sábado, 25 de julho de 2026

Carta ao futuro presidente, por Murillo de Aragão

Revista Veja

O cenário será ainda mais desafiador que o de 2023

Não é a primeira vez que escrevo uma carta ao futuro presidente. Em 2021, afirmei nesta coluna que o eleito de 2022 teria menos poder — fosse quem fosse. O ambiente institucional havia mudado: orçamento impositivo, emendas turbinadas, autonomia do Banco Central. O mandato iniciado em 2023 encontraria condições muito diferentes das de FHC em 1995 ou de Lula em 2003. A palavra final pertenceria ao Legislativo e ao Judiciário. Sem ainda usar o termo, antecipei os contornos da pentarquia que governa o Brasil — Executivo, Legislativo, Judiciário, Banco Central e mídia.

Nesta segunda carta, três constatações. A primeira: boa parte do que previ aconteceu. A segunda: com intensidade maior do que previa. A terceira: o cenário futuro é ainda mais desafiador. O mandato de Lula foi tumultuado. O Judiciário avançou no exercício do poder. O Legislativo oscilou entre submeter-se e rebelar-se — chegou a rejeitar uma indicação ao STF. O julgamento do 8 de Janeiro aprofundou a polarização. E dois megaescândalos (Master e INSS) sacudiram a política.

“Desejo ao novo governante não apenas sorte, mas que tenha método, disciplina, diálogo e coragem”

No presente, os paradoxos. Lula não consolida seu favoritismo, apesar de ter despejado mais de uma centena de bilhões de reais neste ano e de exercer o poder há quase dezoito anos: lidera no primeiro turno por pouco e tem dificuldade no segundo. Flávio, de resiliência admirável, tampouco captura todo o antipetismo. Quase 30% do eleitorado não quer nenhum dos dois — e não há terceira via competitiva. Mais grave: inexiste diálogo institucional. Lula fez uma guerra por procuração contra o Legislativo usando o STF; o Congresso prioriza agendas eleitorais; o Judiciário oscila entre o ativismo e a negação de sua crise de credibilidade.

Quais desafios enfrentará o futuro presidente? Divido em seis vertentes. A fiscal: a dívida bruta atingiu 81,1% do PIB (maior nível desde 2021) e a Selic segue em 14,25%. Sem corte proativo de despesas, seguiremos com juros altos e desconfiança crescente. A institucional: a composição do Congresso será decisiva para a governabilidade. No campo externo: recompor a relação com os Estados Unidos.

Não há propostas que estimulem investimentos. Pelo contrário: 232 empresas brasileiras já produzem no Paraguai sob a Lei de Maquila, e o Brasil foi o país da América Latina que em 2025 mais perdeu milionários que mudaram o domicílio fiscal, uma prova de desconfiança crescente nas instituições do país. Existem ainda sérias dúvidas acerca da reforma tributária, como o sistema será implantado no ano novo e os impactos no setor produtivo. A nova reforma tributária agrada, sobretudo, aos advogados, pelo volume crescente de disputas que irá ocorrer.

Outro tema é a segurança: o crime organizado movimentou 453 bilhões de reais na economia formal em um único ano — mais que o PIB de Santa Catarina. Impõe-se uma abordagem law and order, com a criação do Ministério da Segurança Pública. Por fim, existe a imperiosa necessidade de uma reforma administrativa: um governo com 36 ministérios não funciona. A racionalidade impõe redução da estrutura e uma coordenação interministerial que inexistiu neste governo e no anterior. Ao futuro presidente, não desejo apenas sorte, mas que tenha método, disciplina, diálogo e coragem. A pentarquia não perdoa improvisos.

Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

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