O Estado de S. Paulo
Quase não se investe na sociedade para que possa se adaptar e tirar proveito dos avanços
Existe um abismo entre o avanço da inteligência artificial (IA), governantes e instituições que precisam interagir com a tecnologia. Estou no fundo desse abismo. Mas resisto. Tirei férias da TV e direcionei meus estudos para o tema. Há muito que aprender com os mais avançados e com os próprios setores da tecnologia que reconhecem esse abismo e querem cooperar por entender que o impacto da IA será muito produtivo se a sociedade se preparar para ele.
Quando leio uma entrevista como a de Elon
Musk à The Economist ainda tenho algumas dúvidas. Musk prevê uma era de
abundância na qual todos serão contemplados, inclusive os mais pobres, com uma
renda mínima universal. É razoável supor que a riqueza será ampliada com a IA.
Mas é preciso explicar como teremos uma idade do ouro, com uma extraordinária
produção, se nossos recursos naturais são limitados, alguns deles tendem a
ficar escassos no futuro próximo. Como a riqueza humana se multiplicará quando
minguam os recursos naturais?
Nem Musk nem autores mais contidos entram
nesses detalhes. Em artigo intitulado O que a humanidade precisa para florescer
na nova década, três autores, Glen Weyl, James Evans e Chris White, mencionam
apenas os ajustes sociais à revolução da IA, mas não tocam no assunto dos
grandes eventos climáticos e da exaustão dos recursos naturais.
Minha suposição é a de que todos eles
acreditam na capacidade tecnológica de superar todos esses problemas. No caso
de Musk, a esperança de colonizar Marte adiciona mais um fator de
autoconfiança.
A conquista do espaço pode tornar supérflua a
preocupação com a escassez terrena. Mas o artigo de Weyl, Evans e White nos dá
uma boa ideia do que temos pela frente para avançarmos para mudanças que
revolucionarão nossas vidas. Há nela uma importante lembrança. Bilhões de
dólares são investidos na tecnologia da IA. No entanto, quase não se investe na
sociedade para que possa se adaptar e tirar proveito dos avanços. Não há
dinheiro para formar funcionários públicos, preparar políticos, fortalecer
grupos sociais para que sejam parceiros nesse empreendimento.
Um dos resultados dessa disparidade é o fato
de que os governos não são capazes de analisar um novo modelo de IA para
autorizar seu funcionamento. Musk sugere que as próprias empresas se reúnam e
analisem os lançamentos. Seria uma espécie de autoregulação por incapacidade
dos órgãos públicos.
Dá para confiar nos donos das empresas? Quem
lê a história da IA, constata que todos são idealistas no princípio, querem construir
algo para a humanidade. Mas a história da OpenIA mostra que quando se pensou em
dinheiro para manter o projeto, Musk e Sam Altman se separaram. Musk não
aceitava não ser o presidente e marcharia para construir a sua própria empresa.
Altman, por seu lado, passou a acreditar que só o monopólio interessava à
empresa, porque muitos competidores são bons para os usuários, mas não para o
empresário.
Em síntese, os mais claros impulsos
capitalistas passaram a dominar o campo. Com isso, abrem um espaço para um
competidor especial: a China. Não dá para abordar todas as questões em jogo.
Mas no tópico IA e democracia é necessário enfatizar a experiência do partido
japonês Team Mirai, um dos que mais crescem no País. É um partido atualizado
com a IA que processa as sugestões de seus simpatizantes e os transforma em
propostas concretas.
O Team Mirai foi criado por um engenheiro
eletrônico, Takashiro Anno, e teve um crescimento espetacular nas últimas
eleições japonesas. Esse salto tecnológico do Team Mirai o colocou à altura da
democracia digital. Os eleitores opinam diretamente e não precisam perder tempo
em fazer contato com os políticos.
A própria inteligência artificial os
entrevista e suas ideias são colocadas em painéis que orientam as decisões do
partido. Isso não significa que todos devam seguir o mesmo caminho nem que os
eleitores de outros países vão levar a sério a experiência como os japoneses.
Esses mecanismos democráticos, de alguma
maneira, já foram experimentados no Brasil, antes da IA. Curitiba, por exemplo,
tem uma interação com os moradores, responde às suas queixas, e os alista como
colaboradores. Com isso, ganha uma lista de pessoas que podem ser consultadas
em caso de obras ou projetos na sua área.
A verdade é que a IA vai multiplicar as
oportunidades no campo político. Infelizmente ainda precisa resolver muitas
coisas, uma delas no plano pessoal. Como proteger as pessoas de imitações, da
falsificação de sua voz e imagem? Há um debate intenso nesse campo, com
sugestões que certamente resolverão o problema. Mas estamos diante de
transformações muito amplas, correndo num ritmo alucinante comparado com o das
instituições sociais: o abismo pode se transformar em algo muito perigoso.
A iniciativa de um grupo político, um pequeno
partido que fosse, talvez pudesse alterar o rumo de governos e instituições
para o abismo e obrigasse a uma reflexão mais ampla sobre como se adaptar à
nova tecnologia, sobretudo um país com tanto futuro como o Brasil.

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