sábado, 26 de setembro de 2026

Opinião do dia – Hannah Arendt* (A propaganda totalitária)

“Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo, as massas têm que ser conquistadas por meio da propaganda. Sob um governo constitucional e havendo liberdade de opinião os movimentos totalitários que lutam pelo poder podem usar o terror somente até certo ponto, como qualquer outo partido, necessitam granjear aderentes e parecer plausíveis aos olhos de um público que ainda não está rigorosamente isolado de todas as outras fontes de informação.”

*Hannah Arendt (1906-1975), “Origens do totalitarismo”, p. 474, Companhia de Bolso, São Paulo, 2020,

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O fim das bets e a campanha eleitoral

Por O Povo (CE)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, emitiu medida provisória (MP) proibindo o funcionamento das bets em todo o País. A medida já está em vigor e as plataformas de apostas esportivas e jogos online estão banidas.

O bloqueio determinado pelo presidente vale, inicialmente, por 120 dias. Nesse prazo, o Congresso pode rejeitar ou aprovar a MP, transformando-a em lei. Se não for votada, a medida perde a sua eficácia ao fim do prazo.

As bets, plataformas de apostas esportivas e jogos online, entram assim, com mais ênfase, na campanha eleitoral. O assunto já vinha sendo abordado por Lula e pelo candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) em diversas ocasiões. O presidente declarava ser "pessoalmente" a favor da proibição. Portanto, na discussão interna prevaleceu a proposta de Lula, pois alguns ministros defendiam apertar os controles, sem proibir as bets.

Por sua vez, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) manifestou-se contra o "jogo do tigrinho", defendendo as apostas em "jogos (esportivos) reais". A diferença entre as duas propostas, portanto, é que a MP de Lula impede completamente o funcionamento dos jogos online, quanto a Flávio, ele defende apenas o fim dos "cassinos online", mantendo os chamados "jogos de cota fixa", quando o apostador sabe o valor que receberá caso ganhe a aposta.

A pesquisa mais recente sobre os jogos online é da Atlas/Bloomberg, divulgada na quarta-feira. Os dados mostram que 75% dos brasileiros concordam que as bets deveriam ser proibidas no Brasil, enquanto 17% discordam e 8% não concordam nem discordam.

A preocupação contra os jogos faz sentido, pois, além do estrago que promove na finança e na situação emocional das famílias, uma geração de jovens vem sendo seduzida pelos jogos online. Como já informou este jornal em edição anterior, pesquisa da Frente Parlamentar Mista da Educação mostra que um em cada cinco estudantes nos anos finais do ensino fundamental e do médio já fez apostas online. Além disso, muitos estudantes começam a apostar aos 11 anos de idade.

Estados e cidades brasileiras, a exemplo do que faz a Prefeitura de Fortaleza, já vem tomando medidas para dificultar ou restringir o acesso aos jogos online. O prefeito Evandro Leitão (PT) planejava enviar à Câmara dos Vereadores um projeto de lei proibindo a propaganda das plataformas de apostas em espaços públicos em todo o município.

Agora, não mais será necessário, pelo menos por enquanto, pois os jogos online foram proibidos completamente. No entanto, agora será necessária vigilância redobrada para controlar as plataformas ilegais, que certamente, procurarão ocupar o espaço deixado com o fim das bets. 

A falta que faz uma causa comum, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O País está pedindo uma macrorreforma institucional, tema que não surge em nenhuma das campanhas

A oito dias das eleições, o quadro da disputa está congelado. A eleição será, mais uma vez, decidida no photochart, com Lula e Flávio Bolsonaro batendo cabeça na reta final.

Atordoado com tantos escândalos e tanta falta de sinalização, o eleitorado não sabe para onde o País irá. Desaprova o governo de Lula, mas não aprova Bolsonaro com ênfase. Tende a rejeitar quem mais o assusta ou incomoda. Voto defensivo, não programático, o que rebaixa a qualidade da disputa. Faltando ideias e propostas claras, sobram manobras eleitoreiras e jogos de cena. Bolsonaro é impulsionado pelo antipetismo, Lula pela “economia do afeto”, como fala o historiador Alberto Aggio.

Há medo do continuísmo esgotado de Lula e medo do autoritarismo perverso e mal organizado do bolsonarismo.

O governo Lula acerta ao proibir as bets no Brasil? Sim, por Ione Amorim

Folha de S. Paulo

Rentabilidade se alimenta do risco, e apenas a regulação não acompanharia a escalada de danos

Jogo fica disponível 24 horas por dia e praticamente elimina barreiras físicas entre consumidor e produto

Até a proibição anunciada nesta sexta-feira (25) pelo governo Lula (PT), por meio de medida provisória, foram anos de operação de apostas online sem regras suficientes, seguidos por uma regulamentação que ainda estava em construção. Era como trocar a roda de um carro em movimento—e em alta velocidade.

Nesse período, os jogos e as apostas, as chamadas bets, se transformaram em um desafio socioeconômico, de proteção do consumidor e de saúde pública. Até que ponto é possível separar a rentabilidade desse mercado do comportamento que expõe permanentemente seus consumidores ao risco que a própria regulação pretende evitar?

Diferentemente do álcool e do tabaco, cujos graves danos levaram a sucessivas restrições à comercialização e à publicidade, o jogo online é imaterial, está disponível 24 horas por dia e praticamente elimina as barreiras físicas entre consumidor e produto. No mesmo celular estão a plataforma, o meio de pagamento, a publicidade e a possibilidade de realizar e repetir apostas em poucos segundos. Não há deslocamento, horário de fechamento ou necessidade de adquirir fisicamente um produto; a tecnologia suprimiu boa parte das barreiras que poderiam limitar seu consumo.

Flávio Bolsonaro dá dinheiro aos 'peixes' da milícia, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Espanta a naturalidade com que o miliciano se refere ao filho 01: nosso senador

Casos de desvio de emendas estão ligados à infiltração de bandidos na política

Ao lançar a campanha da reeleição, em agosto, Lula bateu duro no atual sistema de emendas parlamentares. O plano apresentado defende o estabelecimento de limites e controles e classifica as emendas impositivas como "grave distorção" que sequestra recursos do Executivo.

O tema, contudo, está submerso, intocável. A dinâmica da disputa contra o bolsonarismo impôs à campanha outros rumos de discussão —crise do STF, Lulinha, vazamentos do Master, interferência dos Estados Unidos, endividamento das famílias, escala 6x1, guerra contra a jogatina eletrônica.

A ciranda não explicada do candidato Flávio Bolsonaro, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Fatos têm desmontado versões apresentadas pelo candidato do PL sobre a sua relação com Vorcaro e o filme 'Dark Horse'

Perguntas precisam ser respondidas, já que ele é investigado formalmente

Flávio Bolsonaro negou encontros, viagens e recursos recebidos de Daniel Vorcaro. Aí vêm os fatos e desmontam as imposturas do candidato do PL à cadeira de presidente da República nas eleições deste ano.

A mais recente delas foi a revelação, pela revista Piauí, de que o senador viajou da Flórida para Brasília em janeiro de 2025 em um jato executivo que tinha entre os cotistas Vorcaro e Willer Tomaz.

Pai de Vorcaro deve explicações, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Profusão de 'irmãos' de ex-banqueiro é resultado de parentesco fictício

Fenômeno é universal, mas, no Ocidente, tem algumas particularidades

A essa altura, quem deve explicações é Henrique Vorcaro, o pai de Daniel Vorcaro. A quantidade de "irmãos" do ex-banqueiro já identificados é sugestiva de intensa atividade extraconjugal. Cabe até uma investigação eclesiástica, pois a Igreja Batista da Lagoinha, da qual o patriarca dos Vorcaros é membro ativo, não encoraja o adultério.

Brincadeiras à parte, acho que cabem algumas reflexões sobre o parentesco fictício. A primeira observação é que se trata de um universal humano. O uso de análogos de irmão/irmã para referir-se a pessoas da mesma geração e tio/tia para gente mais velha é tão prevalente em algumas culturas, principalmente naquelas baseadas em estruturas de clã, que esses termos funcionam como pronomes de tratamento. É que nosso software mental e linguístico evoluiu no Pleistoceno, quando vivíamos em grupos familiares. Continuamos a usar essa programação, e as palavras que ela gera, mesmo depois que o mundo ficou maior que a família.

A aposta de Lula pode dar em nada, por Thaís Oyama

O Globo

Embora a ideia da extinção seja bem recebida, não chega a empolgar a ponto de definir um voto

‘Estou chocado! Chocado ao descobrir que há jogo neste lugar.’ No filme “Casablanca”, o capitão Renault, ele mesmo freguês da jogatina, simula surpresa diante da “descoberta” da existência de um cassino no Rick’s Café, e usa o pretexto para fechar o estabelecimento. Como o capitão Renault, o presidente Lula disse no último dia 18 estar “estarrecido” com o estrago que as bets estão fazendo no orçamento das famílias brasileiras, mesmo tendo tido quatro anos para perceber.

A oito dias da eleição, cabeça a cabeça com o adversário Flávio Bolsonaro, Lula resolveu que cabe ao Estado proteger adultos de si mesmos e determinou em Medida Provisória (MP) a proibição total das apostas on-line no Brasil. Pela abrangência e pela pressa, a MP ameaça desorganizar mercados como futebol e publicidade, provocar disputas judiciais bilionárias e empurrar apostadores ao mercado clandestino dos jogos, além de elevar a já bastante elevada insegurança jurídica no país. Lula, porém, parece apostar que o apoio popular à proibição — superior a 70% — vá superar esses custos na eleição.

Viveremos do legado democrático de Zuenir Ventura, por Flávia Oliveira

O Globo

Democracia e Zuenir são substantivos que não apenas cabem na mesma frase. São sinônimos

Zuenir Ventura formou gerações — sim, no plural — de jornalistas e inspirou outras tantas — aqui, eu me incluo. Ele partiu serenamente aos 95 anos, deixando órfãos seus filhos biológicos, Mauro e Elisa, e uma legião de velhos amigos, colegas de ofício, fontes, leitores... A existência longa, de quase um século, alicerçou a impressão de eternidade. O velório, na Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupava a cadeira 32, antes ocupada por Ariano Suassuna, foi marcado por uma espécie de luto ao quadrado. Havia tristeza, saudade pela ausência, agora física, do Mestre Zu. E uma baita apreensão cívica pela democracia, de novo, sob ameaça.

As eleições e o risco de desmonte na Cultura, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A proposta de Ciro Gomes é bem coerente com o perfil mais à direita que incorporou nestas eleições. O eleitor conservador vê o investimento em cultura como desperdício, sente uma desconfiança que muitas vezes se confunde com o anti-intelectualismo

Sabemos que nem toda promessa de campanha deve ser levada a sério, mas a possibilidade de que a ideia desastrosa de um candidato seja levada adiante em caso de vitória demanda nossa preocupação real. Eu me refiro à declaração de Ciro Gomes sobre a promessa de destinar os recursos que atualmente mantêm o Instituto Mirante para as pastas de segurança e saúde.

O instituto é responsável pela gestão dos equipamentos culturais do estado. Pinacoteca, Museu da Imagem e do Som, Centro Cultural do Cariri, Estação das Artes, Kuya - Centro de Design do Ceará e o Mercado AlimentaCE são alguns dos equipamentos geridos pela organização social criada em 2021. Os equipamentos pertencem à Secretaria de Cultura, mas todas as ações realizadas por eles são geridas e executadas pelo instituto, num modelo de descentralização administrativa que, muitas vezes, traz mais celeridade e eficiência para o trabalho do estado.

Desafios na era digital, por Pedro Serrano

CartaCapital

As profundas mudanças causadas pelas novas formas de comunicação exigem mecanismos mais eficazes para salvaguardar o Estado Democrático de Direito

Ao traçarmos uma linha evolutiva do pensamento jurídico ao longo do último século, fica evidente que a era digital representa um marco histórico não apenas nas formas como as pessoas interagem: as transformações digitais também trouxeram novos desafios para a proteção dos direitos fundamentais na contemporaneidade. Em retrospectiva, a aplicação clássica do Direito, como ciência isolada, através da visão de puristas como Hans Kelsen, perdeu espaço no período pós-Segunda Guerra Mundial. Naquele tempo de reconstrução, não era mais plausível o entendimento de que o Direito caminharia fundado em critérios estritamente objetivos, autônomos e neutros em relação aos valores morais e à política, conforme defendia Kelsen.

De Tocqueville às big techs, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

As plataformas digitais solapam os ideais de igualdade nos Estados Unidos celebrados pelo chanceler francês

As turbulências trumpistas que assolam a sociedade e a política do Grande Irmão do Norte recomendam uma ­revisita a Alexis de ­Tocqueville. Ele escreveu na Introdução de seu livro, o clássico Democracia na América: “Entre os novos objetos que, durante minha estada nos Estados Unidos, chamaram ­minha atenção, nenhum me impressionou tanto quanto a igualdade de condições. Descobri sem dificuldade a influência ­prodigiosa exercida por esse primeiro ­fato no andamento da sociedade; ele confere ao espírito público uma certa direção, um certo curso às leis; aos governantes, novas máximas; aos governados, hábitos particulares”.

Democracia em perigo, por Leonardo Avritzer e Carmen Leitão*

CartaCapital

Entre a erosão interna e a coerção externa

Desde o pós-Guerra, os Estados Unidos reivindicaram um papel central na defesa internacional da democracia e dos direitos humanos. Ao longo das décadas, combinaram a participação na construção de instituições multilaterais com instrumentos próprios de avaliação e de pressão sobre outros países, como os relatórios de direitos humanos do Departamento de Estado. A esse repertório somaram-se as sanções da Lei Magnitsky e, em outra frente, as designações de organizações estrangeiras como terroristas, com efeitos para além das fronteiras norte-americanas.

Sinais trocados e país dividido, por Murillo de Aragão

Revista Veja

Pesquisas indicam espaço para novo movimento por voto útil

A dez dias da eleição, os institutos parecem discutir entre si. A AtlasIntel dá a Lula 45,8% contra 43,4% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e ainda o mantém à frente no segundo, por 47,7% a 47,4%. A Quaest registra Lula com 37% e Flávio com 33%, mas inverte no segundo turno: 42% a Flávio e 41% a Lula. Tudo dentro da margem de erro, com ressalva relevante: no início do mês, a mesma Quaest ainda concedia 7 pontos de vantagem ao presidente.

A série histórica ajuda a entender o momento. Nas últimas cinco eleições, o Datafolha feito a dez dias do pleito chegou perto do resultado obtido pelo candidato do PT. Lula tinha 49% em 2006 e fez 48,6%; Dilma marcava 46% em 2010 e acabou com 46,9%; Lula aparecia com 47% em 2022 e alcançou 48,4%. Com seus adversários, ocorreu algo diferente. Alckmin passou de 31% para 41,6% em 2006, Aécio de 18% para 33,5% em 2014, Bolsonaro de 28% para 46% em 2018 e de 33% para 43,2% em 2022. Na véspera do segundo turno de 2022, Lula tinha 52% contra 38% e acabou vencendo por apenas 50,9% a 49,1%. Em boa medida, esse movimento decorre do voto útil.

Desalento, por José Casado

Revista Veja

No segundo turno, talvez o eleitor descubra o que governo e oposição querem fazer com o país

Pedro Paulo Soares Pereira é um rebelde da periferia paulistana. Por trapaças da história, aos 56 anos o Mano Brown, do grupo de rap Racionais MC’s, passou a suspeitar que tenha virado um conservador.

Não perde o humor: — Vocês sabem que pega bem, pega muito bem, pra um rapper ser um defensor do sistema e do presidente? — disse numa conversa recente com outro poeta, Nei Lopes, e a cantora e atriz Thalma de Freitas.

— É realmente o fim do mundo! — ela replicou, rindo.

Precisamos conversar sobre o STF, por Marcus Pestana

É inacreditável o que está ocorrendo. Nossa Suprema Corte, o STF, virou assunto de botequim. Inconcebível que o impeachment de ministros do STF tenha virado o principal assunto da campanha de 2026, em clima de Cruzeiro X Atlético ou de Fla X Flu. Há temas envolvendo nossa organização econômica e social e a inserção do Brasil numa realidade global turbulenta muito mais importantes.

Daron Acemoglu e James Robison em seu best seller “POR QUE AS NAÇÕES FRACASSAM” argumentam que o sucesso ou o fracasso de uma país depende da qualidade das instituições, onde há instituições inclusivas, que promovem a participação da população e a inovação, e instituições extrativas, que concentram o poder em uma elite dominante. O livro resultou no Prêmio Nobel de Economia para Acemoglu e Robison, em 2024.

Sertão e mar, por Ivan Alves Filho*

O Brasil sempre balançou entre o mar e o sertão, isto é, a sua dimensão atlântica no bojo do processo de colonização – envolvendo Europa, África e as Américas – e a sua vocação territorial – apontando para a necessidade de ocupar um interior de natureza continental, o mundo do sertão. Sabemos da presença desses dois fatores na “explicação” do Brasil – o Brasil de fora para dentro e o Brasil de dentro para fora. Atualmente, a dimensão atlântica vem sendo muito enfatizada, em uma renovação da explicação “externa”, já destacada por Gilberto Freyre. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar – ou melhor: nem tanto ao Atlântico nem tanto ao Sertão. 

Poesia | O analfabeto político, de Bertolt Brecht

 

Música | Boca Livre - O Trenzinho do Caipira com poema de Ferreira Gullar