Folha de S. Paulo
Discussão põe em xeque autoridade e
procedimentos adotados por Fachin
Sessão amplia incertezas em torno de investigação sobre conduta de Moraes
Na véspera do julgamento realizado pelo
Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira (15), o ministro Edson Fachin anunciou
o roteiro que seguiria na condução dos trabalhos como se estivesse se
preparando para mais uma sessão rotineira da corte que preside. Ele se enganou.
A confusão começou 45 minutos após o início da sessão, assim que ele concluiu a leitura do seu relatório. O ministro Flávio Dino pediu a palavra. Fachin sugeriu que esperasse um pouco e pediu que ministros que se julgassem impedidos de votar se manifestassem. Dois o fizeram.
Dias Toffoli estava no meio das suas
explicações quando Dino o interrompeu. Fachin o lembrou de esperar a vez,
invocando sua autoridade como presidente do STF. Dino disse que
ele não tinha poderes para impedi-lo de falar e seguiu em frente. Fachin
protestou, mas logo silenciou.
Nas horas que se seguiram, o roteiro proposto
por Fachin foi posto de lado, e os aliados do ministro Alexandre
de Moraes transformaram a sessão convocada para analisar as relações
dele com o banqueiro Daniel Vorcaro num debate sobre a atuação do presidente do
Supremo.
Em vez de discutir as mensagens encontradas
pela Polícia
Federal no telefone de Vorcaro e o contrato milionário do Banco Master com
o escritório de advocacia da mulher de Moraes, os ministros passaram o dia
discutindo os procedimentos de Fachin para gerir a crise no tribunal.
Metade do plenário se alinhou com ele para
analisar primeiro o caso de Moraes e depois as suspeitas sobre seu
acusador, André
Mendonça. A outra metade ficou com a alternativa sugerida por Gilmar Mendes,
para julgar num único processo todos os citados no caso Master.
A votação se aproximava do fim quando Dino,
que já tinha votado para apoiar a proposta de
Gilmar, pediu vistas para analisar melhor o caso. Luiz Fux e Cármen Lúcia,
que ainda não tinham votado, seguiram Fachin e Mendonça, mas a manobra de Dino
deixou tudo indefinido.
Embora o placar pareça resolvido, fica tudo
em suspenso até que Dino devolva o processo ao plenário. Pelas regras do tribunal,
ele tem pelo menos 90 dias para fazê-lo. Votos poderão ser revistos quando ele
o fizer. Haverá novos debates para decidir a quem o empate favorecerá.
Fachin marcou para o próximo dia 23 outro
julgamento, em que deverão ser analisadas as suspeitas sobre a atuação de
Mendonça, acusado por Moraes e seus aliados de agir com parcialidade, com o
objetivo de tumultuar o processo eleitoral a semanas do primeiro turno.
Se o julgamento de Mendonça for mantido, terá
tudo para se transformar em palco para outro confronto entre as duas alas em
que o tribunal se dividiu. Se for adiado, para esperar que Dino devolva o caso
de Moraes ao plenário, ou por outra razão qualquer, o tumulto só aumentará.
Vazamentos de mensagens com potencial para
incriminar outros integrantes do STF, incluindo Fux e Kassio Nunes Marques, que
se declarou impedido e se retirou da sessão desta terça, começaram a se
multiplicar antes do julgamento e certamente se repetirão nos próximos dias.
Ignorando os apelos de Fachin, que pediu
serenidade ao abrir a sessão, a maioria preferiu tratar os adversários com
ofensas e ironias. Interrupções se tornaram frequentes depois que Fachin
reconheceu que Dino podia falar sem sua licença se outro colega lhe desse a
palavra.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet,
que defende a nulidade do relatório da PF que expôs as mensagens de Vorcaro e
Moraes, onde o próprio Gonet também é citado, só rompeu o silêncio durante a
sessão para trocar gentilezas com Mendonça, que o isentou de suspeitas.
Uma das questões que o julgamento desta terça
deixou em aberto é o destino do parecer do procurador. Para Moraes, o plenário
da corte não pode abrir investigação sobre as suspeitas que pesam contra ele
sem que exista um pedido do Ministério
Público Federal.
Único integrante do tribunal a pedir
desculpas pelo espetáculo oferecido à arquibancada, Cármen Lúcia sugeriu que
poderá devolver o parecer de Gonet com recomendação para que analise melhor os
indícios reunidos pelo relatório da PF em vez de engavetá-lo sumariamente.

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