Correio Braziliense
No plenário da mais alta Corte, os ministros
deixavam de divergir apenas sobre questões jurídicas para questionar
reciprocamente suas intenções, sua honra e sua conduta
“Eles julgaram a seu modo/ E se acumpliciaram nesse trabalho.” Esses versos de
As Mil e Uma Noites (Brasiliense) parecem escritos para descrever a situação
dramática em que o Supremo Tribunal Federal tenta decidir se autoriza a
investigação do ministro Alexandre de Moraes por suas relações com Daniel
Vorcaro, dono do Banco Master. A sessão plenária da Corte ontem terminou sem
uma decisão, depois de expor, diante do país, a profundidade da divisão entre
os ministros e a sua incapacidade momentânea de arbitrar os próprios conflitos.
Esse clássico da literatura universal é uma coletânea de histórias e contos
populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua
árabe a partir do século IX. No mundo moderno ocidental, a obra foi traduzida
para o francês em 1704 pelo orientalista Antoine Galland, transformando-se num
clássico da literatura mundial. Em todas as versões, os contos são narrados por
Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua
primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las
na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias
maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei.
Havia tensão desde o começo. Flávio Dino peitou Fachin, presidente da Corte, ao
manter aparte sem seu prévio consentimento. Alexandre de Moraes classificou
como fraudulenta a investigação realizada sob a relatoria de André Mendonça.
Disse possuir testemunhas de que houve direcionamento para atingi-lo. Mendonça
respondeu de imediato: “Mentira”. Gilmar Mendes acusou o mesmo Mendonça de
conduzir o caso com finalidade político-eleitoral, fazer insinuações contra o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, e agir de maneira incompatível com
a ética judicial.
Impasse continua
Moraes e Luiz Fux trocaram acusações reciprocas de envolvimento com Vorcaro. A
discussão ressurgiu no fim da sessão. Gilmar voltou a acusar Mendonça de
“leviandade” e “desfaçatez”. Quando o colega tentou responder, ouviu: “Pode
chorar, pode chorar”. Mendonça reagiu: “Não estou chorando, não. Aqui não tem
choro, não. Respeite!”. O plenário da mais alta Corte do país assumia a
atmosfera de uma disputa pessoal na qual ministros deixavam de divergir apenas
sobre questões jurídicas para questionar reciprocamente suas intenções, sua
honra e sua conduta.
Foi nesse momento que Flávio Dino retirou o voto que acabara de proferir pela
unificação dos processos contra Moraes e Mendonça, e pediu vista. Afirmou que
não havia mais condições para prosseguir, diante da deterioração do ambiente, e
cobrou de Fachin providências para conter os confrontos. Com o pedido, o voto
de Dino deixou de integrar o placar, que ficou em quatro a três pela manutenção
dos casos separados: Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia de um lado;
Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Moraes do outro. Nunes Marques e Dias Toffoli
se declararam impedidos.
Antes disso, Dino havia defendido que os processos fossem analisados
conjuntamente, com novo relator e tratamento uniforme para todas as autoridades
mencionadas nas investigações do Master. Seu argumento era o de que fatos
sobrepostos não poderiam receber soluções contraditórias. Ao pedir vista,
porém, transformou o voto jurídico num gesto político e institucional: era
preciso interromper a narrativa antes que o seu final agravasse ainda mais a
crise. Dino suspendeu o desfecho. A interrupção serviu para evitar que o
Supremo continuasse a se digladiar em público. O pedido de vista não resolveu o
conflito, apenas adiou.
O diálogo que se seguiu ampliou a sensação de descontrole. Ao fazer referência
às mensagens encontradas no celular de Vorcaro, Dino sugeriu que outros
ministros também teriam explicações a prestar. Mensagem comigo não tem”,
afirmou Luiz Fux.
“Tem, ministro Fux. Tem”, respondeu Dino. Nunca vi esse sujeito na minha vida.
Só se Vossa Excelência está se baseando nesses inquéritos que surgem do nada”,
retrucou Fux. “Vossa Excelência terá que esclarecer isso num momento próprio.
Infelizmente”, concluiu Dino.
Cármen Lúcia resumiu o constrangimento. Pediu desculpas ao povo brasileiro e
reconheceu: “O país espera de nós uma tranquilidade que nós não conseguimos
dar”. Foi a frase mais grave da sessão porque não partiu de um adversário do
Supremo, mas de uma de suas integrantes mais antigas. A ministra reconheceu que
a Corte encarregada de proporcionar segurança jurídica estava produzindo
insegurança institucional. “Poderiam ter permanecido justos e puros / mas
abusaram do poder / e o mundo por seu turno os oprimiu”, a atualidade dos
versos de As Mil e Uma Noites está na advertência de que a legitimidade do
poder depende da maneira como é exercido.
Quem julga os outros precisa aceitar padrões de transparência, impessoalidade e
responsabilidade ainda mais rigorosos quando os fatos alcançam seus próprios
integrantes. A sessão mostrou que a crise do Supremo já não decorre somente das
mensagens de Vorcaro, das diligências da Polícia Federal ou das relações
mantidas pelo banqueiro. Resulta, também, do acúmulo de decisões monocráticas,
inquéritos de contornos indefinidos, conflitos de competência e suspeitas de
uso político das prerrogativas judiciais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário