Existem boas ideias na educação — só falta espalhá-las
Por O Globo
Resultado do Pisa mostra que aluno valoriza
os professores e costuma receber atenção deles
Nem tudo é má notícia na educação brasileira. Pelo menos a motivação dos professores é valorizada pelo aluno, como constatou a última edição do Pisa, a avaliação internacional promovida pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No ano passado, 82% dos estudantes avaliaram positivamente seus professores, mantendo o patamar verificado em 2015 (81%). Para 78%, os docentes persistem até que o aluno entenda a lição. E 76% afirmam receber ajuda adicional, fora do tempo de aula, para compreender a matéria. Nesses quesitos, os alunos brasileiros tiveram desempenho melhor ou comparável aos da OCDE.
Há diversos exemplos de uso da criatividade
em sala de aula para facilitar o ensino. Um dos meios para isso, como mostrou
reportagem do GLOBO, tem sido a tecnologia digital. A professora de história
Pâmela Barros Ferraz, de Manaus, desistiu da carreira de cantora para entrar no
magistério. Mas aproveita a experiência levando paródias musicais para a sala
de aula ou ao canal do YouTube onde apresenta clipes dessas canções educativas.
Ao fim de cada conteúdo, as músicas são cantadas e funcionam como revisão do
que foi estudado. “A mente do jovem é muito rápida, e o uso das paródias, além
de divertir e levar algo diferente para a sala de aula, traz essa velocidade”,
diz ela.
Quem também usa o canto nas aulas de
alfabetização é a professora do ensino fundamental Carline Geraldi. Ela conta
que na igreja lembrava as pregações cantando. Passou a fazer o mesmo para seus
alunos e, em 2024, lançou no YouTube um vídeo em que ensina o alfabeto a uma
turma do 3° ano do ensino fundamental. Em uma semana, o vídeo alcançou 10
milhões de visualizações. “Temos muitas crianças desassistidas, com dificuldade
na alfabetização”, diz ela. “A partir do momento em que comecei a usar essas
estratégias, atingi esses grupos, consegui reter a atenção do aluno com mais
dificuldade. A gente desenvolve a memória, a atenção, a expansão da linguagem,
raciocínio lógico e coordenação motora com a música.”
Outro recurso usado para aprendizado têm sido
os jogos digitais, em especial no ensino técnico. “Quando o professor consegue
traduzir o conhecimento para uma linguagem próxima ao aluno, ele mostra que
aprender não é algo desconectado da vida real”, afirma Rafael Cunha, diretor da
rede de ensino profissionalizante Microlins, do grupo educacional MoveEdu. “O
desafio é o equilíbrio em usar o entretenimento como conexão ao conhecimento, e
não como objetivo final da aula.”
Nada disso exime os docentes de fazer o
básico. A interatividade digital por si só não garante aprendizagem. O
professor ainda precisa dominar a matéria que ensina, saber o que pretende
desenvolver e como. Mas tais exemplos apontam caminhos promissores para o
Brasil recuperar a queda verificada nas médias do Pisa (3 pontos em Ciências,
15 em Leitura e 9 em Matemática). O melhor cenário é o ensino brasileiro se
aproximar do nível dos países desenvolvidos por sua própria evolução,
respeitando as características locais. Para isso, as autoridades devem entender
e disseminar pelo país as práticas que têm dado bom resultado.
Frustração de imposto sobre dividendos expõe
risco de medidas populistas
Por O Globo
Previsão inicial era recolher R$ 29 bilhões.
Pela estimativa ainda otimista, total será de R$ 10,5 bilhões
Para compensar a perda de arrecadação com as
novas faixas do Imposto de Renda estabelecidas no ano passado, o Congresso
decidiu taxar rendimentos com dividendos. No discurso populista, a medida
tiraria dos “ricos” para isentar os “pobres”. A estimativa inicial era recolher
R$ 29 bilhões ao longo de 2026. A realidade não demorou a desmentir o otimismo.
Em julho, a previsão caiu para R$ 17,2 bilhões. Nos meses seguintes, o
resultados continuaram desanimadores. De janeiro a agosto, o total arrecadado
não passou de R$ 4 bilhões, como mostrou reportagem do GLOBO. O governo então
voltou a reduzir a projeção, agora para R$ 10,5 bilhões.
É certo que não é trivial estimar a
arrecadação com novos impostos. Premissas como a taxa de crescimento podem ser
afetadas por diversos fatores, nem todos sob controle. Em circunstâncias mais
voláteis, as empresas tendem a manter dinheiro em caixa em vez de distribuir.
Ainda assim, a conclusão é inescapável: a equipe econômica errou feio o alvo.
Aparentemente, como diversos economistas sérios haviam avisado, não havia tanto
dinheiro assim a recolher com a taxação dos dividendos.
O erro não é indolor. A meta de superávit
primário para este ano é de R$ 34,3 bilhões (com uma margem de tolerância que
permite até resultado zero). Até o início da semana passada, a promessa do
governo era ficar R$ 10,8 bilhões no azul. Agora, o objetivo é o piso. Nem no
último ano do mandato, o governo pretende entregar resultado positivo. Nos
últimos três anos, registrou déficits sucessivos, e o endividamento não parou
de crescer. Desde 2023, a lista de gastos excluídos do cálculo das metas
fiscais sob os mais diversos pretextos tem sido imensa.
Em relatório publicado na quinta-feira, o
Ministério do Planejamento reconheceu que a queda da arrecadação exigiu
mudanças nos cálculos. Em vez de um superávit primário, as novas projeções
apontavam um déficit primário de R$ 13,6 bilhões. Diante da nova situação, foi
anunciado um contingenciamento de R$ 13,6 bilhões e um bloqueio de R$ 2,4
bilhões. Na quarta-feira, dia 16, o Tribunal de Contas da União (TCU) já fizera
um alerta sobre os riscos das previsões irrealistas sobre o imposto dos
dividendos.
O governo se defende dizendo que a arrecadação extraordinária com o imposto de exportação sobre petróleo bruto, criado para subsidiar os combustíveis no mercado interno, deixará saldo positivo — a cada US$ 1 de aumento da cotação do barril, a arrecadação cresce R$ 2 bilhões, segundo o Banco Santander. Mas uma coisa nada tem a ver com a outra. Ainda que o governo consiga fechar 2026 cumprindo as metas fiscais, as previsões fantasiosas sobre a arrecadação com dividendos deveriam servir de ensinamento. Efeitos nocivos de isenções ou aumento de gastos não se resolvem na base do improviso. Medidas populistas custam caro. E nem o Executivo nem o Congresso parecem ter aprendido essa lição.
Afago corporativista a Gonet fulmina
credibilidade do MP
Por Folha de S. Paulo
Órgão máximo do Ministério Público não vê
razões para afastar o procurador-geral de ações do caso Master
Quando autoridades se protegem mesmo havendo
elementos de má conduta, é a crença no princípio da igualdade diante da lei que
fica abalada
Diante da marcha rumo à desmoralização da
cúpula do Judiciário, o Conselho Superior do Ministério
Público Federal decidiu poupar o procurador-geral da República, Paulo Gonet,
de incômodos pela sua condução no escândalo do Banco Master.
O beneplácito
corporativista não surpreende, mas aprofunda a corrosão da
autoridade do sistema de Justiça no país.
Responsável pela fiscalização da Carta e
pelas ações penais no Supremo Tribunal Federal (STF), Gonet
aparece em relatório da Polícia Federal em situações de confraternização com o
entourage do mafioso Daniel
Vorcaro. A imagem da noite de charutos e uísque em Londres deveria
bastar para afastá-lo de atuar nesse caso.
Infelizmente, ele tem seguido a regra geral
da desfaçatez das altas autoridades flagradas em relações, das apenas festivas
às contratuais, com a teia do Master. Numa velocidade incomum, apressou-se a
considerar inválido o documento, enviado pelo ministro André
Mendonça ao presidente Edson Fachin,
em que ele mesmo, Gonet, é mencionado.
Já quando Mendonça decretou a prisão
preventiva da tropa de assalto de Vorcaro, chamada de "A Turma", o
procurador-geral não se apurou tanto e pediu mais tempo para avaliar se
elementos que confabulavam sobre agredir um jornalista, entre outras ações de
jagunçagem, deveriam ser recolhidos à prisão. O ministro relator lhe passou uma
justa carraspana e ordenou a detenção.
Tampouco se conhecem quaisquer iniciativas de
Paulo Gonet acerca de outro documento da PF, de 196 páginas, com indícios de
relações impróprias do ministro Dias Toffoli
com a quadrilha do Master. E há sete meses se conhece esse relatório.
A passividade de Gonet nesses casos não tem
sido a melhor maneira de exercer a fiscalização da lei em nome dos cidadãos.
Para além dessa crítica, o fato de ser mencionado no relatório em situações que
mereceriam aprofundamento e de ter festejado gostosamente às expensas do
fraudador deveriam ensejar afastamento imediato da causa.
Não foi o que julgaram nove dos nove
conselheiros do órgão máximo do Ministério Público, que mantiveram o colega
Gonet à frente das ações do Master.
O pedido para abrir investigação a respeito
dos atos de Paulo Gonet foi rejeitado por cinco deles. O voto de minerva coube
ao subprocurador Nicolao Dino, irmão do ministro Flávio Dino,
pivô da
manobra que no Supremo protelou para data incerta a decisão sobre a
abertura de inquérito em face de Alexandre de
Moraes.
Quando autoridades do mais alto nível
incumbidas do sistema de Justiça se protegem diante de elementos clamorosos de
má conduta, é o princípio da República que se abala. Todos são iguais diante da
lei? O exemplo que vem de cima estimula os brasileiros a responder não a essa
pergunta.
Como o regime das liberdades depende da
crença na imparcialidade dos agentes que distribuem o direito, aqui o Brasil
vai mal.
Fazer mais com menos
Por Folha de S. Paulo
Ranking da Folha mostra que ter cofres cheios
não garante serviços de qualidade à população
Mesmo com a menor receita per capita, Ceará
fica em 2º lugar; governantes precisam focar na gestão racional do dinheiro do
contribuinte
A publicação da segunda edição do Ranking de
Eficiência dos Estados (REE-F), desenvolvido pela Folha em parceria
com o Datafolha,
lança luz sobre uma contradição incômoda do federalismo brasileiro.
A abundância de recursos financeiros nos
cofres públicos não se traduz, necessariamente, em melhores serviços de saúde,
educação,
segurança e infraestrutura
para o cidadão.
Ao cruzar indicadores de áreas fundamentais
com a receita corrente líquida per capita de cada unidade da Federação, o
levantamento demonstra que a capacidade de gestão e a continuidade das
políticas públicas são aspectos mais relevantes do que o volume de caixa
disponível.
Os dados desmistificam a tese de que apenas a
falta de verbas explica os gargalos na máquina pública, já que os estados que
lideram a disponibilidade financeira por habitante amargam as piores posições
na lista.
É fato que a região Norte enfrenta desafios
geográficos, como a baixa densidade populacional e as imensas distâncias
territoriais que encarecem a logística de serviços essenciais.
No entanto essa realidade não justifica
inteiramente o mau desempenho da região. Indicadores críticos persistem mesmo
em áreas urbanas e capitais, onde a escala populacional deveria facilitar o
atendimento.
Em contrapartida, o Ceará
consegue alcançar a vice-liderança, mesmo ostentando a menor receita
per capita do país. Trata-se do fruto de duas décadas de cooperação entre o
governo estadual e os municípios.
Paraná ficou na primeira colocação, e São
Paulo, na terceira. No fim da lista, está o Amapá, cuja receita per capita é
mais que o dobro da paranaense.
Essa discrepância revela que o problema
central do setor público brasileiro está na alocação e no monitoramento do
dinheiro. Persistem sistemas de saúde regionais desintegrados, redes de ensino
sem apoio pedagógico contínuo e investimentos irrisórios em saneamento básico.
É inaceitável que gestores continuem a
atribuir carências unicamente à restrição orçamentária, enquanto ignoram falhas
administrativas evidentes ou mantêm o comprometimento excessivo de receitas com
despesas operacionais e de pessoal.
A função primordial da administração pública é entregar serviços de excelência ao menor custo para o contribuinte. Ao evidenciar boas práticas e revelar gargalos, o ranking oferece uma ferramenta para que a sociedade exija maior racionalidade no uso dos recursos disponíveis.
Dino atua para reeleger Lula
Por O Estado de S. Paulo
Com sua decisão política de confrontar o TSE
e restabelecer fake news contra Flávio Bolsonaro, o ministro deixa claro que
não há limites para ajudar a campanha do chefão petista
Foi exclusivamente política a decisão que o
ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tomou ao derrubar uma
ordem do ministro André Mendonça, na condição de vice-presidente do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), para remover publicações em redes sociais que
prejudicavam o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
Dino atropelou competências de maneira
monocrática e atuou de forma escancarada como militante da campanha à reeleição
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Nada surpreendente, diante da
baderna judicial à qual infelizmente o País já começa a ficar habituado, graças
à irresponsabilidade de uma parte dos ministros do Supremo.
Na sexta-feira passada, o ministro André
Mendonça mandou tirar do ar 1.125 publicações segundo as quais Flávio
Bolsonaro, na condição de senador, havia apoiado um projeto de lei para tirar
de Nossa Senhora Aparecida o título de “padroeira do Brasil”. A informação,
inverídica, foi criada e difundida por perfis de esquerdistas.
Pode-se até discutir se o TSE deveria ter
derrubado as publicações, à luz da garantia constitucional da liberdade de
expressão e também à luz da autonomia do eleitor, mas o que é indiscutível é a
competência da Justiça Eleitoral para fazê-lo – e de modo célere, se entender
que as publicações podem desequilibrar a disputa eleitoral.
O ministro Flávio Dino, recorde-se, é o mesmo
que ignorou as garantias constitucionais do sigilo da fonte e da liberdade de
imprensa ao usar seu poder para perseguir um jornalista do Maranhão, seu reduto
político, por ter publicado notícias das quais ele não gostou. Recorde-se
também que o ministro Flávio Dino jamais disse uma única palavra contra as
inúmeras decisões arbitrárias de seu colega Alexandre de Moraes contra
bolsonaristas suspeitos de “golpismo”, incluindo censura e suspensão de perfis
em redes sociais. Logo, sua súbita conversão em paladino da defesa da liberdade
de expressão é apenas cínica.
Nada disso pode ser lido fora do contexto da
sangrenta rinha de galo em que o Supremo mergulhou, opondo lulistas e
bolsonaristas. Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula e fidelíssimo
escudeiro do presidente, foi colocado no STF porque, nas palavras do petista,
tem “cabeça política”. E ele não vem decepcionando: está na linha de frente na
defesa dos interesses de Lula no tribunal, sobretudo quando se trata de
confrontar os ministros indicados por Jair Bolsonaro – André Mendonça e Kassio
Nunes Marques.
O resultado disso é que, de uns tempos para
cá, quase todas as decisões importantes emanadas da Corte são entendidas como
resultado de confronto político, e não jurídico. A Constituição é mera
figurante nessa confusão. Nos votos dos ministros, a hermenêutica é
exclusivamente política, e o que resta aos cidadãos é procurar entender quem
ganha e quem perde com esta ou aquela sentença. Às favas a jurisprudência.
É evidente que isso desmoraliza ainda mais o
Judiciário, já bastante desacreditado, como indicam claramente inúmeras
pesquisas de opinião. Ministros que só se preocupam com o horizonte eleitoral
colaboram de modo decisivo para arruinar a necessária imagem de imparcialidade
e prudência que o Supremo, mais do que qualquer outro tribunal, deveria ter.
Hoje, já é possível dizer que o Supremo, tal como desenhado na Constituição,
está definitivamente arruinado.
Para piorar, mais uma vez o País está
perdendo tempo e energia com temas absolutamente inúteis para o futuro,
empobrecendo ainda mais uma campanha eleitoral que já não despertava grande
interesse por sua absoluta indigência. Na prática, a consequência desse
irrelevante caso de fake news contra Flávio Bolsonaro será a confirmação, de
resto desnecessária, de que os agentes de Lula no Supremo não medirão esforços
para eleger o chefão petista – uma clara aposta na manutenção do atual estado
de coisas e na nomeação de mais ministros que tornem o bloco lulopetista no
Supremo imbatível. O problema é que se trata de algo tão escandalosamente claro
para todos que o tiro pode acabar saindo pela culatra.
Reforma do Judiciário já
Por O Estado de S. Paulo
É preciso eleger políticos comprometidos com
uma ampla reforma do Judiciário, cuja crise ameaça a própria democracia. Urge
resgatar a autoridade moral dos tribunais superiores
O Judiciário existe para que a força não decida quem tem razão. Daí o paradoxo do poder judicial: para arbitrar conflitos e impor a lei até aos poderosos, o juiz precisa de autoridade; para que essa autoridade seja legítima, precisa aceitar limites que ele próprio não escolhe. No Brasil, essa autoridade vem se degradando por uma Justiça que demora a transformar decisões em resultados e que confunde o poder da instituição com a vontade de quem o exerce – do que resulta uma profunda crise de credibilidade que ameaça a própria democracia.
A Justiça brasileira é cara, lerda e muitas
vezes arbitrária, mas está longe de ser uma máquina parada. Em 2025, os
tribunais baixaram 45 milhões de processos e reduziram o estoque sob demanda
recorde. Mas decidir é só parte do trabalho: a execução segue mais lenta que o
reconhecimento do direito. Uma sentença que leva anos para sair do papel
preserva pouco do valor que prometia entregar.
Parte da sobrecarga nasce fora dos fóruns. O
próprio Estado está entre os maiores litigantes, ao lado de bancos e outros
agentes habituais. Decisões administrativas repetitivas, cobranças pouco
promissoras e recursos padronizados despejam conflitos no sistema. Processá-los
mais depressa ajuda, mas não resolve. Administrações e grandes litigantes
precisam ajustar suas rotinas aos precedentes e deixar de reproduzir causas
conhecidas. Esse uso industrial da Justiça convive com cidadãos para quem
custo, demora e complexidade ainda erguem barreiras.
No STF, a crise é de outra natureza. A Corte
exerce funções indispensáveis à ordem constitucional, mas acumula competências
amplas demais. Para piorar, relatoria, cautelares, prevenção, conexão e
controle do tempo podem dar a um ministro poder para produzir efeitos decisivos
antes do colegiado. O debate sobre monocratismo capta só parte dessa distorção.
A questão é quanto da autoridade da Corte permanece institucional e quanto
depende da latitude de cada gabinete.
Competência, juiz natural, contraditório e
colegialidade tornam o poder impessoal. A gravidade de uma crise não cria
competências nem suspende garantias. Instrumentos excepcionais só são legítimos
dentro das regras que os autorizam; sem prazo, controle e caminho de retorno,
subvertem-se em arbitrariedade nua e crua.
O desenho institucional não absolve juízes e
tribunais de suas escolhas. Regras melhores reduzem a dependência da virtude
pessoal, mas não eliminam a responsabilidade de quem exerce o poder.
Autocontenção, respeito às formas, afastamento diante de conflitos de interesse
e discrição fazem parte do ofício. Corporações que defendem prerrogativas
legítimas não podem converter privilégios em extensão da independência
judicial.
Partidos, Congresso e Executivo também
alimentam a concentração de poder no STF quando levam à Corte conflitos que não
conseguem resolver na política. Ainda assim, proteger um direito constitucional
e substituir uma escolha que a Constituição deixou aberta aos representantes
eleitos são coisas bem diferentes. Uma Corte que legisla no lugar do Congresso,
dita políticas públicas no lugar do Executivo ou se confere uma espécie de
juízo universal de defesa da democracia é uma Corte antidemocrática.
Na Justiça cotidiana, será preciso
transformar decisões em resultados e reduzir a reprodução de litígios. As
instâncias precisam receber autoridade compatível com sua função, enquanto os
tribunais superiores devem se concentrar em questões gerais, precedentes e
uniformização. No STF, transformar poder pessoal em autoridade institucional
exigirá redução de competências, controle colegiado tempestivo de liminares,
regras mais impessoais de distribuição e relatorias, limites a poderes
excepcionais e responsabilização por desvios sem submeter magistrados ao
governo ou às maiorias do momento.
O Estado Democrático de Direito perde com uma
política judicializada, e perde com uma Justiça politizada; perde quando o juiz
é intimidado ou instrumentalizado pelos jogadores, e perde quando ele abandona
o apito para jogar o jogo. O Judiciário de que o Brasil precisa deve ser
“apenas” o árbitro do Contrato Social e dos contratos privados. E mostrar, pela
ética de seus magistrados e pelo desenho de suas instituições, que as regras
também valem para ele.
O direito à licença-maternidade
Por O Estado de S. Paulo
STF faz o certo ao padronizar a licença em
120 dias e estendê-la a mães adotantes
Por unanimidade, os ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF) decidiram que as mães biológicas e as mães adotantes têm
direito a 120 dias de licença-maternidade, prorrogáveis por mais 60 dias, para
ficar com seus filhos recém-nascidos ou recém-adotados. A Corte também entendeu
que esses mesmos prazos valem tanto para as trabalhadoras celetistas quanto
para as servidoras públicas, civis ou militares. A um só tempo, o STF corrigiu
dois erros: o primeiro era conferir a uma mãe adotante menos direitos do que uma
mãe biológica, e o segundo era tratar de forma desigual uma mãe servidora
pública e uma mãe celetista. Agora, todas as mães têm direitos iguais.
Isso só foi possível porque a
Procuradoria-Geral da República (PGR), sob o comando interino da subprocuradora-geral
Elizeta Maria de Paiva Ramos, ajuizou em 2023 uma Ação Direta de
Inconstitucionalidade (ADI) para contestar as discrepâncias nos tratamentos
dispensados às mulheres em diversas leis brasileiras. Foram questionados
dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), do Estatuto dos
Servidores Públicos Civis da União, da Lei Orgânica do Ministério Público da
União, do Programa Empresa Cidadã e da lei que versa sobre licenças nas Forças
Armadas.
Enquanto a CLT prevê que a mãe biológica ou
adotante tem o direito a 120 dias de licença-maternidade, o Estatuto dos
Servidores Civis da União prevê, por exemplo, 90 dias de licença para a mãe
adotante com filho de até 1 ano de idade e apenas 30 dias para a mãe adotante
com filho acima de 1 ano de idade. Não é preciso ser um exímio
constitucionalista para constatar uma flagrante violação de princípios
constitucionais, como o da igualdade, o da proteção da maternidade e,
sobretudo, o da proteção integral da criança.
Na petição inicial da ação de inconstitucionalidade,
a PGR queria ir além: a subprocuradora-geral Elizeta Maria defendeu o
compartilhamento do período de licença entre as mães e os pais. Acertadamente,
o pedido foi rejeitado pelos ministros, seguindo a manifestação da
Advocacia-Geral da União (AGU), sob o argumento de que há riscos de “impactos
trabalhistas, estatutários e previdenciários não mapeados” com a criação de
novos regimes – ou seja, impactos financeiros –, além de se tratar de tema a
ser disciplinado pelo Congresso.
O STF não reconheceu a licença-maternidade apenas como um direito de todas as mães, vedando quaisquer formas de discriminação, mas a reconheceu também como um direito de todos os filhos, sejam eles biológicos ou adotivos, independentemente de sua idade. A decisão assegurou que, a partir de agora, toda criança e todo adolescente têm o direito de estar com suas mães tão logo sejam acolhidos em seus lares, para que possam desfrutar do adequado tempo de convívio com a família, pouco importando a sua origem ou o regime jurídico de trabalho da mãe. Nesses casos, o Direito admitiu que mais importante que as relações jurídicas é o afeto.
BC vê piora no cenário de inflação, que
IPCA-15 confirma
Por Valor Econômico
Seja quem for o vencedor terá de encarar o desafio de corrigir uma das principais fontes da desancoragem das expectativas inflacionárias: o desequilíbrio das contas públicas
O comportamento da inflação foi benigno nos
últimos dois meses, mas isso parece já ter terminado. Um dia depois de o
relatório de política monetária do Banco Central prever mais pressão sobre os
preços e avanço de 0,65% para o IPCA de setembro, o IPCA-15 do mês superou
todas as expectativas e atingiu 0,7%. A deflação dos alimentos ficou para trás.
Como esperado, o efeito do bônus de Itaipu nas contas de energia, que provocou
queda do IPCA-15 de 0,4% no mês anterior, foi pontual, e os custos da habitação
foram os que mais subiram entre as 9 categorias do índice, 2,07%. Houve uma
trégua, mas, segundo o relatório do BC, "apesar das perspectivas para a
inflação em 2026 terem se reduzido, as expectativas de inflação para 2027 e
2028 continuaram a se deteriorar".
A piora relativa do cenário torna mais
problemática a continuidade de cortes da taxa Selic. Quando o BC resolveu
continuar reduzindo os juros em junho um dos argumentos foi de que, no
horizonte relevante da política monetária, ainda não contemplado então (o
primeiro trimestre de 2028), a inflação se situava pelos seus modelos em 3,2% e
que a manutenção da enorme restrição monetária levaria o IPCA abaixo da meta de
3%. O BC mantém a mesma projeção no cenário de referência no período, de 3,2%,
mas considera que a trajetória vislumbrada para a Selic "é de modo geral,
ligeiramente mais alta que no RPM anterior, embora permaneça a perspectiva de
queda gradual nos juros".
O balanço de riscos continua assimétrico, a
favor da alta da inflação. Entre os fatores desse desequilíbrio estão a
estimativa de um hiato do produto mais alto. No segundo trimestre, esse hiato
(distância positiva ou negativa do crescimento em relação a seu potencial) foi
de 0,5%, mas a desaceleração que já se manifestou com força no PIB do segundo
trimestre, e deve continuar ao longo de 2026, levaria esse número a -0,4% no
terceiro trimestre de 2027. Essa transição, conjugada com a política monetária
restritiva, propiciaria a queda da inflação para 3,9% no último trimestre do
ano que vem, 3,2% no primeiro de 2028 e 3,1% a partir do segundo trimestre
daquele ano até o início de 2029. Esses números pressupõe a queda dos juros no
ritmo previsto pelo Focus, de 12% no fim de 2027.
A desaceleração da economia já observada é
significativa e fez o BC mudar suas projeções para o crescimento da economia em
2026, para 1,8%, e mais ainda em 2027, 1,4%, em linha com os analistas
privados. Tensões geopolíticas, juros em alta no cenário externo, aumento dos
preços do petróleo e a quase certeza de um El Nino muito forte este ano, que
seria mais prolongado do que os anteriores, porém, colocam um grau muito
elevado de certeza sobre as projeções - não só as do BC.
Choque de ofertas, segundo o BC, não são
combatidos prioritariamente pela política monetária, que procura atacar seus
efeitos secundários. Eles não apareceram até agora e mesmo os efeitos primários
foram mitigados por subsídios a gasolina, diesel e etanol, que impedem o
repasse dos preços efetivos aos consumidores. A pesquisa Firmus, a irmã da
Focus para empresas privadas, mostrou que 50% das companhias pesquisadas não
mudaram os preços de seus produtos, 64% delas não tiveram dificuldades para
comprar insumos e a mesma percentagem não registrou alteração na demanda
doméstica, apesar de alguma pressão nos custos. A trégua da guerra contra o Irã
permitiu um recuo dos preços de ureia e dos fertilizantes às vésperas do
plantio, aliviando a pressão sobre os custos dos agricultores. Além disso,
"não se observam sinais de aumento da inflação em segmentos presumidamente
pouco expostos ao aumento dos preços de petróleo e derivados".
Os efeitos de segunda ordem sobre os salários
também não se manifestaram. Ainda que o mercado de trabalho se mantenha
aquecido, tem havido moderação nos aumentos salariais, tanto nominais quanto
reais. A média dos reajustes salariais obtidos em convenções coletivas caiu de
5,7%, quando a guerra no Golfo começou, em fevereiro, para 5,1% em agosto.
Um PIB menor será acompanhado, espera o BC,
de melhora gradual do resultado primário estrutural das contas públicas. Os
déficits primários evitam a queda da inflação, embora o BC não o aponte no
relatório. A projeção de crescimento considera ainda a diminuição do impulso
creditício e menor contribuição da agropecuária e da indústria extrativa para o
crescimento.
Os próximos meses serão decisivos para que o BC decida se interrompe ou não por algum tempo os cortes de juros. Seu cenário de referência contempla dois trimestres com o IPCA acima do teto da meta (5,2% e 4,9% no último trimestre deste ano e no primeiro de 2027), quando o contexto inflacionário será, ao contrário dos últimos dois meses, possivelmente mais adverso. É o período pós-eleitoral, que pode mudar as expectativas para a economia. Seja quem for o vencedor, porém, terá de encarar o desafio de corrigir uma das principais fontes da desancoragem das expectativas: o desequilíbrio das contas públicas.
Um novo caos aéreo?
Por Correio Braziliense
O setor aéreo brasileiro faz uma trajetória
de recuperação consistente e legítima. O problema é que a infraestrutura que
sustenta esse crescimento não acompanhou o mesmo ritmo
Em menos de uma semana, a aviação brasileira
deu dois sinais de alerta que não deveriam ser ignorados. Na terça-feira, uma
falha global nos receptores de GPS derrubou a operação dos 50 jatos Embraer
E195-E2 da Azul, cancelando mais de 80 voos e afetando mais de 8 mil
passageiros em aeroportos de todo o país. Quatro dias depois, no sábado, um
buraco na pista do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins,
fechou o quinto maior terminal doméstico do Brasil em número de passageiros por
horas, causando 45 cancelamentos e um efeito cascata que se espalhou por outras
praças. Dois episódios distintos, duas causas diferentes, mas um denominador
comum: um sistema que opera cada vez mais perto do limite.
Segundo dados da Agência Nacional de Aviação
Civil (Anac) compilados pelo Ministério de Portos e Aeroportos, entre janeiro e
agosto de 2026, o setor transportou 88,6 milhões de passageiros, alta de 4,7%
em relação ao mesmo período do ano anterior. O número já superou os níveis
pré-pandemia: em 2025, pela primeira vez na história, o mercado doméstico
ultrapassou a barreira dos 100 milhões de passageiros em um ano. É uma
trajetória de recuperação consistente e legítima. O problema é que a
infraestrutura que sustenta esse crescimento não acompanhou o mesmo ritmo.
As privatizações dos últimos anos trouxeram
investimentos relevantes nos terminais, com ampliações, reformas e novas áreas
de embarque. Mas aeroporto não é só terminal. É pista, é sistema de controle de
tráfego aéreo, é capacidade de gestão de crise. O buraco em Confins — um
aeroporto que opera com pista única e não tem alternativa de pouso quando ela
fecha — ilustra bem a fragilidade de uma infraestrutura que cresceu no que
aparece para o passageiro e ficou para trás no que garante a operação. A falha
do GPS da Azul, por sua vez, expôs a dependência de toda uma malha aérea de um
único tipo de aeronave e de um único fornecedor de equipamento, sem redundância
suficiente para absorver o impacto.
O Brasil já viveu esse filme. O "apagão
aéreo" de 2006 e 2007 começou com o acidente do voo 1907 da Gol em
setembro daquele ano e se transformou numa crise sistêmica que durou mais de um
ano. Controladores de voo em greve branca, aeroportos lotados, passageiros
dormindo no chão no Natal, aviões da Força Aérea acionados para desafogar o
caos. A raiz do problema era conhecida desde antes: falta de pessoal no
Cindacta, equipamentos defasados, planejamento inexistente. O Tribunal de
Contas da União (TCU) havia alertado em 2006. Ninguém ouviu a tempo.
O cenário atual é diferente — não há greve,
felizmente não há acidente grave —, mas os elementos estruturais de
vulnerabilidade são os mesmos. O Cindacta, responsável pelo controle do tráfego
aéreo, precisa de atualização contínua de equipamentos e qualificação de
pessoal para acompanhar o crescimento do setor. A Anac, que fiscaliza a
segurança operacional, não pode ser reduzida a um órgão de gestão de
reclamações de consumidores. A Infraero, que ainda opera terminais regionais
estratégicos e o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, ainda aguarda uma
reestruturação. Privatizar é uma solução parcial, que melhora o que o
concessionário vê como negócio e ignora o que é custo sem retorno direto.
Um sistema aéreo é tão resiliente quanto seu elo mais fraco. E, quando o elo mais fraco é uma pista única, um GPS sem backup ou um órgão regulador com estrutura aquém da demanda, o crescimento dos passageiros deixa de ser conquista para se tornar risco. O Brasil não precisa esperar outro Natal no chão de aeroporto para executar a lição que já aprendeu — e parece que esqueceu — 20 anos atrás.
Reta final da campanha eleitoral
Por O Povo (CE)
No Ceará, cabe aos postulantes levarem a bom
termo o desfecho da disputa política, mantendo-se dentro das balizas do que
preconiza a Justiça Eleitoral, isto é, sem recorrer a meios que possam macular
a corrida salutar por mandatos eletivos a serviço dos cearenses
A menos de uma semana da votação no primeiro
turno das eleições gerais, candidatos e candidatas organizam as últimas agendas
de rua de uma campanha local e nacionalmente marcada por risco de manipulação
de inteligência artificial e interferências externas do governo de Donald
Trump.
Sob vigilância permanente e zelo das
instituições encarregadas desse papel, contudo, o pleito até aqui vem
transcorrendo sem grandes sobressaltos, salvo por episódios isolados que não
comprometeram a lisura do processo, seja no âmbito federal ou no estadual.
No Ceará, então, cabe aos postulantes levarem
a bom termo o desfecho da disputa política, mantendo-se dentro das balizas do
que preconiza a Justiça Eleitoral, isto é, sem recorrer a meios que possam
macular a corrida salutar por mandatos eletivos a serviço dos cearenses.
Trata-se de missão republicana que vale tanto
para competidores a uma cadeira no Legislativo quanto no Executivo. A uns e
outros, roga-se para que conduzam seus atos derradeiros em respeito ao voto e à
inteligência do eleitorado, priorizando a apresentação de suas plataformas para
soluções de problemas que interessam ao coletivo.
Logo, o que se espera é que os nomes que se
julguem merecedores da confiança dos votantes se empenhem mais ainda em
oferecer respostas para os gargalos da administração em áreas tão importantes
quanto saúde, educação, hídrica, energética e segurança.
Embora restem ainda seis dias até o encontro
com as urnas, essa foi uma eleição sobre a qual recaíram muitos receios desde
seu início, sobretudo de que o avanço da IA acabasse por comprometer o
resultado, numa piora daquele quadro visto em 2018.
Felizmente, não foi o que se verificou, em
parte porque os órgãos governamentais se mantiveram atentos, antecipando-se a
possíveis problemas; em parte porque os brasileiros amadureceram digitalmente
desde 2018, quando o poder das redes sociais era ainda uma novidade.
Além disso, havia no início de 2026 a sombra
de uma possível coerção ao exercício da democracia levada a cabo por grupos
criminosos, especialmente em estados cuja dinâmica eleitoral já vinha sendo
desafiada pelo fenômeno. À exceção de um ou outro relato, porém, essa
preocupação não se concretizou, o que não significa que as denúncias e indícios
criminosos apurados pelo Ministério Público não mereçam apuração rigorosa e
punição exemplar.
Mas essa foi também uma eleição em um
contexto de desgaste inédito nas relações bilaterais entre Estados Unidos e
Brasil, ou seja, entre Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, que concorre à
recondução contra Flávio Bolsonaro (PL), de quem o norte-americano se mostrou
um aliado disposto a tentar influir negativamente em nação estrangeira, ferindo
acordos internacionais.
Esse ingrediente revelou-se como um elemento sensível no caldo de tensões que atravessaram a campanha, mas ao qual o Itamaraty e seu corpo diplomático souberam responder com soberania, como se viu no curso dos últimos 45 dias.

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