Correio Braziliense
Os norte-americanos estão perdendo em
segmentos da economia em que trabalhavam sem concorrência. O cenário mudou.
Pequim passou a realizar suas encomendas no Brasil
No ano passado, os norte-americanos colocaram no mercado internacional produtos agropecuários no valor de US$ 171 bilhões. O Brasil, no mesmo período, exportou US$ 169 bilhões. Pela primeira vez, em quase um século, os Estados Unidos estão ameaçados de perder a hegemonia no fornecimento de produtos da terra ao resto do mundo. Essa inversão de posições deve-se ao laborioso trabalho da Embrapa no Brasil e às sobretaxas impostas por Trump desde seu primeiro mandato. Ele taxou fortemente produtos chineses. Pequim retaliou. Taxou produtos norte-americanos e deixou de comprar no mercado dos Estados Unidos. Passou a realizar suas encomendas no Brasil.
Os fazendeiros do meio-oeste dos Estados
Unidos estão inquietos. Reclamam de seu governo, sofrem com o desaparecimento
dos principais fregueses e dos lucros que estão se transformando em prejuízo.
Resta a Donald Trump perseguir o caminho único de sua obsessão: aumentar
tarifas e interferir no comércio internacional. Os resultados não favorecem
seus objetivos. Ele já enfiou bilhões de dólares no conflito com o Irã, que
provocou elevação dos preços do petróleo em todo o mundo. E despertou a vocação
belicista dos persas que começaram a bombardear as instalações norte-americanas
em todo o Oriente Médio. As tropas do Tio Sam não mais são capazes de defender
seus aliados. Prejuízo sobre prejuízo.
Há motivos político-eleitorais e econômicos
para justificar a aplicação de tarifas sobre os produtos brasileiros. Os
norte-americanos estão perdendo em segmentos da economia em que trabalhavam sem
concorrência. O cenário mudou. O candidato Flávio Bolsonaro não entendeu o
quadro que está à sua frente. Ele, a exemplo do pai, tenta colocar a urna
eletrônica no centro do debate político. O mesmo erro cometido por Jair. Flávio
é senador, eleito por intermédio do sistema brasileiro de votação eletrônica.
Ele não contestou a própria eleição. Perde tempo. Não apresentou uma única
linha de seu hipotético programa de governo, se existir. A economista Daniella
Marques, candidata a ser o posto Ipiranga de um hipotético governo Flávio,
passou pela maratona de conversas com representantes do setor financeiro em São
Paulo.
Ela conhece os caminhos. Mas ouviu o que não
queria. Seus interlocutores, com maior ou menor clareza, afirmaram que seu
problema está no candidato. Ou seja, Flávio, que vai sendo colocado à margem
por vários partidos. Teresa Cristina, senadora, convidada para ser candidata à
vice-presidência, de maneira educada, pediu para esquecerem dela. Na outra
ponta, José Sérgio Gabrielli, também percorreu os escritórios na Faria Lima
para defender o governo atual. Apresentou argumentos em favor da maior
participação de empresas estatais e do próprio governo na economia nacional.
Foi um desastre.
O panorama eleitoral brasileiro é construído
por contradições espantosas. O candidato de oposição, segundo as pesquisas, não
tem chance de vencer no primeiro turno. Ele é fortemente rejeitado pela maioria
e até pelo pessoal de centro-direita. Lula carrega também enorme rejeição.
Contudo, no eventual segundo turno, Lula aparece empatado com seus
concorrentes, sempre segundo as pesquisas. Esse fenômeno aponta para outra
direção: o antipetismo é muito forte no país. Quem conseguir chegar ao segundo
tempo da eleição, terá chances de vencer o pleito.
A ideologia do governo Lula está
estacionada em algum momento dos anos 70. Sua fórmula populista se esgotou. Ele
elevou o endividamento do país e não solucionou problemas básicos de habitação,
de educação e de infraestrutura. Há grande número de projetos burocráticos que
sustentam o noticiário político, mas não chegam à mesa do brasileiro. O Brasil
do século 21, com seus 158.745.463 eleitores, apresenta outros desafios. Ainda
há um número expressivo de analfabetos no país. Ao mesmo tempo, a sociedade
precisa de profissionais qualificados para enfrentar os caminhos do difícil
comércio internacional.
Dois exemplos estão absurdamente nítidos.
Brasileiros de quaisquer quadrantes deveriam olhar para o que está ocorrendo
nas américas. Cuba, ícone do comunismo tropical, mudou radicalmente. Passou a
admitir capital privado em todos os níveis de sua economia. O país quebrou, há
cortes de energia que duram mais de 12 horas. A comida e o combustível estão
escassos. Hospitais funcionam de maneira precária. A solução encontrada em
Havana foi privatizar o possível.
Ao contrário, Daniel Ortega, na Nicarágua,
decidiu por vontade própria cancelar as eleições em seu país "para evitar
que a oposição tome o poder". Extinguiu a democracia. Ele, velho
comunista, tomou o poder de um ditador, Anastásio Somoza, em 1979, para livrar
o país da ditadura. Mas reproduziu o que havia antes. Todo poder corrompe, o
poder absoluto corrompe absolutamente.

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