segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Uso militar da IA exige atenção de todo o planeta

Por O Globo

Mortes causadas por drone autônomo na Ucrânia expõem dilemas similares aos trazidos pela bomba atômica

É provável que o dia 6 de julho de 2026 entre para a História como o primeiro registro de morte provocada por inteligência artificial (IA) numa guerra. Naquele dia, um drone russo controlado desceu sobre a cidade de Zaporíjia, no sudeste da Ucrânia, em direção a um posto de gasolina, explodiu num muro, e seus estilhaços mataram três pessoas. Peritos concluíram que o drone estava programado para voar até o local e escolheu explodir perto do provável alvo: um tanque de combustível. Não devido a erro, mas porque decidiu fazer aquilo, sem qualquer controle humano. Foi guiado por IA.

Foi o primeiro caso documentado com morte de civis por drone do tipo, de acordo com análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. A perícia foi confirmada pelo resgate, dentre os destroços, de um pequeno processador da Nvidia, principal fornecedora de chips para IA. O drone foi considerado arma autônoma.

O uso crescente de IA com fins militares põe a comunidade internacional diante de dilemas similares aos enfrentados depois do lançamento das primeiras bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki na Segunda Guerra. Não pelo poder destrutivo — afinal, os artefatos nucleares americanos deixaram perto de 200 mil mortos. Mas pelo poder que a IA concede a atores com menor sofisticação técnica e científica e pelo impacto da nova realidade na estratégia das forças militares. Depois da bomba atômica, o mundo teve de se debruçar sobre a necessidade de estabelecer regras e tratados para evitar uma hecatombe nuclear. O mesmo caminho deverá ser seguido no que diz respeito ao uso da IA na guerra.

A História já registra o uso de sistemas da Anthropic na operação de captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, por tropas especiais que lá desceram de helicópteros à noite. Uma operação que, além da ajuda do Claude, contou com assessoria da Palantir Technologies, empresa parceira da Anthropic especializada no processamento e análise de grandes volumes de dados. O próprio CEO da Anthropic, Dario Amodei, despertou para a questão e passou a se pronunciar em público sobre os dilemas éticos trazidos pelo uso bélico da IA. Ele se recusou a autorizar o Pentágono a usar sua IA em armas autônomas ou na vigilância da população. Os contratos da Anthropic foram substituídos por outros da OpenAI, e os dilemas persistem.

Nos últimos meses, vários peritos em ética e segurança pediram demissão de empresas líderes em IA, revelou, em artigo na Foreign Policy, Christopher David LaRoche, da Universidade Central Europeia e do americano Bard College. “Não são os primeiros, nem provavelmente serão os últimos”, afirmou. Ele compara a situação atual à debandada que sucedeu ao Projeto Manhattan, quando vários artífices da bomba atômica se converteram em pacifistas e militantes antinucleares.

Ainda que possa parecer remota a possibilidade de a IA representar perigo comparável ao das armas nucleares ou ao de patógenos criados em laboratórios, LaRoche entende que o mundo depende de comunidades que trabalhem numa espécie de “sacerdócio” no monitoramento da tecnologia, para evitar que decisões distantes do escrutínio público ponham a humanidade em risco. A energia nuclear permitiu grandes avanços, mas o uso bélico do átomo instaurou no planeta um medo até hoje não debelado. Oxalá o caminho da IA seja menos conturbado.

Austrália inova ao taxar plataforma que não remunerar o jornalismo

Por O Globo

Brasil deve acompanhar com atenção regulação no país, pioneira em medidas para disciplinar meio digital

A Austrália acaba de instituir um novo mecanismo para que as plataformas digitais não deixem de contribuir para a sustentação do jornalismo profissional. Aprovado pelo Congresso, o Incentivo à Negociação de Notícias cria uma taxa de 2,5% sobre o faturamento publicitário de plataformas como Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp), Google, TikTok e LinkedIn (Microsoft). A taxação pode ser menor se a plataforma fechar acordos de remuneração com pelo menos oito veículos de imprensa. Também foi estabelecido um programa de subsídios a pequenas empresas e startups jornalísticas.

As novas regras foram criadas diante da resistência das plataformas digitais a cumprir o Código de Negociação de Mídia Jornalística, de 2021. A legislação estabeleceu que elas devem negociar acordos de remuneração com veículos de comunicação profissionais. No início houve acordos estimados em R$ 730 milhões por ano, segundo o site de notícias TNW. Mas em 2024 a Meta decidiu não renovar os seus, argumentando que em suas redes sociais não havia procura por notícias. O desdobramento foi a nova lei, com base noutro argumento, irrefutável: independentemente de usar conteúdos jornalísticos, a Meta compete no mesmo mercado publicitário que as empresas jornalísticas, essenciais para a informação da sociedade e a saúde da democracia.

Se as plataformas digitais fecharem acordos justos, os benefícios para os veículos de imprensa chegarão a algo entre 200 milhões e 250 milhões de dólares australianos anuais, calcula Daniel Mulino, secretário-assistente do Tesouro da Austrália. Caso não cheguem a entendimentos, terão de pagar com a nova taxa entre 350 milhões e 400 milhões de dólares australianos. É forte, portanto, o incentivo a que se entendam com as empresas jornalísticas. Para estimular acordos pulverizados com diversos veículos, a lei estabelece que nenhum pode ultrapassar 25% do total devido pela plataforma. As novas regras determinam que contratos com grandes empresas compensam, no abatimento da taxa, proporcionalmente menos do que com veículos de pequeno e médio porte.

Não é a primeira vez que a Austrália inova na legislação para disciplinar as plataformas digitais. Em 2015, o país criou o Comissariado de Segurança Digital ou On Line (eSafety Commissioner), agência reguladora independente destinada a reprimir a circulação de conteúdos criminosos nas redes. Em 2021, foi pioneira ao aprovar uma lei sobre segurança on-line para proteger menores de 16 anos. Em dezembro, fixou a idade mínima de 16 anos para registro em redes sociais, regra que as plataformas precisam seguir à risca, sob risco de multas pesadas. A aplicação das normas é fiscalizada pela agência reguladora, com poderes para recomendar ou mesmo determinar a alteração de algoritmos, assim como a criação de outros mecanismos de proteção aos menores. As experiências da Austrália na supervisão do universo digital são inspiradoras e devem ser acompanhadas com atenção pelo Brasil.

Um Orçamento irrealista para o início do próximo governo

Por Folha de S. Paulo

Projeto prevê superávit com estimativas excessivamente otimistas, sem antecipar ajustes nas despesas

Esgotamento financeiro de empresas e famílias reforça ceticismo e aponta para atividade mais fraca do que a imaginada na peça orçamentária

Recém-apresentado, o projeto de Orçamento da União para 2027, o primeiro do próximo governo, prevê superávit efetivo de R$ 18,6 bilhões, sem incluir despesas com juros. Se confirmado, será o primeiro saldo positivo desde 2013, fora o registrado em 2022 sob condições excepcionais. As ressalvas, porém, são muitas.

O problema principal é o otimismo das projeções que lastreiam a peça, como tem sido hábito neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Para uma despesa primária (não financeira) de R$ 2,83 trilhões, espera-se receita de R$ 2,849 trilhões, ou 19,3% do Produto Interno Bruto. A cifra esperada é um recorde histórico —nos últimos anos, mesmo com alta de impostos, a receita não tem chegado a 18,5% do PIB.

Calcula-se, ademais, um crescimento econômico de 2,46%, muito acima das previsões do setor privado coletadas pelo Banco Central, que rondam 1,5%. Com essa estimativa mais conservadora, a arrecadação seria ao menos R$ 16 bilhões menor.

O esgotamento financeiro de empresas e famílias, com níveis históricos de endividamento, reforça o ceticismo. A inadimplência sobe nos balanços bancários. Programas de crédito subsidiado têm adesão aquém do volume anunciado, sinal de que o limite de alavancagem ou se aproxima ou já foi atingido. Tudo aponta para atividade mais fraca do que a imaginada no Orçamento.

Outro pilar frágil são os ganhos projetados com a reforma tributária. Estima-se que impostos e contribuições incidentes sobre o consumo renderão 5,1% do PIB, acima dos cerca de 4,6% observados recentemente.

O critério legal de transição para o novo sistema explica o salto, mas há incertezas sobre a base de coleta, sobre regimes especiais e sobre o ritmo de adaptação das empresas. Além disso, as alíquotas da CBS e do Imposto Seletivo ainda serão fixadas pelo Senado após cálculos do Ministério da Fazenda e validação do Tribunal de Contas da União (TCU) em outubro.

Há uma pequena boa notícia, relativa ao acionamento de gatilhos de contenção de gastos fixados nas regras fiscais —como limites para reajustes salariais e benefícios tributários, além de ajuste no cálculo da despesa mínima em saúde. Com isso, acredita-se, devem ser economizados cerca de R$ 20 bilhões em 2027.

Mesmo assim, permanece a percepção de que está subestimado o crescimento de gastos obrigatórios, como benefícios previdenciários e assistenciais vinculados ao salário mínimo.

Se a peça não traz surpresas com novas despesas, tampouco antecipa um ajuste à altura do necessário para conter a escalada da dívida pública, hoje equivalente a alarmantes 82,5% do PIB —com alta de 10,8 pontos percentuais neste mandato e sem perspectiva de alteração da tendência.

Na ausência de mudanças, os juros se manterão em patamares capazes de agravar a crise no crédito e elevar o risco de recessão.

Direita e esquerda premiam o corporativismo policial

Por Folha de S. Paulo

Ao permitir que PMs e bombeiros se aposentem mais cedo, projeto de lei desconsidera efeito orçamentário

Há potencial impacto numa Previdência já pressionada pelo envelhecimento da população, o que exige debate sobre uma nova reforma

A cautela com o gasto público não tem sido prioridade do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do Congresso. Em ano de eleições, essa irresponsabilidade fiscal serve ainda mais a interesses políticos.

Não surpreende, portanto, que uma proposta que alia o desmazelo com dinheiro do contribuinte ao corporativismo em segurança pública tenha angariado amplo apoio, à direita e à esquerda, na Câmara dos Deputados.

Na última terça-feira (1º), a Casa aprovou de forma simbólica (sem contagem nominal dos votos) um projeto de lei que reduz o tempo mínimo de atividade de natureza militar exigido para a aposentadoria de policiais militares e bombeiros.

Embora seja apresentada como medida meramente regulamentar, ela facilita que agentes possam se aposentar mais cedo, sobretudo aqueles que acumularam vários anos de contribuição antes de entrar na corporação.

Segundo a legislação vigente, são necessários 35 anos de serviço, sendo 30 destes no setor militar, para aposentadoria integral, sem diferenciação por sexo.

O texto, que seguirá para o Senado, mantém o tempo total para homens e reduz o das mulheres para 32 anos. Ademais, diminui o tempo do trabalho efetivamente militar para 25 anos e 22 anos, respectivamente, e eleva de 5 para 10 anos o teto de tempo de serviço civil que as categorias podem somar para se aposentar.

Assim, um homem que atuou por 10 anos numa empresa privada antes de integrar a PM poderá, pela nova regra proposta, se aposentar após 25 anos de serviço policial, em vez de 30 anos, segundo a norma em vigor.

A relatoria afirma que o projeto não implica aumento de despesas. Mas, se o Estado começa a pagar benefícios a esses servidores antes do que pagaria pela regra atual, por óbvio, eleva-se o número esperado de anos durante os quais cada beneficiário permanecerá recebendo proventos.

Se for necessário manter o efetivo nas ruas, outro agente terá de ser contratado. O efeito fiscal vem do fato de que o pagamento do inativo começa mais cedo e pode coexistir por mais tempo com o salário de seu substituto.

Há, portanto, potencial impacto numa Previdência já pressionada pelo envelhecimento da população —o que exige debate sobre uma nova reforma.

Trata-se de um projeto de lei populista que carece de análise rigorosa de seus efeitos nos orçamentos e em nada contribui para o incremento da segurança pública, num país com altas taxas de crimes violentos e sob expansão do poder das facções.

Cronicamente mendaz

Por O Estado de S. Paulo

Já se perdeu a conta de quantas vezes Flávio Bolsonaro mentiu a respeito do dinheiro que recebeu de Daniel Vorcaro supostamente para financiar um filme sobre o pai

Mais uma vez, o candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, foi pego na mentira a respeito do dinheiro que o banqueiro Daniel Vorcaro deu supostamente para bancar o filme sobre o pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador havia declarado que os repasses de Vorcaro cessaram em maio de 2025, mas a revista piauí revelou que o banqueiro enviou mais US$ 1,666 milhão em setembro daquele ano para o Havengate Development Fund, o fundo americano que administrava o dinheiro do filme Dark Horse, conforme relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Há ainda mensagens que indicam outro pagamento em outubro.

Já se perdeu a conta de quantas vezes o candidato declara algo sobre esse assunto e é obrigado a se desdizer quando surgem evidências de que ele não falou a verdade. Definitivamente, não é o comportamento que se espera de um postulante à Presidência da República, que por definição deve ser honesto. Pode até ser que haja eleitores para os quais isso não importa, e as pesquisas de intenção de voto mostram que talvez eles sejam muitos, mas idealmente não se pode esperar que o governo do País seja entregue a alguém que é cronicamente incapaz de dizer a verdade. Nisso, aliás, puxou ao pai, que mentiu a mais não poder para chegar à Presidência e, depois, para governar. Deu no que deu.

Desde que sua relação com Vorcaro veio a público, Flávio não esclarece os fatos espontaneamente. Tem seguido um rito: nega enquanto pode e só admite o que uma nova prova o obriga a reconhecer.

Para piorar, o senador insiste em dizer que se tratava de “dinheiro privado” para “um filme privado”. Ora, chamar o dinheiro de Daniel Vorcaro de “privado” é uma falácia. Há cada vez mais indícios de que o caixa do Banco Master, de Vorcaro, era abastecido também por dinheiro descontado de aposentados em empréstimos que, segundo as investigações, eles nem sabiam que haviam contratado. Ou seja, estavam sendo roubados. Há, ainda, recursos de regimes de previdência de Estados e municípios e bilhões obtidos com a venda de carteiras suspeitas ao Banco de Brasília (BRB), um banco público.

O imperador Vespasiano dizia que pecunia non olet, isto é, que dinheiro não tem cheiro, razão pela qual, para efeitos tributários, pouco importa de onde ele veio. Flávio Bolsonaro espera que a mesma lógica sirva para justificar seus negócios com o banqueiro que protagonizou o maior golpe da história do sistema financeiro nacional. Mas o dinheiro de Vorcaro tinha cheiro, sim, e era muito ruim: foi fruto de fraude generalizada, que inclui dinheiro afanado de aposentados. Se Flávio Bolsonaro, na condição de candidato a presidente, acha que ninguém tem nada com isso porque o dinheiro de Vorcaro é supostamente “privado” e que não há nada de errado em se relacionar financeiramente com um criminoso, a quem tratou afetuosamente como “irmão”, está obviamente enganado.

Por isso, a história da dinheirama que Daniel Vorcaro despejou generosamente a título de financiar o projeto cinematográfico da família Bolsonaro ainda está muito longe de ser uma “página virada”, como deseja Flávio – sobretudo porque pairam no ar as suspeitas de que o dinheiro serviu não apenas para bancar o tal filme mequetrefe, mas também para sustentar a dolce vita do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e para ser usado na campanha eleitoral deste ano, de forma obviamente irregular.

Tudo isso está sendo investigado pela Polícia Federal e, mais dia, menos dia, será esclarecido. Até lá, presume-se que Flávio Bolsonaro se manterá agarrado à palavra mágica “privado” para tentar encerrar o assunto e, ao mesmo tempo, continuará terceirizando responsabilidades, como faz quando atribui à produtora do filme a obrigação de prestar contas. Ora, foi ele quem pediu o dinheiro a Vorcaro, foi ele que cobrou os pagamentos e, portanto, é ele quem deve explicações.

Desinformação se combate sem censura

Por O Estado de S. Paulo

Finlândia e Taiwan mostram como democracias podem enfrentar as maiores máquinas de desinformação do mundo, fortalecendo cidadãos e instituições, sem um árbitro estatal da verdade

Em uma sala de aula finlandesa, os alunos examinam quem produziu uma mensagem, quais provas a sustentam, que emoção procura despertar e onde termina a informação e começa a propaganda. Perto da Rússia, que há décadas usa a mentira como arma, essa formação integra a defesa nacional. Taiwan, sob pressão informacional permanente da China, também prepara a sociedade para reagir, em vez de entregar a uma autoridade estatal o poder de decidir o que todos podem dizer.

Como mostrou reportagem no Estadão, a Finlândia incorporou a alfabetização midiática ao currículo. Bibliotecas e organizações de mídia ampliam esse trabalho por meio de orientação, materiais educativos e iniciativas em parceria com escolas. Em Taiwan, comunidades de tecnologia cívica e verificadores independentes usam dados públicos para esclarecer fraudes e contextualizar alegações. Nada disso eliminou a desinformação. O mérito está em distribuir pela sociedade os recursos para reconhecê-la e contestá-la.

Essa dispersão oferece uma vantagem que nenhum selo oficial pode reproduzir. Governos erram, omitem e mentem; jornalistas e checadores também falham. Num sistema aberto, a versão oficial pode ser confrontada, a checagem pode ser revista e novas provas podem alterar o juízo público. A resposta ganha legitimidade porque permanece contestável. A liberdade de expressão cumpre, portanto, uma função prática: conserva os meios pelos quais uma sociedade corrige seus próprios erros.

Seria ingênuo supor que o livre debate baste contra operações de potências e agentes hostis. A falsidade custa pouco; verificá-la exige tempo, e a primeira versão costuma fixar o debate. Campanhas sofisticadas misturam fatos e meias-verdades, difundidos por perfis falsos ou redes coordenadas. É difícil medir seus efeitos: alcance não equivale a persuasão, e a intenção de interferir não prova que uma eleição tenha sido alterada. O alarme não autoriza certezas convenientes.

Há, ainda assim, amplo campo para a ação estatal. Democracias podem proteger sistemas eleitorais e redes públicas, além de investigar financiamento clandestino e operações que ocultem sua origem. Cabe ainda identificar quem financia a publicidade política e abrir dados que permitam verificar alegações oficiais. A autoridade então age sobre condutas verificáveis, sob controle judicial. Classificar oficialmente manifestações como “desinformação”, porém, obriga o poder público a arbitrar conteúdos que misturam erros, opiniões, exageros e fatos sujeitos a interpretação.

Democracias consolidadas avançam nessa direção perigosa. A censura contemporânea raramente assume forma explícita. Categorias vagas, multas altas e responsabilidade jurídica incerta induzem as plataformas a remover tudo o que possa expô-las a sanções. Como manter uma publicação duvidosa traz risco e suprimi-la quase nunca gera custo equivalente, as empresas bloqueiam preventivamente até manifestações lícitas. A decisão parece privada; o incentivo que a produziu veio do Estado. A regulação europeia já oferece sinais dessa tendência.

O Brasil deveria prestar atenção. O Supremo Tribunal Federal recentemente rasurou a proteção estabelecida pelo Marco Civil, ampliando o incentivo à remoção preventiva. Ao mesmo tempo, categorias abertas e ordens opacas reduzem as salvaguardas do debate público, sobretudo quando a mesma autoridade investiga uma manifestação, determina sua retirada e pune os responsáveis. Tais instrumentos são defendidos em nome de ameaças reais, porém continuarão disponíveis a autoridades futuras. Convém julgá-los pelo uso que lhes daria um governo sem escrúpulos, e não pelas intenções alegadas por quem hoje os maneja.

Finlândia e Taiwan escolheram um trabalho menos vistoso. Formar cidadãos, abrir dados e conquistar confiança por meio de instituições transparentes levam anos e não exibem o poder imediato de uma ordem de remoção. Em compensação, criam defesas que nenhum governante controla sozinho. O Estado democrático precisa perseguir agentes clandestinos e condutas ilegais, sem monopolizar o julgamento da verdade política. Uma sociedade acostumada a buscar provas pode resistir à propaganda estrangeira e também à mentira de seus próprios agentes políticos. Aquela que aprende a esperar o veredicto oficial estará desarmada diante de ambos.

A recalcitrância do TST

Por O Estado de S. Paulo

Tribunal trabalhista é alvo de uma avalanche de queixas por descumprir precedentes do STF

O Supremo Tribunal Federal (STF) virou uma espécie de balcão de reclamações contra as decisões da Justiça do Trabalho. E o Tribunal Superior do Trabalho (TST), a mais alta corte do ramo laboral do Poder Judiciário, é quem encabeça o ranking de queixas por descumprimento de precedentes – ou seja, decisões vinculantes – da Corte Constitucional do País.

De acordo com dados do painel estatístico Corte Aberta, do STF, o número de reclamações contra sentenças de instâncias inferiores bateu recorde em 2025. Foram apresentadas mais de 14 mil queixas, superando o montante de habeas corpus, talvez o mais importante remédio constitucional, haja vista que é o instrumento que busca garantir um dos mais sagrados direitos, o de ir e vir.

As reclamações contra as decisões da Justiça do Trabalho e do TST têm empurrado, ano a ano, esses números para cima. Em 2025, foram 5,8 mil queixas em Direito do Trabalho, sendo nada menos do que 1,5 mil contra sentenças do TST. Não à toa, o ramo assumiu a dianteira do ranking por três anos seguidos, sem dar sinais de arrefecimento.

Na prática, isso quer dizer que uma das partes em processos que tramitam em Varas do Trabalho, Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs) e TST se sentiu tão lesada com uma decisão proferida que não lhe restou alternativa senão ir diretamente ao STF para que um direito seu fosse preservado ou restituído.

Não raro nesses processos são discutidos temas sensíveis já pacificados, como a terceirização irrestrita, ou ainda pendentes de julgamento no Supremo, como a pejotização e a uberização. E, como quase metade dos pedidos nas reclamações contra sentenças trabalhistas é julgada procedente, a recalcitrância da Justiça do Trabalho e, pior, do TST na violação de precedentes da Corte Constitucional e, por consequência, dos direitos dos jurisdicionados é bastante preocupante.

De um lado, os advogados, quase sempre de empresas, precisam acionar o Supremo para fazer valer para seus clientes o que já foi decidido pela própria Corte, mobilizando recursos para reivindicar algo que não deveria nem ser questionado em juízo. De outro, diante da afronta à sua autoridade, o STF precisa mobilizar sua máquina judiciária para decidir mais uma vez sobre algo que já foi decidido anteriormente pelo colegiado.

Os ministros do STF têm reclamado – com razão. Relator do processo que discute a pejotização, Gilmar Mendes escreveu numa de suas decisões que “a controvérsia sobre esses temas tem gerado um aumento expressivo do volume de processos que têm chegado ao STF”, em razão, em suas palavras, da “reiterada recusa da Justiça trabalhista em aplicar a orientação” da Suprema Corte.

Não é de hoje que a Justiça do Trabalho tem sido rebelde: as críticas e a resistência à reforma trabalhista de 2017 já davam sinais de que tempos difíceis estavam por vir. E nada disso é abonador para o Brasil, principalmente por abalar a segurança jurídica, degenerar o ambiente de negócios e prejudicar a geração de empregos. Todos perdem: os empresários, dinheiro, e o STF, tempo.

Meio ambiente precisa ser pauta de candidatos

Por O Povo (CE)

O meio ambiente entrou de vez na pauta das campanhas eleitorais, seja de forma transversal ou com mais peso e espaço em propostas e propagandas. Neste ano, o pleito ocorre em meio a um possível El Niño de efeitos fortes, com concentração de chuvas intensas e previsão de altas temperaturas.

Tanto para o exercício no Legislativo como no Executivo, a compreensão sobre a importância de leis e planos de governo que visem a sustentabilidade é imprescindível. Relatório recente da ONU projeta, além de um aquecimento global entre 1,8ºC e 3ºC nas próximas décadas, o aumento entre 9 cm e 13 cm do nível dos oceanos no planeta até o fim do século.

Com mais de 90% de seu território localizado no semiárido brasileiro, as questões ambientais no Ceará ganham ainda mais urgência, afetando diversos segmentos sociais: economia, mobilidade, educação e segurança, em seu sentido mais amplo. A gestão dos bens naturais precisa impactar todas as dimensões do cotidiano para que o desenvolvimento seja sustentável, concreto e efetivo.

As questões que precisam ser discutidas por deputados, senadores e governadores são as mais diversas: arborização, saneamento, manejo de resíduos sólidos, preservação de áreas de proteção ambiental, concessão de licenciamentos, disputas socioambientais, demarcação de terras, combate ao desmatamento e degradação, além da regulação sobre o uso de agrotóxicos, avanço de mineradoras e empreendimentos de alto consumo de recursos naturais.

Porém, ao falar sobre crise climática e meio ambiente, os candidatos ainda mostram dificuldade em aliar os temas à prática política. Aparentam ter pouco conhecimento sobre legislação, acordos de cooperação, conflitos territoriais, energia limpa e outras demandas urgentes e ignoradas durante muito tempo.

Em um país que ainda é urbanisticamente vulnerável às chuvas, onde grande parte da população ainda não destina seus dejetos de forma sustentável e que não impõe prioridade para ações de reflorestamento, é imprescindível pensar em políticas públicas e leis que mitiguem o que já está posto.

O espaço dado a esses temas deve ser levado a sério, antes e depois da eleição.

O grito que ainda ecoa

Por Correio Braziliense

É hora de devolver o 7 de setembro ao que sempre deveria ter sido: um dia de orgulho pelo caminho percorrido e de reflexão honesta sobre o caminho que falta

Dom Pedro I proclamou a independência às margens do riacho do Ipiranga em 7 de setembro de 1822. O grito foi real, mas a ruptura, parcial. O Brasil independente nasceu endividado com a Inglaterra, que reconheceu a nova nação em troca de vantagens comerciais. Nasceu com uma economia voltada para fora, dependente da exportação de commodities e do humor dos mercados europeus. Nasceu, em suma, formalmente livre e estruturalmente dependente, uma tensão que atravessou dois séculos e ainda não foi inteiramente resolvida.

Hoje, essa tensão se apresenta com nova roupagem. O que analistas apelidaram de Doutrina Donroe é a versão Trump dessa velha ambição hemisférica - fusão do nome Donald com Monroe, numa referência ao presidente americano James Monroe, que em 1823 proclamou o direito dos Estados Unidos de intervir nos assuntos do continente. Mais agressiva, mais transacional e menos disfarçada do que seus antecessores, ela trata a América Latina como quintal estratégico a ser gerido conforme os interesses de Washington: afastando a China, controlando recursos naturais e cobrando alinhamento político como contrapartida de qualquer relação comercial.

O Brasil, maior economia do hemisfério sul, não está imune a essa pressão. As tarifas impostas sobre produtos brasileiros, a interferência no debate eleitoral, as tentativas de instrumentalizar a política externa americana para fins domésticos compõem um quadro que o país precisa reconhecer pelo que é: uma disputa pela autonomia que o grito de Dom Pedro I prometeu e que segue incompleta.

Essa autonomia, vale dizer, não significa isolamento. Significa o direito de conduzir as próprias eleições sem interferência externa, de gerir as próprias riquezas naturais segundo os interesses do povo brasileiro, de firmar parcerias comerciais com quem melhor servir ao desenvolvimento nacional. Significa ter instituições que funcionem. Imperfeitas, sim, como toda criação humana, mas aperfeiçoando-se pelos seus próprios mecanismos, sem tutela de fora. É esse o projeto que o 7 de Setembro deveria celebrar.

O Brasil já provou que é capaz. Defendeu eleições sob pressão, preservou instituições que resistiram a tentativas de ruptura, protegeu recursos estratégicos que potências externas cobiçavam. Fez isso com todas as suas contradições, sua desigualdade, sua burocracia pesada e sua política barulhenta. Um país imperfeito que, quando precisou, encontrou em si mesmo a força para não se dobrar. É dessa força, e não de tutelas externas, nem de alinhamentos automáticos a qualquer potência, que vai nascer o Brasil que ainda estamos construindo. A autonomia não é um ponto de chegada. É a condição para que qualquer chegada valha a pena.

É hora, portanto, de devolver o 7 de Setembro ao que sempre deveria ter sido: um dia de orgulho pelo caminho percorrido e de reflexão honesta sobre o caminho que falta. Um dia para todos os brasileiros, independentemente de partido, de ideologia, de origem. Um dia para olhar para o país que temos, com suas contradições, suas belezas, suas feridas, e perguntar, sem medo da resposta, que país queremos ser.

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