Folha de S. Paulo
AfD encontrou eleitorado desencantado com
promessas
Partido tem programa politicamente indigno e
até perigoso
A história não se repete. Às vezes, nem
sequer rima. Mas é tentador olhar para 2026 com os olhos postos em 1933. No estado da
Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, a direita radical conseguiu uma vitória
histórica.
Sem maioria absoluta, ainda não está claro se
conseguirá governar. Mas foram incontáveis os artigos de jornal que pintaram em
Ulrich Siegmund, o candidato da AfD – Alternativa para a Alemanha –, o célebre
bigodinho do cabo austríaco. Antes de mais nada: o programa da AfD é
politicamente indigno e, em suas simpatias russófilas, até perigoso.
Mas serei o único a achar estranho que a direita radical se imponha nas urnas porque, entre outras razões, também soube apelar à nostalgia pela antiga RDA comunista? Se dúvidas houvesse, Ulrich Siegmund fez questão de aparecer na campanha com sua moto Simson – um pedaço de "Ostalgie" sobre duas rodas, só superado pelas quatro do inevitável Trabant, o carro emblemático do antigo regime. As causas do sucesso da AfD talvez estejam mais próximas de nós do que as cervejarias de Munique de um século atrás.
Os cientistas políticos Ivan Krastev e
Stephen Holmes ajudam a explicar esse sucesso com um ensaio de 2019 que ainda
hoje provoca urticária em certas cabeças liberais. O título é "The Light
that Failed: A Reckoning" e começa com o "Pigmaleão", de Bernard
Shaw: tal como na peça, o Ocidente acreditava que transformaria os países
pós-comunistas em sociedades "normais" e bem-sucedidas, capazes de
aprender as instituições, os hábitos e os valores das democracias liberais.
O que aconteceu, argumentam os autores, está
mais próximo de Frankenstein: a criatura descobre-se uma cópia imperfeita,
olhada com soberba pelo modelo que deveria imitar e, por fim, ressentida com o
próprio criador. Na Hungria, na Polônia e no leste da Alemanha, houve uma
adesão voluntária e esperançosa ao modelo liberal-democrático.
O Ocidente significava liberdade,
prosperidade, estado de direito – numa palavra, normalidade. Mas havia também
uma ansiedade escondida nesse imperativo de imitação.
Como observou o sociólogo húngaro Elemér
Hankiss, citado no livro, "as pessoas perceberam de repente que nos anos
seguintes ficaria decidido quem seria rico e quem seria pobre; quem teria poder
e quem não teria; quem seria marginalizado e quem estaria no centro." O
problema é que ao novo modelo político foram associadas expectativas que
nenhuma democracia podia garantir.
A democracia serve para mudar os governantes
sem derramamento de sangue, como lembrava Karl Popper, não para garantir o
paraíso na Terra, como os regimes totalitários do século 20. Era inevitável que
parte dessas expectativas acabasse frustrada – e dois momentos aceleraram esse
desencanto.
O primeiro aconteceu em 2008: a crise
financeira destruiu a confiança de que o Ocidente sabia
necessariamente o que estava fazendo. Como continuar a pedir ao Leste Europeu
que seguisse a cartilha dos "especialistas" quando os próprios
especialistas tinham levado as economias para o abismo?Para os líderes
populistas que ganharam força nos anos seguintes, o liberalismo tinha falhado
tal como o comunismo tinha falhado para as gerações anteriores.
Era preciso encontrar alternativas. O segundo
golpe veio em 2015, quando Angela Merkel abriu as portas da Alemanha – e da
Europa – a milhões de refugiados e migrantes. No Leste Europeu, o impacto
político foi particularmente traumático porque esse movimento colidiu com um
medo que lhe era anterior: o da emigração em massa.
Desde a queda dos regimes comunistas que
milhões de jovens qualificados tinham partido para o Ocidente, em busca de
vidas melhores. Os números apresentados por Krastev e Holmes são
impressionantes: entre 1989 e 2017, a Letônia perdeu 27% de sua população; a
Lituânia, 22,5%; a Bulgária, quase 21%; o leste da Alemanha, 14%.
O colapso demográfico do Leste Europeu passou
então a ser assombrado pelo fantasma da "substituição cultural",
mesmo em países onde a percentagem de população imigrante era residual, como a
Hungria. O medo, o verdadeiro medo, era outro.
Foi assim que o otimismo de 1989, o ano da
queda do Muro de Berlim, acabou por desembocar, décadas depois, numa crise do
liberalismo no Leste Europeu. E foi assim que partidos radicais, como a AfD,
encontraram um eleitorado desencantado com as promessas do "fim da
história", suspirando por um retorno imaginário a um passado imaginário
feito de segurança, previsibilidade e pertencimento. Moral da história?É
preciso corrigir as datas.
A AfD não venceu na Saxônia-Anhalt porque a
Alemanha voltou a 1933. Venceu porque uma parte do leste alemão deixou de
acreditar em 1989.

Um comentário:
Excelente colunista. Merece mais postagens.
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