domingo, 27 de setembro de 2026

A esquerda democrática em tempo de apatia, por Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

Como mudar a sociedade sem fazer terra arrasada das instituições – liberal-democráticas – que nos trouxeram até aqui?

A transmissão e a recepção de uma cultura política no ocaso constituem tema espinhoso, especialmente quando “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Revisitar tais processos, no entanto, pode ser útil quando menos porque por aí ronda a tentação da novidade pela novidade. Os arautos da perdição asseveram não só que a Carta de 1988 é papel velho, mas também que existem demiurgos capazes de propor soluções para transformar maus políticos e cidadãos desavisados em figuras republicanas irretocáveis.

A cultura antiga a que me refiro é a do comunismo brasileiro, em particular a do PCB. Tornada objeto histórico no seu conjunto, deixou como legado pontos de referência vivos e incontornáveis. O modo como essa cultura foi recebida – às vezes incorporada, outras tantas recusada – seria obra, entre outros atores, da formação partidária que a sucede no tempo e marca, como nenhuma outra, o nosso século 21. Por isso, a revisitação não é uma operação interna à própria esquerda – PCB e PT –, o que por si só chamaria a atenção, mas algo que afeta o entendimento da política corrente.

É possível encontrar um desses marcos incontornáveis num ensaio de 1979 escrito por Carlos Nelson Coutinho, em plena saída do autoritarismo. Seu título, tornado quase canônico, na verdade vinha de Enrico Berlinguer, dirigente do Partido Comunista Italiano. A “democracia como valor universal” cancelava, ou devia cancelar, o qualificativo “burguesa” com que muitos à esquerda ainda a tratavam. Instituições, regras e procedimentos contam – e muito. Na linguagem da época, não haveria um caminho democrático para o socialismo. A democracia seria, de fato, o caminho do socialismo, com exclusão de soluções anacrônicas, como, para dar exemplo à mão, uma inadmissível “ditadura do proletariado”.

A história de um país não se faz com um ensaio ou os debates que suscita. Seguiram-se movimentos de massa, a eleição de Tancredo Neves, a Constituinte e a Nova República. A troca de bastões, à esquerda, era visível a olho nu. O contraste não podia ser mais nítido: o PCB apoiara Tancredo e, reduzido a uma pequena bancada, empenhou-se na elaboração da nova Constituição; o PT expulsara os deputados que foram ao Colégio Eleitoral e, não obstante sua participação, votaria contra a redação final da Carta. No entanto, tradições envelhecem e merecem perecer. Os comunistas já eram o passado que só volta por seus pontos de luz. O que irrompia era uma nova força: o PT, seu líder inquestionável, sua teoria de Brasil em que confluíam muitos elementos díspares, inclusive a desconfiança em relação à “democracia formal”.

Formas institucionais não seduzem o ator jovem tomado pela vontade de se afirmar contra todo o passado e abrir um tempo inaugural. É aqui que se insinuam algumas das muitas maneiras de viver e propagar a antipolítica, como o viés salvacionista ou a pretensão do monopólio das virtudes públicas. Numa visão benévola, seriam as dores do parto da nova formação, ainda antes de tomar a estrada do amadurecimento. Mais realisticamente, costuma-se apontar nestes casos o predomínio de um “espírito de cisão” que, deixado a si mesmo, faz cometer erros mais ou menos graves – entre eles, acreditar piamente na própria excepcionalidade e abominar o mundo comezinho de alianças e compromissos.

Neste ponto é que nos ocorre a lembrança de uma segunda voz dotada de imensa autoridade. A vitória petista de 2002, início de um inédito ciclo que, com interrupções, vem até hoje, não foi acontecimento exótico numa democracia moderna. Luiz Werneck Vianna, no calor da hora, apontou que terminava ali, de uma vez por todas, a sedução da aventura fora da política democrática. Em resumo, não somos um país de fracassos, uma sociedade fechada aos “de baixo”, um Estado que não inclui quem aceita as regras do jogo.

Ao contrário, Werneck Vianna, talvez o mais destacado formulador marxista da política de frente, indicava a possibilidade de uma absolvição da História por parte dos vencedores de 2002, seus intelectuais e a cultura que, com avanços e recuos, estavam a propor. Nesta reconciliação – e no bom combate para dirigir uma sociedade complexa e plural –, residia a esperança de superação dos traumas deixados por uma modernização aos trancos e barrancos, com as injustiças com que todos temos de nos haver cotidianamente. Uma modernização sem o moderno, ainda segundo nosso autor.

Nem todas as provas foram vencidas com louvor, muito pelo contrário. As insuficiências explicam este momento de cansaço cívico e existencial. Estamos presos a uma sensação de democracia incompleta e precocemente envelhecida, estimulando os cavaleiros da fortuna a explorar os flancos expostos. Apatia e polarização “congelada” convivem numa mistura insólita, o que reforça a oportunidade de consultar as vozes que nos antecederam. Ouvi-las não significa repetir suas respostas. Preservado o núcleo de tais respostas, cabe recuperar a pergunta original: como mudar a sociedade sem fazer terra arrasada das instituições – liberal-democráticas – que nos trouxeram até aqui?

*TRADUTOR E ENSAÍSTA, COEDITOR DAS ‘OBRAS’ DE GRAMSCI NO BRASIL

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