O Globo
Disputa de 2026 encerra um ciclo de
polarização, e uso massivo da IA e interferência dos EUA na disputa tornam
incerta reação do eleitor e resposta das instituições
Há alguns paralelos possíveis entre a eleição
de 2026 e as que a antecederam, mas pelo menos três fatores conferem a ela um
grau de ineditismo e devem ditar a tônica da disputa.
O primeiro é histórico: trata-se, qualquer
que venha a ser o resultado das urnas, do encerramento do ciclo de polarização
entre bolsonarismo e lulopetismo inaugurado em 2018. A escolha de Flávio
Bolsonaro pelo pai, Jair, para lhe suceder deu sobrevida a esse antagonismo,
que chega a sua terceira versão. Na inauguração dessa era, foi Jair contra o
“candidato do Lula”. Quatro anos depois, houve o acirrado confronto direto
entre os dois líderes personalistas. E, agora, Lula tenta o quarto mandato
enfrentando o herdeiro do clã adversário.
Não haverá em 2030 reedição dessa contraposição que tem impedido, à esquerda, à direita e ao centro, o surgimento de uma nova força política. Desde 2018, qualquer um que se apresente como alternativa a essa escolha maniqueísta tem recebido do eleitor o tratamento de “nanico”, e as pesquisas, até aqui, não permitem dizer que seja diferente neste ano.
O segundo fator distintivo do pleito de 2026
é a inteligência artificial, que entra pela primeira vez numa eleição
presidencial como ferramenta de uso maciço. Tecnologias capazes de produzir
vídeos, imagens, vozes e textos praticamente indistinguíveis dos reais deixam
de ser curiosidade tecnológica para se transformar em instrumentos de campanha.
Não se trata apenas do risco dos deepfakes. A IA permite produzir propaganda em
escala inédita, adaptar mensagens para públicos específicos e alimentar redes
de influência a custo infinitamente menor que no passado.
A Justiça Eleitoral passou os últimos anos
tentando construir resoluções para conter a desinformação nas redes sociais e
disciplinar o uso da IA. Mas, no primeiro teste concreto da legislação, com o
vídeo de Jair Bolsonaro de IA na convenção que oficializou a candidatura do
filho, as brechas da resolução se mostraram enormes, abrindo grande dose de
subjetividade nas decisões que o Tribunal Superior Eleitoral tomará nesse e nos
casos que forçosamente lotarão seus escaninhos.
Especialistas divergem há muitos anos sobre o
peso das tecnologias na vontade do eleitor. Foi assim com as redes sociais, com
o uso de disparos em massa por aplicativos como WhatsApp e Telegram e, agora,
com a IA. Se não existe consenso quanto a esse impacto, um fato é inequívoco: a
legislação e a Justiça estão sempre muitos passos atrás da realidade que se
apresenta nas campanhas, e os políticos estão cada vez mais dispostos a testar
os limites para ver no que dá.
O terceiro signo sob o qual transcorrerá a
campanha que começa agora é a interferência inédita dos Estados Unidos numa
eleição brasileira desde a redemocratização. Declarações públicas, pressões
diplomáticas, sanções e manifestações de Washington sobre decisões do Supremo
Tribunal Federal, que começaram ainda no ano passado, se intensificam com a
aproximação do pleito e viraram tema inescapável do debate entre Lula e Flávio.
O escrutínio que o eleitor fará dessa conjuntura parece ainda em aberto.
Num primeiro momento, esse movimento
interessou à direita, que buscou transformá-lo em validação internacional de
sua narrativa sobre liberdade de expressão e ativismo judicial. Mas as
pesquisas, até aqui, mostram mais rejeição que apoio do eleitorado, inclusive
do conservador, a essa interferência externa explícita.
Diante desses três eixos, a eleição de 2026
se mostra como transição entre um ciclo político e outro de contornos incertos.
Estarão em jogo, além da tradicional disputa política e das condições da
economia, o impacto de tecnologias capazes de mudar a percepção da realidade e
a atuação aberta de uma superpotência em temas internos — e como esse novo
cenário ditará a escolha do eleitor e a capacidade de resposta das instituições
brasileiras.

Um comentário:
Excelente análise, bem informativa. Parabéns à colunista, e ao blog por divulgar este texto.
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