quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Fachin toma posse, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente do STF toma as rédeas para tirar a Corte da crise

O fim do inquérito das fake news, indicado pelo ministro Edson Fachin, é o sinal mais relevante de que a crise no Supremo Tribunal Federal pode ter começado a ser controlada.

A rigor, o presidente do STF não o encerrou, mas assumiu suas prerrogativas regimentais sobre este inquérito revogando a portaria que designava o ministro Alexandre de Moraes como seu relator. Pediu de volta os procedimentos em andamento “no estado em que se encontram”.

Serão enviados à autoridade policial e à procuradoria-geral da República, mas, sem a militância de Moraes a movê-los, está sinalizado o encerramento. Ao longo dos quase oito anos em que esteve aberto, este inquérito tornou-se a incubadora da crise. De instrumento para preservar as instituições da corrosão da extrema-direita nas redes sociais, transformou-se em adubo do poder desmedido de seu relator. A reação igualmente desmedida a este poder consumiu a Corte.

O envolvimento de Moraes com o banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, foi um subproduto do inquérito das fake news. O treino na condição simultânea de vítima, investigador e julgador deu-lhe a musculatura com a qual se sentiu blindado para atuar na defesa do protagonista do maior escândalo financeiro da história.

Além de enfrentar, com atraso, o imperativo da conclusão do inquérito das fake news, Fachin marcou, para a próxima terça, o julgamento da petição do ministro André Mendonça que pode levar à abertura de um pedido de investigação de Moraes no caso Master. Pode sair daí a decisão que encaminhe a saída para o dilema do tribunal de ter, como próximo da linha sucessória, um ministro sobre o qual recaem tão retumbantes suspeitas.

O presidente do STF saiu da letargia depois que o ministro Flávio Dino passou uma jamanta em cima de sua derradeira decisão. Provocado pela Advocacia-geral da União contra a decisão monocrática de Mendonça que afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, Fachin pediu manifestação do ministro em até 72 horas. Seguiu prazo previsto em lei, mas a deterioração da crise impunha urgência.

Houve quem, no Palácio do Planalto, sugerisse que a saída passasse por uma liminar de reintegração imediata de Andrei Rodrigues e do diretor de inteligência da PF, Leandro Almada, que seria seguida por um pedido de demissão de ambos a ser aceito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para apaziguar a crise.

O prazo de 72h dado por Fachin gorou a operação. Quem acabaria se manifestando, por liminar, 12 horas depois, foi Dino, com a determinação para que a dupla da PF fosse reintegrada. O drama que se abatia sobre o tribunal foi parar nos memes que mostravam Fachin resignado ante uma conjuntura que requeria ação.

Oito horas depois da jamanta de Dino, vieram as ações em série de Fachin. Ao suspender, de uma só penada, o afastamento determinado por Mendonça e a reintegração ordenada por Dino, Andrei Rodrigues voltou ao cargo por 48 horas. Neste prazo, deverá prestar informações ao presidente da Corte que deliberará sobre sua permanência no cargo.

Fachin, até o momento, preservou as relatorias de André Mendonça nos inquéritos de maior ressonância nesta campanha, o do Master e o do INSS, mas o incluiu, ao lado de Dino e Moraes, na reprimenda ao conjunto de decisões que têm causado “tumulto processual” na Corte.

No mesmo dia em que Fachin tomou posse do cargo formalmente assumido há um ano, Mendonça homologou a delação do operador responsável pelo repasse de recursos de Vorcaro para o filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Horas antes, a decisão de Dino havia sugerido que o ministro agia por pressões “partidárias, ideológicas, midiáticas ou de interesses pessoais”. Está claro que Mendonça busca manter suas prerrogativas, ainda que resista à decisão que o blindaria de questionamentos, a abertura do sigilo de todo o inquérito do Master.

A ver, ainda, como reagirá o ministro Gilmar Mendes à posse de Fachin. Em ‘O Globo’, Lauro Jardim e Rodrigo Castro mostraram o decano de fraque, no Norte da Itália, no casamento da filha de um empresário com ação na Corte da qual é relator. Naquele dia, plena terça-feira útil, pediu vista, em sessão virtual, da deliberação sobre o afastamento de Andrei.

No dia em que Fachin resolveu agir, entidades empresariais cobraram, em abaixo-assinado, que ninguém esteja acima da lei. A manifestação é bem-vinda, até porque acontece num momento em que se revelam os danos que a traficância de interesses privados podem causar ao Judiciário.

Um consultor que passa metade do ano em Washington conta que a insegurança jurídica no Brasil, para o investidor estrangeiro, não é mais a alternância ideológica de poder, mas a dificuldade de competir, de igual para igual, com o poder dos lobbies há muito instalados no Judiciário.

Fachin assumiu o papel que o próprio presidente da República lhe havia demandado. E o fez num dia em que Lula saiu (mal) do seu mutismo. Pediu que fosse aberto o sigilo do caso Master sem explicar por que não estendeu o pedido à investigação do INSS. Mencionou como precedente a operação Spoofing, que expôs relações impróprias entre o juiz e o procurador da Lava-Jato, Sergio Moro e Deltan Dallagnol. A válvula de escape dos traumas de Curitiba incluiu até a menção do relator da operação, Ricardo Lewandowski, que, ao deixar o STF, se tornaria seu ministro da Justiça.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente coluna!