sexta-feira, 31 de julho de 2026

Eleitores desconfiados, por Pablo Ortellado

O Globo

Um cidadão típico não consegue entender toda a cadeia de controle das eleições

Na semana passada, Flávio Bolsonaro deu declarações expressando desconfiança no sistema eleitoral brasileiro em evento com diplomatas. Alguns dias depois, segundo reportagem do Washington Post, o governo Trump designou dois assessores do Departamento de Estado para viajar para o Brasil e produzir um relatório sobre a integridade do nosso sistema. Ao que tudo indica, o tema da confiança nas urnas eletrônicas mais uma vez se tornará central nas eleições.

A desconfiança no sistema de votação tem se tornado um problema global, não apenas no Brasil. Assistimos, porém, não ao aumento global da desconfiança, mas à organização política de uma desconfiança que sempre foi significativa. A série global mais sólida de que dispomos, da Gallup, mostra que, em democracias liberais, a desconfiança vem oscilando nos últimos 20 anos, sempre em torno de um terço da população. É uma parcela significativa, mas não tem crescido.

Esse nível de desconfiança tem uma explicação simples. Um cidadão típico não consegue entender toda a cadeia de controle das eleições: detalhes da programação, preparação das máquinas, arquivamento dos votos, transmissão, totalização e diferentes métodos de auditoria. A confiança é delegada. A assimetria entre a complexidade e invisibilidade do processo eleitoral e a capacidade individual de verificá-lo produz desconfiança residual na população.

A confiança no sistema eleitoral não parece ter a ver com a qualidade. Um levantamento editorial na respeitada revista acadêmica Public Opinion Quarterly constatou que não há qualquer relação estatística entre a qualidade do sistema de votação — medida por um painel de especialistas — e a confiança nas eleições — medida em pesquisa de opinião. Um país como o Irã, que os especialistas consideram ter processo eleitoral frágil, conta com alta confiança da população. Ao mesmo tempo, Brasil e Estados Unidos, que eles julgam ter sistemas confiáveis, têm um dos índices mais baixos.

Sabemos pouco sobre o que gera a desconfiança. Uma das poucos fatos conhecidos é que apoiadores do vencedor tendem a considerar a votação mais confiável que adeptos do derrotado. Isso não significa necessariamente uma crença oportunista: o resultado altera emoções e a interpretação sobre o que aconteceu.

Uma pesquisa nos Estados Unidos com quem acreditava que Trump provavelmente venceu as eleições de 2020 mostrou que suas conclusões raramente dependiam de uma prova decisiva. Eram sustentadas por um acúmulo de suspeitas: sobre fragilidades nas urnas e no voto pelo correio, mudanças no padrão da contagem, comportamento da imprensa e impressão de que muitas perguntas permaneciam sem resposta. Muitos reconheciam não ter prova definitiva, mas consideravam que a soma das “coisas estranhas” tornava a fraude plausível e provável.

Aparentemente, as crenças sobre a confiabilidade do sistema eleitoral, das autoridades eleitorais e do resultado final formam um sistema interligado coerente, difícil de desarticular. Um esclarecimento pontual pode levar à substituição de uma suspeita por outra, que segue mantendo a desconfiança de pé — de maneira que é fácil chancelá-la e muito difícil desmontá-la. No caso do Brasil, além do sistema de desconfiança difuso constituído pelas suspeitas sobre o código-fonte, a sala de contagem “secreta” e mudanças “bruscas” na apuração, há também uma Justiça que se esforçou por não parecer técnica e equilibrada.

A desconfiança não parece baseada em certezas, mas em suspeitas vagas, produzindo comportamentos ambíguos. Os bolsonaristas dizem acreditar que quem ganhou as eleições em 2022 foi Bolsonaro — 62% deles acreditam nisso, segundo pesquisa da More in Common/Quaest de 2025 —, mas seu comportamento participando e endossando as eleições em 2024 e agora em 2026 não parece consistente com uma convicção forte num sistema fraudado. Acontece o mesmo com os lulistas que chamavam o impeachment da Dilma de golpe, mas seguiram agindo como se vivessem num sistema essencialmente democrático.

Talvez nosso problema atual seja fruto de um sistema de votação complexo e invisível que, combinado com o viés de perdedor e com o desgaste institucional da Justiça, produz incertezas e dúvidas, exploradas por lideranças populistas. Podemos mitigar marginalmente a desconfiança com propaganda de esclarecimento, mas o que será decisivo para nossa estabilidade democrática é o comportamento mais ou menos responsável das lideranças bolsonaristas.

 

2 comentários:

Mais um amador disse...

Ótimo colunista.

ADEMAR AMANCIO disse...

Verdade.