O Globo
O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe
valeu condenações por incitação ao racismo e apoio a movimento terrorista
Pronto, agora é oficial. Na semana passada, em Israel, foi anunciado o plano de limpeza étnica e erradicação da vida palestina em Gaza. A única ambiguidade — e ela é infame — está no título do opus: “Plano Nacional de Trabalho para a Emigração Voluntária do Estreito de Gaza”. De resto, o documento de 20 páginas detalhado com orgulho por seu autor, o ministro da Segurança Interna Itamar Ben-Gvir, é “realista” e “concreto”. E inequívoco. Numa primeira leva, com prazo de execução de 12 meses, a cota de desterro coercivo deverá atingir 250 mil cabeças. O restante dos 2 milhões de gazenses deverá abandonar o que lhe resta de chão ao longo dos seis anos subsequentes. Está tudo equacionado, garante Ben-Gvir, afirmando já ter uma lista de países dispostos a absorver os desenraizados. O próprio ministro da Defesa israelense, Israel Katz, também já informou aguardar apenas a aprovação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para dar início à emigração “a qualquer custo”.
Vale lembrar o Direito Internacional
Humanitário (Estatuto de Roma de 1998, Quarta Convenção de Genebra, de1949),
que define como crime de guerra “a deportação ou transferência da totalidade ou
de parte da população do território ocupado dentro ou para fora desse
território, em conflitos internacionais”. Ainda assim, o mundo viciado em
noticiário 24/7 preferiu não se deter nesse marco que a História haverá de
registrar. Preferiu-se, para melhor acomodar o sono, atribuir o anúncio
declarado do crime a mais uma extravagância da campanha de Ben-Gvir às
decisivas eleições legislativas de 27 de outubro próximo.
De fato, o ministro supremacista mais
extremado do governo de Benjamin
Netanyahu tem se superado. Dia desses, ele postou um vídeo de 25
segundos tão tóxico que foi aconselhado a deletá-lo. O vídeo gerado por IA
mostrava prisioneiros palestinos rechonchudos e sorridentes numa sala de
tribunal, aguardando julgamento. No plano seguinte, o mesmo grupo já emaciado e
cabisbaixo era encaminhado, em fila, ao que parecia ser um abatedouro humano
industrializado. Um horror difícil de dissociar do horror maior do século XX.
Mas era brincadeirinha de IA.
Um segundo vídeo do ministro de popularidade
galopante dispensou pirotecnias digitais. Gerou impacto justamente pela
veracidade factual da filmagem: uma visita às obras do futuro complexo de
forças reservado à execução de palestinos condenados por crimes de terrorismo.
O local exato da obra permanece sigiloso, mas já era possível ver escavadeiras
e construções pesadas em andamento.
— O corredor da morte e as instalações para
enforcamento estão começando a tomar forma — informa o ministro.
Ele acrescenta que o local das execuções será
equipado com cabines de observação para as famílias judaicas das vítimas acompanharem
o ritual. A pena de morte aprovada neste ano em Israel isenta judeus
extremistas acusados de crimes semelhantes contra palestinos.
O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe
valeu condenações por incitação ao racismo e apoio ao movimento terrorista
Kach, banido. Ele também poderá sofrer sanções se pisar na França, na Irlanda ou
no Reino
Unido. Nos Estados Unidos está em curso uma moção do senador democrata
Ruben Gallego, do estado do Arizona, a favor do seu banimento do solo
americano. Uma parte do Ocidente envergonhado considerou excessiva a recente
defesa que ele faz de execuções punitivas em Gaza:
— Acho que deveríamos realizar de 30 a 40
assassinatos seletivos por noite. Não apenas daqueles que representam uma
ameaça imediata. Há pessoas ali que não merecem viver... Elas nem sequer são
gente.
A marcha de Israel anda acelerada. O partido
Poder Judaico, sob comando de Ben-Gvir, tem fortes chances de ganhar mais sete
cadeiras na nova legislatura e já se fala na criação de um novo ministério para
cuidar da emigração forçada. Na terça-feira, autoridades do país iniciaram a
imposição de novo currículo para mais de 45 mil alunos palestinos matriculados
em escolas públicas do setor árabe de Jerusalém. Como parte de uma campanha
global, o Estado judeu e seus aliados têm intensificado esforços para apagar a
palavra Palestina de registros históricos, livros e museus. Soa delirante? Nem
tanto. A seção libanesa da Agência das Nações Unidas de Assistência aos
Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA, na sigla em inglês) já
substituiu a palavra “Palestina” por “Cisjordânia” e “Gaza” em mapas didáticos
do ensino médio. Até o majestoso British Museum de Londres cedeu
a pressões em fevereiro último e apagou “Palestina”, “palestino” e “ocupação
israelense” de alguns painéis históricos específicos.
Deixamos o mais afrontoso para o final,
revelado por Jeremy Greenstock, embaixador junto à ONU no primeiro mandato do
esquecível governo de Tony Blair (1997-2007). Atualmente, Blair integra o
esdrúxulo Comitê de Paz montado por Trump para implementar o cessar-fogo em
Gaza, acordado, mas não cumprido, por Israel desde outubro passado. Pois bem,
em entrevista ao site Middle East Eye, o diplomata contou que Blair havia sido
incumbido de levar à Autoridade Palestina uma proposta capaz de amolecer
Israel: a troca do termo “Palestina” pelas designações bíblicas judaicas
“Judeia” e “Samaria” no currículo escolar das crianças palestinas. A indecência
dessa proposta está à altura do mensageiro, que nega o ocorrido. Decididamente,
há bípedes que se superam na ignomínia.

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