Folha de S. Paulo
Reconhecer o impacto do racismo na vida de
milhões não é prioridade no país mais negro fora da África
Apenas 5 dos 13 candidatos à Presidência têm
propostas para enfrentar racismo e desigualdades étnico-raciais
Na semana da independência, me pego pensando no quanto a nação brasileira é historicamente negligente com seu povo. A ruptura com Portugal, eternizada pelo simbólico grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, foi mais um dos inúmeros momentos em que somente anseios da elite (formada por latifundiários e burocratas que dependiam da mão de obra escravizada) foram contemplados.
A despeito da participação de pretos e
mestiços em movimentos
e revoltas pró-independência, os negros (que naquela época já
compunham o maior contingente populacional do país e reivindicavam melhores
condições de vida e igualdade de direitos) foram excluídos do sonho de
liberdade.
A colônia "se libertou" de
Portugal, mas os negros não se libertaram da escravização, abolida 66 anos
depois da independência. Como afirmou o historiador Luiz Felipe de Alencastro,
somos um país que nasceu apostando no futuro da escravização. Os efeitos dessa
aposta são notórios e impactam brutalmente milhões de brasileiros.
Em menos de um mês, teremos
eleições gerais. A mim, chama atenção que apenas 5 dos 13 candidatos
à Presidência da República apresentem nos programas de governo propostas para
enfrentar o racismo institucionalizado nestas terras. Entendo que isso diz
muito sobre o nosso projeto de nação.
Apesar de todos os
índices que relacionam a falta de oportunidades e a
precarização das condições de vida dos brasileiros à questão étnico-racial,
reconhecer o impacto do racismo no cotidiano e enfrentar o problema ainda não
são prioridades no país que concentra a maior população negra fora da África.
Em contraponto, há alguns dias o Comitê
das Nações Unidas Contra
a Discriminação Racial (CERD) recomendou que os Estados adotem medidas de
reparação pelos danos provocados pelo tráfico transatlântico de africanos, pela
escravização e por seus efeitos persistentes sobre pessoas de ascendência
africana.
Me pergunto até quando o Brasil vai apoiar o
pacto de uma elite que insiste em ignorar os direitos da população negra?

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