Tanto a preeminência inglesa sobre o Brasil
quanto, na sua sucessão, o imperialismo estadunidense, que se instala nas
primeiras décadas da nossa República — nas pegadas da decadência britânica —
para chegar a estes dias com a fúria trumpista, têm sido objeto de estudos e de
reflexão mais aprofundada a partir da formação de pesquisadores universitários,
fruto da criação de cursos de Ciência Política e Relações Internacionais e,
concomitantemente, do maior acesso a documentação.
Ao lado do papel das universidades (vale mencionar a UnB, a PUC-Rio, a USP e o
antigo IUPERJ, hoje hospedado na UERJ), é de mencionar o estímulo à pesquisa e
às dissertações de mestrado e doutorado, bem como o acesso facilitado a fontes
primárias, propiciado pela abertura de arquivos norte-americanos, franceses,
ingleses e portugueses. Igual relevância se deve aos intercâmbios
internacionais e aos incentivos e bolsas de estudo financiados por agências
nacionais, como o CNPq e a Capes, e mesmo por organizações internacionais, caso
das Fundações Ford, Rockefeller e Fulbright, além da USAID. Assinale-se,
igualmente, ainda neste contexto, a contribuição dos chamados brasilianistas,
como Thomas Skidmore, Alfred Stepan, Kenneth Maxwell, Leslie Bethell e Alan K.
Manchester.
Consabidamente, parte do financiamento internacional às ciências sociais esteve
inserida no contexto da Guerra Fria e da disputa de influência política dos EUA
na América Latina. Mesmo assim, muito de relevante foi produzido.
Fora do âmbito universitário e dos espaços do Itamaraty, as preocupações com a
política internacional circunscreviam-se a poucas instituições; raras eram as
revistas especializadas e poucos os intelectuais, historiadores e pesquisadores
que se dedicavam ao tema. Dentre esses, certamente o mais conhecido e lido terá
sido José Honório Rodrigues. O ambiente se altera a partir do final do governo
constitucional e democrático de Getúlio Vargas, das tímidas iniciativas de
Juscelino Kubitschek, como a OPA (Operação Pan-Americana), e da didática crise
com o FMI. Mas o tema só conquista destaque a partir de 1961, com a Política
Externa Independente (PEI), patrocinada por Jânio Quadros, implantada em seus
cruciais primeiros tempos por Afonso Arinos e estruturada como tese por San
Tiago Dantas.
Assim, de fraque e cartola, a temática — nossa subordinação aos sucessivos
impérios, e a necessidade de superá-la — finalmente será recepcionada pela
inteligência acadêmica e, afinal, pautada pela imprensa. Será sustentada pelo
governo de João Goulart, sem retoques, mas com dificuldades óbvias, se
considerarmos o recrudescimento da Guerra Fria, a crise dos mísseis em Cuba e
as articulações golpistas do governo dos EUA, abertas por John F. Kennedy e
concluídas por Lyndon B. Johnson em 1º de abril de 1964, nos termos conhecidos.
A partir do golpe, e vistas suas fontes e seus projetos, postos às claras já no
Ato Institucional nº 1, escrito por Francisco Campos e datilografado por Carlos
Medeiros e Silva (futuro ministro da Justiça) para a assinatura dos generais,
qualquer sorte de política independente seria inadmissível, e o regime militar
tratará de seguir com fidelidade canina a ordem dos interesses políticos e
geoestratégicos dos EUA, que tanto haviam contribuído para o Primeiro de abril.
Nosso embaixador em Washington, o primeiro nomeado pelo mandarinato militar, e
em seu primeiro pronunciamento na capital estadunidense, anuncia a cartilha que
orientará seu ofício: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”.
E assim foi.
Esta declaração não pode ser desqualificada como uma gafe, eis que se trata da
explicitação consciente e militante da ideologia da classe dominante
brasileira. O general-embaixador Juracy Magalhães não é um fardado qualquer.
Sua história deita raízes na Revolução de 1930 e na ditadura do Estado Novo, a que
serviu e de que se serviu como interventor na Bahia (nomeado por Getúlio
Vargas), de onde emergiria como líder político. Militar, participaria de todas
as quarteladas que marcaram a segunda metade do século passado, inclusive da
deposição de Vargas e, finalmente, do golpe de 1964, que o faria, além de
embaixador nos EUA — o primeiro da ditadura, como vimos — ministro das Relações
Exteriores e ministro da Justiça.
A preeminência norte-americana, a fase imperialista, manifesta-se mais
precisamente a partir da segunda década do século passado, mas sua influência
ideológica vem de antes, pois vai ao encontro do “americanismo” de Joaquim
Nabuco. O antigo líder abolicionista, prócer destacado da elite intelectual e
econômica de Pernambuco, deputado-geral no Império, embaixador em Washington
entre 1905 e 1910, antevia o século XX como o “século americano” e nisso
resolveu investir.
Pragmático, transitara do monarquismo à República e pregava a necessidade de o
Brasil ocupar uma posição privilegiada junto aos EUA. Pouco atento à realidade
(Nabuco será embaixador durante a presidência de Theodore Roosevelt — 1901-1909
—, a quem se deve a política do big stick!), acreditava que a amizade que
oferecia aos EUA protegeria o Brasil de intervenções das decadentes potências
europeias. Potências que, como é sabido, não nos ameaçavam.
Assinalo esse período como o primeiro marco da influência ideológica dos EUA,
que aqui chega com a Proclamação da República e o recesso do positivismo (e, no
mesmo embalo, das lideranças maçônicas que vinham do Império), tanto na
política quanto na formação dos quadros militares. Por então, a Inglaterra
ainda mantinha sua presença e sua influência no comércio e no setor de serviços
e, principalmente, na área financeira (a Casa Rothschild chega ao Brasil com os
empréstimos que financiaram a Independência e nos jogaram de mãos e pés atados
no colo da Coroa britânica), presença e influência que se vão esmaecendo à
medida que se afirmam, já a partir dos anos 1920-30, as relações com os EUA,
mediadas principalmente por nossas exportações de café.
A grande influência, ainda econômica e já política, ideológica e cultural,
opera-se de forma mais clara a partir da Segunda Guerra Mundial. Sai a City de
Londres, nos voltamos para Wall Street.
Neste ponto, os desdobramentos são múltiplos e abarcam todos os campos —
econômicos, políticos e ideológicos — que, ainda na Itália, emprestarão novas
cores e ditarão novos rumos para as Forças Armadas brasileiras — daí em diante,
americanófilas, desenraizadas de qualquer sorte de projeto nacional e,
incuravelmente insubordinadas, fraturando seguidamente a ordem constitucional,
de agosto de 1954 até 1985, quando o último general ditador, saindo pela área
de serviço, deixa as dependências do Palácio do Planalto.
(Quando a densa poeira de hoje baixar, será possível conhecer e trazer ao crivo
da história a participação de segmentos ponderáveis das Forças Armadas na
fracassada intentona de janeiro de 2023.)
A presença, a influência e o mando do imperialismo manifestam-se mediante
formas e meios os mais variados. O cardápio é extenso e rico, pois contempla o
poder econômico, o diktat político-militar (as intervenções, as
invasões, os golpes de Estado e as guerras) e o soft power ideológico.
Os produtos que se espalham mundo afora trazem também seus valores, o American
way of life, e ambos são comprados e consumidos.
No rastro da potência econômica e militar, impõe-se a presença política e
ideológica, formatando “corações e mentes”, com o monopólio da fala e da
imagem, a serviço de seus interesses, sejam econômicos, sejam geopolíticos,
pondo por terra as aspirações de soberania daquelas nações que não lograram
apresentar-se, no presente, como potências militares.
Superada política e culturalmente a subordinação colonial, vencida a influência
francesa e o predomínio britânico, caminhando para a maioridade tardia, o maior
país da América do Sul era uma virtual colônia cultural da grande potência do
Norte, que formará nossos pesquisadores, nossos cientistas, nossos historiadores
e formará, profissional e doutrinariamente, nossos oficiais superiores.
Será, enfim, a lente por intermédio da qual contemplaríamos o mundo que nos era
apresentado como modelo a copiar, e certamente é a fonte na qual vai beber o
gênio de Nelson Rodrigues, com o seu achado do “complexo de vira-latas”, a
inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do
“Primeiro Mundo”, ou, em outros termos, mas ainda em reflexão e palavras
rodriguianas, o “Narciso às avessas”, que cospe na própria imagem.
Este é o presente que reproduz o passado. E, tanto no presente quanto no
passado, as tropas invasoras têm o caminho aberto pela alienação das elites
locais (recomendo a leitura de “Kissinger no meio do redemoinho”, texto de
Luís Cláudio Villafañe e Rogério de Souza Farias, na Piauí deste
mês).
Vimos como a Avenida Paulista reagiu aos primeiros tarifaços impostos
ao Brasil por Washington: servilmente, sem nenhuma crítica ao ato de força que
atingia nossa economia. Chega agora o segundo tarifaço, há muito anunciado
e há muito esperado, porque, justiça lhe seja feita, a imprensa cobriu muito
bem as andanças do senador Flávio Bolsonaro nas cercanias da Casa Branca.
Repete-se o capachismo.
O novo pacote de tarifas afetará “cerca de 3 mil itens exportados e mais de US$
11 bilhões em vendas da indústria e do agronegócio brasileiro” (Valor,
17/07/2026). Mas a alienação da classe dominante não sofre abalos. O
que se ouve e o que se lê é o velho cantochão empresarial, a que adere uma
coorte de “especialistas”, a ditar “bons modos” ao nosso governo, e por bons
modos leia-se: “não há nada por fazer”, senão negociar nos termos impostos pela
Casa Branca, ou seja, sentar-se à mesa com o parceiro inconfiável e ainda
poderosíssimo, porque é ele que escolhe as cartas, reserva para si os ases, os
reis e o coringa, e ainda pode, ao seu talante, alterar as regras do
jogo.
Nada obstante, insistem os empresários e repete o que se chama de “grande
imprensa”: “é hora de negociar”, e não se fale em reciprocidade. Ou:
“às favas a dignidade nacional”, que nos deve lembrar a conhecida exaltação
retórica do coronel Passarinho — exemplo conspícuo da caserna engalanada — na
reunião do Ministério Costa e Silva que instituiu o AI-5: “Às favas todos os
escrúpulos de consciência.”
O conselho, ditado a um general presidente da República, bem se aplica ao
quadro presente, pois nada nos recomenda esperar de nossas lideranças
empresariais senão a contabilidade de seus lucros imediatos. Às favas,
portanto, com nossa soberania, com nossa dignidade, com nosso amor-próprio, com
os velhos sonhos de conversar com o mundo de cabeça erguida e tendo o que
dizer.
A agressão de Washington se opera no curso lógico de sua investida imperialista
sobre a América Latina, revivida como seu “quintal”. Neste contexto, cresce a
importância da América do Sul e, nela, de nosso país, rico em minerais críticos
essenciais à tecnologia dual do século XXI, como as terras raras e o lítio. As
consequências são sabidamente péssimas. Mas como explicá-lo a um empresariado
forâneo, a uma classe dominante alienada, a Forças Armadas doutrinadas pelo
inimigo? Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Argentina, Paraguai... como não
enxergar o cerco? O que se opera, por detrás dos tarifaços e de
outras impertinências, como as que alcançam o STF, é, nas palavras de Hussein
Kalout (citado por César Felício, “Objetivos de Trump vão além de
interferir na política do Brasil”, Valor, 17/07/2026), “cortar a autonomia de
voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia,
quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental”.
O fato é este. O mais são suas consequências.
***
Os crimes do anfitrião — Encerrou-se no último domingo, sem deixar
saudades para a torcida brasileira, a Copa do Mundo da FIFA 2026 — marcada não
só por bom futebol e festa nas arquibancadas, mas também por lances
esdrúxulos fora do campo, como constrangimentos a jogadores e torcedores do Sul
Global, perseguição à seleção iraniana e até mesmo intervenção direta do projeto
de autocrata estadunidense para anular um cartão vermelho aplicado — com
justiça, por um árbitro brasileiro — ao craque de seu time. A poucos
quilômetros do estádio que assistiu à indiscutível vitória espanhola estão
encarcerados Nicolás Maduro e sua esposa, sequestrados por militares dos EUA em
janeiro deste ano, durante ataque ilegal que vitimou cerca de 100 pessoas e
franqueou aos agressores o controle do bilionário setor de petróleo e gás da
nação sul-americana.
Burguesia invertebrada — Nesse contexto, e enquanto Donald Trump ameaça a
realização das eleições legislativas previstas para novembro, num passo
arriscado que pode consolidar o fechamento do regime, e o Tesouro dos EUA
começa a produzir moedas com a efígie do incumbente, o inexcedível Estadão derrama-se
em loas ao que identifica como vigor da democracia americana: “Ao completar 250
anos de independência sem rupturas, os EUA reafirmam ao mundo o valor da
estabilidade das instituições democráticas, pilar do seu formidável
desenvolvimento”.
Moral grouchiana – A imprensa pouco comentou e comentará um dado eloquente da
Copa que ora se encerra: a ausência da Federação Russa. Desde fevereiro de
2022, FIFA e UEFA suspenderam seleções e clubes russos de suas competições, em
razão da invasão da Ucrânia (resposta de Moscou ao avanço da OTAN), decisão
confirmada pela Corte Arbitral do Esporte (CAS). De princípio, nada a objetar:
agressões militares não deveriam ser premiadas com normalidade esportiva. O que
salta aos olhos, porém, é a gritante assimetria. Os EUA, que sediaram a maior
parte do torneio e a própria finalíssima, não sofreram qualquer sanção
esportiva, apesar das agressões ao Irã e à Venezuela, e o patrocínio — diplomático
e financeiro —ao genocídio palestino. A FIFA, que se apresenta como guardiã
dos valores universais do esporte, aplica seus ditames conforme a geografia do
poder. E o mundo responde com um silêncio tonitruante.
*Com a colaboração de Pedro Amaral
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