quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O grande feiticeiro, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Era autêntica a exasperação de Gilmar Mendes quando chamou de “aprendizes de feiticeiros” seus adversários dentro do STF. Em relação aos quais exibe o pior dos desprezos por parte de alguém que se julga o Grande Feiticeiro, que é o desprezo intelectual. Como assim malandrinhos com ficha corrida, crentes analfabetos em direito e fraquinhos sem pulso se atrevem nas artes da feitiçaria política?

O problema para o Mago é quando acaba virando um mágico de festinha infantil. Com truques previsíveis que funcionam apenas em ambientes restritos.

Foi o que aconteceu na sessão extraordinária marcada para decidir o que fazer diante dos fatos que a Polícia Federal extraiu do celular de um vigarista implicando o colega de quadrunvirato Alexandre de Moraes.

O grupo viu como única chance de sobrevivência impedir qualquer decisão. Conseguiu o que queria a um preço altíssimo, que é o agravamento da crise de legitimidade do STF, a fusão dessa crise com uma eleição que o quarteto tenta, mas não consegue até aqui decidir a favor de Lula e, o mais grave de tudo, contribui para um cenário no qual surgem palavras como anomia e desobediência civil.

A crise do Supremo indica algo muito além de qualquer feitiçaria de gabinete em Brasília. Estamos provavelmente vivendo o fim de um ciclo longo na política brasileira, iniciado no período entre redemocratização e a proclamação da Constituição de 1988. A implosão do STF é, ao mesmo tempo, causa e consequência de um Executivo débil, um Congresso atomizado e de baixíssima representatividade e com os três Poderes brigando entre si por migalhas de orçamento.

Ao contrário do que aconteceu na saída do regime militar, não há lideranças capazes de algo remotamente parecido com o significado da palavra espanhola “concertación”, que é conduzir forças opostas a algum tipo de convergência pelo bem comum. Começa pelo próprio Supremo, onde o que havia de “feiticeiros” acabou num grupo de ilusionistas que se acham capazes de convencer o público a não ver o que está vendo.

Ou seja, o STF passou a simbolizar o que as pessoas enxergam de errado, como apropriação das instituições de Estado em benefício próprio, incluindo corrupção. Nem se trata de julgar se essa percepção é “justa” ou “correta”, mas de constatar um fato político e de raízes sociais de enorme alcance e gravidade, pois não há convívio social possível sem um Judiciário forte e com legitimidade.

Fim de um ciclo histórico significa assumir que alguma outra coisa virá, mas não se consegue vislumbrar neste momento exatamente o quê. Nem se a sucessão de um modelo evidentemente esgotado por algum outro ocorrerá de forma ordeira. Exatamente o contrário do que pretendem feiticeiros dominados pela arrogância de achar que conduzem os fatos.

 

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