sábado, 19 de setembro de 2026

A multiplicação dos Dinos, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O jurista Gilberto Morbach escreveu que, eleito Lula ou Flávio Bolsonaro, “cada um a seu modo” terminará “de destruir o tribunal e qualquer resquício de integridade e impessoalidade no sistema de Justiça”. Referia-se ao Supremo e à projeção de o próximo presidente lhe indicar quatro ministros.

A provocação, realista, implica avaliar quais serão hoje os valores que compõem o critério para a escolha. Há uma premissa: o STF como Congresso paralelo, em que o governo forma bancada para ter resolvidos os seus reveses no Parlamento do orçamento secreto. (O Parlamento

do orçamento secreto que tem em Flávio Dino, líder do governo no Supremo, o tesoureiro – aquele que abre e fecha a torneira das emendas – e o carrasco, gestor xandônico de inquéritos mantidos como espada sobre a cabeça dos políticos.)

É desolador o Brasil virar refém do fanatismo religioso, por Flávia Oliveira

O Globo

São crescentes a intolerância e o ativismo político em nome de Deus

A certa altura do segundo ato de “O Neguinho da Beija-Flor”*, biografia musical do cantor e compositor que se despediu da Marquês de Sapucaí em 2025, após meio século defendendo a mesma agremiação, um momento religioso comove. O artista, como sabemos, enfrentou um câncer no intestino em 2008. Tornou públicos diagnóstico e tratamento. No ano seguinte, recuperado, casou-se com Elaine Reis em pleno Sambódromo e, na sequência, conduziu a escola de Nilópolis por mais um desfile, de cima do carro de som, com o médico ao lado. No palco, Mãe Joana, a ialorixá narradora, comanda um ritual de candomblé pela saúde do protagonista; em seguida, duas mulheres evangélicas oram por ele; por fim, um padre católico reza.

Lula vai para o tudo ou nada, por Thaís Oyama

O Globo

Presidente pode — e vai — apertar todos os botões a seu alcance, numa eleição em que um fio de cabelo pode separar o vencedor do derrotado

Nesta eleição em que — entra pesquisa, sai pesquisa — os favoritos na corrida presidencial continuam cabeça a cabeça, dois movimentos podem romper esse equilíbrio: um tombo do desafiante Flávio Bolsonaro ou uma recuperação do incumbente Lula. O presidente apostou no segundo ao apertar o botão que Jair Bolsonaro já havia usado em 2022 — o reajuste do principal benefício social do governo, desta vez anunciado a 17 dias da eleição.

Lula, como sabem seus marqueteiros, arrisca-se a ter ganho apenas marginal com a medida, que acrescentará R$ 22,7 bilhões às despesas em 2027, a ser acomodados na marra no Orçamento, quem quer que vença. A maior parte dos beneficiários do Bolsa Família (53%) já vota no presidente. São os independentes que podem desequilibrar a balança. Mas esse segmento está concentrado na faixa que ganha entre 2 e 5 salários mínimos — fora, portanto, do alcance do benefício.

Não é pelos 20 centavos, por Eduardo Affonso

O Globo

Uma facção togada decidiu que está acima da lei, e não há uma passeata, uma greve geral, um panelaço — nada

Rio de Janeiro, agosto de 1979. Uma multidão segue rumo à Cinelândia, exigindo anistia ampla, geral e irrestrita aos perseguidos pelo regime militar. Na altura do Theatro Municipal, o estudante de arquitetura de 20 anos recebe das mãos de um desconhecido a vara que sustenta uma das pontas de uma faixa de protesto e a carrega até que o braço se canse, e ele a passe adiante. Ainda levará quase seis anos para que a ditadura acabe, mas em poucos dias os primeiros exilados começarão a chegar.

Fevereiro, Belo Horizonte, 1984. Nunca se saberá ao certo quantos estão ali, na Avenida Afonso Pena, no comício pelas Diretas Já. Funcionário do Banco do Brasil, 24 anos, ele está lá, prestes a ter sua primeira crise de pânico: é gente demais, impossível se mover — e maior que o desejo de enfim votar para presidente é o medo de morrer esmagado. Não morre, e o voto só virá cinco anos mais tarde — no candidato do Partido Comunista Brasileiro.

Previdência: eis a questão! (II), por Marcus Pestana

Já vimos aqui que o sistema previdenciário foi criado para proteger os trabalhadores que, na velhice, não pudessem mais assegurar a sua subsistência e de sua família através da renda aferida como o seu trabalho. Para suprir as despesas com benefícios previdenciários há dois caminhos: os trabalhadores ativos e as empresas pagam a conta relativa aos direitos dos aposentados e pensionistas ou se faz uma poupança individual ou coletiva, que é capitalizada ao longo do tempo para, no futuro, fazer frente aos gastos do sistema.

Brasília: nada de novo no front, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Vivemos uma guerra de trincheiras, entre gases tóxicos e artilharia

O que há em comum entre as guerras na Ucrânia e no Irã e a crise institucional de Brasília? O fato de que ninguém sabe como e quando vão terminar. Vivemos uma guerra de trincheiras na qual os soldados vão e voltam entre gases tóxicos e fogo de artilharia, como na I Guerra Mundial. Os avanços são medidos em escassos metros, mas o tiroteio é intenso.

Voltando à nossa novela, no fim de agosto a questão de Lulinha e Roberta Luchsinger dominou a pauta. Já na abertura de setembro, a suspensão do sigilo dos diálogos de Daniel Vorcaro desestabilizou uma Brasília já desestabilizada. Nem vale a pena citar rumores e boatos, já que, em tempos de crise, a verdade sempre anda escoltada por muitas mentiras, como disse certa vez Winston Churchill.

Fim de ciclo, por José Casado

Revista Veja

O Supremo perdeu o controle da crise na República rachada por dinheiro e sexo

Fim de ciclo é o que sugerem as cenas explícitas no plenário do Supremo Tribunal Federal, na última terça, 15. Foram quase cinco horas de orgia de insultos ao vivo, na televisão, em tumulto premeditado para impedir a abertura de investigação sobre o juiz Alexandre de Moraes, suspeito de relações impróprias com o antigo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que está preso por trapaças em série no mercado financeiro.

Foi, enfim, uma sessão “histórica” sobre o buraco “histórico” em que o Supremo se meteu — e que continua cavando. A manobra resultou num impasse favorável aos interesses imediatos de Moraes e aliados, os juízes Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin. O custo do “triunfo”, porém, ultrapassou expectativas. Não resolveu, só adiou o problema da investigação. E reduziu muito as chances de uma ofensiva por nulidades processuais, do tipo que fez a felicidade, principalmente monetária, de protagonistas de histórias de corrupção como as desveladas na Operação Lava-Jato.

A lei e os sentimentos, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Na crise do Judiciário, as redes sociais escorregam nas veredas do pequeno fascismo da vida cotidiana

Na ressaca de uma derrota escabrosa do meu Palmeiras, vitimado por um juiz de futebol, entendi que deveria alargar meus horizontes e assumir o risco de falar dos tormentos que afligem os magistrados incumbidos de aplicar a lei, sob os rigores da impessoalidade e independência, não obstante as pressões da mídia e dos desvariados de todos os gêneros.

Começo com Montesquieu no Espírito das Leis: “O amor da igualdade e da frugalidade é extremamente estimulado pelas próprias igualdade e frugalidade, quando se vive numa sociedade em que as leis estabeleceram uma e outra. Nas monarquias e nos Estados despóticos, ninguém aspira à igualdade; isso nem sequer passa pela cabeça de ninguém: cada qual busca a superioridade. As pessoas de condição mais baixa não desejam dela sair senão para serem senhoras das outras. O mesmo ocorre com a frugalidade: para amá-la, cumpre fruí-la. Não são os que estão corrompidos pelas delícias que amarão a vida frugal; e se isso fora natural e comum, Alcibíades não teria conquistado a admiração do universo. Tampouco amarão a frugalidade os que invejam ou admiram o luxo dos outros: pessoas que só têm diante dos olhos homens ricos ou homens miseráveis”.

Dino salva o STF, por Aldo Fornazieri

CartaCapital

O pedido de vista dá uma chance ao tribunal. Adiamento não é inação, mas construção de uma solução para a corte

A sessão do Supremo Tribunal Federal da terça-feira 15 para examinar a pertinência da abertura de uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes foi uma batalha campal entre dois grupos em guerra, da qual o principal resultado foi a depredação do STF e sua ruína. No meio dessa guerra entre dois grupos está a instituição, o poder da República que deveria ser incólume a crises, impoluto, inatacável, pois ele tem o dever de ser o guardião das leis e da Constituição e o administrador da Justiça superior e última do País.

Nas guerras políticas e militares vale quase tudo. Nelas há uma degradação da dignidade humana, há uma redução da ação à instintividade violenta, há o uso instrumental da razão e a falência da moralidade. Na guerra do STF, só a ministra Cármen Lúcia se salvou, consignando a sua tristeza, o seu desalento e o seu pedido de perdão ao povo brasileiro.

Lavajatismo no Supremo, por Maria Inês Nassif

CartaCapital

O método entra pela porta da frente, pelas mãos do ministro Edson Fachin 

O udenismo não veste bem a toga dos magistrados. O clamor popular (e o insuflado artificialmente, como na Lava Jato e, recentemente, pela Operação Compliance) não deve virar jurisprudência. A Justiça não precisa de aprovação popular, precisa ser justa. Não pode produzir atos que confrontem e colidam com o devido processo legal. É isso que um aflito ministro Flávio ­Dino tentou dizer ao plenário do Supremo Tribunal Federal, no momento em que o presidente da Corte, Edson Fachin, colocava em votação um relatório da PF, não se sabe de qual PF, trazido pelo terrivelmente bolsonarista André Mendonça, base para a abertura de um processo contra Alexandre de Moraes por improbidade administrativa.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tempos sombrios

Por CartaCapital

O STF curva-se novamente ao golpismo

Foi um dia constrangedor, e não estamos aqui a ratificar a penitência calculada de Cármen Lúcia. Desde a nomeação a uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, lá se vão 20 anos, a magistrada não decepciona, sempre enverga o mesmo figurino. Entre o aplauso e o cumprimento do dever, a opção pelo reconhecimento popular é impulso incontrolável. Após o pedido de desculpas “ao povo brasileiro” na terça-feira 15, desfecho de uma jornada deprimente, a ministra está liberada para frequentar, sem temor, a farmácia que tanto gosta de citar nas sessões plenárias. Talvez até ganhe um desconto extra. Sob o restante do País paira, no entanto, o cúmulo-nimbo. “Pior momento de erosão da imagem” do STF, afirma Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da PUC de São Paulo e colunista desta revista, na reportagem “O caldo entorna”, à página 20. “Ratificar um relatório de origem duvidosa e um ministro que julga com suas próprias regras é abrir a porta do tribunal para uma nova aventura autoritária”, alerta Maria Inês Nassif à página 17.

Opinião do dia – Montesquieu*

“Procurando instruir os homens é que poderemos praticar esta virtude geral que compreende amor de todos. O homem, este ser flexível, dobrando-se na sociedade aos pensamentos e impressões de outrem, é igualmente capaz de conhecer sua natureza própria, quando lha mostram, e de perder até o sentimento, quando lho roubam.”

*Montesquieu (1689-1755). ‘O Espírito das leis’ (1748), Prefácio, p. 28. Editora Nova Cultura, 2005 (Tradução de Fernando Henrique Cardoso e Leôncio Martins Rodrigues)

Poesia | Lição de um gato siamês, de Ferreira Gullar

 

Música | Zeca Pagodinho - Toda a hora