O Estado de S. Paulo
Com foco em Vorcaro, o prejudicado era Flávio; em Xandão, passa a ser Lula
O resultado da crise sem precedentes no
Supremo, devastador para o humor nacional e a já frágil confiança nas
instituições, atinge as eleições. Sem programas de governo, com propostas reais
e factíveis, a base de eleitores e eleitoras para votar é o mar de lama e a
nociva sensação de que “são todos iguais, ninguém presta, não temos para onde
correr”. Daí os dois dígitos do outsider Augusto Cury.
O escândalo bilionário do onipresente Daniel Vorcaro atinge direita, esquerda e principalmente Flávio Bolsonaro, que se jogou na rede ao pedir a bagatela de R$ 130 milhões para o “irmão” banqueiro. Mas, ao destroçar a reputação do ministro Alexandre de Moraes e rachar de vez o STF, o caso respinga sobre o presidente Lula.
O estrago contra Flávio já foi feito e, até
surgirem novas revelações, atingiu o teto. Se há ainda estrago a ser feito é
contra Lula, que não é suspeito de envolvimento direto com Vorcaro, como
Flávio, mas embolouse com Moraes, como se fossem aliados, do mesmo time.
Ao se meter no julgamento da trama do golpe,
Lula reforçou o discurso bolsonarista de “motivação política” e acaba de
cometer a imprudência de negociar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre,
na casa de Moraes. Ministro do STF em campanha política?
O time de Moraes inclui Gilmar Mendes, Dias
Toffoli e o próprio Alcolumbre. Como dizer que Lula não faz parte? Logo, o
fator Xandão ameaça Lula e exatamente quando sua vantagem sobre Flávio evoluiu
para empate no segundo turno e já não é impossível que as duas linhas se
cruzem, com Flávio à frente.
Moraes não explica o contrato de R$ 131
milhões, jato Legacy, helicóptero e cartão de crédito com limite de R$ 300 mil
para os filhos. Muito menos, as 51 mensagens de Vorcaro em que fica óbvio que
passava informações sigilosas e agia para tentar salvá-lo, tanto da prisão
quanto da liquidação do Master.
Assim, o ministro ataca o relator do caso
Master, André Mendonça, até com rascunho sem timbre, assinatura ou qualquer
valor, o que revela desespero e foi descartado por Edson Fachin. O antes
todo-poderoso Xandão está nos estertores e se permite arrastar o STF com ele,
transformando-se, de defensor, em ameaça à democracia.
Com o foco do escândalo em Vorcaro, o
principal prejudicado na campanha era seu “irmão” Flávio. Quando esse foco
desvia para Moraes, perdido em movimentos primários e descoordenados, quem
tende a pagar o pato é Lula.
Xandão e Lulinha são os maiores riscos a um quarto mandato para Lula e, portanto, os maiores cabos eleitorais de Flávio, segundo a campanha petista, “o pior dos Bolsonaro”.

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