sexta-feira, 31 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Vendaval mostrou despreparo para Super El Niño

Por O Globo

No Rio, alertas só chegaram aos cidadãos quando o vento já castigava as ruas — e imperava a confusão

A julgar pela situação caótica instalada pelo vendaval de quarta-feira em municípios do Rio de Janeiro e de São Paulo, as autoridades dos três níveis de governo não passaram no teste do Super El Niño. Segundo meteorologistas, as rajadas de mais de 100km/h estão relacionadas ao fenômeno climático de forte intensidade previsto para este ano. À população, foi mostra preocupante do que está por vir. Ao governo, serve de alerta.

Chamam a atenção as falhas nos sistemas de informação. Em São Paulo, a Defesa Civil emitiu alertas severos a partir das 13h (para cidades do litoral) e das 13h30 (para a Região Metropolitana), cerca de meia hora antes do vendaval. No Rio, o aviso só começou a chegar às 16h41, quando os ventos já varriam o estado furiosamente. E nada de alerta severo, como aquele estridente que acordou milhões de brasileiros depois de uma invasão nos sistemas de disparo semanas atrás. O alerta de quarta-feira não dava a real dimensão do problema. Milhares de cariocas foram apanhados de surpresa nas praias. Ainda que meteorologistas digam que o fenômeno é raro no inverno e é difícil prevê-lo com antecedência, é de pouca utilidade um alerta que chega quando o cidadão já está em plena ventania.

Diante do transtorno provocado pela força dos ventos — com queda de árvores, esquadrias, telhas e painéis de publicidade —, a resposta à população precisaria ter sido rápida. Na Região Metropolitana do Rio, imperou a confusão. Inúmeros bairros ficaram sem luz, serviços de trem e metrô foram interrompidos, sinais de trânsito pararam de funcionar, a circulação de veículos tornou-se caótica, sem agentes para desbloquear cruzamentos. Moradores ficaram presos em elevadores. Em áreas da Zona Sul, a luz voltou rapidamente, mostrando ser possível agir com celeridade. Mas outras regiões enfrentaram um longo apagão. Na manhã seguinte, ainda havia 500 mil sem luz no estado, contingente equivalente à população de Niterói (RJ).

Claro que ventos repentinos excepcionais representam um desafio, e é razoável supor que qualquer metrópole do mundo enfrentaria problemas. Tampouco se pode afirmar que as seis mortes provocadas pela ventania (três no Rio e três em São Paulo) poderiam ter sido evitadas. Mas é tarefa do governo estabelecer procedimentos para minimizar efeitos danosos de vendavais e tempestades, além de oferecer respostas eficazes para contorná-los.

Alegar severidade dos fenômenos climáticos é justo. Mas esse virou um álibi para justificar a deficiência das políticas públicas. É verdade que, por vezes, chove num único dia a média prevista para o mês. Diante de situações assim, danos são previsíveis. Mas conformar-se não é uma resposta razoável. A frequência de desastres em determinadas áreas deveria nortear ações de prevenção. Não há como evitar as rajadas, mas é possível acionar protocolos para remover árvores caídas, gerir o trânsito para facilitar o deslocamento e restabelecer rapidamente a energia.

Meteorologistas estimam em mais de 80% a probabilidade de El Niño “muito forte”, especialmente entre outubro e dezembro. Tempestades arrasadoras são um dos efeitos esperados. Não é improvável haver novas surpresas climáticas nos próximos meses. Isso demanda das autoridades mais eficiência para deflagrar planos de contingência. Quanto mais bem preparadas estiverem, melhores respostas oferecerão aos cidadãos.

Fracasso do Move Brasil e extensão do Desenrola expõem interesse eleitoreiro

Por O Globo

Financiamento de veículos fica aquém do esperado, enquanto alívio a dívidas agrava problema que diz resolver

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou os bancos nesta semana pela baixa adesão ao programa Move Brasil. Em maio, uma Medida Provisória (MP) destinou R$ 30 bilhões para financiar com juros subsidiados a compra de carros novos por taxistas e motoristas de aplicativos. No mês seguinte, outra MP beneficiou entregadores, motociclistas e ciclistas cadastrados em plataformas digitais interessados em motocicletas, motonetas, ciclomotores flex e bicicletas elétricas. Desde que o mecanismo entrou em vigor, as contratações ficaram perto de R$ 3 bilhões. Num cenário otimista traçado pelo governo, chegarão a R$ 10 bilhões, mas uma previsão mais realista estima o crédito total entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões. Independentemente do número, a conclusão é inequívoca: o programa fracassou.

A preocupação de Lula com o ritmo do Move Brasil é puramente eleitoral. O programa não partiu de análise sobre demanda reprimida, excesso de estoques ou urgência de intervenção estatal para garantir empregos em momento de crise. A intenção foi tão somente eleitoreira. Prova disso é que a ideia saiu da Secretaria de Comunicação da Presidência. Com as eleições mais próximas, o governo busca uma resposta rápida para agradar essa faixa do eleitorado em geral resistente a Lula. Daí a crítica aos bancos. Basicamente, o governo quer que sejam negligentes na análise de crédito para aumentar os financiamentos. Não faz sentido.

O mau resultado do Move Brasil tem gerado briga no governo. A resposta da equipe econômica é marcada pela contradição. Ao público interno, faz questão de lembrar que criticava o programa no início. A interlocutores externos, diz que o ritmo fraco dos empréstimos prova que o impacto fiscal será pouco relevante. Mas é evidente que um programa de crédito eleitoreiro de R$ 30 bilhões provoca menos estrago quando é um fiasco. Isso não significa que a Fazenda tenha zelado pela responsabilidade fiscal.

O caráter eleitoreiro das iniciativas do Planalto fica ainda mais nítido no caso do Desenrola, programa de renegociação de dívidas que deveria acabar na segunda-feira, mas foi estendido até o fim de agosto, depois do início da campanha eleitoral. Trata-se de um programa popular que contribuiu para a recuperação da imagem de Lula, e, além do interesse eleitoral do governo, sua prorrogação também satisfaz à vontade dos endividados, ávidos por juros mais baixos. Mas isso em nada muda os danos que causará.

De maio, quando foi lançada a última edição do Desenrola, até dia 23, foram renegociados R$ 22 bilhões em dívidas. O alívio recorrente pune o bom pagador e cria incentivo à inadimplência, pois maus pagadores tendem doravante a esperar por algum socorro eleitoreiro. Fora isso, financiado por uma manobra contábil que se apropriou de recursos do Tesouro, o Desenrola terá impacto fiscal incontornável. E o desequilíbrio fiscal está entre as principais causas dos juros altos, que alimentam o endividamento do brasileiro. Apresentado como solução, o Desenrola só contribui para agravar o problema.

STJ precisa filtrar processos para cumprir sua função

Por Folha de S. Paulo

Dada a escala industrial de casos, projeto de lei que regulamenta o controle de recursos é necessário

Em 2025, o STJ julgou 781.788 casos, ante média de 3.000 de tribunais europeus; papel da corte é uniformizar interpretação da lei federal

Segundo estudo do FGV Justiça, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgou 781.788 processos em 2025, ante média de 3.000 de cortes superiores da Europa. No período, o Supremo Tribunal de Justiça de Portugal analisou 3.795, e o Tribunal Federal de Justiça alemão, 3.517.

No Brasil, foram 3.663 processos por 1 milhão de habitantes, enquanto em Portugal e na Alemanha, 333 e 42, respectivamente. Assim, o STJ julgou 11 vezes mais casos por habitante que o tribunal português e 87 vezes mais que o alemão.

Nesses dois países, há cortes superiores separadas por áreas —o tribunal da Alemanha, por exemplo, atua em matérias civis e penais, não em questões administrativas e previdenciárias. Mesmo assim, a enorme discrepância não se explica pelo desenho institucional e evidencia a necessidade de filtragem dos processos que chegam à corte brasileira.

A escala industrial de processos no STJ decorre de um sistema que transformou o tribunal —concebido para uniformizar a interpretação de leis federais—em instância recursal de massa.

A amplitude das hipóteses de recurso especial, a litigância repetitiva do poder público e de grandes empresas e a profusão de agravos permitem que milhares de causas semelhantes cheguem todos os anos a Brasília.

Somam-se a isso a aplicação irregular de precedentes pelas instâncias inferiores e a insistência das partes em rediscutir casos já pacificados, quadro que obriga os 33 ministros a julgar em série, por meio de decisões monocráticas e com menos tempo para julgamentos estruturantes colegiados.

Desde 2007, o Supremo Tribunal Federal aplica o dispositivo da Reforma do Judiciário de 2004 que permite a recusa de recursos extraordinários que não tenham repercussão geral. Neste mês, o Congresso Nacional aprovou um projeto de lei, que regulamenta uma emenda constitucional de 2022, com objetivo similar para o STJ.

Para serem avaliados pelo tribunal, os processos terão que demonstrar "relevância econômica, social, política ou jurídica". Não podem tratar apenas dos interesses das partes envolvidas e devem ter potencial para gerar reflexos em casos semelhantes. A recusa de um processo deve ser aprovada por dois terços dos ministros.

O mecanismo é criticado por advogados porque limitaria o acesso à Justiça e a possibilidade de interposição de recursos.

Mas os cidadãos já dispõem de julgamento em primeira instância e de revisão por uma segunda. Não é papel do STJ oferecer uma terceira análise integral de cada derrota judicial, mas uniformizar a interpretação da lei federal.

O atual volume de recursos não favorece necessariamente os mais vulneráveis. Beneficia sobretudo grandes litigantes habituais, capazes de recorrer em massa. Parâmetros de filtragem permitem que o STJ cumpra, de modo mais racional e eficiente, a sua função: formular precedentes mais claros e aplicáveis a milhões de brasileiros.

Trump escala a truculência contra imigrantes

Por Folha de S. Paulo

Serviço de imigração passou a perseguir seus alvos em aeroportos; deportação em massa afeta a economia

Em rara imposição de limites a Trump, Suprema Corte reiterou direito dos filhos de imigrantes sem documentos nascidos no país à cidadania

Com o aval do presidente americano Donald Trump, o Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) ampliou o alcance da política anti-imigratória, cuja brutalidade contradiz a essência de uma nação erguida por estrangeiros e ancorada na democracia.

Nas últimas semanas, imigrantes que circulavam por cerca de 15 aeroportos americanos foram detidos por agentes à paisana do ICE. Os alvos tinham vistos vencidos no passaporte, mas aguardavam a resposta oficial a pedidos de extensão do prazo ou de green cards, muitos deles inclusive munidos de autorização legal de trabalho no país.

As operações sugerem cooperação entre a agência e a Administração de Segurança de Transportes (TSA). Esta não é a primeira articulação de entes governamentais em prol da meta de Trump de prender 2.000 imigrantes por dia e deportar um milhão ao ano.

O compartilhamento de 460 mil dados sobre menores desacompanhados e seus responsáveis pelo Escritório de Reassentamento de Crianças (ORR) permitiu ao ICE prender 12 mil estrangeiros desde janeiro do ano passado. Criado há 46 anos, o ORR tem por missão acolher e realocar refugiados de conflitos armados e perseguições.

A agressividade da política de Trump obteve respaldo da Suprema Corte em junho, quando o tribunal permitiu bloquear a entrada de estrangeiros em busca de refúgio pela fronteira com o México e retirar o status humanitário de cidadãos do Haiti e da Síria, que os protegia da deportação.

Por ora, segue intocada pela Justiça a aplicação de multa de US$ 998 por dia de permanência irregular a cerca de 100 mil estrangeiros notificados por carta. Contudo, em uma rara imposição de limites à Casa Branca, a Suprema Corte reiterou o direito dos filhos de imigrantes indocumentados nascidos no país à cidadania americana.

Trump conduz a pauta em sintonia com o eleitorado conservador e ignora seus desdobramentos. Estudo recente da Universidade da Pensilvânia concluiu que a deportação anual de 10% dos imigrantes entre 2025 e 2028 encolherá a atividade econômica, elevará o déficit público e reduzirá a média salarial no país.

Se pouco lhe importa o quanto sua escolha de transformar 12 milhões de imigrantes indocumentados em "inimigos da nação" corrói a democracia americana, Trump deveria ao menos atentar-se para impacto sobre a economia real —historicamente, um termômetro de votos e pilar do poderio dos EUA.

Flávio e Moraes testam a Justiça Eleitoral

Por O Estado de S. Paulo

Em meio às provocações deliberadas da candidatura bolsonarista e às pressões indevidas do ministro do Supremo, o TSE deve se ater exclusivamente ao que está na lei

O avatar de Jair Bolsonaro criado por inteligência artificial (IA), exibido na convenção do PL que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, é um teste para a autoridade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em particular a de seu presidente, o ministro Nunes Marques. O TSE julgará o caso submetido a duas pressões distintas, mas igualmente nocivas à sua independência.

De um lado, Flávio explora os limites da legislação eleitoral sobre “deep fakes” – vídeos gerados ou alterados por IA para simular, com extremo realismo, a aparência, a voz ou os gestos de pessoa viva ou morta, fazendo-a parecer dizer ou fazer algo que nunca disse ou fez. O objetivo parece ser o de pôr à prova a lealdade de Nunes Marques à família que o alçou à cúpula do Poder Judiciário. De outro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, ao cobrar resposta da defesa de Bolsonaro sobre o conhecimento prévio do tal vídeo, se intromete em matéria eleitoral que não lhe diz respeito, um movimento nada disfarçado para encabrestar Nunes Marques e antecipar um julgamento que, a rigor, cabe exclusivamente ao TSE.

Entre um safanão e outro, a Justiça Eleitoral manter-se-á de pé apenas e tão somente se respeitar a lei. E a lei aplicada ao caso concreto é cristalina. O artigo 9-C da Resolução TSE n.º 23.732/2024 veda, “na propaganda eleitoral”, a divulgação de “conteúdo fabricado ou manipulado para difundir fatos notoriamente inverídicos ou descontextualizados com potencial para causar danos ao equilíbrio do pleito ou à integridade do processo eleitoral”. O parágrafo 1.º do mesmo artigo proíbe expressamente o uso de “deep fakes” para “prejudicar ou para favorecer candidatura”, mesmo que haja autorização da pessoa retratada.

Ora, a propaganda eleitoral só começa oficialmente no dia 16 de agosto. Logo, à luz da lei, a convenção do PL não foi um ato de propaganda eleitoral, e sim um evento partidário, voltado ao público interno. É uma sutileza decerto incômoda, pois dá azo a artimanhas. Usar IA para fabricar uma manifestação política de Bolsonaro – que, como todos sabem, está preso e com seus direitos políticos suspensos – para testar até onde a lei alcança é um cálculo típico de alguém como Flávio, que nasceu e cresceu vendo o pai desafiar as leis e as instituições republicanas. Mas incômodo não é ilegalidade. E cabe ao TSE, não ao STF, dizer se houve, ou não, transgressão da lei eleitoral.

Eis o segundo teste. Moraes, na estranha posição de juiz de execução da pena de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, cobrou explicações sobre a eventual autorização do ex-presidente para o uso de sua imagem, sugerindo consequências que vão da inelegibilidade de Flávio ao retorno do ex-presidente para prisão em regime fechado. A pressa e o tom da cobrança de Moraes em seu despacho, dando alternativas peremptórias à defesa, foram às raias da antecipação de um julgamento que não lhe compete.

O TSE é uma corte independente, com competência exclusiva sobre matéria eleitoral. O STF não é seu bedel nem tampouco superior hierárquico quando não há questão constitucional em disputa, como parece ser o caso de um vídeo exibido numa convenção partidária. Se Moraes se arvorou em juiz de execução penal, pois então que se circunscreva a esse papel. O que o ministro não pode fazer é usar a gestão da pena de Bolsonaro como subterfúgio para direcionar o julgamento de mérito de uma representação eleitoral ora em trâmite no TSE, sob a relatoria de seu colega Nunes Marques.

Tanto pior porque não estamos diante de um episódio isolado, como já dissemos nesta página (ver editorial Ao Supremo o que é do Supremo, 28/6/2026). Em junho, ministros do STF já haviam sinalizado a Nunes Marques a intenção de derrubar sua decisão de restringir a divulgação de uma pesquisa eleitoral desfavorável a Flávio. O que se nota é um apetite crescente de parte do Supremo para funcionar, na eleição deste ano, como instância revisora de decisões do TSE sob a presidência de Nunes Marques que tratam de questões infraconstitucionais.

Que a Justiça Eleitoral julgue o caso do avatar de Bolsonaro com a serenidade e o apego à lei que o ineditismo da matéria exige, sem se curvar à pressão de quem espera lealdade pessoal nem à de quem usurpa sua autonomia institucional.

Educação pública não precisa ser estatal

Por O Estado de S. Paulo

Parcerias bem contratualizadas e fiscalizadas com escolas privadas sem fins lucrativos podem levar às crianças pobres a diversidade e a qualidade hoje reservadas a quem pode pagar

O Liceu Coração de Jesus, no centro de São Paulo, é uma escola privada, católica e sem fins lucrativos. Tem direção, professores, instalações e tradição pedagógica próprias. Seus novos alunos chegam pela rede municipal, estudam gratuitamente e têm as vagas pagas pela Prefeitura. A experiência levou a administração paulistana a procurar instituições capazes de atender crianças também em Parelheiros, Jardim Bandeirantes e Jaraguá.

O cientista político Fernando Schüler, colunista deste jornal, chamou a atenção recentemente para a oportunidade oferecida pelo Liceu e pediu que se desse uma chance às crianças. As reações corporativas e ideológicas à proposta refletem uma crença arraigada: a de que uma escola só pode cumprir função pública se for administrada pelo Estado.

O caráter público da educação decorre do direito assegurado ao aluno. O acesso deve ser gratuito, a matrícula obedece a regras públicas, o currículo comum precisa ser cumprido, e a inclusão, garantida. Cabe ao poder público financiar as vagas, fiscalizar o atendimento, medir resultados e intervir diante de falhas. Essas responsabilidades permanecem quando a execução é confiada a uma instituição comunitária, confessional ou filantrópica. O artigo 213 da Constituição admite expressamente essa colaboração.

O Brasil recorre há décadas a arranjos semelhantes. O SUS depende de Santas Casas e hospitais filantrópicos. O Prouni mobiliza vagas privadas para abrir o ensino superior a estudantes de baixa renda. São serviços distintos, mas guiados pelo mesmo princípio: o Estado garante o direito, financia o atendimento e cobra obrigações de quem o executa.

Na educação básica, a resistência a essa colaboração preserva uma desigualdade pouco discutida. Famílias com maior renda escolhem entre escolas de diferentes métodos, tradições e ambientes. As mais pobres ficam vinculadas à unidade indicada pela rede, mesmo que ali a aprendizagem seja precária ou a desorganização tenha se tornado rotina. Escolas estatais excelentes mostram quanto liderança, cultura e gestão importam. Também por isso não há razão para impor às famílias que dependem do poder público uma única forma de organização escolar.

Seria imprudente vender o Liceu como prova definitiva. A presença dos professores, a organização da rotina e a satisfação das famílias são sinais animadores, mas ainda faltam avaliações que comparem aprendizagem, inclusão e custo integral por aluno. A experiência estrangeira tampouco oferece receitas prontas. A Holanda, por exemplo, demonstra que financiamento público, pluralidade de provedores e padrões nacionais podem conviver. Já o desempenho heterogêneo das charter schools americanas confirma que a qualidade depende do operador, das regras e da fiscalização.

A conclusão sensata é experimentar em escala controlável, publicar os dados e ampliar o que funciona. Essa prudência ajuda a distinguir preocupações legítimas do veto ideológico. Há riscos de seleção dos alunos mais fáceis, exclusão de crianças com deficiência, segregação e manipulação de transferências.

São perigos reais, que exigem matrícula supervisionada pelo governo, recursos ajustados às necessidades dos estudantes, acompanhamento da permanência, avaliação da aprendizagem e da inclusão e contratos que permitam afastar quem descumprir suas obrigações. A abertura institucional exige um Estado mais competente para contratar e fiscalizar, não uma administração ausente.

Corrigir falhas do edital, exigir transparência e proteger os alunos são deveres públicos. Impedir por princípio que instituições sociais participem da educação protege um cacoete administrativo antes de examinar o que elas entregam em sala de aula. A incerteza recomenda avaliação rigorosa; usá-la para bloquear experiências promissoras seria conceder ao modelo vigente uma presunção de sucesso que os indicadores educacionais há muito desmoralizam.

O poder público deve aperfeiçoar as regras, divulgar custos e resultados e permitir que a iniciativa chegue a Parelheiros, Jardim Bandeirantes, Jaraguá e outras localidades mal atendidas. As organizações escolhidas terão de demonstrar seu valor sob obrigações públicas. Dar uma chance às crianças exige que instituições capazes de servi-las também possam provar o que sabem fazer.

O avanço do sarampo

Por O Estado de S. Paulo

Queda da cobertura vacinal traz preocupação, mas o Brasil tem como enfrentar o problema

Os casos de sarampo voltaram a preocupar o País com a confirmação de 15 infecções identificadas no Estado de São Paulo até ontem. O número é pequeno, mas basta para recolocar em evidência uma doença que o País já conseguiu praticamente controlar graças a décadas de campanhas de vacinação e mostra que essa estratégia precisa continuar funcionando.

A resposta, aliás, veio na velocidade esperada. Os casos foram identificados, houve investigação epidemiológica, rastreamento de contatos, busca ativa e reforço da vacinação, incluindo a recomendação da chamada dose zero para bebês em municípios de maior risco. O Brasil conhece os protocolos para impedir que casos importados se transformem em surtos. O desafio está em impedir que o vírus encontre uma população desprotegida o suficiente para voltar a circular.

Poucas políticas públicas brasileiras acumulam resultados tão expressivos quanto o Programa Nacional de Imunizações (PNI). Construído ao longo de décadas e preservado por diferentes governos, tornou-se referência internacional ao oferecer vacinação universal e gratuita em todos os municípios do País. Foi essa política que fez do Brasil uma referência internacional em imunização e praticamente eliminou doenças que durante décadas lotavam enfermarias e matavam crianças. A recertificação da eliminação da circulação endêmica do sarampo, concedida pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) em 2024, confirma a força desse legado.

Mas há uma preocupação. Neste ano, segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo, a cobertura da primeira dose da tríplice viral no Estado alcança apenas 77,5%, enquanto a segunda chega a 65,5%, abaixo dos 95% necessários para assegurar a proteção coletiva. Independentemente das razões dessa queda, seu efeito é conhecido: amplia a vulnerabilidade diante da entrada de casos vindos do exterior.

O histórico recente comprova essa relação. Entre 2018 e 2022, o Brasil registrou mais de 39 mil casos de sarampo após a reintrodução do vírus, favorecida pela combinação entre circulação internacional e redução da cobertura vacinal. No Tocantins, no ano passado, um surto iniciado por uma família procedente da Bolívia concentrou-se em uma comunidade onde praticamente ninguém havia sido imunizado.

O que ocorre nos Estados Unidos reforça esse alerta. O país contabiliza mais de 2,2 mil casos de sarampo apenas neste ano, o maior avanço da doença em décadas, impulsionado pela queda da vacinação. O vírus não se tornou mais agressivo nem a vacina perdeu eficácia. O que mudou foi a quantidade de pessoas suscetíveis à infecção.

A solução para o sarampo já existe. A vacina é gratuita e está disponível no SUS. Em um mundo onde vírus atravessam fronteiras com facilidade, o maior risco não é a importação de casos, mas permitir que eles encontrem bolsões de pessoas não vacinadas. Manter a caderneta em dia não é apenas uma decisão individual. É a forma de preservar uma conquista coletiva que o Brasil levou décadas para construir.

Riscos à soberania digital precisam entrar no radar

Por Valor Econômico

A segurança digital não deve ser vista como um luxo ou uma prioridade de países ricos, isso seria um erro estratégico

O debate eleitoral brasileiro tem dado destaque a temas de soberania nacional clássica, como as politizadas tarifas comerciais aplicadas pelos EUA ou a improvável ameaça de uma invasão militar americana. Mas riscos tão ou mais graves estão emergindo em questões de soberania digital, sobre as quais pouco se fala. Está em formação uma tempestade digital perfeita, alimentada por três frentes: a hospedagem externa dos dados, o uso agressivo da inteligência artificial (IA) e os avanços da computação quântica.

A primeira ameaça reside na infraestrutura mais essencial da economia da informação. Governos, empresas e cidadãos de países emergentes se acostumaram a armazenar dados sensíveis no exterior. Guardar informações confidenciais, públicas ou privadas, em servidores e nuvens localizados no exterior ou controlados por poucas grandes empresas estrangeiras - quase todas sob a jurisdição americana - pode embutir riscos.

A história recente ilustra o perigo dessa dependência. O governo americano solicita regularmente, por meio da lei chamada Cloud Act, dados sobre cidadãos e empresas estrangeiros armazenados por companhias americanas, mesmo que os servidores estejam fora dos EUA. Esses dados só podem ser usados em processos criminais, mas se suspeita de que investigações financeiras ou de cibersegurança possam permitir a Washington obter essas informações confidenciais.

Além disso, em momentos de crises diplomáticas, conflitos comerciais ou sanções econômicas, o acesso a esses dados arquivados fora do país pode se tornar uma forma de pressão ou até mesmo ser interrompido. O armazenamento de dados no exterior cria assim uma dependência que reduz fortemente a margem de manobra política de países soberanos.

O Brasil detém o maior parque de data centers da América Latina, com 218 unidades (37,1% do total regional), segundo o Data Center Map, bem à frente do México (66) e do Chile (63). Mas isso é insuficiente para o volume de dados do país. A Espanha, país com economia e população menores que as do Brasil, tem 215 data centers. Especialistas estimam que entre 60% e 70% dos dados gerados por brasileiros são arquivados e processados no exterior.

O segundo vetor é o avanço na IA. O desenvolvimento de modelos de IA que conseguem identificar e explorar vulnerabilidades de sistemas de TI transformou a segurança digital numa disputa assimétrica. Empresas privadas e órgãos estatais estrangeiros podem agora dispor com antecedência de ferramentas avançadas capazes de encontrar brechas de segurança em redes financeiras e de telecomunicações, sistemas de energia elétrica e bancos de dados de outros países, especialmente aqueles em desenvolvimento.

Trata-se do uso antecipado e abrangente das mais sofisticadas ferramentas de IA por entidades estrangeiras, que conseguem acesso em primeira mão a esses modelos. Sem verba e capacidade de desenvolver defesas de IA no mesmo ritmo e com o mesmo grau de sofisticação, países como o Brasil podem se tornar alvos fáceis. É bom lembrar que os EUA, sob o democrata Barack Obama, espionaram várias autoridades brasileiras, inclusive a então presidente Dilma Rousseff, e a maior empresa do país, a Petrobras. Grampearam ainda outras autoridades pelo mundo, como a premiê alemã Angela Merkel. À época, Washington mantinha relações muito boas com Brasil e Alemanha. O que pode fazer um governo muito mais agressivo, como o de Donald Trump?

É nesse cenário já preocupante que a computação quântica desponta como uma ameaça às comunicações globais. A criptografia que hoje protege todas as trocas de dados, desde segredos de Estado até transações bancárias e mensagens de texto, baseia-se na incapacidade dos computadores convencionais de quebrar rapidamente chaves de segurança. A computação quântica alterará radicalmente essa premissa e será capaz de quebrar senhas tradicionais em minutos. Isso proporcionará, a quem detiver essa supremacia tecnológica, a capacidade de violar comunicação e acessar sistemas de países rivais.

Países como o Brasil enfrentam um dilema: o dinheiro necessário para erguer defesas digitais é disputado por demandas sociais urgentes em áreas como saúde, segurança pública, educação e infraestrutura. Mas a segurança digital não deve ser vista como um luxo ou uma prioridade de países ricos. Seria um erro estratégico, que pode comprometer o próprio desenvolvimento socioeconômico no longo prazo.

Isso não significa adotar políticas isolacionistas ou nacionalistas anacrônicas, mas sim buscar as melhores alternativas para lidar com esse risco geopolítico. Governos e o setor privado de potências médias, como o Brasil, precisam, por exemplo, coordenar esforços para incentivar a criação de infraestruturas locais de nuvem, fomentar a cooperação internacional em segurança digital e acelerar a adoção de padrões de criptografia mais avançados. O governo brasileiro pode ainda melhorar o ambiente regulatório e tributário para favorecer a atuação do capital privado. O importante é que o debate sobre como enfrentar essa tempestade digital seja alçado ao topo da agenda de segurança nacional.

Fúria dos ventos é a prévia da crise

Por Correio Braziliense

Embora a ventania e a frente fria não sejam um produto direto do El Niño, elas funcionaram como uma prévia brutal do que aguarda o país nos próximos meses

Na quarta-feira, enquanto ventos de até 125km/h varriam o Sudeste brasileiro, deixando um rastro de cinco mortos e caos urbano, o governo federal anunciava, de Brasília, um pacote de R$ 1,3 bilhão para conter os efeitos do super El Niño, previsto para o segundo semestre do ano. O contraste entre os destroços nas ruas e o anúncio de cifras nos gabinetes escancaram uma verdade indigesta: a administração pública no Brasil continua correndo atrás do clima.

Os impactos práticos da tempestade foram avassaladores. No Rio de Janeiro, rajadas de 105 km/h causaram um apagão que desligou sinais de trânsito e paralisaram trens e metrôs na hora do rush. Em São Paulo e no litoral, árvores esmagaram veículos. As duas cidades registraram vítimas. O saldo é o retrato do cotidiano desmanchado: o trabalhador ilhado no escuro, o comércio no prejuízo e a infraestrutura em colapso. Embora a ventania e a frente fria não sejam um produto direto do El Niño, elas funcionam como prévia brutal do que aguarda o país nos próximos meses.

A liberação de R$ 1,3 bilhão pelo governo federal é uma medida bem-vinda. O recurso mira a segurança alimentar, o monitoramento de bacias e o combate a incêndios. Esse valor, inclusive, não chega sozinho: em junho, R$ 9,8 bilhões foram anunciados pelo Ministério da Saúde para preparar o Sistema Único de Saúde (SUS) aos impactos do El Niño, com 27 metas, 93 ações e horizonte até 2035. 

Somados, os dois pacotes sinalizam que, pela primeira vez, o país está tentando montar uma resposta climática integrada, não apenas no sistema de saúde, mas na infraestrutura, na agricultura e na gestão de riscos. É um movimento na direção certa. O problema, como sempre, é a execução.

Divididos em um país de dimensões continentais que enfrentará secas extremas no Norte e inundações no Sul, os montantes tendem a não dar conta do que é preciso para corrigir décadas de obsolescência urbana. A memória histórica está repleta de orçamentos emergenciais que secam assim que as manchetes perdem a força. E, mesmo vultosos, os valores são sintomáticos de uma governança ainda predominantemente reativa. 

O tempo para discursos focados exclusivamente em mitigar as mudanças climáticas expirou. O imperativo agora é a adaptação. Não há mais como evitar que o clima extremo atinja as metrópoles, como ficou claro com o vendaval em São Paulo e no Rio de Janeiro nesta semana, mas é inaceitável não gerir os danos. As cidades brasileiras precisam de planos de resiliência reais: enterramento gradual da fiação elétrica, manutenção contínua das estruturas, engenharia de escoamento e sistemas de alerta que mobilizem a população antes da tragédia, não durante a contagem de feridos.

O vendaval que arrasou o coração econômico do país não foi uma anomalia isolada. É o novo padrão. Enquanto autoridades de todas as esferas insistirem em tratar a fúria da natureza como um imprevisto incalculável, os bilhões anunciados nos gabinetes continuarão sendo apenas intenções, e a conta do descaso continuará sendo paga por quem não tem para onde correr quando a tempestade chega.

Eventos extremos exigem adaptação das cidades

Por O Povo (CE)

As fortes rajadas de vento que deixaram mortos, feridos e um rastro de destruição nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, são consequência de uma frente fria já prevista pelos meteorologistas, segundo a Climatempo. No entanto, o consenso científico indica que as mudanças climáticas aumentam a frequência e a intensidade dos eventos extremos, como chuvas fortes e ondas de calor.

Em entrevista à BBC Brasil, a meteorologista Josélia Pegorim explicou que "o intenso contraste térmico entre o ar muito quente e seco que predomina tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, com o ar frio e úmido trazido pela frente fria, acelerou, causando ventos fortes".

A situação pode se tornar mais grave, pois os efeitos do El Niño ainda não se fizeram sentir em toda a sua intensidade, sendo que os principais impactos vão aumentar gradualmente a partir de agora.

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o El Niño está associado ao aumento da frequência de temporais e riscos de enchentes no Sul; maior alternância entre períodos muito quentes e frentes frias no Sudeste; e de redução das chuvas em áreas das regiões Norte e Nordeste, aumentando o risco de estiagens.

Se no Brasil as consequências dos fenômenos meteorológicos provocam enchentes e alagamentos, na Europa o problema são as ondas de calor e incêndios que atingem vários países, com nível de destruição inédito, por isso difíceis de serem contidos.

Segundo a agência Reuters, os incêndios florestais forçaram evacuações sem precedentes de dezenas de milhares de pessoas na França e na Espanha. Na Alemanha, mais de nove mil pessoas morreram este ano devido a causas relacionadas ao calor.

Apesar de a maioria dos incêndios ser iniciada por atividade humana, o calor e a vegetação seca contribuem para a rápida propagação, dificultando o controle pelas equipes de combate ao fogo. A Europa é o continente que mais rapidamente se aquece no mundo.

À exclusão dos negacionistas empedernidos ninguém mais duvida que os fenômenos meteorológicos extremos são resultado das mudanças climáticas. Portanto, os países têm de se esforçar para cumprir as metas do Acordo de Paris para redução da emissão de gás carbônico, responsável pelo efeito estufa que provoca o aquecimento global.

Além disso, é preciso que adaptações sejam realizadas nas cidades para mitigar os impactos causados pelos fenômenos meteorológicos extremos, principalmente para reduzir a possibilidade de desastres com vítimas. Essa providência é cada vez mais urgente, pois o mundo terá de conviver ainda muito tempo com essa condição, antes que a humanidade consiga reduzir a emissão de carbono a níveis suportáveis pelo planeta. 

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