quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A campanha no meio de uma praça de guerra, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Lula e Flávio não passarão incólumes ao desfecho do conflito no STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal conseguiu adiar o conflito ao dizer que tomará as medidas ‘cabíveis e necessárias’ tanto sobre o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com o Master quanto sobre os procedimentos do relator, André Mendonça, na condução do inquérito.

Com o feriado de 7/9, o relatório com o qual Mendonça pedirá que o plenário do STF abra o inquérito só deverá chegar à mesa de Edson Fachin na terça. A sessão deliberativa pode acontecer no dia seguinte.

O relatório da Polícia Federal foi o fato de maior volume de menções nas redes sociais, em suas primeiras 24 horas, registrado este ano, de acordo com o Democracia em Xeque. O tema deve se manter aquecido até o feriado, quando uma manifestação bolsonarista vai martelar o tema até para retomar as chances de eleger, ao Senado, uma maioria pró-impeachment. É sob o impacto da véspera que os ministros vão deliberar.

A gravidade dos indícios do envolvimento de Moraes com Daniel Vorcaro não se restringe ao escopo dos serviços prestados pelo ministro. Passam também por um segundo contrato relativo a cotas de um jatinho e um helicóptero aos quais o banqueiro se refere como ativos que “já são deles” e abre uma nova avenida de suspeitas.

Não se trata apenas de mais um crime passível de investigação, mas um indício de envolvimento com aquela que parece ter sido a âncora das atividades de Vorcaro. Não é apenas mais um banqueiro que corrompia autoridades para traficar interesses.

A hipótese aqui é a de que Vorcaro, por manejar grandes somas, virou um ‘hub’ de lavagem de dinheiro. Se a exorbitância do valor inicial do contrato do escritório Barci de Moraes já levantava esta suspeita, o repasse adicional de ativos de R$ 50 milhões, a reforça.

A nota de Fachin sugere que a gravidade dos indícios em tela não justifica os procedimentos usados pelo relator. Seus problemas foram resumidos por um procurador-geral da República que fumou, bebeu e viajou às expensas de Vorcaro.

Se Fachin aceitar a nulidade da investigação tal como foi pedida por um suspeito estenderá a suspeição para toda a Corte, mas a nota sugere que o presidente do STF compartilha as impressões sobre o direcionamento da investigação.

O depoimento prestado por Vorcaro ao gabinete de Mendonça, revelado por Bela Megale, em O Globo, reforça a heterodoxia da condução do inquérito. Colhido por um juiz auxiliar do relator, teve a presença do MPF mas não da PF. O gabinete, em nota, informou que as ‘graves intimidações’ reportadas pelo ex-banqueiro, justificavam a não convocação de agentes policiais.

O depoimento reforça a hipótese de que estaria em curso uma delação sem a PF. Se a intenção da defesa foi a de emplacar a tese da intimidação para tirá-lo da cadeia e, assim, fechar uma delação sem o constrangimento da privação da liberdade, o desfecho não parece ter sido o esperado.

Ao vazamento das mensagens seguiu-se o levantamento do sigilo do relatório da PF, que acabou por expor muito mais Moraes do que o diretor-geral da PF. Ao abrir as mensagens, André Mendonça também acabou suscitando a demanda para que faça o mesmo em relação a outros de seus investigados.

Entre os alvos das buscas e apreensões conduzidas pelo ministro do STF no INSS está, por exemplo, Willer Tomaz, advogado e amigo do senador e candidato do PL, Flávio Bolsonaro. Tomaz foi apontado pela PF como pivô da ocultação de valores desviados dos aposentados.

Tomaz também é o representante da Rio Pag, empresa que processa pagamentos da Loterj e é investigada pela Procuradoria-Geral do Estado pelo sumiço de valores da loteria fluminense sob a gestão Claudio de Castro, aliado bolsonarista.

A onipresença do deputado Cezinha da Madureira (PSD-SP) nos contatos que envolvem a relação de advogados ligados a Daniel Vorcaro com André Mendonça, e no encontro do ex-banqueiro com o próprio ministro, como revelou o jornalista Paulo Motoryn, também arrisca trazer dores de cabeça inesperadas à condução do inquérito do Master.

Entre os sigilos a serem levantados se cobra ainda aquele que se refere aos repasses de Vorcaro para o filme ‘Dark Horse’ por meio de Flávio Bolsonaro, cujos valores o jornalista Breno Pires mostrou serem R$ 8,5 milhões a mais do que já revelado. Quem engrossou o coro foi o presidente do Senado Davi Alcolumbre (União-AP).

No dia seguinte ao encontro que teve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na casa de Moraes, o presidente do Senado ficou a contar, a quem passasse pela porta de seu gabinete, detalhes da reconciliação. Nesta quarta, foi além. Disse que o pedido para o “Dark Horse” ficou esquecido, e “o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”.

Pra quem não havia entendido, desenhou: Lula precisa que o Senado vote projetos para sua reeleição (fim da escala 6x1 e PEC da segurança) e faz um acordo com Alcolumbre e Moraes que têm um pacto de proteção mútua. Em latim, quis dizer: cutucamos Mendonça com a vara curta.

Em vídeo, o presidente do PT, Edinho Silva, defendeu um código de ética no Judiciário que ponha fim à “promiscuidade entre interesses públicos e privados”. Abriu caminho para um pronunciamento de Lula capaz de convencer o eleitor de que é o adulto na sala nesta briga - e não a parte interessada do desenho de Alcolumbre.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Disse tudo: "Se Fachin aceitar a nulidade da investigação tal como foi pedida por um suspeito estenderá a suspeição para toda a Corte"!