segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Existem boas ideias na educação — só falta espalhá-las

Por O Globo

Resultado do Pisa mostra que aluno valoriza os professores e costuma receber atenção deles

Nem tudo é má notícia na educação brasileira. Pelo menos a motivação dos professores é valorizada pelo aluno, como constatou a última edição do Pisa, a avaliação internacional promovida pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No ano passado, 82% dos estudantes avaliaram positivamente seus professores, mantendo o patamar verificado em 2015 (81%). Para 78%, os docentes persistem até que o aluno entenda a lição. E 76% afirmam receber ajuda adicional, fora do tempo de aula, para compreender a matéria. Nesses quesitos, os alunos brasileiros tiveram desempenho melhor ou comparável aos da OCDE.

Há diversos exemplos de uso da criatividade em sala de aula para facilitar o ensino. Um dos meios para isso, como mostrou reportagem do GLOBO, tem sido a tecnologia digital. A professora de história Pâmela Barros Ferraz, de Manaus, desistiu da carreira de cantora para entrar no magistério. Mas aproveita a experiência levando paródias musicais para a sala de aula ou ao canal do YouTube onde apresenta clipes dessas canções educativas. Ao fim de cada conteúdo, as músicas são cantadas e funcionam como revisão do que foi estudado. “A mente do jovem é muito rápida, e o uso das paródias, além de divertir e levar algo diferente para a sala de aula, traz essa velocidade”, diz ela.

Quem também usa o canto nas aulas de alfabetização é a professora do ensino fundamental Carline Geraldi. Ela conta que na igreja lembrava as pregações cantando. Passou a fazer o mesmo para seus alunos e, em 2024, lançou no YouTube um vídeo em que ensina o alfabeto a uma turma do 3° ano do ensino fundamental. Em uma semana, o vídeo alcançou 10 milhões de visualizações. “Temos muitas crianças desassistidas, com dificuldade na alfabetização”, diz ela. “A partir do momento em que comecei a usar essas estratégias, atingi esses grupos, consegui reter a atenção do aluno com mais dificuldade. A gente desenvolve a memória, a atenção, a expansão da linguagem, raciocínio lógico e coordenação motora com a música.”

Outro recurso usado para aprendizado têm sido os jogos digitais, em especial no ensino técnico. “Quando o professor consegue traduzir o conhecimento para uma linguagem próxima ao aluno, ele mostra que aprender não é algo desconectado da vida real”, afirma Rafael Cunha, diretor da rede de ensino profissionalizante Microlins, do grupo educacional MoveEdu. “O desafio é o equilíbrio em usar o entretenimento como conexão ao conhecimento, e não como objetivo final da aula.”

Nada disso exime os docentes de fazer o básico. A interatividade digital por si só não garante aprendizagem. O professor ainda precisa dominar a matéria que ensina, saber o que pretende desenvolver e como. Mas tais exemplos apontam caminhos promissores para o Brasil recuperar a queda verificada nas médias do Pisa (3 pontos em Ciências, 15 em Leitura e 9 em Matemática). O melhor cenário é o ensino brasileiro se aproximar do nível dos países desenvolvidos por sua própria evolução, respeitando as características locais. Para isso, as autoridades devem entender e disseminar pelo país as práticas que têm dado bom resultado.

Frustração de imposto sobre dividendos expõe risco de medidas populistas

Por O Globo

Previsão inicial era recolher R$ 29 bilhões. Pela estimativa ainda otimista, total será de R$ 10,5 bilhões

Para compensar a perda de arrecadação com as novas faixas do Imposto de Renda estabelecidas no ano passado, o Congresso decidiu taxar rendimentos com dividendos. No discurso populista, a medida tiraria dos “ricos” para isentar os “pobres”. A estimativa inicial era recolher R$ 29 bilhões ao longo de 2026. A realidade não demorou a desmentir o otimismo. Em julho, a previsão caiu para R$ 17,2 bilhões. Nos meses seguintes, o resultados continuaram desanimadores. De janeiro a agosto, o total arrecadado não passou de R$ 4 bilhões, como mostrou reportagem do GLOBO. O governo então voltou a reduzir a projeção, agora para R$ 10,5 bilhões.

É certo que não é trivial estimar a arrecadação com novos impostos. Premissas como a taxa de crescimento podem ser afetadas por diversos fatores, nem todos sob controle. Em circunstâncias mais voláteis, as empresas tendem a manter dinheiro em caixa em vez de distribuir. Ainda assim, a conclusão é inescapável: a equipe econômica errou feio o alvo. Aparentemente, como diversos economistas sérios haviam avisado, não havia tanto dinheiro assim a recolher com a taxação dos dividendos.

O erro não é indolor. A meta de superávit primário para este ano é de R$ 34,3 bilhões (com uma margem de tolerância que permite até resultado zero). Até o início da semana passada, a promessa do governo era ficar R$ 10,8 bilhões no azul. Agora, o objetivo é o piso. Nem no último ano do mandato, o governo pretende entregar resultado positivo. Nos últimos três anos, registrou déficits sucessivos, e o endividamento não parou de crescer. Desde 2023, a lista de gastos excluídos do cálculo das metas fiscais sob os mais diversos pretextos tem sido imensa.

Em relatório publicado na quinta-feira, o Ministério do Planejamento reconheceu que a queda da arrecadação exigiu mudanças nos cálculos. Em vez de um superávit primário, as novas projeções apontavam um déficit primário de R$ 13,6 bilhões. Diante da nova situação, foi anunciado um contingenciamento de R$ 13,6 bilhões e um bloqueio de R$ 2,4 bilhões. Na quarta-feira, dia 16, o Tribunal de Contas da União (TCU) já fizera um alerta sobre os riscos das previsões irrealistas sobre o imposto dos dividendos.

O governo se defende dizendo que a arrecadação extraordinária com o imposto de exportação sobre petróleo bruto, criado para subsidiar os combustíveis no mercado interno, deixará saldo positivo — a cada US$ 1 de aumento da cotação do barril, a arrecadação cresce R$ 2 bilhões, segundo o Banco Santander. Mas uma coisa nada tem a ver com a outra. Ainda que o governo consiga fechar 2026 cumprindo as metas fiscais, as previsões fantasiosas sobre a arrecadação com dividendos deveriam servir de ensinamento. Efeitos nocivos de isenções ou aumento de gastos não se resolvem na base do improviso. Medidas populistas custam caro. E nem o Executivo nem o Congresso parecem ter aprendido essa lição.

Afago corporativista a Gonet fulmina credibilidade do MP

Por Folha de S. Paulo

Órgão máximo do Ministério Público não vê razões para afastar o procurador-geral de ações do caso Master

Quando autoridades se protegem mesmo havendo elementos de má conduta, é a crença no princípio da igualdade diante da lei que fica abalada

Diante da marcha rumo à desmoralização da cúpula do Judiciário, o Conselho Superior do Ministério Público Federal decidiu poupar o procurador-geral da República, Paulo Gonet, de incômodos pela sua condução no escândalo do Banco Master. O beneplácito corporativista não surpreende, mas aprofunda a corrosão da autoridade do sistema de Justiça no país.

Responsável pela fiscalização da Carta e pelas ações penais no Supremo Tribunal Federal (STF), Gonet aparece em relatório da Polícia Federal em situações de confraternização com o entourage do mafioso Daniel Vorcaro. A imagem da noite de charutos e uísque em Londres deveria bastar para afastá-lo de atuar nesse caso.

Infelizmente, ele tem seguido a regra geral da desfaçatez das altas autoridades flagradas em relações, das apenas festivas às contratuais, com a teia do Master. Numa velocidade incomum, apressou-se a considerar inválido o documento, enviado pelo ministro André Mendonça ao presidente Edson Fachin, em que ele mesmo, Gonet, é mencionado.

Já quando Mendonça decretou a prisão preventiva da tropa de assalto de Vorcaro, chamada de "A Turma", o procurador-geral não se apurou tanto e pediu mais tempo para avaliar se elementos que confabulavam sobre agredir um jornalista, entre outras ações de jagunçagem, deveriam ser recolhidos à prisão. O ministro relator lhe passou uma justa carraspana e ordenou a detenção.

Tampouco se conhecem quaisquer iniciativas de Paulo Gonet acerca de outro documento da PF, de 196 páginas, com indícios de relações impróprias do ministro Dias Toffoli com a quadrilha do Master. E há sete meses se conhece esse relatório.

A passividade de Gonet nesses casos não tem sido a melhor maneira de exercer a fiscalização da lei em nome dos cidadãos. Para além dessa crítica, o fato de ser mencionado no relatório em situações que mereceriam aprofundamento e de ter festejado gostosamente às expensas do fraudador deveriam ensejar afastamento imediato da causa.

Não foi o que julgaram nove dos nove conselheiros do órgão máximo do Ministério Público, que mantiveram o colega Gonet à frente das ações do Master.

O pedido para abrir investigação a respeito dos atos de Paulo Gonet foi rejeitado por cinco deles. O voto de minerva coube ao subprocurador Nicolao Dino, irmão do ministro Flávio Dino, pivô da manobra que no Supremo protelou para data incerta a decisão sobre a abertura de inquérito em face de Alexandre de Moraes.

Quando autoridades do mais alto nível incumbidas do sistema de Justiça se protegem diante de elementos clamorosos de má conduta, é o princípio da República que se abala. Todos são iguais diante da lei? O exemplo que vem de cima estimula os brasileiros a responder não a essa pergunta.

Como o regime das liberdades depende da crença na imparcialidade dos agentes que distribuem o direito, aqui o Brasil vai mal.

Fazer mais com menos

Por Folha de S. Paulo

Ranking da Folha mostra que ter cofres cheios não garante serviços de qualidade à população

Mesmo com a menor receita per capita, Ceará fica em 2º lugar; governantes precisam focar na gestão racional do dinheiro do contribuinte

A publicação da segunda edição do Ranking de Eficiência dos Estados (REE-F), desenvolvido pela Folha em parceria com o Datafolha, lança luz sobre uma contradição incômoda do federalismo brasileiro.

A abundância de recursos financeiros nos cofres públicos não se traduz, necessariamente, em melhores serviços de saúde, educação, segurança e infraestrutura para o cidadão.

Ao cruzar indicadores de áreas fundamentais com a receita corrente líquida per capita de cada unidade da Federação, o levantamento demonstra que a capacidade de gestão e a continuidade das políticas públicas são aspectos mais relevantes do que o volume de caixa disponível.

Os dados desmistificam a tese de que apenas a falta de verbas explica os gargalos na máquina pública, já que os estados que lideram a disponibilidade financeira por habitante amargam as piores posições na lista.

É fato que a região Norte enfrenta desafios geográficos, como a baixa densidade populacional e as imensas distâncias territoriais que encarecem a logística de serviços essenciais.

No entanto essa realidade não justifica inteiramente o mau desempenho da região. Indicadores críticos persistem mesmo em áreas urbanas e capitais, onde a escala populacional deveria facilitar o atendimento.

Em contrapartida, o Ceará consegue alcançar a vice-liderança, mesmo ostentando a menor receita per capita do país. Trata-se do fruto de duas décadas de cooperação entre o governo estadual e os municípios.

Paraná ficou na primeira colocação, e São Paulo, na terceira. No fim da lista, está o Amapá, cuja receita per capita é mais que o dobro da paranaense.

Essa discrepância revela que o problema central do setor público brasileiro está na alocação e no monitoramento do dinheiro. Persistem sistemas de saúde regionais desintegrados, redes de ensino sem apoio pedagógico contínuo e investimentos irrisórios em saneamento básico.

É inaceitável que gestores continuem a atribuir carências unicamente à restrição orçamentária, enquanto ignoram falhas administrativas evidentes ou mantêm o comprometimento excessivo de receitas com despesas operacionais e de pessoal.

A função primordial da administração pública é entregar serviços de excelência ao menor custo para o contribuinte. Ao evidenciar boas práticas e revelar gargalos, o ranking oferece uma ferramenta para que a sociedade exija maior racionalidade no uso dos recursos disponíveis.

Dino atua para reeleger Lula

Por O Estado de S. Paulo

Com sua decisão política de confrontar o TSE e restabelecer fake news contra Flávio Bolsonaro, o ministro deixa claro que não há limites para ajudar a campanha do chefão petista

Foi exclusivamente política a decisão que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomou ao derrubar uma ordem do ministro André Mendonça, na condição de vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para remover publicações em redes sociais que prejudicavam o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.

Dino atropelou competências de maneira monocrática e atuou de forma escancarada como militante da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Nada surpreendente, diante da baderna judicial à qual infelizmente o País já começa a ficar habituado, graças à irresponsabilidade de uma parte dos ministros do Supremo.

Na sexta-feira passada, o ministro André Mendonça mandou tirar do ar 1.125 publicações segundo as quais Flávio Bolsonaro, na condição de senador, havia apoiado um projeto de lei para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de “padroeira do Brasil”. A informação, inverídica, foi criada e difundida por perfis de esquerdistas.

Pode-se até discutir se o TSE deveria ter derrubado as publicações, à luz da garantia constitucional da liberdade de expressão e também à luz da autonomia do eleitor, mas o que é indiscutível é a competência da Justiça Eleitoral para fazê-lo – e de modo célere, se entender que as publicações podem desequilibrar a disputa eleitoral.

O ministro Flávio Dino, recorde-se, é o mesmo que ignorou as garantias constitucionais do sigilo da fonte e da liberdade de imprensa ao usar seu poder para perseguir um jornalista do Maranhão, seu reduto político, por ter publicado notícias das quais ele não gostou. Recorde-se também que o ministro Flávio Dino jamais disse uma única palavra contra as inúmeras decisões arbitrárias de seu colega Alexandre de Moraes contra bolsonaristas suspeitos de “golpismo”, incluindo censura e suspensão de perfis em redes sociais. Logo, sua súbita conversão em paladino da defesa da liberdade de expressão é apenas cínica.

Nada disso pode ser lido fora do contexto da sangrenta rinha de galo em que o Supremo mergulhou, opondo lulistas e bolsonaristas. Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula e fidelíssimo escudeiro do presidente, foi colocado no STF porque, nas palavras do petista, tem “cabeça política”. E ele não vem decepcionando: está na linha de frente na defesa dos interesses de Lula no tribunal, sobretudo quando se trata de confrontar os ministros indicados por Jair Bolsonaro – André Mendonça e Kassio Nunes Marques.

O resultado disso é que, de uns tempos para cá, quase todas as decisões importantes emanadas da Corte são entendidas como resultado de confronto político, e não jurídico. A Constituição é mera figurante nessa confusão. Nos votos dos ministros, a hermenêutica é exclusivamente política, e o que resta aos cidadãos é procurar entender quem ganha e quem perde com esta ou aquela sentença. Às favas a jurisprudência.

É evidente que isso desmoraliza ainda mais o Judiciário, já bastante desacreditado, como indicam claramente inúmeras pesquisas de opinião. Ministros que só se preocupam com o horizonte eleitoral colaboram de modo decisivo para arruinar a necessária imagem de imparcialidade e prudência que o Supremo, mais do que qualquer outro tribunal, deveria ter. Hoje, já é possível dizer que o Supremo, tal como desenhado na Constituição, está definitivamente arruinado.

Para piorar, mais uma vez o País está perdendo tempo e energia com temas absolutamente inúteis para o futuro, empobrecendo ainda mais uma campanha eleitoral que já não despertava grande interesse por sua absoluta indigência. Na prática, a consequência desse irrelevante caso de fake news contra Flávio Bolsonaro será a confirmação, de resto desnecessária, de que os agentes de Lula no Supremo não medirão esforços para eleger o chefão petista – uma clara aposta na manutenção do atual estado de coisas e na nomeação de mais ministros que tornem o bloco lulopetista no Supremo imbatível. O problema é que se trata de algo tão escandalosamente claro para todos que o tiro pode acabar saindo pela culatra.

Reforma do Judiciário já

Por O Estado de S. Paulo

É preciso eleger políticos comprometidos com uma ampla reforma do Judiciário, cuja crise ameaça a própria democracia. Urge resgatar a autoridade moral dos tribunais superiores

O Judiciário existe para que a força não decida quem tem razão. Daí o paradoxo do poder judicial: para arbitrar conflitos e impor a lei até aos poderosos, o juiz precisa de autoridade; para que essa autoridade seja legítima, precisa aceitar limites que ele próprio não escolhe. No Brasil, essa autoridade vem se degradando por uma Justiça que demora a transformar decisões em resultados e que confunde o poder da instituição com a vontade de quem o exerce – do que resulta uma profunda crise de credibilidade que ameaça a própria democracia.

A Justiça brasileira é cara, lerda e muitas vezes arbitrária, mas está longe de ser uma máquina parada. Em 2025, os tribunais baixaram 45 milhões de processos e reduziram o estoque sob demanda recorde. Mas decidir é só parte do trabalho: a execução segue mais lenta que o reconhecimento do direito. Uma sentença que leva anos para sair do papel preserva pouco do valor que prometia entregar.

Parte da sobrecarga nasce fora dos fóruns. O próprio Estado está entre os maiores litigantes, ao lado de bancos e outros agentes habituais. Decisões administrativas repetitivas, cobranças pouco promissoras e recursos padronizados despejam conflitos no sistema. Processá-los mais depressa ajuda, mas não resolve. Administrações e grandes litigantes precisam ajustar suas rotinas aos precedentes e deixar de reproduzir causas conhecidas. Esse uso industrial da Justiça convive com cidadãos para quem custo, demora e complexidade ainda erguem barreiras.

No STF, a crise é de outra natureza. A Corte exerce funções indispensáveis à ordem constitucional, mas acumula competências amplas demais. Para piorar, relatoria, cautelares, prevenção, conexão e controle do tempo podem dar a um ministro poder para produzir efeitos decisivos antes do colegiado. O debate sobre monocratismo capta só parte dessa distorção. A questão é quanto da autoridade da Corte permanece institucional e quanto depende da latitude de cada gabinete.

Competência, juiz natural, contraditório e colegialidade tornam o poder impessoal. A gravidade de uma crise não cria competências nem suspende garantias. Instrumentos excepcionais só são legítimos dentro das regras que os autorizam; sem prazo, controle e caminho de retorno, subvertem-se em arbitrariedade nua e crua.

O desenho institucional não absolve juízes e tribunais de suas escolhas. Regras melhores reduzem a dependência da virtude pessoal, mas não eliminam a responsabilidade de quem exerce o poder. Autocontenção, respeito às formas, afastamento diante de conflitos de interesse e discrição fazem parte do ofício. Corporações que defendem prerrogativas legítimas não podem converter privilégios em extensão da independência judicial.

Partidos, Congresso e Executivo também alimentam a concentração de poder no STF quando levam à Corte conflitos que não conseguem resolver na política. Ainda assim, proteger um direito constitucional e substituir uma escolha que a Constituição deixou aberta aos representantes eleitos são coisas bem diferentes. Uma Corte que legisla no lugar do Congresso, dita políticas públicas no lugar do Executivo ou se confere uma espécie de juízo universal de defesa da democracia é uma Corte antidemocrática.

Na Justiça cotidiana, será preciso transformar decisões em resultados e reduzir a reprodução de litígios. As instâncias precisam receber autoridade compatível com sua função, enquanto os tribunais superiores devem se concentrar em questões gerais, precedentes e uniformização. No STF, transformar poder pessoal em autoridade institucional exigirá redução de competências, controle colegiado tempestivo de liminares, regras mais impessoais de distribuição e relatorias, limites a poderes excepcionais e responsabilização por desvios sem submeter magistrados ao governo ou às maiorias do momento.

O Estado Democrático de Direito perde com uma política judicializada, e perde com uma Justiça politizada; perde quando o juiz é intimidado ou instrumentalizado pelos jogadores, e perde quando ele abandona o apito para jogar o jogo. O Judiciário de que o Brasil precisa deve ser “apenas” o árbitro do Contrato Social e dos contratos privados. E mostrar, pela ética de seus magistrados e pelo desenho de suas instituições, que as regras também valem para ele.

O direito à licença-maternidade

Por O Estado de S. Paulo

STF faz o certo ao padronizar a licença em 120 dias e estendê-la a mães adotantes

Por unanimidade, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram que as mães biológicas e as mães adotantes têm direito a 120 dias de licença-maternidade, prorrogáveis por mais 60 dias, para ficar com seus filhos recém-nascidos ou recém-adotados. A Corte também entendeu que esses mesmos prazos valem tanto para as trabalhadoras celetistas quanto para as servidoras públicas, civis ou militares. A um só tempo, o STF corrigiu dois erros: o primeiro era conferir a uma mãe adotante menos direitos do que uma mãe biológica, e o segundo era tratar de forma desigual uma mãe servidora pública e uma mãe celetista. Agora, todas as mães têm direitos iguais.

Isso só foi possível porque a Procuradoria-Geral da República (PGR), sob o comando interino da subprocuradora-geral Elizeta Maria de Paiva Ramos, ajuizou em 2023 uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) para contestar as discrepâncias nos tratamentos dispensados às mulheres em diversas leis brasileiras. Foram questionados dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), do Estatuto dos Servidores Públicos Civis da União, da Lei Orgânica do Ministério Público da União, do Programa Empresa Cidadã e da lei que versa sobre licenças nas Forças Armadas.

Enquanto a CLT prevê que a mãe biológica ou adotante tem o direito a 120 dias de licença-maternidade, o Estatuto dos Servidores Civis da União prevê, por exemplo, 90 dias de licença para a mãe adotante com filho de até 1 ano de idade e apenas 30 dias para a mãe adotante com filho acima de 1 ano de idade. Não é preciso ser um exímio constitucionalista para constatar uma flagrante violação de princípios constitucionais, como o da igualdade, o da proteção da maternidade e, sobretudo, o da proteção integral da criança.

Na petição inicial da ação de inconstitucionalidade, a PGR queria ir além: a subprocuradora-geral Elizeta Maria defendeu o compartilhamento do período de licença entre as mães e os pais. Acertadamente, o pedido foi rejeitado pelos ministros, seguindo a manifestação da Advocacia-Geral da União (AGU), sob o argumento de que há riscos de “impactos trabalhistas, estatutários e previdenciários não mapeados” com a criação de novos regimes – ou seja, impactos financeiros –, além de se tratar de tema a ser disciplinado pelo Congresso.

O STF não reconheceu a licença-maternidade apenas como um direito de todas as mães, vedando quaisquer formas de discriminação, mas a reconheceu também como um direito de todos os filhos, sejam eles biológicos ou adotivos, independentemente de sua idade. A decisão assegurou que, a partir de agora, toda criança e todo adolescente têm o direito de estar com suas mães tão logo sejam acolhidos em seus lares, para que possam desfrutar do adequado tempo de convívio com a família, pouco importando a sua origem ou o regime jurídico de trabalho da mãe. Nesses casos, o Direito admitiu que mais importante que as relações jurídicas é o afeto.

BC vê piora no cenário de inflação, que IPCA-15 confirma

Por Valor Econômico

Seja quem for o vencedor terá de encarar o desafio de corrigir uma das principais fontes da desancoragem das expectativas inflacionárias: o desequilíbrio das contas públicas

O comportamento da inflação foi benigno nos últimos dois meses, mas isso parece já ter terminado. Um dia depois de o relatório de política monetária do Banco Central prever mais pressão sobre os preços e avanço de 0,65% para o IPCA de setembro, o IPCA-15 do mês superou todas as expectativas e atingiu 0,7%. A deflação dos alimentos ficou para trás. Como esperado, o efeito do bônus de Itaipu nas contas de energia, que provocou queda do IPCA-15 de 0,4% no mês anterior, foi pontual, e os custos da habitação foram os que mais subiram entre as 9 categorias do índice, 2,07%. Houve uma trégua, mas, segundo o relatório do BC, "apesar das perspectivas para a inflação em 2026 terem se reduzido, as expectativas de inflação para 2027 e 2028 continuaram a se deteriorar".

A piora relativa do cenário torna mais problemática a continuidade de cortes da taxa Selic. Quando o BC resolveu continuar reduzindo os juros em junho um dos argumentos foi de que, no horizonte relevante da política monetária, ainda não contemplado então (o primeiro trimestre de 2028), a inflação se situava pelos seus modelos em 3,2% e que a manutenção da enorme restrição monetária levaria o IPCA abaixo da meta de 3%. O BC mantém a mesma projeção no cenário de referência no período, de 3,2%, mas considera que a trajetória vislumbrada para a Selic "é de modo geral, ligeiramente mais alta que no RPM anterior, embora permaneça a perspectiva de queda gradual nos juros".

O balanço de riscos continua assimétrico, a favor da alta da inflação. Entre os fatores desse desequilíbrio estão a estimativa de um hiato do produto mais alto. No segundo trimestre, esse hiato (distância positiva ou negativa do crescimento em relação a seu potencial) foi de 0,5%, mas a desaceleração que já se manifestou com força no PIB do segundo trimestre, e deve continuar ao longo de 2026, levaria esse número a -0,4% no terceiro trimestre de 2027. Essa transição, conjugada com a política monetária restritiva, propiciaria a queda da inflação para 3,9% no último trimestre do ano que vem, 3,2% no primeiro de 2028 e 3,1% a partir do segundo trimestre daquele ano até o início de 2029. Esses números pressupõe a queda dos juros no ritmo previsto pelo Focus, de 12% no fim de 2027.

A desaceleração da economia já observada é significativa e fez o BC mudar suas projeções para o crescimento da economia em 2026, para 1,8%, e mais ainda em 2027, 1,4%, em linha com os analistas privados. Tensões geopolíticas, juros em alta no cenário externo, aumento dos preços do petróleo e a quase certeza de um El Nino muito forte este ano, que seria mais prolongado do que os anteriores, porém, colocam um grau muito elevado de certeza sobre as projeções - não só as do BC.

Choque de ofertas, segundo o BC, não são combatidos prioritariamente pela política monetária, que procura atacar seus efeitos secundários. Eles não apareceram até agora e mesmo os efeitos primários foram mitigados por subsídios a gasolina, diesel e etanol, que impedem o repasse dos preços efetivos aos consumidores. A pesquisa Firmus, a irmã da Focus para empresas privadas, mostrou que 50% das companhias pesquisadas não mudaram os preços de seus produtos, 64% delas não tiveram dificuldades para comprar insumos e a mesma percentagem não registrou alteração na demanda doméstica, apesar de alguma pressão nos custos. A trégua da guerra contra o Irã permitiu um recuo dos preços de ureia e dos fertilizantes às vésperas do plantio, aliviando a pressão sobre os custos dos agricultores. Além disso, "não se observam sinais de aumento da inflação em segmentos presumidamente pouco expostos ao aumento dos preços de petróleo e derivados".

Os efeitos de segunda ordem sobre os salários também não se manifestaram. Ainda que o mercado de trabalho se mantenha aquecido, tem havido moderação nos aumentos salariais, tanto nominais quanto reais. A média dos reajustes salariais obtidos em convenções coletivas caiu de 5,7%, quando a guerra no Golfo começou, em fevereiro, para 5,1% em agosto.

Um PIB menor será acompanhado, espera o BC, de melhora gradual do resultado primário estrutural das contas públicas. Os déficits primários evitam a queda da inflação, embora o BC não o aponte no relatório. A projeção de crescimento considera ainda a diminuição do impulso creditício e menor contribuição da agropecuária e da indústria extrativa para o crescimento.

Os próximos meses serão decisivos para que o BC decida se interrompe ou não por algum tempo os cortes de juros. Seu cenário de referência contempla dois trimestres com o IPCA acima do teto da meta (5,2% e 4,9% no último trimestre deste ano e no primeiro de 2027), quando o contexto inflacionário será, ao contrário dos últimos dois meses, possivelmente mais adverso. É o período pós-eleitoral, que pode mudar as expectativas para a economia. Seja quem for o vencedor, porém, terá de encarar o desafio de corrigir uma das principais fontes da desancoragem das expectativas: o desequilíbrio das contas públicas.

Um novo caos aéreo?

Por Correio Braziliense

O setor aéreo brasileiro faz uma trajetória de recuperação consistente e legítima. O problema é que a infraestrutura que sustenta esse crescimento não acompanhou o mesmo ritmo

Em menos de uma semana, a aviação brasileira deu dois sinais de alerta que não deveriam ser ignorados. Na terça-feira, uma falha global nos receptores de GPS derrubou a operação dos 50 jatos Embraer E195-E2 da Azul, cancelando mais de 80 voos e afetando mais de 8 mil passageiros em aeroportos de todo o país. Quatro dias depois, no sábado, um buraco na pista do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins, fechou o quinto maior terminal doméstico do Brasil em número de passageiros por horas, causando 45 cancelamentos e um efeito cascata que se espalhou por outras praças. Dois episódios distintos, duas causas diferentes, mas um denominador comum: um sistema que opera cada vez mais perto do limite.

Segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) compilados pelo Ministério de Portos e Aeroportos, entre janeiro e agosto de 2026, o setor transportou 88,6 milhões de passageiros, alta de 4,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. O número já superou os níveis pré-pandemia: em 2025, pela primeira vez na história, o mercado doméstico ultrapassou a barreira dos 100 milhões de passageiros em um ano. É uma trajetória de recuperação consistente e legítima. O problema é que a infraestrutura que sustenta esse crescimento não acompanhou o mesmo ritmo.

As privatizações dos últimos anos trouxeram investimentos relevantes nos terminais, com ampliações, reformas e novas áreas de embarque. Mas aeroporto não é só terminal. É pista, é sistema de controle de tráfego aéreo, é capacidade de gestão de crise. O buraco em Confins — um aeroporto que opera com pista única e não tem alternativa de pouso quando ela fecha — ilustra bem a fragilidade de uma infraestrutura que cresceu no que aparece para o passageiro e ficou para trás no que garante a operação. A falha do GPS da Azul, por sua vez, expôs a dependência de toda uma malha aérea de um único tipo de aeronave e de um único fornecedor de equipamento, sem redundância suficiente para absorver o impacto.

O Brasil já viveu esse filme. O "apagão aéreo" de 2006 e 2007 começou com o acidente do voo 1907 da Gol em setembro daquele ano e se transformou numa crise sistêmica que durou mais de um ano. Controladores de voo em greve branca, aeroportos lotados, passageiros dormindo no chão no Natal, aviões da Força Aérea acionados para desafogar o caos. A raiz do problema era conhecida desde antes: falta de pessoal no Cindacta, equipamentos defasados, planejamento inexistente. O Tribunal de Contas da União (TCU) havia alertado em 2006. Ninguém ouviu a tempo.

O cenário atual é diferente — não há greve, felizmente não há acidente grave —, mas os elementos estruturais de vulnerabilidade são os mesmos. O Cindacta, responsável pelo controle do tráfego aéreo, precisa de atualização contínua de equipamentos e qualificação de pessoal para acompanhar o crescimento do setor. A Anac, que fiscaliza a segurança operacional, não pode ser reduzida a um órgão de gestão de reclamações de consumidores. A Infraero, que ainda opera terminais regionais estratégicos e o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, ainda aguarda uma reestruturação. Privatizar é uma solução parcial, que melhora o que o concessionário vê como negócio e ignora o que é custo sem retorno direto.

Um sistema aéreo é tão resiliente quanto seu elo mais fraco. E, quando o elo mais fraco é uma pista única, um GPS sem backup ou um órgão regulador com estrutura aquém da demanda, o crescimento dos passageiros deixa de ser conquista para se tornar risco. O Brasil não precisa esperar outro Natal no chão de aeroporto para executar a lição que já aprendeu — e parece que esqueceu — 20 anos atrás.

Reta final da campanha eleitoral

Por O Povo (CE)

No Ceará, cabe aos postulantes levarem a bom termo o desfecho da disputa política, mantendo-se dentro das balizas do que preconiza a Justiça Eleitoral, isto é, sem recorrer a meios que possam macular a corrida salutar por mandatos eletivos a serviço dos cearenses

A menos de uma semana da votação no primeiro turno das eleições gerais, candidatos e candidatas organizam as últimas agendas de rua de uma campanha local e nacionalmente marcada por risco de manipulação de inteligência artificial e interferências externas do governo de Donald Trump.

Sob vigilância permanente e zelo das instituições encarregadas desse papel, contudo, o pleito até aqui vem transcorrendo sem grandes sobressaltos, salvo por episódios isolados que não comprometeram a lisura do processo, seja no âmbito federal ou no estadual.

No Ceará, então, cabe aos postulantes levarem a bom termo o desfecho da disputa política, mantendo-se dentro das balizas do que preconiza a Justiça Eleitoral, isto é, sem recorrer a meios que possam macular a corrida salutar por mandatos eletivos a serviço dos cearenses.

Trata-se de missão republicana que vale tanto para competidores a uma cadeira no Legislativo quanto no Executivo. A uns e outros, roga-se para que conduzam seus atos derradeiros em respeito ao voto e à inteligência do eleitorado, priorizando a apresentação de suas plataformas para soluções de problemas que interessam ao coletivo.

Logo, o que se espera é que os nomes que se julguem merecedores da confiança dos votantes se empenhem mais ainda em oferecer respostas para os gargalos da administração em áreas tão importantes quanto saúde, educação, hídrica, energética e segurança.

Embora restem ainda seis dias até o encontro com as urnas, essa foi uma eleição sobre a qual recaíram muitos receios desde seu início, sobretudo de que o avanço da IA acabasse por comprometer o resultado, numa piora daquele quadro visto em 2018.

Felizmente, não foi o que se verificou, em parte porque os órgãos governamentais se mantiveram atentos, antecipando-se a possíveis problemas; em parte porque os brasileiros amadureceram digitalmente desde 2018, quando o poder das redes sociais era ainda uma novidade.

Além disso, havia no início de 2026 a sombra de uma possível coerção ao exercício da democracia levada a cabo por grupos criminosos, especialmente em estados cuja dinâmica eleitoral já vinha sendo desafiada pelo fenômeno. À exceção de um ou outro relato, porém, essa preocupação não se concretizou, o que não significa que as denúncias e indícios criminosos apurados pelo Ministério Público não mereçam apuração rigorosa e punição exemplar.

Mas essa foi também uma eleição em um contexto de desgaste inédito nas relações bilaterais entre Estados Unidos e Brasil, ou seja, entre Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, que concorre à recondução contra Flávio Bolsonaro (PL), de quem o norte-americano se mostrou um aliado disposto a tentar influir negativamente em nação estrangeira, ferindo acordos internacionais.

Esse ingrediente revelou-se como um elemento sensível no caldo de tensões que atravessaram a campanha, mas ao qual o Itamaraty e seu corpo diplomático souberam responder com soberania, como se viu no curso dos últimos 45 dias. 

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