O Globo
Há semanas, Flávio Bolsonaro movia-se leve e
solto, e as pesquisas indicavam seu ligeiro favoritismo
A política é soberana, desafia o senso comum,
desautoriza especialistas apressados e oráculos de botequim. Compreende uma
vertiginosa associação de variáveis distintas, além da imprevisível conduta dos
atores. Nada sendo constante, não permite antecipar resultados. É produto da
ação social.
Há semanas, Flávio Bolsonaro movia-se leve e solto, e as pesquisas indicavam seu ligeiro favoritismo. Já o presidente Lula vivia novo ciclo de desgaste; dúvidas sobre sua candidatura pairavam no ar seco de Brasília. Mas a revelação das relações perigosas de Flávio iniciou uma inflexão nas curvas dos gráficos das pesquisas. Para piorar, a imprudência de sua trupe, nos Estados Unidos, disparou um tiro de bazuca nos pés do senador.
A comédia de erros, associada aos
ressentimentos familiares, despertou a sensação de que, sem controle, a
hemorragia pode se agravar. O processo abalou as esperanças do bolsonarismo.
Fora dele, fica o sentimento de que, se a ação presente o condena, o zelo com o
futuro não pode recomendá-lo.
Hoje, o filho de Jair
Bolsonaro cai nas pesquisas, sem despencar. É o suficiente para que o
Centrão o abandone, mas pouco para ser substituído no campo conservador, com
menor comprometimento político e moral. O bolsonarismo é fenômeno consolidado
tanto quanto o lulismo. Seu teto é baixo, mas o piso permanece elevado. O
sobrenome natural foi patenteado como patrimônio eleitoral e não será repassado
a terceiros.
A perspectiva de vitória de Lula mostra-se
mais robusta do que há alguns meses. Não fossem a autonomia da política e sua
mania de conduzir ao erro, a reeleição já estaria definida.
Mas qual lance genial, estratégia ou projeto
de governo contribuiu para mudar o quadro? Há políticas públicas e medidas
emergenciais importantes; o controle sobre a máquina pública é sempre uma
vantagem. No entanto não configuram um projeto articulado política, econômica e
socialmente. A ação do governo nem sequer resvala nisso. Resta a percepção de
que Lula é um sujeito de sorte, favorecido, sobretudo, pelos erros do
adversário.
A equivalência entre as duas gestões é
injusta, mas Lula se diferencia, basicamente, por não ser Jair Bolsonaro. Já é
um ativo eleitoral, pouco, no entanto, para dissipar desconfianças, expressar
sonhos ou esperanças em períodos de desalento. Não aponta para novo mandato com
governabilidade, capacidade de agenda e transformações necessárias. Na
limitação dos horizontes políticos, governo e partido parecem perdidos e sem
imaginação.
Como Bolsonaro, Lula tem um alto piso de
votos. Seu teto se eleva menos por mérito do governo do que por danos causados
ao país (e a si mesmos) pelos adversários.
Nesse ambiente de volatilidade, uma parcela —
menor, mas decisiva — do eleitorado também oscila na vibração das ondas de
comunicação, qual plumas ao vento. Mesmo com o bônus do caos bolsonarista, o
governo não está livre de constrangimentos e desgastes que agudizem o mau humor
e a dúvida nesse perfil de eleitor. A reta final de campanha, sempre perigosa,
pode redefinir o placar, sem chances de reação.
Vantagens obtidas apenas pelos erros do
adversário iludem. O antipetismo, circunstancialmente minoritário, aposta nas
viradas de jogo por meio de escorregões do presidente; comprometimento de
aliados; soberba do “já ganhou” e a perspectiva de poder continuado, que
potencializa vaidades. E, claro, pela ingenuidade dos que se encantam com
holofotes.
O sábio cresce na observação. Prudente,
assimila lições no leite derramado pelos outros; antecipa-se às armadilhas e
torna sua ação política soberana. Tolo é aquele que só aprende com os próprios
erros.
*Carlos Melo, cientista político, é professor e coordenador do Observatório da Política do Insper

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