segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A encruzilhada política da Alemanha, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Restam 3 opções para lidar com a extrema direita alemã: isolar, proibir ou deixar governar

A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que o dobro da CDU, de centro-direita, partido do chanceler, Friedrich Merz, que ficou em segundo com 17%. A AfD, classificada pelo serviço de inteligência doméstica como extremista de direita, obteve o melhor resultado de uma sigla desse campo na Alemanha desde 1945.

A eleição intensifica um dos debates já dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.

O poder de compra de Magdeburg ou Halle supera o de quase todo o sul e o leste da Europa; as aposentadorias de quem contribuiu por mais de 35 anos equivalem a 95% das pagas no oeste, e produtividade e salários chegam a 84% do nível ocidental, diferença que reflete sobretudo o caráter mais rural da região.

A infraestrutura não fica atrás da de regiões comparáveis do continente: por exemplo, cerca de 30 dos quase 80 teatros de ópera do país estão no leste, que abriga um quinto da população. Ainda assim, 75% dos alemães orientais dizem que o que separa as duas partes do país pesa mais que o que as une, o maior índice desde 2004.

Um novo estudo da Universidade do Sarre conclui que renda e escolaridade quase nada explicam: o que prevê o voto na AfD é a preocupação com a imigração, e ela pesa tanto para ricos quanto pobres. E isso em um Estado onde estrangeiros são apenas 8% da população, menos da metade da média nacional e bem abaixo do que se vê em Hesse ou Hamburgo. Os autores tiram a conclusão incômoda: mais transferências e políticas de igualdade não trarão os eleitores de volta.

MURO. O segundo debate é o que fazer a respeito da ascensão do partido. Desde a fundação da AfD, em 2013, todos os partidos tradicionais mantêm o Brandmauer, o “muro cortafogo” erguido para jamais cooperar com a AfD. O muro cumpriu o que prometia, como lembra Thorsten Benner, do Global Public Policy Institute, em Berlim, pois a AfD até hoje nunca chegou a governar um Estado. Mas fica cada vez mais evidente que fracassou como estratégia de contenção, e há algo paradoxal nisso: governar desgasta, e a AfD passou uma década sem governar nada.

Enquanto CDU, SPD e Verdes se consumiam em coalizões improváveis, a legenda cresceu sem nunca ter sido testada, e hoje lidera as pesquisas nacionais com quase 30%. Benner vai além e sustenta que o muro ajuda a explicar por que a AfD, ao contrário de outras siglas de extrema direita na Europa, se tornou mais radical à medida que crescia: sem perspectiva de poder, moderar-se não lhe traz nada.

Uma proposta é converter o veto absoluto em condições verificáveis, como expulsar Björn Höcke, seu dirigente mais influente no leste do país, que foi condenado duas vezes por usar, em eventos de campanha, um slogan das tropas de assalto de Hitler, cujo uso é crime na Alemanha. Romper com esse tipo de quadro e de discurso seria o preço do diálogo, e a própria AfD teria de decidir se está disposta a pagá-lo.

Outros defendem a proibição do partido. Boris Pistorius, ministro da Defesa e há anos o político mais popular do país, pediu, ao lado de Cem Özdemir, chefe de governo de Baden-Württemberg, que se abra um processo de banimento das seções da AfD no leste alemão, entre elas a da SaxôniaAnhalt.

O argumento é o mesmo do serviço de inteligência, que em 2025 classificou a AfD como “comprovadamente extremista de direita”, por defender uma concepção étnica de povo incompatível com a Constituição alemã. Os críticos respondem que um processo desses levaria anos e daria à AfD o papel que ela mais gosta de encenar, o de vítima.

SINAL VERDE. Há uma terceira via, que decorre do próprio diagnóstico de Benner: deixar a AfD governar um Estado e expor sua incapacidade. O partido defende um nacionalismo de slogans, mais definido pelo que rejeita do que pelo que propõe.

Um episódio quase cômico ilustra a aposta. Em 2021, Tino Chrupalla, hoje copresidente do partido, defendia em um programa infantil da TV pública que as escolas ensinassem mais canções populares e poesia clássica alemã. O repórter mirim quis saber, então, qual era seu poema alemão favorito. Chrupalla hesitou, disse que precisaria pensar e admitiu que nenhum lhe vinha à cabeça. Instado a citar ao menos um poeta, apontou Heinrich Heine, de origem judaica, exilado em Paris e cujos livros os nazistas queimaram em 1933.

Deixar governar foi, é verdade, o erro que a Alemanha cometeu nos anos 1930. Em 1930, juristas do governo da Prússia recomendaram por escrito a proibição do partido nazista. O chanceler Heinrich Brüning preferiu enfrentá-lo politicamente, temendo alimentar seu vitimismo, e menos de três anos depois Hitler chegava ao poder.

A comparação tem limites óbvios. Um Estado não é o país inteiro, e uma AfD obrigada a administrar escolas, hospitais e orçamentos deixaria de ser um partido de protesto para virar um governo cobrado por resultados, ofício bem menos glamouroso do que denunciar o sistema. Nenhuma das três saídas é isenta de risco. O que a eleição de ontem mostrou é que a atual estratégia de simplesmente isolar o partido deixou de ser uma opção. 

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