Folha de S. Paulo
Sessão desta semana figura entre os eventos
mais minúsculos da corte
Não são necessários um soldado e um cabo para
paralisar o STF; o ego de seus ministros é suficiente
Quem diria que no curto período de quatro
anos o Supremo passaria de guardião do Estado democrático de Direito para seu
algoz.
A sessão da última terça (15) entrará nos anais da corte como um dos piores momentos de toda a sua história. De toda ela. E olha que a disputa não é fácil. STF já validou a deportação de Olga Benário para a Alemanha nazista, já mostrou deferência em tempos de exceção, como no Estado Novo, já deteriorou direitos trabalhistas, já proibiu entrevistas políticas à imprensa, já referendou anistia e por aí vai.
Mesmo assim, a sessão desta semana figura
entre os eventos mais minúsculos do STF. A régua do que é comportamento
aceitável na mais alta corte está tão baixa que afeta a nossa capacidade de
discernir o certo do errado, o jurídico da politicagem, o ego da instituição.
Para começar, bate-boca entre
ministros em rede nacional transforma o STF em um botequim. Seria o mínimo
esperar que as regras de procedimento fossem acordadas pelos ministros antes do
início da sessão, em benefício da instituição, para que a sociedade a visse
menos como uma amálgama de ministros individuais e sim como uma corte.
Não faz sentido jurídico nenhum que André
Mendonça e Alexandre de
Moraes votem em qualquer questão, procedimental ou de mérito,
direta ou indiretamente conectada com eles mesmos. Aceitar menos que isso, por
escusos argumentos, significa normalizar que um ministro do Supremo está acima
do bem e do mal.
Paulo Gonet não
deveria ter participado da sessão, mas enviado um representante se entendesse
que a instituição é maior do que ele; não foi o caso. Tanto a seletividade com
que Mendonça regeu as investigações sob sua batuta à la Sergio Moro quanto as
relações pouco republicanas de Moraes levaram o STF ao fundo do poço em
décadas.
Na eleição há um único lado suspeito de ter
pegado dinheiro de banqueiro golpista, e é paradoxalmente esse mesmo lado o
único beneficiado pelo caos.
O STF nos ensinou que para paralisá-lo nem
são necessários um soldado e um cabo; basta o ego de seus ministros.

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