O Estado de S. Paulo
Era autêntica a exasperação de Gilmar Mendes
quando chamou de “aprendizes de feiticeiros” seus adversários dentro do STF. Em
relação aos quais exibe o pior dos desprezos por parte de alguém que se julga o
Grande Feiticeiro, que é o desprezo intelectual. Como assim malandrinhos com
ficha corrida, crentes analfabetos em direito e fraquinhos sem pulso se atrevem
nas artes da feitiçaria política?
O problema para o Mago é quando acaba virando
um mágico de festinha infantil. Com truques previsíveis que funcionam apenas em
ambientes restritos.
Foi o que aconteceu na sessão extraordinária marcada para decidir o que fazer diante dos fatos que a Polícia Federal extraiu do celular de um vigarista implicando o colega de quadrunvirato Alexandre de Moraes.
O grupo viu como única chance de
sobrevivência impedir qualquer decisão. Conseguiu o que queria a um preço
altíssimo, que é o agravamento da crise de legitimidade do STF, a fusão dessa
crise com uma eleição que o quarteto tenta, mas não consegue até aqui decidir a
favor de Lula e, o mais grave de tudo, contribui para um cenário no qual surgem
palavras como anomia e desobediência civil.
A crise do Supremo indica algo muito além de
qualquer feitiçaria de gabinete em Brasília. Estamos provavelmente vivendo o
fim de um ciclo longo na política brasileira, iniciado no período entre
redemocratização e a proclamação da Constituição de 1988. A implosão do STF é,
ao mesmo tempo, causa e consequência de um Executivo débil, um Congresso
atomizado e de baixíssima representatividade e com os três Poderes brigando entre
si por migalhas de orçamento.
Ao contrário do que aconteceu na saída do
regime militar, não há lideranças capazes de algo remotamente parecido com o
significado da palavra espanhola “concertación”, que é conduzir forças opostas
a algum tipo de convergência pelo bem comum. Começa pelo próprio Supremo, onde
o que havia de “feiticeiros” acabou num grupo de ilusionistas que se acham
capazes de convencer o público a não ver o que está vendo.
Ou seja, o STF passou a simbolizar o que as
pessoas enxergam de errado, como apropriação das instituições de Estado em
benefício próprio, incluindo corrupção. Nem se trata de julgar se essa
percepção é “justa” ou “correta”, mas de constatar um fato político e de raízes
sociais de enorme alcance e gravidade, pois não há convívio social possível sem
um Judiciário forte e com legitimidade.
Fim de um ciclo histórico significa assumir
que alguma outra coisa virá, mas não se consegue vislumbrar neste momento
exatamente o quê. Nem se a sucessão de um modelo evidentemente esgotado por
algum outro ocorrerá de forma ordeira. Exatamente o contrário do que pretendem
feiticeiros dominados pela arrogância de achar que conduzem os fatos.

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