O Globo
O rastreamento do dinheiro de Vorcaro está
sendo bem sucedido. Ele agora aposta nas confusões do STF e numa troca de
governo
O que Daniel Vorcaro não esperava no tempo da
economia está virando realidade: o rastreamento do dinheiro externo tem sido
bem sucedido e estão sendo encontrados mais ativos do que ele acreditava que o
processo de liquidação conseguiria achar. O liquidante contratou empresas
especializadas em rastreamento. Foi localizado um fundo que havia recebido
fluxo de recursos através de vários intermediários, entre eles Antônio Carlos
Freixo Júnior, o mineiro. Os ativos do fundo, na ordem do bilhão, foram congelados
e serão usados como pagamento do passivo de Vorcaro. Há outros ativos sendo
rastreados.
Enquanto isso, na Casa da Justiça, a vida do ex-banqueiro, que comprava políticos e juízes, tem sido facilitada pela confusão. Se todos brigam e não se sabe sequer quem está na relatoria do Caso Master no STF, Vorcaro pode fazer o que fez sexta: pedir o relaxamento da prisão. Seus advogados aguardam o tempo certo para pedir a nulidade do processo.
No Supremo Tribunal Federal todos se acusam.
E todos têm razão. O ministro Alexandre de Moraes foi acusado pelo ministro
André Mendonça de ter recebido mensagens de Vorcaro que deveriam ser investigadas.
Mendonça tem razão. Os ministros Alexandre e Gilmar Mendes acusam André
Mendonça de ter sido seletivo, e tomado decisões com finalidades eleitorais.
Eles têm razão. O ministro Flávio Dino defendeu, junto a Gilmar Mendes, que
todos os casos de ministros de tribunais superiores e magistrados que estejam
implicados no caso Vorcaro sejam investigados. Dino tem razão. Mas ainda não se
sabe o tempo em que isso acontecerá e nesse atraso ninguém tem razão.
O que dizem os que acompanham o caso Daniel
Vorcaro desde o começo é que ele espera o tempo da política, apostando numa
mudança de governo. Estaria contando com a confusão no STF, e um resultado
eleitoral favorável, para que possa se sair melhor do que está hoje.
No processo de liquidação do banco ele não
pode contar com a mesma sorte. Seu tempo acabou. O Master não existe mais, ele
não poderá reverter o processo, como chegou a defender, usando seus braços no
Congresso, na Justiça e no Tribunal de Contas.
— O banco em si acabou, não tem o que fazer.
Mas tenho pouca dúvida de que ele está esperando um resultado eleitoral
favorável para que possa reembaralhar as cartas — me disse uma fonte que
acompanha o caso de dentro.
Houve um tempo em que Vorcaro achava que
poderia sair da prisão e reverter a liquidação. Ficaria com um banco menor, mas
como metade do passivo já havia sido pago pelo Fundo Garantidor de Crédito, ele
calculava que conseguiria retomar os negócios. Se os precatórios fossem pagos
poderia se reerguer de alguma forma.
Vorcaro demonstrou irritação recentemente ao
perceber que os ativos que tinha no exterior estavam sendo encontrados. Ele
imaginava que não existia caminho para o dinheiro. Errou. Agora alguns dos seus
laranjas têm se apresentado à Justiça americana se dizendo donos reais do
dinheiro e entrando em disputa com os liquidantes.
Os recursos encontrados no Brasil e no
exterior serão usados para pagar credores. Primeiro, a dívida trabalhista. Em
seguida será ressarcido o Fundo Garantidor de Crédito e depois os investidores
qualificados como os fundos de pensão dos servidores públicos. O processo de
liquidação teria conseguido ativos, aqui e lá fora, em torno de 60% do passivo.
Daniel Vorcaro nunca se mostra como culpado,
e sim como um perseguido. Na verdade, nas palavras de uma autoridade que eu
ouvi, ele não se apresenta como um inocente. Ele se comporta como se fosse
vítima de uma injustiça.
— Afinal, ele pagou por uma proteção que não
teve e hoje está preso.
Flávio Bolsonaro, de todos os competidores
pela cadeira de presidente do Brasil, é o único que está diretamente envolvido
no caso Master. Pediu dinheiro, foi à casa do ex-banqueiro depois que ele havia
sido preso, recebeu dinheiro, e fez a ele juras de amizade eterna.
O candidato aproveita a poeira do escândalo
que se espalhou pelo Planalto Central para fingir. Quando houve a sessão do
Supremo, aquela que nunca terminou, ele disse o seguinte: “Ninguém mais aguenta
os ministros do Lula atrapalhando a nossa democracia. Sem os ministros do Lula,
a democracia vive”. Ele é filho de Jair Bolsonaro, que tentou um golpe de
Estado, e sempre defendeu a ditadura militar. Nesta estranha campanha, Flávio
Bolsonaro diz defender a democracia.

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