Folha de S. Paulo
Seus atos indicam e aplaudem a interferência
direta dos americanos nas eleições brasileiras
A moderação estava nos olhos de quem o
percebia como a única opção viável à direita pós-Lula
Deveras, os eventos históricos ocorrem duas
vezes, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. A cerca de três meses da
eleição de 2022, Bolsonaro reuniu diplomatas no Palácio da Alvorada e mentiu
sobre a confiabilidade do processo eleitoral, sendo por isso condenado à
inelegibilidade por oito anos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A três meses da eleição de 2026, Flávio
Bolsonaro, o filho, reuniu diplomatas em Brasília e mentiu ao
afirmar que as urnas eletrônicas brasileiras tinham a mesma origem de uma
empresa venezuelana, vociferando falsamente contra a confiabilidade do processo
eleitoral. O paralelo é evidente.
Pode-se ler o evento como uma renúncia, ao
menos parcial, à estratégia adotada até o momento pela campanha de Flávio
Bolsonaro de figurá-lo como um político moderado, e não um golpista apoiador de
torturadores e facínoras como seu pai. Argumento, no entanto, que esta leitura
é errada. Flávio Bolsonaro nunca foi um moderado, nem finge sê-lo; a moderação
estava nos olhos de quem o percebia como a única opção viável à direita
pós-Lula.
Nada do que Flávio fez em relação aos EUA aponta para a moderação; pelo
contrário, seus atos indicam e aplaudem a interferência direta dos americanos
nas eleições brasileiras. Flávio pediu aos EUA apenas o adiamento —e não o
cancelamento total— das tarifas ao Brasil, flertou com a ideia de cassar
ministros do STF no Senado para preservar o interesse das plataformas
americanas, e, apesar de em tese ter elogiado o Pix, foi sua família que abriu
a porteira contra o Pix. Flávio é visto como Tariflávio pela maioria dos eleitores
(vide pesquisa Quaest) e em 8 de cada 10 mensagens de grupos de WhatsApp e
Telegram (vide monitoramento da Palver).
Flávio, o não moderado, é o mesmo que homenageou, como deputado estadual,
miliciano acusado de chefiar o Escritório do Crime (lembram do Adriano da Nóbrega?); o mesmo que já foi acusado de fazer
rachadinha com o salário de seus funcionários (lembram do Queiroz, chefe de
gabinete de Flávio na Alerj?). Flávio é tão moderado quanto um miliciano é um
democrata.

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