O Estado de S. Paulo
Tudo o que o Brasil não precisava era de 2 juízes ‘heróis’ para energizar torcidas políticas
A crise do Supremo Tribunal Federal é fruto
de um mal: a existência de ministros que tudo podem e, como deuses intocáveis,
acreditam estar acima das leis. Esses juízes supremos não surgiram do nada.
Eles foram gerados pela carência da população brasileira por heróis e cresceram
(em poder, em número, em ousadia nas decisões monocráticas) porque as
instituições, entre as quais o próprio STF, falharam em contê-los.
Decepcionados com os políticos, os brasileiros passaram a olhar para certos juízes como salvadores imbuídos da missão de varrer a corrupção do País ou de fazer justiça social. A tentação de encontrar tais heróis nos tribunais se nutre do desejo de acreditar que só um homem forte, sem precisar prestar contas a ninguém, pode consertar as coisas e fazer “o que precisa ser feito”.
Essa falácia populista encantou tanto a
direita quanto a esquerda. Pois nunca houve unanimidade na escolha dos heróis
togados. Essa figura se materializou em Joaquim Barbosa, o ministro que relatou
o processo do mensalão, julgado em 2012, e, posteriormente, em instâncias mais
baixas, em Sergio Moro, o juiz da Lava Jato enaltecido em manifestações de rua.
No governo de Jair Bolsonaro, o processo de
heroificação foi transferido para os magistrados que bateram de frente com o
presidente em temas como a gestão da pandemia, o sistema eleitoral e o
equilíbrio entre os poderes. Um ministro em especial foi alçado ao topo do
panteão dos togados: Alexandre de Moraes, aclamado nas redes sociais como
“guardião da democracia” ou “herói da República”, e incentivado pelo imperativo
“vai, Xandão” a cada decisão – ainda que, por vezes, os meios utilizados por
ele fossem duvidosos.
Muitos abusos foram cometidos pelo STF em
nome da defesa da democracia, principalmente, no âmbito do inquérito das Fake
News, aberto de ofício para, supostamente, proteger a corte. O mesmo inquérito
que, na semana passada, Moraes tentou utilizar para se vingar do ministro André
Mendonça, que escancarou suas relações potencialmente criminosas com o
banqueiro Daniel Vorcaro.
Eis que, como resultado desse embate, começou
a construção de um novo ídolo togado, mas pelo lado oposto: o próprio Mendonça.
Tudo o que o Brasil não precisava era de dois juízes “heróis” para energizar
torcidas políticas adversárias no momento em que se deveria estar discutindo
propostas de governo para o próximo mandato presidencial. Mas a situação está
dada e a melhor alternativa é investigar até o fim. As máscaras dos heróis têm
que cair.

2 comentários:
É isso mesmo! O povo caiu na real e consegue ver claramente onde esses indivíduos querem chegar. Estamos cheios dessa tapeação barata.
Perfeito.
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