sábado, 25 de julho de 2026

Rabo preso, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

André Mendonça autorizou a abertura de inquérito para apurar o trânsito dos dinheiros de Vorcaro destinados a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A forma da movimentação dos recursos se encaixa no padrão de dissimulações da rede vorcárica. A PF suspeita de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Falamos de US$ 10,6 milhões captados por Flávio Bolsonaro, grana disparada – de fevereiro a maio de 2025 – por meio de empresa de fachada, a Entre, e que chegaria aos EUA pousando no fundo Havengate, administrado por advogado amigo de Eduardo Bolsonaro.

Já se passaram mais de dois meses desde que Flávio se comprometera com a divulgação de prestação de contas sobre os usos desses milhões pela produtora do filme. Foi em 19 de maio – e ele dava prazo: 30 dias. Até agora, nada. Período em que novos maus-cheiros se estabeleceriam, revelado, pelo Metrópoles, que o escritório de advocacia do senador prestara serviços advocatícios para empresa de contabilidade pertencente a sujeito outrora investigado por supostamente operar esquema de notas fiscais falsas de CNPJs de fachada.

(Talvez fosse o caso de o senador-consultor contratar os serviços do escritório Barci de Moraes para lhe preparar – tal qual feito para o Master – um manual de compliance, de modo a evitar certas associações.)

Em 7 de abril de 2025, o escritório de Flávio emitiria duas notas fiscais – ambas de R$ 500 mil – para a consultoria Copenhagen, criada em novembro de 2024 e que, já em dezembro, receberia R$ 11,2 milhões do Master. Seriam outros R$ 46,6 milhões em 25. Empresa pertencente ao fundo Estônia, da Trustee DTVM, gestora apontada como custodiante de ativos de Vorcaro.

Flávio disse que não quis trabalhar para a Copenhagen. Emitiu notas para empresa com a qual não quis trabalhar. As notas foram canceladas no próprio dia 7 e em 9 de abril, quando uma terceira – também de R$ 500 mil – seria emitida, para a Contábil Corrêa, e nunca cancelada. O senador lhe prestou os serviços, não sabidos quais, tampouco se sob formalização de contrato e com procurações.

A Contábil Corrêa, que não recebeu recursos do Master, é de Rogério Lourenço Novo, aquele outrora investigado por suspostamente operar esquema de notas fiscais falsas de CNPJs de fachada – sujeito que, em setembro de 25, tornar-se-ia diretor da Copenhagen, que recebeu, entre 24 e 25, R$ 57,8 milhões do Master.

A título de curiosidade: o balé das notas de R$ 500 mil, em abril de 2025, está contido no intervalo – entre fevereiro e maio de 25 – em que Vorcaro remeteria os R$ 10,6 milhões para Dark Horse.

Deflagrada a investigação sobre as transações cinematográficas entre os Bolsonaro e a teia vorcárica, somente a porção concernente às relações entre Vorcaro e ministros do Supremo – Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Nunes Marques – não é investigada. Não será. O gilmarmendismo já mandou fechar o estreito de ormuz. Virão as nulidades. E Flávio – cavalo manco – pode falar nada a respeito.

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