de 2020, durante a pandemia de Covid.

Demétrio Magnoli - Brics sem maquiagem

Folha de S. Paulo

Brasil tornou-se estranho no ninho, e grupo já não serve a interesses nacionais

Na superfície, o Brics é um bloco antiocidental, como Xi Jinping, e Putin mais ainda, pretendem apresentá-lo. De fato, são coisas diferentes para atores diversos. O Brasil, porém, tornou-se um estranho no ninho: o grupo já não serve aos interesses nacionais.

Lula vetou, por razões exclusivas de política doméstica (e por enquanto), o ingresso de Venezuela e Nicarágua. Porém, desde a entrada do Irã, na expansão de 2023, o Brics+ iniciou um giro anti-Ocidente. A cúpula de Kazan emitiu convites a 13 novos parceiros, inclusive Belarus, um protetorado informal russo, Cuba e Bolívia, que apoiam a invasão imperial da Ucrânia, além de Vietnã, Cazaquistão e Uzbequistão, situados nas esferas concorrentes de influência chinesa e russa.

Orlando Thomé Cordeiro - 2026 é logo ali

Correio Braziliense

O PSD de Gilberto Kassab sai muito fortalecido dessa disputa, trazendo consigo a vitória em primeiro turno de Eduardo Paes no Rio de Janeiro e a chance de conquistar até seis novas prefeituras no próximo domingo, inclusive Belo Horizonte e Curitiba

Neste domingo, teremos a disputa de segundo turno em 51 municípios, entre eles, 15 capitais, mas o resultado do primeiro turno trouxe algumas confirmações e a indicação de algumas tendências. Mesmo nos 103 locais com possibilidade de segundo turno, por terem mais de 200 mil eleitores, em pouco mais da metade (52), a parada foi resolvida dia 6 de outubro.

Como apontamos na coluna publicada dia 26 de janeiro deste ano, na imensa maioria dos 5.569 municípios, a polarização nacional não teve peso no voto do eleitor, tendo sido preponderante a discussão de temas locais, bem como a imagem de candidatos e candidatas. Com raras exceções, quem tentou nacionalizar o debate nessas cidades não obteve êxito, até porque, na eleição municipal, a nacionalização interfere, mas não decide.

Amanda Calazans - Os munícipes que não reclamam

O Estado de S. Paulo

Como uma obra literária inacabada, Graciliano Ramos não terminou o mandato em Palmeira dos Índios, mas seus relatórios deixam reflexões sobre o papel do prefeito

Na gestão em que se dedicaria a equilibrar as contas do município, enfrentar o desperdício e a ineficiência na administração, extinguir favores a compadres, pôr fim às extorsões que afligiam os mais pobres e, o mais inconveniente, relatar de forma clara e honesta o que fez e o que não conseguiu fazer durante o mandato, o prefeito de Palmeira dos Índios escreve, após o primeiro ano de trabalho: “Há descontentamento. Se a minha estada na prefeitura (...) dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos”.

O prefeito impopular, bem como o dono da autoavaliação seca, irônica e sobretudo literária, era Graciliano Ramos. O futuro romancista administrou Palmeira dos Índios, próxima a sua cidade natal, Quebrangulo, de janeiro de 1928 a abril de 1930, e no começo de cada ano escreveu relatórios de prestação de contas ao Conselho Municipal e ao governo de Alagoas. Desde aquela época os balanços da prefeitura chamaram a atenção da imprensa pela qualidade literária, e agora estão reunidos no livro O Prefeito Escritor: Dois Retratos de uma Administração (Record, 2024).

Carlos Andreazza - O fim e o fim do governo Cláudio Castro no Rio

O Estado de S. Paulo

O governo Claudio Castro, do Rio de Janeiro, acabou. Acabou sem ter começado, mantido enganando enquanto havia dinheiros da concessão da Cedae e, sobretudo, por influente (e cara) campanha de, digamos, comunicação.

A casa cai de vez quando se descobre que o Estado entregou a um laboratório safado – empresa de parente do ex-secretário de Saúde, padrinho da atual secretária – o contrato para testar a saúde de órgãos a serem transplantados. Transplantados, afinal, órgãos infectados com HIV.

Marcus Pestana - Governabilidade e transformação

A democracia política emerge como expressão das mudanças necessárias para dar vazão ao desenvolvimento do sistema capitalista. A monarquia absoluta, funcional para a centralização de recursos e esforços na expansão do capitalismo comercial em escala global através das grandes navegações, tornou-se um obstáculo ao desenvolvimento capitalista, quando a dinâmica da acumulação de capitais migrou da circulação para a produção. Era preciso um sistema político permeável à ação descentralizada de inúmeros empreendedores privados. A democracia moderna, filha das Revoluções Industrial, Francesa e Americana, nasce como expressão política de uma sociedade que se organizava tendo como pilar a liberdade individual e econômica.

Luiz Gonzaga Belluzzo - O Prêmio Nobel de 2024

O poder da finança cairia bem nas incursões dos vencedores pelos labirintos do poder e do progresso

Prêmio Nobel concedido a ­Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson consagrou o trabalho dos três economistas na identificação dos processos socioeconômicos que impulsionam o progresso das nações.

No livro Poder e Progresso: Nossa Luta de Mil Anos por Tecnologia e Prosperidade, Acemoglu e Johnson enfrentam as complexidades das relações entre progresso tecnológico e democracia.

“…As primeiras esperanças de democratização digital foram frustradas porque o mundo da tecnologia colocou seu esforço onde estão o dinheiro e o poder – com a censura do governo. É, portanto, um caminho específico – um caminho sorrateiro – escolhido pela comunidade de tecnologia que intensifica a coleta e a vigilância de dados.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - O Auto do frade - Frei Caneca

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Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto - Eu vou fazer você voar

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tragédia de Novo Hamburgo expõe leniência com CACs

O Globo

Atirador que matou pai, irmão e dois policiais mantinha em casa arsenal obtido legalmente como colecionador

Na noite de terça-feira em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre (RS), um caminhoneiro de 45 anos, depois de manter a própria família como refém, matou a tiros na hora o pai, o irmão e um policial militar. Outro PM morreu no hospital. Feriu ainda a mãe, a cunhada e outras seis vítimas. Segundo a Polícia Civil gaúcha, o atirador foi encontrado sem vida dentro de casa depois de confronto com o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Cinco baleados — entre eles dois policiais militares e um guarda municipal — permaneciam ontem internados.

A motivação do crime ainda é investigada. Pelo que se sabe, o atirador abriu fogo contra os parentes e policiais depois de ser denunciado pelo pai por maus-tratos. Todas as tentativas de negociação foram frustradas, e ele ainda derrubou dois drones usados pela polícia durante o cerco, que durou mais de nove horas.

José de Souza Martins - A crise da esquerda e a ameaça autoritária

Valor Econômico

A direita mobiliza vítimas de marginalização política porque os partidos democratas têm dificuldade de reconhecer o que é política numa sociedade atrasada

A eleição, em 2002, de um presidente da República pelo PT e sua reeleição, quatro anos, depois, além da eleição e reeleição de sua sucessora, não representou uma inclinação do eleitorado para a esquerda. Apenas robusteceu a inclinação brasileira para a direita com que esta reagiu e se apoderou do poder. O que era difuso e não tinha nome, pela mediação da esquerda reconheceu-se como direita. Definiu uma identidade, encontrou um líder que personificasse sua confusão e seu ódio acumulado. Tornou-o objeto de idolatria e sujeição. Bolsonaro não é apenas personagem eleitoral.

A questão é sociologicamente complicada. Foi tratada por Theodor Adorno e sua equipe em célebre e bem cuidado estudo científico realizado na Universidade da Califórnia. Em 1950, essa equipe publicou “The Authoritarian Personality”. O grupo foi motivado, dentre outras, pela hipótese de que o que acontecera na Alemanha poderia ter seus fatores e causas também em outros países, como os EUA. Ou como aqui.

Vera Magalhães - A agenda do pós-eleições

O Globo

Retomada do controle do Orçamento, reforma ministerial e sucessão na Câmara serão temas da volta do mundo político a Brasília

Passado o segundo turno, Brasília volta a funcionar com força total com foco em quatro temas principais, todos interligados: a necessidade do governo de promover um corte estrutural de gastos que mantenha de pé o arcabouço fiscal, o acordo entre os Poderes para disciplinar as emendas parlamentares, a troca de comando na Câmara e no Senado e uma esperada reforma no primeiro escalão do governo.

Uma das coisas que ficaram nítidas nas eleições municipais foi o peso do dinheiro vindo de Brasília nos resultados que inflaram as siglas do Centrão e da direita. São dois os dutos pelos quais jorrou a dinheirama: o fundo eleitoral inflado pelo Congresso e as emendas Pix, que, agora, deverão mudar, a partir da puxada no freio dada pelo Supremo Tribunal Federal.

As várias modalidades de emendas, além da Pix, e seu caráter cada vez mais impositivo tiraram do Executivo uma das principais armas de que sempre dispôs para fazer política. O resultado é que muitos partidos com gabinetes na Esplanada fizeram campanhas completamente dissociadas de Lula ou do governo, sem deles depender e, sobretudo, sem defendê-los, fazendo com que a esquerda saia bem mais enfraquecida do mapa e, assim, largue atrás na montagem de chapas para a Câmara e o Senado daqui a dois anos.

Luiz Carlos Azedo - Não chamem Lula, Maduro e Ortega para jantar

Correio Braziliense

O Brasil equilibra-se entre dois polos, os Estados Unidos e a China, o que tensiona a política externa toda vez que se aproxima demais dos parceiros do Brics

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a reunião do Brics — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul —, em Kazan, na Rússia, que terminou nesta quinta-feira, para estabelecer distância segura dos presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, e da Nicarágua, Daniel Ortega, cuja entrada no grupo foi vetada pelo Brasil nos bastidores do encontro. Ampliado com mais quatro países (Egito, Irã, Etiópia, Emirados Árabes; a Arábia Saudita ainda não oficializou seu ingresso), o bloco decidiu criar também uma categoria de países parceiros, condição que era pleiteada pelos dois países latino-americanos.

Andrea Jubé - Otto, o camisa 10 de ACM no time de Lula

Valor Econômico

Senador rebate a provocação de que o Executivo precisaria de um “milagreiro” no parlamento

Fã de Raul Seixas, também baiano, e com a autoridade de quem conviveu de perto com Irmã Dulce (1914-1992), a Santa Dulce dos Pobres, o líder interino do governo, senador Otto Alencar (PSD-BA), disse à coluna que o governo não precisa de milagres no Congresso.

“O governo sempre aprovou tudo o que quis na Câmara e no Senado, com dificuldades, mas aprovou”. Mas, parafraseando Raul, ele “não tem pressa, tem muita paciência” para votar a regulamentação da reforma tributária, e reforçou que muita gente no governo pensa como ele.

“Qual a urgência? O país está com aumento de arrecadação. É pressa para ter a grife da reforma tributária?”, desafiou, atribuindo, exclusivamente, ao mercado financeiro o interesse em ver o texto chancelado nas duas Casas até o fim do ano. O governo retirou o regime de urgência, carimbo com o qual a matéria havia chegado ao Senado.

Vinicius Torres Freire - O fim da deflação da picanha

Folha de S. Paulo

Alta anual dos alimentos passa de 7%, que incomoda; mas pode chover e vir safra recorde

inflação anual da picanha foi quase sempre negativa de janeiro de 2023 até setembro deste 2024. Isto é, o preço do corte de carne mais politizado do Brasil caía, se considerada a variação em 12 meses. Em abril, a picanha estava em média 11% mais barata do que no abril de 2023. A baixas pelo menos compensava parte dos aumentos pavorosos de 2021 (com altas anuais de mais de 30%).

preço médio das carnes agora aumenta ao ritmo de 5,1% ao ano, na medida do IPCA-15 do IBGE (o da picanha, 4,1%). Contribuiu para o aumento da inflação dos alimentos que a gente leva para a casa, que agora está em 7% ao ano, na medida do mesmo IPCA-15, divulgado nesta quinta-feira (24), que mede a inflação média entre meados de um mês e meados do mês seguinte, outubro, neste caso. No ano passado, o preço médio da comida caíra 0,52%. E daí?

Bruno Boghossian - Tudo ou nada de Boulos vai dar em nada?

Folha de S. Paulo

Pesquisa do Datafolha na reta final dá a dimensão do abismo entre os dois campos

Na véspera do primeiro turno, Guilherme Boulos pediu a prisão de Pablo Marçal. O influenciador havia sido o responsável por uma baixaria histórica ao divulgar um laudo falso de internação do rival. O episódio cavou os últimos metros do abismo entre os eleitores dos dois candidatos.

Só um projeto de engenharia com uma boa dose de imprudência poderia erguer uma ponte entre os dois campos. Boulos fez uma aposta nessa obra. Ajustou propostas para ecoar apelos de Marçal à periferia e gravou um vídeo em que eleitores vestiam um boné com a letra B. Como risco final, topou ser sabatinado pelo ex-coach nas redes sociais.

Marcos Augusto Gonçalves - Meia direita, mas não abandona a extrema

Folha de S. Paulo

Governador tenta se deslocar para outra faixa, mas letalidade policial, entre outras situações, diz muito sobre seu jogo

O governador de São PauloTarcísio de Freitas, tem se projetado como nome da direita no cenário político-eleitoral. À frente do estado mais pesado da União, está bem amparado pelo escolado Gilberto Kassab, secretário de Governo e vitorioso das eleições municipais. O ex-ministro de Bolsonaro, que teve passagem pelo governo Dilma, tem se deslocado simbolicamente para a meia direita, mas não deixa de jogar pela extrema. Conhece a posição.

Um dos sinais, entre outros, de que continua a trafegar sem embaraço por esse corredor é o desempenho da segurança pública.

Eliane Cantanhêde - Lula x Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Quem procura acha. A Polícia Federal usou um aparelho israelense de última geração para encontrar o que sabia que encontraria no celular do ajudante de ordens do então presidente Jair Bolsonaro, o tenente-coronel da ativa Mauro Cid: mais evidências e provas da tentativa de golpe, escondidas nas nuvens da internet. As que havia já eram suficientes, mas as novas, guardadas a sete chaves, reforçam o inquérito e complicam ainda mais os envolvidos.

Bolsonaro manteve as andanças e os atos pelo País, para segurar apoio popular, mas perde substância política, sai da eleição municipal com adversários consistentes dentro do seu próprio grupo e, além de inelegível, vai passar por poucas e boas na Justiça. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, deu mais 60 dias para as investigações da PF, que depois serão analisadas pela PGR e, mais cedo ou mais tarde, vão parar no Supremo em 2025. Barbas de molho…

Fernando Gabeira - Clima: um discreto tema de campanha

O Estado de S. Paulo

Temas como o enterramento dos fios e a descentralização da energia não foram ventilados. E se fossem talvez não bastassem para eleger um simples vereador

As mudanças climáticas tiveram pouco impacto nas eleições. Não foi por falta de evento extremo.

As inundações arrasaram Porto Alegre no início do ano; uma tempestade abalou São Paulo e trouxe um novo apagão, em pleno processo eleitoral.

Em Porto Alegre, o prefeito Sebastião Melo é o favorito no segundo turno que se realiza domingo. Parece que tudo se resume a fortalecer as barreiras que impedem o Guaíba de transbordar na cidade. Em São Paulo, a crítica ao papel do prefeito foi reduzida à sua ineficácia em podar árvores.

Flávia Oliveira - Estado sequestrado

O Globo

O que era suspeita, alerta, aviso tornou-se comprovação escancarada. Porções cada vez maiores do território do Grande Rio estão sob controle de grupos armados. Chefes do crime não mais se intimidam nem com a presença nem com o poder de fogo de policiais, ora tão em risco quanto a população civil. Foi assim ontem, no Complexo de Israel, um conjunto de bairros do subúrbio carioca transformado pelo traficante Peixão em feudo, com direito a fossos à Idade Média para deter a entrada de blindados das forças do estado. Assim tem sido nas comunidades da Tijuquinha e da Muzema, na Zona Oeste, onde duas dezenas de ônibus já foram sequestrados, em uma semana, para formar barricadas contra os agentes do estado.

Não faltam estatísticas para expor a humilhação que o crime organizado impõe ao Estado do Rio, dia sim, outro também. Nas contas do Instituto Fogo Cruzado, a Avenida Brasil, principal via de acesso à capital fluminense, que se estende da Zona Oeste à área central, ontem foi cenário do 61º tiroteio do ano. No início da semana, o Rio Ônibus, sindicato das empresas do setor, contava 109 veículos sequestrados e oito incendiados apenas em 2024, na cidade do Rio. E segue contando.

Bernardo Mello Franco – A baderna de Castro

O Globo

Medo de violência não poupa nem os vizinhos do governador na Barra da Tijuca

Na quarta-feira, torcedores do Peñarol aterrorizaram a orla do Recreio à luz do dia. Os uruguaios saquearam lojas, atacaram banhistas e agrediram moradores do bairro, que revidaram ateando fogo a um ônibus de turismo. “Foi quase uma hora e meia de selvageria e vandalismo praticamente sem repressão”, registrou o portal g1.

Depois que as imagens já haviam corrido o país, o governador Cláudio Castro resolveu se manifestar nas redes sociais. Sem intenção de fazer piada, escreveu: “O Rio não é lugar de baderna”. Pelo que se viu nos últimos dias, teria sido melhor ficar calado.

Ontem um tiroteio interditou a Avenida Brasil, principal via expressa do Rio, por cerca de duas horas. Em pânico, homens, mulheres e crianças foram obrigados a rastejar no asfalto para escapar das balas. Três chefes de família não tiveram a mesma sorte. Paulo Roberto de Souza, motorista de aplicativo, Renato Oliveira, funcionário de um frigorífico, e Geneílson Ribeiro, motorista de caminhão, foram mortos. Todos com tiros na cabeça.

Cristovam Buarque* - Obrigado, Vladimir Carvalho

Brasilia perdeu nesta manhã um dos seus símbolos. Um nome do porte dos grandes que inventaram e construíram criaram nossa cidade. O Nordeste perdeu um dos seus filhos que nunca esqueceu suas raízes paraibanas. Brasil perdeu um dos mais importantes cineasta de nossa história, um documentarista que mostrou ao país como somos. A UnB perde um professor de imenso destaque, intimamente ligado à arte e cultura em geral. A sociedade brasileira perdeu um combatente que por décadas dedicou a militância à luta pela democracia, pela justiça social, pela paz, no heroísmo do antigo Partido Comunista, o PCB, na coerência do partido popular e socialista e agora na esperança do Cidadania. Nós, seus admiradores e correligionários, lamentamos muito esta imensa perda, com a tranquilidade de saber que ele morreu grande como viveu e com o compromisso de seguirmos seu exemplo mantendo viva sua luta.

Obrigado, Vladimir, pelos documentários que fez, pelo companheirismo que nos orgulhava, pela alegria e otimismo que inspirava, pelo exemplo que nos deixa. Obrigado e parabéns pela vida que soube viver.

*Presidente Regional do Cidadania/DF


Sérgio Moriconi* - O antes e o depois

Correio Braziliense

Uma das capacidades mágicas de Vladimir Carvalho era ser admirado e querido por todas as gerações que o seguiram. Vladimir nos deixou. Não, Vladimir não nos deixou. Quem viver verá

Ontem, a cidade amanheceu cinza e triste. Não era o fenômeno atmosférico comum à nossa chuvosa estação primaveril. Vladimir Carvalho havia falecido na madrugada deste 24 de outubro, depois de sofrer um infarte havia duas semanas. Alguns dias antes, experimentou uma das grandes alegrias de sua vida ao tomar conhecimento de que a sua Fundação Cinememória podia ser finalmente abrigada num dos espaços do Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB. Era uma luta solitária de décadas. Esse regozijo, quase júbilo, está documentado na entrevista que deu para a jornalista Márcia Zarur, momentos antes de sentir uma forte indisposição e ser, então, encaminhado para um hospital. Alegria e dor, paradoxo funesto. Ninguém de sua convivência entrevia o que estava para acontecer. Dinâmico, lúcido, saúde de ferro, Vladimir era o esteio, um dos dínamos da atividade cinematográfica em Brasília. 

Lilia Lustosa* - Vladimir Vorochenko dos Santos

Correio Braziliense

Vladimir Carvalho — ou Vorochenko, como era seu apelido entre os camaradas do cinema, em função de sua posição política de esquerda — era um cara simples, talentoso, dono de uma humildade cativante

Cidade do México, 24 de outubro de 2024. Acordei com a notícia da morte de Vladimir Carvalho. Imediatamente, senti a facada no peito. Aquela dor funda bem no lado esquerdo da gente. Ou seria no meio? Não importa, mas aquela dor tipo soco que nos toma de surpresa quando algo nos toca verdadeiramente. 

Imediatamente, comecei a pensar nos poucos encontros que tivemos, quer tenha sido de pura tietagem, como no Festival de Brasília, ou em ocasiões mais profissionais — ou acadêmicas — em que tive o privilégio de entrevistá-lo para minha tese de doutorado. Como objeto de estudo, eu usava uma de suas obras, Aruanda (1960), curta-metragem seminal do Cinema Novo, cuja autoria (de roteiro) havia sido tantas vezes questionada. Isso porque o diretor paraibano Linduarte Noronha não queria reconhecer a participação de Vladimir Carvalho e de João Ramiro Mello na concepção do roteiro. Mal sabia ele que seu colega dos tempos de cineclube, seu conterrâneo velho de guerra, iria conservar o roteiro original do filme, conservando-o orgulhosamente em seu Cinememória, espaço criado por ele, na W3 Sul, para salvaguardar a memória do cinema brasileiro. Uma verdadeira pérola para uma historiadora do cinema como eu.

Poesia | Quero, de Carlos Drummond de Andrade - voz de Paulo Autran

 

Música | Chico Buarque - As Vitrines

 

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Projeção para dívida exige controle de gastos

O Globo

Estimativas mostram que Lula não pode titubear ao apoiar programa de Haddad e Tebet

São preocupantes as projeções para a dívida pública do último relatório de acompanhamento fiscal da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado. Os técnicos da IFI avaliam que, apesar de a agência Moody’s ter elevado recentemente a nota do Brasil, as “incertezas fiscais dificultam a obtenção do grau de investimento”. “O nível de endividamento brasileiro está na média dos países da Zona do Euro, inferior aos países desenvolvidos do G7, mas bem acima dos países emergentes e da América Latina e Caribe”, afirma o documento.

Pelos cálculos da IFI, a dívida bruta do governo alcançou o patamar de 78,5% do PIB até agosto, mas deverá fechar este ano em 80%. A tendência é a alta prosseguir ao longo do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atingindo 82,2% em 2025 e 84,1% em 2026. Ao todo, o endividamento público terá crescido 12,4 pontos percentuais do PIB nos quatro anos do mandato de Lula, de acordo com as projeções (em dezembro de 2022, antes da posse, a dívida estava em 71,7% do PIB).

Merval Pereira - Voto facultativo se impõe

O Globo

Na prática, as eleições brasileiras estão se transformando em não obrigatórias, diante da ausência de uma sanção significativa contra a abstenção

A abstenção ganhou dimensão nova nas eleições municipais deste ano, especialmente no segundo turno, quando a possibilidade, ainda que remota, de que ela seja responsável por uma reviravolta na eleição paulistana passou a fazer parte da estratégia final dos competidores. O prefeito Ricardo Nunes, à frente nas pesquisas desde o início, demonstrou na última semana preocupação evidente com a possibilidade de que os eleitores do coach Pablo Marçal não se disponham a ir votar nele domingo, abrindo brecha à redução de seu favoritismo. Noutros municípios, como Porto Alegre, a abstenção também tem sido alta.

Guilherme Boulos, do PSOL, descrente pela tentativa frustrada de atrair votos dos marçalistas, começou a jogar a favor da abstenção, afirmando que eleitores de Marçal não votarão em Nunes, a despeito do que mostram as pesquisas.

Na prática, as eleições brasileiras estão se transformando em não obrigatórias, diante da ausência de uma sanção significativa contra a abstenção. O voto torna-se facultativo na medida em que a justificativa para a ausência nas urnas é absolutamente aberta, na avaliação do constitucionalista Gustavo Binenbojm, e a eventual falta se resolve com facilidade.

Míriam Leitão - Duas realidades da economia

O Globo

As previsões pessimistas criadas por conta de um cenário com nuvens fiscais podem esconder os bons resultados que o país teve neste ano

O Brasil foi o país que teve o maior aumento da previsão de crescimento do FMI. Num grupo de 17 países, apenas cinco tiveram revisão positiva da projeção, mas o número do Brasil subiu mais: 0,9 ponto percentual, passando de 2,1% para 3%. Ontem, o Fundo alertou para o aumento do endividamento e dos riscos fiscais. O Brasil vive entre essas duas realidades. Sim, o país está encerrando o segundo ano de crescimento em torno de 3%, quando as projeções iniciais eram bem menores, surpreendendo positivamente. E, sim, existem problemas fiscais rondando, ainda que sejam um despropósito as análises feitas por alguns economistas que dizem haver risco de a atual gestão fiscal repetir o que houve no período Guido Mantega.

Há uma série de boas notícias na economia e esta semana saiu mais uma: um crescimento forte da arrecadação em setembro. Comparado ao mesmo mês do ano passado o aumento real foi de 11,61%, o acumulado em nove meses aponta uma alta de 9,68% e os dois são recordes. A lista das boas notícias na economia é longa. O desemprego caiu, a renda subiu, a inflação está dentro do espaço de flutuação da meta, ainda que esteja se distanciando dos 3%. A Moody’s, como se sabe, elevou a nota do Brasil.

Malu Gaspar – A cartada de Boulos

O Globo

Comendo poeira atrás de Ricardo Nunes (MDB) nas pesquisas para a Prefeitura de São PauloGuilherme Boulos (PSOL) partiu para o tudo ou nada. Saiu de mochilão para dormir nas casas dos eleitores da periferia, divulgou denúncias contra o prefeito no caso da máfia das creches e até aceitou participar de uma sabatina com Pablo Marçal (PRTB). Mas a iniciativa mais simbólica do candidato do PSOL foi a “Carta de São Paulo”, versão atualizada da Carta aos Brasileiros de Lula de 2002, com o mesmo objetivo de tentar reduzir sua rejeição.

Na carta, além de repisar o que já disse muitas vezes sobre ser um político do diálogo e não um radical invasor de propriedades, Boulos deu um passo adiante, reconhecendo a dificuldade da esquerda de se conectar com um eleitorado decisivo.

Bruno Boghossian - A esquerda tem agora dois problemas sobre a mesa

Folha de S. Paulo

Antes de solucionar dilema da agenda identitária, grupo vê remédios econômicos com menos eficácia

Depois da onda da direita de 2018, líderes da esquerda puseram sobre a mesa um problema e uma solução. Para políticos veteranos, parte do desgaste daquele ciclo era reflexo da adesão em massa a valores conservadores e da consequente rejeição ao PT e outros partidos. Uma das propostas para sair do enrosco envolvia a redução do peso da pauta de costumes e a reconquista do eleitor pelo discurso econômico.

Os anos se passaram, e a esquerda ancorou sua volta ao poder no personagem que simbolizava uma plataforma de transferência de renda e redução de desigualdades. Ele trazia no bolso uma carta aos evangélicos para suavizar desconfianças, além de se escorar no pilar laico da preservação da democracia.

Ruy Castro - Sai o crime organizado, entra o legalizado

Folha de S. Paulo

Quantos vereadores ligados às facções criminosas não têm sido eleitos no país?

Cidades brasileiras com até 15 mil habitantes elegem nove vereadores. As que têm cerca de um milhão elegem 33. São Paulo, com seus mais de 11 milhões, elege 55. Tire a média e multiplique pelos, segundo o IBGE, 5.570 municípios do Brasil. A pergunta é: quantos dos quase 200 mil vereadores em exercício no país não fazem parte de alguma forma do crime organizado ou foram cooptados por ele?

Maria Hermínia Tavares - Desafios ao Brasil na direção dos BRICS+

Folha de S. Paulo

Impossível não reconhecer que o BRICS+ possa ser outra coisa além de instrumento da ascensão da China

A reunião do BRICS+ em Kazan, na Rússia, significa coisas diferentes para cada um dos participantes. É o primeiro encontro para o Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, cuja inclusão explica o acréscimo do símbolo + ao acrônimo do grupo original. Para o autocrata Putin é ocasião de mostrar que não está politicamente só, embora não possa por os pés nos países, como o Brasil, que reconhecem a jurisdição do Tribunal Penal Internacional (TPI), o qual o condenou por crimes contra a humanidade perpetrados na Ucrânia. Já para a China trata-se de mais um tijolo na construção de um amplo suporte para sua liderança internacional em confronto com o Ocidente democrático.

Para o Brasil, que assume a presidência do bloco por um ano, trata-se de mostrar com clareza sua posição em face das mudanças da ordem política mundial – um desafio e tanto.