segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Mendonça também deve explicações

Por O Globo

E a razão para isso não tem nada a ver com o pedido para investigar Moraes

O Brasil não tem mais dúvidas de que o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado. Há contra ele mais de cinco dezenas de mensagens em que Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master, pede ajuda e conselhos. Justamente a ele, cuja mulher assinou um contrato, editado pelo próprio ministro, de R$ 130 milhões para “consultoria estratégica” diante de órgãos públicos fiscalizadores. Ainda não se sabe se Moraes é culpado, mas apenas uma investigação poderá levar a um processo judicial e, eventualmente, a julgamento. Para se defender, ele terá a seu dispor todas as garantias que nosso ordenamento jurídico prevê.

O STF em modo sobrevivência, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

O show de horrores no STF confirma nossas piores hipóteses

Não estamos apenas diante do corporativismo, mas de uma estratégia de autoproteção perante a possível composição do próximo Senado ou de cenário pior

Sobre a crise do Supremo já se disse quase tudo. Corremos o risco de apenas recapitular o recente show de horrores. É lamentável que alguns ministros tenham confirmado hipóteses a que cheguei em inúmeras colunas nos últimos anos.

Flávio Dino afirmou que vivemos "o momento mais corrupto da história do Poder Judiciário no Brasil". Gilmar Mendes, por sua vez, censurou André Mendonça por expor colegas eventualmente envolvidos em ilícitos e disparou que "até a máfia tem ética". A metáfora descreve a omertà, o pacto de silêncio e proteção existente nas organizações criminosas. Quem rompe o pacto e trai a facção sofre ameaças, ostracismo ou coisa pior.

A crise além do Supremo, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

A crise de credibilidade do STF pode cobrar seu preço em outras instituições

Suspeitas de relações impróprias entre ministros e Daniel Vorcaro precisam ser investigadas

As suspeitas de relações impróprias entre ministros do Supremo e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro precisam ser investigadas, inclusive para que se conclua, se for o caso, que não houve irregularidades. Mas, na sessão em que o STF discutiu como examinar as suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça, os ministros pareceram mais preocupados em administrar a crise do que em esclarecer as suspeitas.

Há duas semanas, escrevi aqui sobre como a crise do Supremo podia transbordar para a eleição e para o TSE. Agora, outro efeito pode aparecer no Superior Tribunal Militar (STM), que ainda precisa decidir se generais, um almirante e o ex-presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado, perderão as patentes.

Brasil, um país dividido, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Sofisticado sistema de discriminação racial separa a população em grupos e perpetua tratamento desigual de cidadãos

Até quando vamos insistir em negar que o racismo é um problema institucionalizado?

O Brasil é um país dividido. Não, eu não estou falando das próximas eleições, da polarização política, da ascensão da extrema direita ou do perfil de candidato que reputo merecedor da confiança que será expressa pelo voto dos cerca de 158 milhões de cidadãos aptos a ir às urnas em alguns dias.

Estou falando do sofisticado sistema de discriminação e preconceito racial que separa a população em grupos e perpetua o tratamento desigual dos cidadãos brasileiros. É claro que não há uma divisão formal, mas ela está presente em mecanismos institucionalizados. Só não vê quem não quer.

Defesa necessária, por Fernando Neisser* e Oscar Vilhena Vieira**

Folha de S. Paulo

Não faltam sinais de tentativas de interferência estrangeira no pleito deste ano

A efetividade de nossas estruturas jurídicas depende da mobilização de toda a sociedade

[Resumo] Evidências e ameaças de interferência externa nas eleições do Brasil indicam a articulação de uma rede que funde alinhamento ideológico transnacional, pressão diplomática e desinformação para desequilibrar a disputa e fragilizar a imagem de nossas instituições. Leis brasileiras dispõem de amplo arcabouço para enfrentar o problema, porém não são suficientes. A defesa efetiva da democracia exige o empenho concreto de partidos, autoridades e TSE.

O fantasma da interferência estrangeira em processos eleitorais deixou de ser mera teoria conspiratória ou artefato dos tempos da Guerra Fria para se tornar uma prática corrente em tempos de regressão democrática.

A ascensão de lideranças populistas com tendências autoritárias, o acirramento das disputas geopolíticas, a plataformização do debate público e, mais recentemente, os avanços no campo da inteligência artificial recolocaram a questão da defesa da soberania nacional e popular em novos termos.

A combinação deletéria entre campanhas orquestradas por algoritmos, o uso obscuro de dados pessoais, além do emprego sistemático de deepfake, contribui não apenas para desequilibrar processos eleitorais específicos, mas também para corroer a confiança dos cidadãos em suas instituições.

Muitos são os exemplos de incidentes reais. Nos Estados Unidos, o ciclo eleitoral de 2024 foi novamente marcado por alerta oficiais e a descoberta de dezenas de domínios digitais ligados a campanhas de manipulação orquestradas no Leste Europeu.

Na Eslováquia, as eleições de 2023 foram abaladas pela circulação de áudios forjados na véspera do pleito. Na América Latina, o chamado "Hondurasgate" revelou indícios contundentes de uma rede internacional focada em disseminar desinformação coordenada contra governos recém-eleitos ou em campanha, do México à Colômbia, passando pelo Brasil.

Ainda que se possa discutir a respeito do efeito concreto dessas manipulações no resultado dos pleitos eleitorais, as incertezas geradas sobre a capacidade de os cidadãos determinarem democraticamente o seu destino impõem um dever de precaução a todos aqueles comprometidos com a democracia.

Querem alugar o Brasil? Por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Presidente americano promove virada na política externa com endossos públicos, apoio financeiro e ameaças de sanções

No Brasil, Lula constrói campanha em torno do eixo da soberania nacional, na esperança de unir o eleitorado

(Resumo)Neste seu segundo mandato, o presidente Donald Trump vem promovendo uma transformação na política externa dos EUA ao tentar, de forma velada ou mais explícita, influenciar eleições pelo mundo, sobretudo na América Latina. Essa reedição da Doutrina Monroe, em versão século 21, busca afastar a China da região e garantir o predomínio norte-americano. No caso brasileiro, sucessão de tarifaços, declarações dúbias de Trump e atritos diplomáticos inusuais estimulados pela família Bolsonaro causam apreensão sobre risco de interferência na eleição presidencial, com objetivo de favorecer Flávio.

Pressionado diante da divulgação de trocas de mensagens suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes argumentou que o relatório apresentado pelo colega André Mendonça, que trouxe à tona as novas informações, foi uma "farsa" produzida "com auxílio de órgão externo, provavelmente estrangeiro", para interferir nas eleições que se aproximam.

Independentemente da intenção de Moraes com essa acusação, ela revela o fantasma que assombra o pleito brasileiro desde muito antes do início oficial da campanha: a possibilidade de escalada da interferência do governo Donald Trump para favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL) e prejudicar o presidente Lula (PT).

Em outubro do ano passado, durante as negociações após o primeiro tarifaço de 50% contra o Brasil, o governo Trump exigiu que o país permitisse a participação de "dissidentes políticos" nas eleições presidenciais de 2026, como revelou nos últimos dias o jornal O Estado de S. Paulo.

A grave crise no Supremo, que engoliu o debate eleitoral a poucas semanas do primeiro turno, agora serve como pretexto para que o governo americano considere novamente sanções a autoridades brasileiras, como mostrou a Folha.

Poesia | Confidência do Itabirano, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque - Tua Cantiga