segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Obra de Roberto Schwarz, 88, concebe a literatura brasileira como espelho de sociedade desigual, por Edu Teruki Otsuka*

Folha de S. Paulo

Crítico investigou a impressão de desajuste entre as ideias modernas, importadas da Europa, e a realidade do país

A partir de Machado de Assis, Schwarz reconstituiu o processo de formação do romance brasileiro

Ler extensivamente a obra de Roberto Schwarz é o melhor caminho para compreender os argumentos dos seus estudos mais conhecidos porque possibilita perceber as relações internas que dão ao conjunto dos seus textos ensaísticos um caráter muito articulado, sugerindo um ponto de vista crítico de alcance sistemático.

Os seus textos não fazem concessões ao leitor e, ao mesmo tempo que buscam o máximo de clareza e precisão, exigem dele disposição para acompanhar argumentos complexos, juntar conhecimentos de áreas que a especialização separa e se preparar para raciocínios contraintuitivos, sempre em luta contra o senso comum e em atrito com opiniões estabelecidas.

Só assim é possível apreciar a beleza dos movimentos do pensamento e da composição altamente refletida, o senso de humor e as sutilezas de inflexão que compõem a sua prosa de ensaio —um estilo literário construído e adaptado em cada caso para fazer frente à complexidade dos objetos de que trata, visando ao seu significado estético e político.

É verdade que "A Sereia e o Desconfiado" (1965), o seu primeiro livro de ensaios, traz uma prosa mais emaranhada, com andamento próprio na construção meticulosa da análise, que buscava conjugar a leitura textual cerrada e a avaliação de posições ideológicas e explorava problemas então pouco tratados de maneira consequente pela crítica literária brasileira.

Algo daquele estilo de análise intrincadamente minuciosa ainda ressoa nos capítulos sobre os primeiros romances de Machado de Assis em "Ao Vencedor as Batatas" (1977), mas é plausível dizer que, como o próprio Schwarz já sugeriu, a conquista da dicção própria na prosa ensaística já havia dado um salto significativo a partir de "Cultura e Política, 1964-69" (1970), recolhido em "O Pai de Família" (1978).

Esse estudo, que se tornaria um clássico da crítica sobre a cultura dos primeiros anos da ditadura e o acirramento da repressão a partir de 1968, foi escrito no exílio francês praticamente sem bibliografia e apoiado, sobretudo, na experiência de quem havia acompanhado com atenção a movimentação artística e os conflitos do período. Daí a construção, ao mesmo tempo, muito livre e muito unificada, em que o vaivém entre a análise da produção cultural e o comentário sobre a política desenha um quadro que, muito mais que a mera visão panorâmica, configura um diagnóstico de época.

Ao longo da década de 1980, Schwarz publicou estudos que comporiam os capítulos de "Um Mestre na Periferia do Capitalismo" (1990), em que a sua prosa, mais do que amadurecida, flui plena, com agilidade, rigor e clareza e sem abdicar dos andamentos complexos.

A escrita de Schwarz é autoconsciente ao extremo. Poucos críticos expõem tão abertamente os próprios pressupostos, apresentando a posição teórica e o ponto de vista político em que se situam. Acresce que ele, muitas vezes, comenta os modos como procede no desenvolvimento das análises, o que indica o quanto parece estar ciente da dificuldade das questões que discute.

Tomando os livros no conjunto, se percebe a tenacidade com que ele volta aos seus temas centrais, desdobrando argumentos, adicionando aspectos novos e correlacionando assuntos sempre em busca da visão mais clara e interligada dos problemas.

Além disso, ao reunir os seus escritos, Schwarz não deixa de lado debates e entrevistas, incluindo-os nos seus livros ao lado dos ensaios, tendência que se intensifica em "Seja como For" (2019), cobrindo um arco que vai de 1976 a 2019. Forma discursiva especialmente acessível, a entrevista possibilita explicar pontos centrais dos argumentos, abordar questões adjacentes que não encontram lugar na construção dos textos publicados ou possíveis desdobramentos implícitos e adicionar outra camada de autocomentário.

Os estudos sobre Machado de Assis concentram o núcleo da obra crítica e teórica de Schwarz. "As Ideias Fora do Lugar", ensaio de 1972 que introduz "Ao Vencedor as Batatas", suscitou debates que se estenderam por décadas, e o seu título colou-se de tal modo ao nome do autor que parecia impossível dissociá-los. É sabido que a circulação do texto e a sua repercussão envolveram incompreensões e mal-entendidos, atribuindo-se ao autor a posição —no fundo, um clichê conservador— que ele procurava discutir e explicar historicamente.

"As Ideias Fora do Lugar", de fato, lançava a base da investigação do que mais tarde Schwarz chamaria de matéria brasileira, especificando as relações fundadas no escravismo-clientelismo e os efeitos de deslocamento de ideologias. No centro dessa matéria, se formou um peculiar amálgama funcional de práticas senhoriais e atitudes liberais-burguesas em um quadro de dominação social e clivagem entre proprietários, dependentes e escravizados —um resultado do dinamismo assimétrico de relações sociais e econômicas modernas em plano mundial.

O ensaio buscava fornecer uma explicação materialista para o persistente sentimento, na vida intelectual brasileira, de inautenticidade da cultura, dado que as ideias artísticas, políticas, científicas etc. tomadas do estrangeiro pareciam desajustadas quando transpostas para a realidade local. Sem deixar de carregar um grão de verdade, esse sentimento conduziria intelectuais e artistas, ao longo do século 19 e boa parte do 20, seja a posições nacionalistas ilusórias, seja à adesão direta, também ilusória, aos modelos prestigiosos da cultura ocidental, configurando, assim, o movimento pendular entre localismo e cosmopolitismo que Antonio Candido, mestre de Schwarz, havia examinado.

Enquanto estudos clássicos de interpretação do país assinalavam certa incompatibilidade entre as formas modernas europeias e a realidade material brasileira, Schwarz operava uma torção ao enfatizar a compatibilização dos incompatíveis —o escravismo-clientelismo e o ideário liberal-burguês—, que configurava uma forma social estabilizada e normalizada no Brasil oitocentista.

Mais tarde, em "Nacional por Subtração" (1986), Schwarz retoma o assunto explicitando o fundamento do problema: a impressão de inautenticidade das formas e ideias modernas não se deve à importação, que é inevitável, mas à estrutura social iníqua do país, que segrega a maioria da população e, assim, "confere à cultura uma posição insustentável, contraditória com o seu autoconceito".

Isso sem esquecer que a própria reprodução das desigualdades internas, bem como o funcionamento desajustado do liberalismo na sociedade escravista regida pelo favor, eram efeitos da inserção do país na ordem moderna do capitalismo mundial e, portanto, um resultado local da história mundial.

Mas, em "Ao Vencedor as Batatas", aquele esquema de caracterização histórica da sociedade brasileira vinha a propósito da indagação sobre o problema da importação de uma forma literária intrinsecamente moderna, o romance, que havia se constituído na França e no Reino Unido internalizando na sua estrutura a nascente experiência burguesa.

Por isso, antes de abordar os romances machadianos, Schwarz apresenta uma análise de "Senhora", de José de Alencar. Mais precisamente, ao analisar o romance urbano do principal predecessor de Machado, o crítico expõe o processo por meio do qual se definiu um campo de problemas próprio à literatura brasileira que exigia soluções formais novas, isto é, que não estavam previamente codificadas na teoria ou na história literária disponíveis.

Como ele escreve, o capítulo sobre Alencar "retoma integralmente, agora no plano da história do romance, o esquema de 'As ideias fora do lugar'". Toda a força do argumento está na abordagem da história do romance brasileiro por um ângulo inédito, buscando apreender a lógica da configuração de uma forma capaz de dar conta da complexidade própria da matéria brasileira.

Ao transpor a forma do romance romântico-realista para a ambiência local, Alencar produziu uma obra cindida em que a linha central do enredo não tem apoio nas relações sociais efetivas que aparecem nas franjas da narrativa nem interage com elas, implicando uma dualidade de princípios. O resultado é inconsistente, mas torna visível a inadequação da forma do romance realista sério para figurar as relações sociais vigentes na sociedade brasileira.

Com isso, o romance europeu, enquanto forma desajustada, se revela como parte constitutiva dos materiais com que o escritor brasileiro precisa lidar. Nos termos de Schwarz, "nossa matéria alcança densidade suficiente só quando inclui, no próprio plano dos conteúdos, a falência da forma europeia".

Os romances do primeiro Machado parecem querer contornar aquela inconsistência formal e evitam transpor diretamente os grandes temas modernos do individualismo burguês, recuando para a atmosfera abafada das relações entre dependentes e proprietários, ainda enquadrada nos limites das convenções românticas e moralizantes. O resultado foi literária e ideologicamente conformista porque, sem questionar os fundamentos da ordem, parecia ter no horizonte a autorreforma dos proprietários com o intuito de "civilizar" as relações paternalistas, atenuando o seu fundo autoritário.

A despeito disso, os romances da primeira fase esquadrinham progressivamente os meandros das relações de favor nas suas situações e nos seus termos, o que constitui um ganho na identificação das potencialidades formais daquela matéria local, mas paga o preço de perder o contato com as questões do mundo contemporâneo.

Dessa forma, não se tratava de apenas evitar o desajuste do modelo europeu, mas de elaborar um novo arranjo em que o dado local das relações práticas fornecesse um princípio ordenador capaz de comportar igualmente as formas e as ideias modernas, agora conferindo-lhes o seu lugar verdadeiro no quadro das relações entre os proprietários e as camadas subalternas.

Assim é que, na análise de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", apresentada em "Um Mestre na Periferia do Capitalismo", o princípio formal da volubilidade, fundado na transposição da lógica que rege a prática social, possibilita introduzir em larga escala a referência à civilização moderna, mas subordinada ao arbítrio do defunto-autor.

Não cabe retomar o argumento aqui. Basta dizer que a solução formal machadiana resolvia impasses acumulados na tradição local do romance e apresentava como resultado substantivo a crítica contundente à estrutura de dominação da sociedade brasileira e à ordem capitalista-burguesa que a determinava.

Note-se que esse passo da análise, em que a experiência brasileira é sopesada no quadro da história mundial, constituiu um movimento crítico decisivo e tinha um predecessor na "Dialética da Malandragem", de Antonio Candido. Nesse ensaio, o crítico especulava sobre o sentido da sociabilidade popular formalizada em "Memórias de um Sargento de Milícias" e a considerava no quadro das opções históricas na atualidade do mundo, conjugando a experiência brasileira com "a apreciação da cena internacional e a interpretação da sociedade contemporânea", como Schwarz escreveu em "Que Horas São?".

Assim, ao buscar compreender a obra madura de Machado, Schwarz foi levado a reconstituir o processo de formação do romance brasileiro. O que importa sublinhar é que a continuidade que articula a tradição literária não se define apenas pela soma de soluções acertadas, mas envolve principalmente a constituição de um campo de problemas específicos à criação literária, que permanecem irresolvidos e estão inscritos nos materiais com que lidam os escritores ao se articularem à tradição. Esse campo de problemas está diretamente relacionado à "matéria brasileira".

No estudo sobre o diário de Helena Morley, Schwarz propõe uma reflexão comparativa entre "Minha Vida de Menina" e "Dom Casmurro", tendo como ponto de ancoragem o universo comum que subjaz à configuração da prosa em cada obra: "Os dois livros expõem em chaves diversas, mas comparáveis, o conjunto peculiar de posições e relacionamentos que se poderiam chamar de matéria brasileira, cujos desdobramentos até hoje não deixaram de nos dizer respeito".

O fundamento da comparação está na potência estruturante dessa matéria para a criação artística, sendo por isso capaz de pautar tanto "uma obra artística máxima como organizar o diário despretensioso de uma adolescente".

Comentando o próprio estudo, Schwarz explica que a matéria brasileira se refere ao sistema de relações sociais produzido pela história do país (e do mundo) e aos pontos de vista implicados nele. Essas relações não são tomadas em abstrato, mas estão inscritas na linguagem, nas tradições culturais, nos temas e nas situações que os escritores elaboram.

Nos termos do crítico: "A história do mundo moderno cristalizou no Brasil uma problemática, para mal e para bem, mais para mal, que teleguiou consciente ou inconscientemente os trabalhos decisivos de nossa cultura, que a procuram explorar e solucionar de uma forma ou outra". Sendo também um "resultado consistente da própria evolução do mundo moderno", a matéria brasileira, nas suas diversas elaborações, "serve de espelho ora desconfortável, ora grotesco, ora utópico" ao dinamismo geral da sociedade contemporânea.

Assim, Schwarz sugere que a permanência dos elementos que compõem a matéria brasileira corresponde a um traço estrutural da sociedade e, por isso mesmo, tem ampla abrangência na vida cultural do país, decerto com modificações históricas. E propõe a hipótese de que os "momentos fortes" da inteligência brasileira, incluindo as "invenções literárias mais originais", responderam de forma também estrutural aos problemas armados pelo sistema de relações brasileiro.

Seria possível então imaginar uma investigação crítica que procurasse especificar as diferentes maneiras pelas quais as obras formalizaram essa matéria, com resultados e significados ainda por descobrir, porque o interesse de estudos nessa direção estaria não só em indicar o fundo comum, mas principalmente na diferenciação das soluções artísticas particulares.

De fato, em diversas ocasiões, Schwarz sugere um programa de estudos para a crítica literária a partir dessa proposição geral. Nesse sentido, ele observa: "As soluções literárias que Machado inventou para dar uma visão apropriada e profunda da sociedade contemporânea, através da sociedade brasileira, foram reinventadas de maneira diferente por quase todos os nossos grandes escritores modernos". Essas reinvenções ou diferentes soluções artísticas, sugere o crítico, tendem a formar sistema.

Schwarz indica que, tendo esse quadro em mente, se poderia, por exemplo, estudar a rispidez de Graciliano Ramos, a meditação sobre a preguiça em Mário de Andrade, a utopia modernista em Oswald de Andrade e o profetismo de Glauber Rocha, além de outros escritores como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Cada estudo particular seria um trabalho de fôlego, e o conjunto possibilitaria uma visão sistemática da literatura brasileira que escaparia aos modelos convencionais de historiografia literária e ultrapassaria o confinamento aos limites nacionais porque o desdobramento necessário do tipo de análise proposto implica especificar o sentido artístico, ideológico e político de cada solução formal e avaliá-la no quadro do dinamismo do mundo contemporâneo.

Não é preciso dizer que a maioria dos estudos de Schwarz sobre obras específicas, mesmo quando escritos por motivações circunstanciais, envolve uma reflexão sobre o modo como a obra se situa em face das relações sociais depositadas nos materiais mobilizados. Alguns dos ensaios remetem àquele programa de pesquisa sugerido, ainda que de maneira indicativa. É o caso do conhecido estudo sobre a poesia de Oswald de Andrade, "A Carroça, o Bonde e o Poeta Modernista", em "Que Horas São?", e das considerações sobre a feição social da prosa de Mário de Andrade ao final de "Duas Meninas".

Outros textos, mesmo sem aludir diretamente à estrutura comum ligada à matéria brasileira, articulam as obras aos problemas postos por ela em conjunturas específicas. É o que se vê em "Martinha versus Lucrécia", no ensaio "Um Minimalismo Enorme", sobre "Elefante", de Francisco Alvim, ou em "Cetim Laranja sobre Fundo Escuro", sobre "Leite Derramado", de Chico Buarque —obras que, à sua maneira, reelaboram aspectos do problema pelo ângulo da contemporaneidade.

Também em "Um Percurso de Nosso Tempo", sobre "Verdade Tropical", de Caetano Veloso, são as relações brasileiras e os pontos de vista artísticos e políticos implicados na maneira como o autor repassa a sua trajetória que estão no radar do crítico.

Pode-se dizer algo semelhante dos estudos sobre "Estorvo", de Chico Buarque, e "Cidade de Deus", de Paulo Lins (em "Sequências Brasileiras"), e do comentário sobre o filme "Cronicamente Inviável", de Sergio Bianchi (em "Agregados Antigos e Modernos"), em que as considerações sobre as mutações contemporâneas da matéria tradicional capturam tendências que abrem novas perspectivas, mais sombrias, sobre o futuro.

De outro modo, o posfácio a "O Nome do Bispo" (em "Que Horas São?") faz o romance de Zulmira Ribeiro Tavares entrar em correspondência, pela sátira a certo tipo social paulista, com as novelas de Paulo Emílio Sales Gomes, "Três Mulheres de Três PPPês" (em "O Pai de Família"), livro que Schwarz voltou a comentar depois em "Forma Excêntrica de Luta de Classes", alinhando-o a Machado de Assis, Oswald de Andrade e Graciliano Ramos pelo uso do narrador em primeira pessoa reinventado para fins de "auto-exposição de classe".

Além disso, Schwarz disseminou nos seus textos inúmeras observações pontuais sobre autores brasileiros. Comentando o significado artístico e político da prosa de Mário de Andrade, por exemplo, Schwarz assinala que ele havia forjado "um instrumento literário poderoso e estranho, profundamente ancorado nas realidades brasileiras, bem como na atualidade, capaz como quase nenhum outro de formular a experiência do país", possibilitando reunir diferentes registros e transitar entre eles.

São observações lançadas pelo crítico e deixadas sem desenvolvimento, mas que, reunidas, organizam um conjunto de intuições críticas que poderia servir como ponto de apoio para desenvolvimentos analíticos.

Penso que alguns pesquisadores das gerações seguintes, que se formaram com Schwarz como referência intelectual, produziram trabalhos que, de certo modo, se afinavam com aquele programa, mesmo que não o fizessem deliberadamente ou de todo autoconsciente. Correndo o risco de ser injusto, tenho a impressão de que os resultados foram desiguais e, embora vários estudos tenham contribuído para avançar no conhecimento sobre diversos escritores e obras, os trabalhos não somaram, no sentido de possibilitar articular aquela visão de conjunto que estava no horizonte do programa schwarziano.

Nos últimos anos, os focos de interesse dos estudos literários se alteraram substantivamente, por vezes ampliando o escopo de questões —gênero, raça e outros—, por vezes incidindo sobre temas que acompanham as inflexões contemporâneas das pautas políticas e do engajamento.

A propósito, vale lembrar que Schwarz, no seu discurso ao receber o título de professor emérito da Unicamp em 2022, fez considerações sobre algumas dessas mudanças: "Os 'cultural studies' dos anos 1980, em sua versão norte-americana, concentraram-se nas questões de raça, gênero e classe, tomadas como categorias gerais. Voltava-se à utilização documentária da ficção, ou seja, a um tipo de conteudismo crasso, indiferente à especificação estética. Ao passo que a perspectiva pós-moderna, cancelando o dinamismo da história e a dimensão da realidade exterior à linguagem, restabelece o jogo vazio e a-histórico das abstrações universalistas, indiferentes às formações históricas singulares".

No mesmo discurso, Schwarz lembra que a crítica deveria se situar com independência e se colocar a serviço das obras e não dos autores, pois "a figuração literária é um modo sui generis de pensar e investigar o mundo, com valor de conhecimento próprio —diferente de ciência e teoria, mas real ainda assim. A aventura crítica beneficia-se do acerto dessas formalizações, cuja verdade lhe cabe desentranhar, dizendo por sua vez algo novo".

Nesse quadro, seria de interesse reatar com os escritos de Roberto Schwarz, não apenas para repetir o que ele analisa e teoriza, mas para enfrentar as questões irresolvidas da crítica e da literatura que a sua obra tão decisivamente possibilita identificar.

*Professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH-USP

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