Folha de S. Paulo
Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e
Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução
Mas à estupefação com o relato do pistoleiro
segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia
Espanto ou estupefação: a escolha da palavra fica a cargo da parcela crítica do público disposto a avaliar uma notícia recente em alguns veículos de mídia. Trata-se da narrativa em que Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução, mas, compungido, lamenta ter assassinado os dois únicos inocentes em sua carreira de crimes. E o público, nada menos que estupefato, ainda fica sabendo que ele não matou mil pessoas, como teriam insinuado. Foi menos, mas poderia ser muito mais, fosse feita a conta de ações conjuntas com a polícia.
Horripilante, esse relato evoca Jean-Jacques
Rousseau em "A Nova Heloísa" quando menciona um jeito de "negar
o que é, e de explicar o que não é". A negação permite manipular a
percepção plena de algo que existe, para naturalizar o lado obscuro dessa
existência. É quando a explicação serve para confundir, como diz o compositor
Tom Zé.
"Negar o que é" equivale a
desconversar sobre uma estrutura sociopolítica criminosa emergente no
território fluminense a partir da infiltração do velho caciquismo, com os
vícios de políticas interioranas, nos aparelhos de Estado. São amostras o
parentesco e o compadrio das alianças partidárias, mas igualmente a
reconfiguração dos antigos capangas como matadores profissionais. A indiferença
aos direitos humanos por parcelas expressivas da sociedade é fator de expansão
desse fenômeno, com vezos de autonomia: o "escritório do crime",
horror público.
Mas à estupefação com o relato do pistoleiro
segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia. Abordou o fato como
fait-divers, isto é, notícia curiosa que rompe a normalidade cotidiana, e aí ficou,
sem relacioná-la à estrutura criminosa que se mantém de pé. Ao mesmo tempo,
entretanto, acendeu holofote continuado sobre um incidente universitário, em
que alunos
agrediram outro por suposto uso de insígnia nazista. Numa das
matérias, chegou-se a comparar com o linchamento fatal de um ciclista em
Copacabana.
O fato é condenável, não se discute, nem se
justifica manifesto de docentes em apoio a agressores. Mas a atitude imediata
do reitor Roberto Medronho, um dos melhores nesses tempos de carência por que
passam as instituições públicas de ensino e pesquisa, foi exemplar: abriu
sindicância, deu entrevista clara, os responsáveis serão avaliados. Não foi ato
de uma "esquerda" imaginária encarnada: tratou-se mesmo de
inaceitável violência por
parte de adolescentes exaltados, no âmbito da UFRJ. Daí ser também espantoso o
persistente foco da mídia carioca sobre o assunto, simultâneo e minimizador do
relato do pistoleiro. Universidade pública pode ser alvo empresarial mais impactante.
Quando se pensa em "jornalismo do
futuro", conviria ser incorporada a definição por Machado de Assis de
jornal como "a verdadeira forma da república do pensamento" (em
"O Jornal e o Livro"). Sim, diante da metástase eletrônica da
informação desinformativa, o bom jornalismo ainda é "expressão, um sintoma
de democracia". Nunca foi tão crucial a reflexão responsável sobre o que
se ouve e publica.

Nenhum comentário:
Postar um comentário