Folha de S. Paulo
Intervenção do presidente Fachin serve só
para interromper escalada na briga entre ministros
Uma estratégia de saída para a crise passa
por abandonar proteção corporativista e levantar sigilos
A providencial intervenção do presidente do STF, Edson Fachin, serviu para conter as cenas de pugilato judicial entre ministros da corte. É um primeiro passo necessário, mas fica ainda muito aquém de uma estratégia de saída para a crise em que as mais altas autoridades da Justiça do país se enredaram. Serão necessárias também medidas de curto e de longo prazo, sobre cuja viabilidade sou pouco otimista.
O mais difícil é o curtíssimo prazo, que é a
semana que vem. Não vejo como o STF possa recobrar a imagem de
integridade necessária para desempenhar suas funções mantendo em seus quadros
ministros sobre os quais pesam a suspeita de terem, mediante paga, defendido os
interesses de um banqueiro metido em fraude grossa. Não sei se os juízes
chegaram a cometer crimes e não seria fácil prová-lo. Mas isso só piora a
situação do tribunal, já que uma investigação demandaria meses de trabalho
policial e poderia terminar inconclusiva. E ainda tenho sérias dúvidas de que
as apurações serão autorizadas pelo plenário.
O corporativismo é uma força poderosa. Mas o
STF cometerá uma espécie de suicídio reputacional se nem sequer fingir que
mandou investigar a si mesmo.
Num curto prazo um pouco mais estendido, isto
é, daqui até outubro, será preciso tentar isolar o STF do espectro das
interferências eleitorais. Deixar de fazê-lo traz o risco de contaminar não só
o Judiciário mas a própria democracia. O caminho é levantar todos os sigilos de
todas as investigações com potencial impacto eleitoral que estão sob supervisão
da corte. Não é impossível, mas é difícil. Há muita gente muito poderosa
interessada em ficar sob as sombras.
O longo prazo é a parte fácil. Supondo que o
STF e o Brasil sobrevivam, precisaremos pensar em reformas que ajudem a
despolitizar a corte. Criar regras que impeçam presidentes de indicar cupinchas
é um bom começo. Eu também revisaria a competência originária do STF para casos
criminais de políticos, além de reduzir o
tempo máximo de permanência de ministros na corte.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário