O Estado de S. Paulo
Restam 3 opções para lidar com a extrema direita alemã: isolar, proibir ou deixar governar
A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve
44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que o dobro da CDU,
de centro-direita, partido do chanceler, Friedrich Merz, que ficou em segundo
com 17%. A AfD, classificada pelo serviço de inteligência doméstica como
extremista de direita, obteve o melhor resultado de uma sigla desse campo na
Alemanha desde 1945.
A eleição intensifica um dos debates já
dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido
radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste
pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.
O poder de compra de Magdeburg ou Halle
supera o de quase todo o sul e o leste da Europa; as aposentadorias de quem
contribuiu por mais de 35 anos equivalem a 95% das pagas no oeste, e
produtividade e salários chegam a 84% do nível ocidental, diferença que reflete
sobretudo o caráter mais rural da região.
A infraestrutura não fica atrás da de regiões
comparáveis do continente: por exemplo, cerca de 30 dos quase 80 teatros de
ópera do país estão no leste, que abriga um quinto da população. Ainda assim,
75% dos alemães orientais dizem que o que separa as duas partes do país pesa
mais que o que as une, o maior índice desde 2004.
Um novo estudo da Universidade do Sarre
conclui que renda e escolaridade quase nada explicam: o que prevê o voto na AfD
é a preocupação com a imigração, e ela pesa tanto para ricos quanto pobres. E
isso em um Estado onde estrangeiros são apenas 8% da população, menos da metade
da média nacional e bem abaixo do que se vê em Hesse ou Hamburgo. Os autores
tiram a conclusão incômoda: mais transferências e políticas de igualdade não
trarão os eleitores de volta.
MURO. O segundo debate é o que fazer a
respeito da ascensão do partido. Desde a fundação da AfD, em 2013, todos os
partidos tradicionais mantêm o Brandmauer, o “muro cortafogo” erguido para
jamais cooperar com a AfD. O muro cumpriu o que prometia, como lembra Thorsten
Benner, do Global Public Policy Institute, em Berlim, pois a AfD até hoje nunca
chegou a governar um Estado. Mas fica cada vez mais evidente que fracassou como
estratégia de contenção, e há algo paradoxal nisso: governar desgasta, e a AfD
passou uma década sem governar nada.
Enquanto CDU, SPD e Verdes se consumiam em
coalizões improváveis, a legenda cresceu sem nunca ter sido testada, e hoje
lidera as pesquisas nacionais com quase 30%. Benner vai além e sustenta que o
muro ajuda a explicar por que a AfD, ao contrário de outras siglas de extrema
direita na Europa, se tornou mais radical à medida que crescia: sem perspectiva
de poder, moderar-se não lhe traz nada.
Uma proposta é converter o veto absoluto em
condições verificáveis, como expulsar Björn Höcke, seu dirigente mais influente
no leste do país, que foi condenado duas vezes por usar, em eventos de
campanha, um slogan das tropas de assalto de Hitler, cujo uso é crime na
Alemanha. Romper com esse tipo de quadro e de discurso seria o preço do
diálogo, e a própria AfD teria de decidir se está disposta a pagá-lo.
Outros defendem a proibição do partido. Boris
Pistorius, ministro da Defesa e há anos o político mais popular do país, pediu,
ao lado de Cem Özdemir, chefe de governo de Baden-Württemberg, que se abra um
processo de banimento das seções da AfD no leste alemão, entre elas a da
SaxôniaAnhalt.
O argumento é o mesmo do serviço de
inteligência, que em 2025 classificou a AfD como “comprovadamente extremista de
direita”, por defender uma concepção étnica de povo incompatível com a
Constituição alemã. Os críticos respondem que um processo desses levaria anos e
daria à AfD o papel que ela mais gosta de encenar, o de vítima.
SINAL VERDE. Há uma terceira via, que decorre
do próprio diagnóstico de Benner: deixar a AfD governar um Estado e expor sua
incapacidade. O partido defende um nacionalismo de slogans, mais definido pelo
que rejeita do que pelo que propõe.
Um episódio quase cômico ilustra a aposta. Em
2021, Tino Chrupalla, hoje copresidente do partido, defendia em um programa
infantil da TV pública que as escolas ensinassem mais canções populares e
poesia clássica alemã. O repórter mirim quis saber, então, qual era seu poema
alemão favorito. Chrupalla hesitou, disse que precisaria pensar e admitiu que
nenhum lhe vinha à cabeça. Instado a citar ao menos um poeta, apontou Heinrich
Heine, de origem judaica, exilado em Paris e cujos livros os nazistas queimaram
em 1933.
Deixar governar foi, é verdade, o erro que a
Alemanha cometeu nos anos 1930. Em 1930, juristas do governo da Prússia
recomendaram por escrito a proibição do partido nazista. O chanceler Heinrich
Brüning preferiu enfrentá-lo politicamente, temendo alimentar seu vitimismo, e
menos de três anos depois Hitler chegava ao poder.
A comparação tem limites óbvios. Um Estado não é o país inteiro, e uma AfD obrigada a administrar escolas, hospitais e orçamentos deixaria de ser um partido de protesto para virar um governo cobrado por resultados, ofício bem menos glamouroso do que denunciar o sistema. Nenhuma das três saídas é isenta de risco. O que a eleição de ontem mostrou é que a atual estratégia de simplesmente isolar o partido deixou de ser uma opção.

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