Folha de S. Paulo
Em discurso há 20 anos, Marco Aurélio Mello
alertava para os males de atos indignos na vida pública
Ministros aposentados que cobram rigor e
transparência pertenceram a outros tempos do tribunal
Os ministros aposentados que em abaixo-assinado pediram
ao presidente Edson Fachin manifestação
rigorosa e transparente sobre as suspeições que assombram o Supremo Tribunal
Federal (STF)
pertenceram a outros tempos da corte.
Tempos em que as indicações não eram pautadas pela fidelidade ao presidente da República e magistrados não se conduziam ao sabor de proximidades estratégicas, alianças táticas e afinidades políticas com atores da vida pública e personagens do mundo privado —devedores, como qualquer cidadão, de obediência aos ditames da Justiça.
Tempos que ficaram para trás, perdidos no
desprezo à colegialidade e substituídos por um individualismo transmutado em
coleguismo nos piores momentos. Época em que magistrados não se viam como
mestres do Universo.
O que se mostrou como hesitação de Fachin,
até que ele chamasse a si a responsabilidade de estabelecer a ordem no
tribunal, era a referência de um presidente do STF que ainda se pautava pelos
critérios do tempo antigo.
A realidade mostrou que cautela, discrição,
racionalidade, ponderação e avaliação das consequências antes de ceder à
precipitação não são atributos que se coadunam com as urgências dos novos
tempos.
O termo "tempos estranhos" ao qual
se referiu o então ministro Marco Aurélio
Mello, em 2006, ao assumir a presidência do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE)
no ambiente conturbado do escândalo do mensalão,
pode ser replicado à inimaginável situação em que aquelas palavras se
aplicariam à corte suprema.
"A rotina de desfaçatez e indignidade
parece não ter limites, numa mistura de escárnio e afronta", disse ele no
memorável discurso que se revelou premonitório. Primeiro, pela ideia de que
juízes teriam um papel a encarnar além da guarda da Constituição; depois, por
condutas pessoais permeáveis a companhias e ambientes impróprios ao exercício
da nobilíssima função.
Óbvio que não estão acima da lei da qual são
guardiões. Indispensável atenção da cidadania a que estejam também, e
sobretudo, acima de qualquer suspeita.

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