sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Reflexão do dia – Editorial O Estado de S. Paulo

“Um dos talentos menos decantados do presidente Lula é o da sua prontidão para cumprir a lei de Gérson, aquela cujos seguidores "gostam de tirar vantagem em tudo", conforme o comercial de uma marca de cigarro estrelado pelo craque da seleção de 1970. Tamanha a maestria do presidente nesse jogo que ele é capaz de tirar vantagem também de seus próprios lapsos ou erros”.

(O Estado de S. Paulo, Editorial – Falso patrono da reforma)

Merval Pereira:: Cada um na sua

DEU EM O GLOBO

Consumada a decisão do Supremo Tribunal Federal de abrir processo contra o senador Eduardo Azeredo, do PSDB mineiro, temos definido que cada um dos principais partidos políticos brasileiros carrega agora acusações do mesmo teor. Há o mensalão do PT, o do PSDB e, agora, o do DEM. Mesmo que as características de cada um sejam diferentes entre si — o do PT com caráter nacional e arquitetado de dentro do Palácio do Planalto, de acordo com a acusação acolhida pelo Supremo, e o do PSDB e do DEM de caráter regional em Minas e no Distrito Federal, o fato é que eles não se distinguem para a opinião pública e em termos políticos.

Suas consequências são arrasadoras não só para partidos que, cada um a seu tempo, quiseram assumir a bandeira da moralidade na política, mas também para o debate político.

Nivelando-se por baixo, nossos partidos ficam parecidos aos olhos dos eleitores, e o alívio que hoje sentem os petistas com a desdita de seus adversários oposicionistas é o sintoma mais evidente do desvio de conduta que tomou conta da política brasileira.

Há um raciocínio perverso que leva alguns a acusar os partidos oposicionistas que abandonaram o governo do Distrito Federal de traição a um correligionário, embutindo nesse raciocínio a ideia de que pelo menos os petistas não abandonam os seus.

Uma variante desse raciocínio político degradado leva alguns “democratas” a pensarem que, se o PT não puniu nenhum de seus mensaleiros, por que eles têm que punir os seus? Dizer que o falso moralismo derrotado pelos fatos é um bom indício de que a política agora se travará no debate real das realizações, e não no plano etéreo da moralidade, é aceitar que a corrupção é fator inerente à atividade política.

Esse excesso de pragmatismo é o responsável pela degradação da nossa vida política e se reflete na tentativa que todos os partidos, sem exceção, fizeram e fazem para reduzir a culpa de seus correligionários.

A começar pelo presidente da República, que, não contente de passar a mão na cabeça de todos os mensaleiros e aloprados petistas, ainda tentou relativizar as imagens escabrosas da farta distribuição de dinheiro nas salas do governo do Distrito Federal.

A recusa do DEM de expulsar sumariamente o governador José Roberto Arruda de seus quadros, adiando a decisão por dez dias, só demonstra a força que ele tem dentro do partido, contagiando toda a sua já reduzida estrutura partidária, que vem minguando a cada eleição.

Também o PSDB hesitou em punir o senador Eduardo Azeredo quando surgiu a denúncia do “mensalão mineiro”, que teria sido a origem do “mensalão petista”.

Da mesma maneira que o governador José Roberto Arruda emparedou seus companheiros de partido, ameaçando “radicalizar” no final se “radicalizassem” contra ele, também Azeredo, então presidente nacional do PSDB, mandou seu recado quando achou que seria abandonado pelos companheiros tucanos: “A campanha de 1998 não era só minha. Era de todo o partido, inclusive da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso no estado”, disse ele em entrevista em 2007.

O fato é que Azeredo continua no PSDB até hoje, e até bem pouco tinha planos de se candidatar à reeleição ao Senado. No momento, parece mais fácil ser candidato a deputado federal.

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que naquela eleição concorreu a deputado federal, já o avisou de que não há espaço para disputar uma das duas vagas de senador.

O governador Arruda, por sua vez, dificilmente continuará no DEM, perdendo assim a possibilidade de se candidatar em 2010; mas tentará se manter no governo do Distrito Federal até o último momento, para ser julgado em foro privilegiado pelo Superior Tribunal de Justiça.

E o PMDB é um injustiçado, não aparece em nenhum esquema dos mensalões? A explicação vem de um membro ilustre daquele aglomerado político, o senador Pedro Simon: “O PMDB está em todos eles”.

No mensalão petista, o acusado foi o deputado José Borba, do PMDB do Paraná.

No mensalão do DEM, aparece em uma conversa gravada, entre outros correligionários, o nome do presidente da Câmara, Michel Temer, cotado para ser o vice da chapa da ministra Dilma Rousseff.

Temer nega as acusações e, juntamente com a direção do partido, pretende processar na Justiça seus acusadores. As acusações de corrupção atingem de maneira direta ou indireta a sucessão do presidente Lula, e não apenas os partidos de oposição, embora estes sejam os mais obviamente afetados.

O governador de São Paulo, José Serra, tinha com o DEM uma clara parceria política, que levou Gilberto Kassab à prefeitura paulista. Já o governador de Minas, Aécio Neves, ganhou o apoio recente do presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia, na disputa interna pela candidatura à sucessão de Lula.

Além disso, o partido era o potencial parceiro para indicar o vice-presidente na chapa tucana, se não fosse possível formar uma chapa puro-sangue do PSDB.

A crise instalada pelos escândalos de corrupção no governo do Distrito Federal está abalando as relações interpartidárias, mas é pouco provável que o DEM se afaste da chapa oposicionista, embora seja praticamente certo que não dará mais o vice.

Dora Kramer:: Perda total

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quem ganha em 2010 com o zero a zero que se estabeleceu entre os grandes partidos em matéria de escândalos de corrupção é uma questão em aberto. Mas, por ora, quem perde não resta a menor dúvida de que é o discurso pela retomada da ética na política e, consequentemente, o País.

Algumas mentes deformadas chegam a comemorar o empate nesse macabro campeonato porque, assim, o assunto estaria devidamente interditado na campanha eleitoral durante a qual os concorrentes tratariam apenas de assunto relevante: a comparação entre os governos Luiz Inácio da Silva e Fernando Henrique Cardoso e a tão desejada polarização em feitio de "nós" contra "eles".

Há quem chegue quase a dar graças a Deus pelo fato de a cúpula do governo do Distrito Federal ter se exibido podre em praça pública, porque isso retiraria o moral das críticas à rotina de imoralidades que tomou conta do ambiente político e facilitaria um compromisso de não-agressão entre os contendores nessa área.

Teríamos chegado então àquele patamar em que, na impossibilidade de se restaurar a moralidade, locupletam-se todos.

É um cenário realmente desanimador, que não permite celebrações, mas possibilita a indagação à capacidade de o Brasil prosseguir em sua trajetória bem-sucedida e obter ainda os avanços em áreas como saúde, educação, segurança pública, preservação do meio ambiente, se não houver um mínimo de preocupação com a correção de condutas.

Impossível imaginar um país desenvolvido onde a dissolução dos costumes seja uma praxe incorporada à rotina pela força do hábito, pela tradição e pela amplitude da adesão.

Alguém terá de romper a inércia e dizer que é preciso pôr um paradeiro nas transgressões simplesmente porque um Estado de Direito não sobrevive se não houver respeito às leis.

Se os partidos não o fizeram por falta de credibilidade para tal, acabarão atropelados pela sociedade. No curso da campanha do ano que vem será absolutamente impossível os partidos ignorarem a mazela.

Não adianta desqualificar o assunto dizendo que é "udenismo" ou "farisaísmo". A questão vai aparecer justamente pelos motivos que os partidos hoje acreditam que ela possa desaparecer.

Como já se viu que não se trata de um mal localizado, é evidente que o desconforto com a indecência generalizada acabará se impondo talvez até de forma preponderante. Não há pacto de não-agressão firmado no Planalto que resista à realidade percebida na planície.

E, nesse aspecto, o escândalo de Brasília foi devastador para todos. Não é uma discussão em tese nem se trata de indícios, suspeitas ou meras acusações. As cenas mostradas na televisão atingem à massa do eleitorado, que imediatamente - até pelas referências feitas no noticiário - se remete a outros casos.

De imediato o maior prejudicado é o DEM. Mas a ele já surgem acoplados personagens do PSDB e do PMDB, para citar apenas os personagens essenciais da eleição presidencial, não obstante legendas das áreas de influência das forças adversárias também estejam representadas na quadrilha.

Isso faz uma conta de soma zero?

Ao contrário. Exibe de maneira escancarada um somatório de atitudes delituosas que não escaparão ao juízo do eleitorado.

Sangue frio

Na sexta-feira em que explodiu o escândalo em Brasília, o vice de José Roberto Arruda, Paulo Octávio, estava de folga em Itaparica (BA). Foi avisado por um amigo empresário do que ocorria na capital e aconselhado a voltar para lá.

Paulo Octávio não se abalou: ficou, dançou, jogou tênis e se divertiu como se não houvesse amanhã.

Pela condescendência do DEM, que não vê motivo para punições não obstante as referências nas gravações sobre a parte que lhe cabia na partilha do dinheiro distribuído por Durval Barbosa, o vice sabia de antemão que não havia por que se afligir.

E, pelo menos por enquanto, não viu razão para demitir seu executivo Marcelo Carvalho, que aparece em um dos vídeos guardando dinheiro numa mala preta.

Só na certa

Observação de um tucano engajado (na campanha de José Serra): "Aécio só aceitará ser vice se tiver certeza de que o Serra vai ganhar."

Troca de guarda

Parcela expressiva do setor produtivo e do mercado financeiro nutre a expectativa de que em algum momento Lula substitua Dilma Rousseff por Antonio Palocci na candidatura presidencial.

Não por coincidência, quem diz isso - e não são poucos - considera José Serra intervencionista demais.

Em dois encontros recentes, e em locais diferentes, reunindo gente da indústria e da área de investimentos, foi bem recebida a informação de que o candidato pode desistir a qualquer tempo mesmo depois de oficialmente indicado em convenção do partido.

Eliane Cantanhêde:: O tamanho do estrago

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Jorge Bornhausen e Gilberto Kassab sobrevoaram o DF nesta semana para tentar avaliar o desastre "in loco". Concluíram o que já era "concluível" com base em imagens gravadas e reportagens: o estrago é de bom tamanho. Só que não só no DEM, pois avança pela oposição inteira e já chega à cúpula lulista do PMDB.

O maior empenho dos demo é para jogar Arruda ao mar e lançar uma boia para o vice, Paulo Octávio, desde, claro, que não surjam outros vídeos voadores por aí contra ele. PO, como é chamado, seria uma forma de segurar o governo agora, não de mantê-lo em 2011. Do jeito que a coisa vai, o grande vitorioso em Brasília é a esquerda, PT à frente, PDT logo em seguida. Se os dois se juntarem, podem decidir de véspera a eleição em 2010 na capital.

Na eleição presidencial, a avaliação é de que a oposição não tem para onde correr no DF: o que é pior, ficar sem nada ou ir com Roriz? É mais um vácuo, pois Serra e Aécio não terão como pisar no Rio Grande do Sul sem vaias e vão se deparar com uma penca de palanques para Dilma e nenhum para si no Rio.

Além disso, a oposição está naturalmente em maus lençóis no Norte e não está lá essas coisas no Nordeste, onde Lula tem uma força enorme, apesar de algumas brechas -na Bahia, por exemplo.

É por essas e muitas outras que Bornhausen deve estar louco da vida com o DEM do Paraná, que prefere se aliar ao PDT de Osmar Dias do que ao PSDB do popular Beto Richa, rachando a aliança num reduto favorável. Ele acha que não dá para desperdiçar nada.

Com a chegada de dezembro, da crise na capital e, ontem, do processo no STF contra o ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo, cresce a certeza de que são precisos "grandes lances".

O principal seria a chapa Serra-Aécio, somando os decisivos São Paulo e Minas e salvando PSDB, DEM, PPS e até os próprios Serra e Aécio de um longo limbo. Em alguns casos, sem volta.

Maria Cristina Fernandes:: Onde os extremos se encontram

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Egressos dos extremos da cadeia partidária e coincidentes na pauta da moralidade, DEM e P-SOL chegam à véspera da sucessão presidencial de flerte com o ocaso.

Um está no clube dos grandes do Congresso desde sempre. Já chegou a ser o partido com o maior número de prefeitos do país. Hoje comanda metade dos mil municípios de seu apogeu. Dos sete governadores que teve nos anos 90, hoje se limita ao quase nenhum da capital federal.

Ocupou os mais poderosos ministérios, estatais e autarquias até a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que, na única vez em que encabeçou chapa para a Presidência da República, com Aureliano Chaves em 1989, não tenha obtido percentual de votos que chegasse a um dígito.

O outro está no clube dos nanicos desde que surgiu, da costela do PT. Tem quatro deputados federais, um senador - José Nery (PA) - e nenhum governador de Estado. Nunca comandou cargos de poder na administração federal. Isso não impediu que, em 2006, na primeira eleição nacional que disputou, alcançasse, com a então senadora Heloísa Helena, 6,8% do total de votos para a Presidência da República, perdendo apenas para os dois finalistas.

O PT chegou ao poder pelo centro e, no governo, comeu bordas à direita e à esquerda. Às vésperas de o PT iniciar seu último ano como inquilino do Palácio do Planalto, é nas margens do quadro partidário que o quadro sucessório lhe serve de balanço.

No P-SOL, o sucesso da disputa presidencial de 2006 não teve sustentação. Na eleição seguinte, sua fatia no colégio de 51.748 vereadores do país passou de 20 para 25 vereadores.

Naquela eleição, Heloísa Helena enfrentaria a exploração de seus adversários de uma dívida que acumulara com a Receita pelo não recolhimento de impostos incidentes sobre a verba extra a que tinha direito, nos anos 90, como deputada estadual pelo PT. O caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça e, na batalha de recursos, a Receita está à frente.

Naquele mesmo ano, a deputada federal Luciana Genro (RS), candidata em Porto Alegre, seria bombardeada internamente depois de receber contribuição da Gerdau à sua campanha.

O economista Cesar Benjamin, vice de HH em 2006, assistiria de longe o partido sucumbir à pira do denuncismo. Voltaria à tona agora para anunciar que não é capaz de distinguir um piadista boquirroto de um aliciador de menores - deficiência que não o impede de exercer o cargo de diretor-presidente de uma rede estadual de rádio e televisão morando a 852 quilômetros de seu local de trabalho.

Em 2010, a única expressão eleitoral de abrangência nacional da extrema esquerda já anunciou que pretende apoiar a senadora Marina Silva (PV). Vale conferir qual será o desempenho do P-SOL nas Câmaras de Vereadores das eleições seguintes.

No DEM, a encrenca de José Roberto Arruda acrescentou pneumonia num paciente terminal. Seus candidatos mais competitivos a governos estaduais - Bahia, Sergipe e Rio Grande do Norte - estão na região onde Lula elege até uma lamparina.

No Senado, repositório de poder do partido, a situação é igualmente crítica. Da atual bancada de 13, pelo menos metade deve sucumbir ao rolo compressor da aliança governista nos Estados.

O DEM minguou longe do poder, mas foi no exercício do seu mais vistoso cargo que o partido lembrou o que é capaz de fazer quando empossado. A oração da propina jogou por terra a estratégia do mais aplicado partido de oposição no Congresso. Investido dessa condição, o DEM chegou até a apresentar projeto de lei para para proibir as empreiteiras de captar financiamento junto ao BNDES para obras no exterior. É um projeto que não teria dificuldades de arrastar o P-SOL se este partido tivesse mais do que uma cadeira na Casa.

Além de não lhes arrebatar novos eleitores, o discurso da moralidade, contradito, abriu um fosso em relação a seu eleitorado tradicional.

São ambos reféns de um governo que, capturado na sua própria armadilha ética, radicalizou as políticas inclusivas e a mistificação da figura do presidente. É jogo jogado.

No passado, o golpismo serviu de refúgio para a direita desprovida de voto e a clandestinidade, à esquerda derrotada pelos seus erros. Hoje não há alternativa às urnas, por mais duro que isso possa parecer.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

EDITORIAL - O falso patrono da reforma

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Um dos talentos menos decantados do presidente Lula é o da sua prontidão para cumprir a lei de Gérson, aquela cujos seguidores "gostam de tirar vantagem em tudo", conforme o comercial de uma marca de cigarro estrelado pelo craque da seleção de 1970. Tamanha a maestria do presidente nesse jogo que ele é capaz de tirar vantagem também de seus próprios lapsos ou erros. O mais recente, como se sabe, foi a sua característica reação de desdenhar do escândalo do mensalão, ou do panetone, para usar o termo pitoresco, no Distrito Federal. O fato de serem do DEM, a começar do governador José Roberto Arruda, os principais envolvidos na mais documentada lambança do gênero não freou o impulso pavloviano de Lula de apanhar uma vassoura tão logo ouça a palavra corrupção - não para limpar a sujeira, mas para escondê-la debaixo do tapete.

Foi o que se deu na terça-feira, quando os jornalistas que o acompanhavam a Portugal, onde ele participava da Cúpula Ibero-americana, lhe perguntaram se as cenas mostrando boladas de reais manchados trocando de mãos não eram suficientemente eloquentes para merecer dele pelo menos um "palpite" sobre a bandalheira. Lula não se deu por achado. "Imagens não falam por si", decretou, lapidando mais uma contribuição para a sua já alentada antologia de declarações cúmplices com o que há de mais execrável na política brasileira. Caiu mal, como se diz. A repercussão previsivelmente negativa do abafa o apanhou no contrapé. No dia seguinte, já na Ucrânia, o presidente voador viu-se na contingência de negar que estava sendo condescendente com os maracuteiros do DEM, como havia sido com os mensaleiros do PT em 2005 - e, ao longo de seu mandato, com qualquer político apanhado com a boca na botija.

Desta vez, considerou as imagens "deploráveis" e foi além, sacando da lei de Gérson para se aproveitar do momento e novamente driblar a verdade em benefício próprio. Ele deu a entender que moveu céus e terras para fazer aprovar os dois projetos de reforma política que enviara ao Congresso - e que seriam a panaceia para, nas suas palavras, "moralizar o funcionamento dos partidos" e o processo eleitoral. À parte a crendice nos poderes alvejantes da mudança das normas que regem o sistema, se desacompanhadas de provisões que efetivamente garantam a punição dos transgressores (o que inibe o crime, sabem os juristas, é, antes de tudo, a certeza do castigo), a alegação de Lula é falsa como os panetones de Arruda. O presidente que aprova praticamente o que quiser neste Congresso em que a base governista tem um peso sem precedentes desde a redemocratização do País não fez força alguma - descontadas as expressões corporais de praxe - para emplacar as suas propostas presumivelmente saneadoras.

E não fez pela razão elementar de que as atuais regras do jogo que ele finge reprovar lhe convêm não menos do que aos políticos que bloqueiam o seu aperfeiçoamento e com os quais construiu parcerias reciprocamente vantajosas. É longa a lista dos aliados do presidente cujas carreiras vicejaram à sombra do que há de pior nos padrões reconhecidamente defeituosos que estruturam a política e as eleições no Brasil. O "inimigo oculto" que, segundo Lula, "não deixa os projetos serem votados" é ostensivo nos plenários do Congresso - e no espelho em que ele se contempla. Por exemplo, não fosse a infidelidade partidária que só a Justiça tentou coibir, o Planalto não teria conseguido manejar a composição das bancadas federais com a desenvoltura que se viu no primeiro mandato. A responsabilidade do presidente pela perpetuação do sistema do qual tira proveito não pode ser subestimada.

Na verdade, nunca antes na história deste país houve um presidente que tivesse contribuído tanto quanto Luiz Inácio Lula da Silva para o avanço galopante da gangrena da corrupção em todas as instituições republicanas. Está aí, "falando por si", o tratamento privilegiado que dele mereceram alguns dos protagonistas mais expressivos de recentes episódios escabrosos da cena política nacional, a começar por Roberto Jefferson, passando por Jader Barbalho, Renan Calheiros, José Sarney e Fernando Collor, etc., etc. e tal.

E isso quando, nunca antes na história desta República, houve um presidente com tantas condições, dado o seu poder no Congresso, de promover as reformas que diz ter tentado, mas que na verdade não fez porque não quis.

Tasso: 'PSDB está louco para ter candidato'

DEU EM O GLOBO

Após reunião com Aécio, senador se engaja no movimento para que Serra anuncie logo se vai disputar Presidência

Fábio Fabrini

BELO HORIZONTE. Com a aproximação do prazo dado ao PSDB para definir o candidato à Presidência em 2010, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), aumenta a pressão sobre seu concorrente no partido, o governador paulista José Serra.

Em encontro com o senador Tasso Jereissati (CE) e o ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga (MG), no Palácio da Liberdade, ele acertou investida para que a cúpula tucana anuncie uma decisão entre o fim de dezembro e o início de janeiro.

Após uma hora de conversa reservada, o senador disse que os militantes estão “loucos” para pôr o bloco na rua, a exemplo do PT, que há meses trabalha o nome da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

— Não posso negar que existe uma ansiedade muito grande dentro do partido para que haja uma definição. O partido está louco para ter um candidato, está louco para sair pregando, falando das nossas propostas, do que enxergamos para o futuro do Brasil — afirmou o senador.

Tasso frisou que, “contra a tradição do país”, o presidente Lula se precipitou ao fazer campanha para Dilma. Diante disso, os tucanos deveriam se adiantar, sob risco de prejudicarem sua candidatura. Segundo ele, esperar até março, como quer Serra, significa perder o timing para fechar alianças com vários partidos, que podem embarcar no projeto do Planalto: — Se a partir de janeiro não houver uma definição, pode ser que aí venhamos a perder tempo.

A investida seria a última aposta de Aécio por seu projeto presidencial. Nas conversas com jornalistas, ele não poupou elogios a Serra e não falou mais em prévias. Também parou com as viagens pelo país em busca de apoio. Ontem, disse que as eleições em Minas são uma prioridade pessoal: — Se o partido optar por estender essa decisão, cabe a mim mergulhar nas coisas de Minas, dedicar-me à construção dos nossos palanques, porque tenho uma prioridade pessoal: dar continuidade ao nosso projeto, que se iniciou em 2003.

Aécio frisou que uma eventual desistência de Serra em março não o fará voltar atrás.

— É definitivo. No momento em que me afasto, vou me dedicar integralmente à questão mineira — disse Aécio, que, nesse caso, disputará o Senado

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Cúpula do PMDB reage a acusações

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Mencionados em gravações de Durval, dirigentes nacionais do partido irão processar empresário

Após atingir o DEM e diversos outros partidos no Distrito Federal, o escândalo envolvendo o suposto pagamento de propinas a integrantes da cúpula do governo local e aliados ganhou ainda mais dimensão nacional ontem com a revelação de que figuras de destaque do PMDB, entre elas o presidente da Câmara Federal, Michel Temer (PMDB-SP), aparecem em gravações como supostos beneficiários do esquema. Irritados com o envolvimento do partido no caso, os peemedebistas pretendem ingressar na Justiça com queixa-crime contra Alcir Colaço, dono do jornal Tribuna do Brasil, que revela numa conversa com Durval Barbosa, ex-secretário de Relações Institucionais do Distrito Federal, o suposto pagamento de propina para Temer e os deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e Tadeu Filipelli (PMDB-DF).

O PMDB defende que as denúncias foram motivadas pela disputa pelo governo do Distrito Federal em 2010. O ex-governador do DF Joaquim Roriz (PSC) rompeu com o partido neste ano, o que na leitura de alguns peemedebistas mostra que ele pode ser o responsável pelas acusações.

– A minha suspeição é que seja uma vingança do Roriz pela sua saída do PMDB. Estou indignado com essa situação. Não conheço nenhuma dessas pessoas, nunca nem ouvi falar neles – disse Cunha.

Tadeu Filipelli também enxergou no episódio a ação de Roriz.

Presidente do PMDB-DF, Filipelli rompeu com Roriz neste ano, com o apoio dos caciques do partido, depois que a legenda desistiu de lançar candidato próprio ao governo do Distrito Federal em 2010 para apoiar a reeleição de Arruda. O ex-governador deixou o PMDB e ingressou no PSC para lançar o seu nome na disputa eleitoral.

Antes dos peemedebistas, contudo, o próprio Arruda também atribuiu a Roriz a responsabilidade pelas acusações que pesam contra ele. O governador do DF, suspeito de ser o comandante do esquema, disse em entrevistas que Roriz desejaria “ganhar no tapetão” a disputa de 2010 e por isso teria convencido Barbosa a divulgar imagens que mostram Arruda e alguns de seus principais colaboradores recebendo dinheiro.

Eduardo Cunha disse que já ingressou ontem mesmo com queixacrime contra Colaço na Justiça Federal. Filipelli também confirmou, por meio de assessores, que tomou medida similar. Da mesma maneira, Temer disse que já preparou petições com queixa-crime para apresentar à Justiça do DF. O presidente da Câmara também prometeu tomar “ações judiciais responsabilizadoras”.

– Hoje é um dia de frieza e de tomar providências concretas para revelar que não temos nenhum temor, mas nenhuma preocupação em relação a isso. Disse a respeito da vilania desses atos e, por isso, digo a vocês que hoje, para revelar absoluto destemor, estou tomando providências judiciais – disse Temer.

Henrique Eduardo Alves também teria, segundo assessores, encaminhado documentos para seus advogados tomarem as medidas judiciais contra Colaço. A revelação de que os peemedebistas A menção aos caciques peemedebistas que chancelaram a saída de Roriz do partido no diálogo entre Collaço e Durval foi divulgada ontem pela Folha de S. Paulo.

Na gravação, Barbosa diz que Arruda “dava 1 milhão por mês para Filippelli”. Collaço fala em outro valor e detalha a suposta partilha: – É 800 pau (sic). Quinhentos pro Filippelli, 100 para o Michel, 100 para Eduardo, 100 para Henrique Alves.

A indignação com que os cacique peemedebistas reagiram à acusação de suposto envolvimento no esquema, contudo, não foi suficiente para convencer a totalidade do partido. Ontem, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) encaminhou nesta uma carta à presidente interina do PMDB, Iris de Araujo, na qual pede que o partido se explique publicamente sobre a suspeita. Simon afirma, na carta, que o partido precisa dar uma “cabal satisfação” à sociedade para explicar o episódio.

“Precisamos distinguir entre os bons e os maus políticos, os homens públicos de bem e os homens publicamente envolvidos com o mal.

Precisamos exaltar a boa política e execrar a política que virou caso de polícia. É o que espera o Brasil do PMDB. Confio nas suas providências”, diz o senador. Segundo Simon, não basta Temer e os outros três deputados mencionados numa conversa como suspeitos de receber dinheiro do esquema de corrupção se explicarem sobre o episódio. “É preciso mais.

O PMDB precisa dar uma cabal satisfação à opinião pública brasileira, cada vez mais perplexa com o que ouve e vê em imagens e palavras eloquentes pelo conteúdo e despudoradas pelo que mostram”, conclui o senador. (Com agências)

CHARGE - Arrudem

Jornal do Commercio (PE)

Mensalão petista abateu planos do empresário

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Brasília

Com a Justiça em seu encalço, o empresário Alcyr Collaço aportou na capital do País em 2003. Seu plano era comprar o Jornal de Brasília, que passava por grave crise após a prisão de um dos seus donos, Lourenço Peixoto, envolvido com a máfia dos vampiros, integrada por empresários e servidores graduados do Ministério da Saúde, que desviavam recursos públicos mediante a compra superfaturada de hemoderivados e produtos hospitalares.

Peixoto resistiu ao negócio e Collaço partiu, em sociedade com o jornalista Etevaldo Dias, para comprar o jornal Tribuna do Brasil. Seu proprietário, o ex-senador Mário Calixto Filho (PMDB), também respondia a processo criminal por envolvimento em esquema de corrupção em Rondônia, pelo qual acabou cassado e preso. Após meses de barganha, o negócio foi fechado no início de 2005, por cerca de R$ 5 milhões, mas não envolveu pagamento em espécie.

Em junho de 2005, caiu por terra o plano de montar um grande veículo regional ligado à rede petista, por causa do escândalo do mensalão, mesada paga a deputados em troca de apoio a projetos. Em 2006, Etevaldo deixou a sociedade. "Após o mensalão, os anúncios sumiram e o jornal mergulhou em crise, com dívidas se acumulando e atrasos de pagamento de funcionários", disse. Ele não quis comentar o envolvimento do ex-sócio no escândalo da Caixa de Pandora.

Collaço aliou-se ao governo de Joaquim Roriz e foi atraído rapidamente para a Companhia de Desenvolvimento do Planalto (Codeplan), estatal comandada por Durval Barbosa, pivô da operação Caixa de Pandora. O Ministério Público apurou que entre 2003 e 2006, sob o comando de Durval na Codeplan, foi desviado um montante de cerca de R$ 1,2 bilhão. V.M.C

PT vai homenagear mensaleiros

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Festa de 30 anos também servirá para comemorar pesquisa que aponta aumento das intenções de voto em Dilma

Vera Rosa e Clarissa Oliveira

O PT fará uma grande festa de fim de ano na terça-feira, em Brasília, na qual vai homenagear todos os ex-presidentes do partido, mesmo os que são réus no processo do mensalão petista, como o ex-ministro José Dirceu e o deputado José Genoino (SP). O ato, que faz parte da série de comemorações pelos 30 anos do PT, ocorrerá na esteira do mensalão do DEM e no momento em que pesquisa Vox Populi, encomendada pelos próprios petistas, aponta entre 22% e 30% das intenções de voto na ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para presidente.

"A desgraça dos outros não nos interessa", afirmou o tesoureiro do PT, Paulo Ferreira. "Os petistas vão se reunir para comemorar o bom momento do governo Lula e o sucesso da eleição direta, com recorde de participação dos filiados, que escolheu a nova direção do partido."

Embora seja o fundador do PT, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não comparecerá, pois estará em Montevidéu, onde vai participar da reunião do Mercosul. A presença de Dilma não foi confirmada, já que ela deve acompanhar o presidente.

EXPOSIÇÃO

O partido também tem números para comemorar. Afinal, a pesquisa encomendada pelo PT ao Instituto Vox Populi indica que a maratona de viagens e a exposição constante ao lado de Lula surtiram efeito, ajudando a tornar Dilma mais conhecida.

Os dados, obtidos pelo Estado, mostram Dilma com 22% no pior cenário. Ela disputa com o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), que tem 35%, e o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), com 13%. A ex-senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) obteve 6%, e a senadora Marina Silva (PV-AC), 3%.

Dos 2 mil entrevistados, 55% sabem que Lula apoiará Dilma em 2010. Eram 46% em maio. Outros 48% responderam que "conhecem bem" a ministra, 33% a conhecem "de nome" e 19% não a conhecem ou não responderam. Em maio, eram, respectivamente, 38%, 36% e 26%.

Nos cenários com Serra, Dilma tem suas melhores performances quando Ciro é excluído. Mas é justamente sem Ciro que Serra amplia a vantagem sobre Dilma.

Nos dois cenários em que o governador de Minas, Aécio Neves, é o candidato do PSDB, Dilma lidera.

E a ética não poderá subir nos palanques de 2010

DEU EM O GLOBO

Especialistas dizem que candidatos à Presidência terão que modificar a estratégia para chegar ao Planalto

Carolina Benevides

CORRUPÇÃO DOCUMENTADA: Discussões sobre corrupção e apagão devem passar longe dos ataques eleitorais

Acostumados a subir nos palanques para exaltar suas qualidades e bater nos pontos fracos dos adversários, os candidatos à Presidência da República e a governador terão que pensar em outra estratégia para as eleições de 2010, depois das denúncias de mensalão tanto no PT como no PSDB de Minas e no DEM do Distrito Federal. “O roto não pode falar do esfarrapado”, diz Roberto Romano, professor de Ética e Política da Unicamp: — Como PT, DEM e PSDB têm seu mensalão, acredito que as campanhas serão baseadas nas grandes obras já realizadas. Dilma (a ministra Dilma Rousseff, do PT) não deve abrir mão do PAC, e o Serra (o governador tucano de São Paulo) vai aproveitar para relembrar o que fez quando era ministro da Saúde e as mudanças no governo de São Paulo.

Para Roberto Romano, para evitar assuntos como o mensalão e o recente apagão que atingiu 18 estados e o que aconteceu durante o governo Fernando Henrique Cardoso, em 2001, os candidatos podem apelar para o futuro.

— Projeções sobre o avanço do país ajudam a mudar o foco.

E, ao usar esse argumento, quem tiver mais capacidade de retórica sai na frente. Agora, se essa expectativa de o discurso da ética não aparecer nos palanques se cumprir, esse será um momento inédito no Brasil.

“Não atacar pode ser consenso entre os partidos”

Coordenador de cursos de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), Eurico Figueiredo concorda que os candidatos com chance real de chegar ao Planalto vão fazer o possível para não tocar em questões, no mínimo, polêmicas.

— As lideranças partidárias podem costurar um acordo de cavalheiros e fazer com que não atacar seja consenso. Acredito que as campanhas serão feitas em cima de assuntos que não caminhem para a questão ética.

Mesmo o apagão, se aparecer, não deve ocupar muito espaço.

Como a memória popular é curta, isso permite que tanto PT quanto PSDB divulguem os episódios como algo brando.

Segundo ele, os candidatos ditos “menores”, incluindo Marina Silva, pré-candidata à Presidência pelo PV, e Ciro Gomes, se confirmar sua candidatura pelo PSB, talvez sejam os únicos a mencionar o mensalão dos três partidos.

— Ela pode usar o discurso da ética argumentando que sempre foi correta, que não estava no Congresso quando o mensalão do PT veio à tona e que deixou o partido — diz Eurico, afirmando que Marina conseguiria debater até com quem disser que a ex-ministra só se desfiliou do PT quatro anos depois do escândalo. — Basta lembrar que a desfiliação aconteceu quando entendeu que não havia mais condições políticas e que em toda sua vida pública nunca encontraram nada contra ela.

Segundo Eurico, os estragos podem ser grandes para os candidatos à Presidência do PT e do PSDB se Ciro e Marina realmente resolverem bater no mensalão.

— As pessoas começariam a se perguntar: por que os candidatos do PT, do PSDB e do DEM não tocam nesses assuntos? Por que não falam sobre esse capítulo de seus partidos? Isso pode gerar uma reação nada favorável para Dilma e Serra.

Debates podem deixar políticos numa saia justa

Mesmo proibidos no palanque, os episódios do mensalão e do apagão podem deixar os políticos numa saia justa. Segundo David Flescher, professor de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB), os candidatos não conseguirão evitar o assunto durante os debates.

— Vão blindar palanques e até os programas de TV. Ricardo Berzoini, presidente nacional do PT, já deu esse aviso ao dizer que o partido “não é oportunista nem vai baixar o nível”.

Mas mesmo que o PSDB só queira bater na qualidade de gestão do governo Lula e que o PT só pretenda bater no governo FH, nos debates a imprensa e a população fazem as perguntas que acham pertinentes, e elas precisam de respostas.

O roto não pode falar do esfarrapado.

"PT, DEM e PSDB têm, cada um, o seu mensalão"

(Roberto Romano, professor de Ética e Política da Unicamp)

"As pessoas podem perguntar: por que os candidatos do PT, do PSDB e do DEM não tocam no mensalão?”

(Eurico Figueiredo, coordenador de pós-graduação em Ciência Política da UFF)

CHARGE- Arruda e o impeachment


Diário do Nordeste (CE)

PT nacional apoia PT do DF no impeachment

DEU EM O GLOBO

Berzoini afirma, porém, que partido não será oportunista

Flávio Tabak

O presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, disse ontem que o partido não será “oportunista” no mensalão do DEM como outras legendas, segundo ele, teriam sido em situações de crise política. Embora o diretório do partido no Distrito Federal tenha pedido o impeachment do governador José Roberto Arruda (DEM), Berzoini disse que o democrata poderá se defender. A executiva nacional da legenda, segundo ele, apoiará as decisões do diretório do DF, que pediu o impeachment de Arruda.

Para o presidente do PT, os vídeos do inquérito da Polícia Federal que mostram a distribuição de dinheiro a políticos e aliados do governo Arruda têm “gravidade muito forte”.

— Qualquer brasileiro que viu as imagens fica muito preocupado e sem saber até onde vai esse tipo de esquema montado no governo do DF.

Mas, diante dessa crise, o PT não quer reproduzir o oportunismo de outros partidos. Temos que aguardar que os fatos sejam conhecidos por completo.

O impeachment e o inquérito terão dinâmicas diferentes.

Talvez o impeachment seja mais rápido — disse Berzoini, em visita ao diretório estadual do PT no Rio.

FH: impunidade causa repetição de escândalos

DEU EM O GLOBO

Antes de Azeredo virar réu, ex-presidente diz que a Justiça é lenta

Janaína Figueiredo
Correspondente

BUENOS AIRES. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem considerar lamentável o escândalo do mensalão do DEM, mas afirmou que ainda é cedo para avaliar o impacto do caso numa eventual aliança eleitoral com o PSDB.

Após um almoço com empresários argentinos em Buenos Aires, e antes de o senador tucano Eduardo Azeredo virar réu em processo no STF, Fernando Henrique disse que “isso tudo (as imagens do mensalão do DEM) são fatos lamentáveis que, infelizmente, estão se repetindo no Brasil e estão se repetindo pela impunidade”.

— Com os anteriores, o que aconteceu? A Justiça é lenta, não dá satisfação. Isso expõe o Brasil de uma maneira negativa desnecessária — disse.

Perguntado sobre o futuro do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), FH disse não poder defender a expulsão de alguém que não é de seu partido”. Em relação a impactos eleitorais, comentou que “é preciso ver qual será a reação do DEM. Se for expulsar não pode ser candidato, então o impacto eleitoral será diferente.

Do ponto de vista global não chega a ter impactos maiores.

Mas locais vai ter”.

CHARGE - Lula Noel & Os políticos

Vinicius Torres Freire:: A Copa dos mensalões de 2010

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Excesso de corruptos, debate político vazio e programas indistintos devem favorecer mais personalismo na eleição

A NOTÍCIA mais importante de hoje, em especial no Brasil, é o sorteio dos grupos da Copa de 2010, com a decorrente definição da tabela dos jogos.

Os brasileiros começaremos a organizar "bolões", os milhares de grupos de apostas ilegais que reforçam nosso senso de comunidade e identidade e revelam que tipo de sapiência é socialmente reconhecida (entender de futebol e faturar uns trocados fáceis). A Copa será disputada entre junho e julho.

Até lá, refletiremos sobre as dificuldades do grupo do Brasil. A Eslovênia é pior que a Dinamarca? A Austrália parece fraca, mas não costuma encrencar com o Brasil? E se a França cair no nosso grupo? Teremos vingança ou a França do gol de mão nos derrubará outra vez?

Em junho de 2010, também teremos conhecido os candidatos a presidente, suas alianças, seus vices e a quantidade e variedade de desclassificados que estarão a apoiar cada chapa.

De quantos bandalheiros nos lembraremos? Quem estava no mensalão do DEM? Do tucanato mineiro? Na lista da empreiteira? Do velho mensalão do PT?

Dos programas dos candidatos não nos lembraremos, pois eles nem devem estar prontos, como tem sido a praxe. Caso estejam, tendem a ser inanidades vagas, que de resto poderão ser renegadas ainda na campanha, como o fizeram o PT em 2002 e o PSDB em 2006. É provável que saibamos mais das manhas de Costa do Marfim e das táticas da Sérvia.

Os escândalos recentes, o mensalão do DEM e o listão da empreiteira, e outros sob juízo, como mensalão do tucanato mineiro, parecem dar pistas sobre quem ficará morto e ferido no caminho para a campanha de 2010. Parecem, mas de fato darão? Em 2002, a fotografia de pacotes de dinheiro empilhado numa mesa derrubou a candidatura de Roseana Sarney a presidente pelo PFL, agora DEM. Agora, o DEM faz pelo menos o esforço de expulsar o quanto antes José Arruda, que governa o Distrito Federal das pacoteiras de dinheiro.

Mas quem da maioria do povo saberá distinguir a pacoteira brasiliense das bandalhas do Senado de José Sarney (PMDB) e da deputalhada que embolsa dinheiros indevidos? Quem vai se lembrar da velha matriz do valerioduto, de origem tucano-mineira, dos talvez candidatos a vices que aparecem em supostos listões de propinas?

A mensalagem do PT foi quase toda eleita, no voto popular, e volta a comandar o partido. Será mais provável lembrarmos que o Brasil costuma passar melhor pela Inglaterra do que pela França.

Nem se trata de dizer que a ocorrência de bandalhas em toda parte torna os partidos iguais, que "zera o jogo" das acusações de mensalagem e enfraquece o "debate ético", sempre uma piada escarninha. Talvez o problema seja o de dificuldade de processar tanta informação ruidosa, pois mesmo para quem lê jornais tornou-se difícil lembrar-se de tantas folhas corridas.

De resto, mas importante, nem há distinções programáticas essenciais ou identificação de políticos com algum movimento social ou de opinião pública relevantes (que aliás inexistem).

Os eleitores não vão votar a esmo. Ao menos não devem escolher a esmo o candidato a presidente. Mas, mais do que de costume, dada a destruição adicional da política, o personalismo deve dar o tom de 2010.

Lula e Merkel divergem em público sobre o Irã

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O programa nuclear do Irã motivou divergência pública, em Berlim, entre o presidente Lula e a chanceler alemã, Angela Merkel. Em entrevista coletiva, Merkel disse que a tolerância com o Irã estava acabando e falou em novas sanções; a seu lado, em seguida, Lula pediu "muita paciência" com o país. No mesmo dia, o chanceler Celso Amorim se reuniu com o presidente Mahmoud Ahmadinejad em Teerã.

Lula e Merkel divergem sobre Irã

Questionados, líderes expõem posições opostas durante encontro em Berlim sobre programa nuclear iraniano

Andrei Netto, enviado especial, BERLIM

O programa nuclear do Irã foi motivo de uma divergência pública ontem, em Berlim, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Enquanto a europeia afirmou que a paciência do chamado "sexteto" - Alemanha, França, Grã-Bretanha, EUA, China e Rússia - está acabando, e indicou que sanções contra o governo de Mahmoud Ahmadinejad podem vir a ser adotadas, o brasileiro pediu diálogo e mais confiança no país persa.

A discórdia veio à tona no final de uma entrevista coletiva. Na última pergunta, os dois líderes foram questionados sobre o encontro entre Lula e Ahmadinejad, realizado em Brasília, há dez dias.

Em sua resposta, Merkel admitiu que o tema havia sido tratado na conversa bilateral com Lula, minutos antes da coletiva. "Temos o mesmo objetivo: transparência e cooperação", disse, referindo-se ao Brasil e à Alemanha. Em seguida, Merkel subiu o tom. "Se o diálogo não acontecer, vamos perder a paciência e adotar novas sanções", ameaçou.

Mas, ao tomar a palavra, o brasileiro ressaltou as diferenças. Lula disse ter recebido na mesma semana os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, além do iraniano. A seguir, contrapondo-se à ameaça de sanções de Merkel, disse: "O melhor e o mais barato para todos nós é acreditarmos no Irã e termos muita paciência."

"Eu penso que tratar o Irã como um país insignificante, aumentando a cada dia a pressão exercida, poderá não resultar em uma coisa boa", justificou. "Como o Irã é um país de uma cultura muito forte, nós precisamos aumentar o grau de paciência, para aumentar a profundidade das conversas."

Lula também lembrou ter conversado com o presidente dos EUA, Barack Obama, sobre o tema. O objetivo, reforçou, é encontrar "uma brecha, um jeito de as pessoas concordarem que a paz é muito mais barata e muito mais eficaz".

Lula também reiterou que a diplomacia brasileira apoia o programa nuclear iraniano, desde que limitado a fins civis. "Nós no Brasil temos enriquecimento de urânio para produzir energia elétrica. E o que queremos para o Irã? O mesmo que o Brasil tem. O mesmo que o Brasil aceita para si, nós aceitamos para o Irã."

O presidente também criticou a moral dos países que cobram Ahmadinejad, mas detêm armas nucleares. "A autoridade moral para pedirmos para outros não terem é a gente também não ter."

Miriam Leitão:: Ele não fala por mim

DEU EM O GLOBO

O presidente Lula defendeu ontem, de novo, o programa nuclear iraniano. A defesa do Irã é tão gratuita que causa espanto. Por que defender o indefensável? Ele disse que os Estados Unidos e a Rússia não têm autoridade para criticar o Irã. Não foram apenas esses dois países que condenaram o programa iraniano. O mundo o condenou porque ele não tem nenhuma cara de ser pacífico.

Parte do raciocínio faz sentido, parte não faz.

Quando defende o desarmamento nuclear de todos, Lula representa a maioria do povo brasileiro, a quem nunca interessou o desenvolvimento de armas nucleares.

Mas não faz sentido é a defesa, extemporânea e gratuita, de um governo que se isola da comunidade internacional, que escondeu parte das suas instalações nucleares, que mentiu para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e que admite que está enriquecendo urânio além do percentual necessário para produzir energia.

O que o Brasil ganha defendendo um país que na semana passada foi condenado na Agência Internacional de Energia Atômica? China e Rússia votaram contra o aliado. O Brasil se absteve. Nada pior do que a abstenção num caso que merece uma posição clara.

Após sete anos de improvisos catastróficos em viagens internacionais, o presidente Lula ainda não entendeu que ele, quando está representando o Brasil, não fala por si, mas pela nação inteira. Portanto, tem que expressar o sentimento coletivo e não seus impulsos.

Não há qualquer clamor no Brasil de defesa do Irã, muito menos do governo Ahmadinejad. Pelo contrário.

A esdrúxula negativa de fatos históricos como o holocausto torna o governante iraniano definitivamente divorciado do pensamento da maioria dos brasileiros. Quando as urnas iranianas exalavam ainda o mau cheiro das fraudes, o Brasil foi o primeiro país a dizer que a eleição dele foi legítima. Até o Conselho de Guardiões do Irã admitiu que houve em cinquenta cidades do país mais votos que eleitores. A repressão ao movimento popular que pedia eleições limpas matou cidadãos nas ruas, como a jovem Neda.

Naquele momento de indignação em todo o mundo com o governo Ahmadinejad, o Brasil se apressou a dar o aval a eleições fraudulentas.

Com Honduras, ocorreu o oposto: o governo brasileiro condenou as eleições antes mesmo que elas tivessem acontecido. E já avisou que não reconheceria o novo governo.

No caso de Honduras e no caso do Irã, o que a política externa perde é o tom. Ser a favor do desarmamento nuclear o Brasil sempre foi. Mas sempre foi também contra a proliferação nuclear. E o Irã neste momento significa, na opinião das maiores autoridades no assunto reunidos na AIEA, o risco de proliferação nuclear. O mais estranho da declaração de Lula é que ela veio depois de ter sido divulgado um comunicado conjunto com a chanceler alemã Angela Merkel, admoestando o Irã a “responder positivamente” e “cooperar inteiramente” com a AIEA e a ONU. Isso sim é o correto e tira o Irã do isolamento.


No caso de Honduras, a posição defendida pelo presidente Lula, seu secretário de Relações Internacionais, Marco Aurélio Garcia, e seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, tem a mesma dubiedade. No princípio, foi no tom exato, depois, desafinou. Numa região devastada por golpes de Estado, o Brasil condenou o golpe e a deportação de Manuel Zelaya, no que fez bem. A posição brasileira começou a sair do tom quando deixou de ser a defesa dos princípios democráticos para ser uma militância zelaysta.

O Brasil condenou uma eleição, a priori, e avalizou outra, quando a população ainda estava na rua indignada com as fraudes.

No mensalão do DEM em Brasília, o presidente Lula só encontrou a palavra “deplorável” no segundo dia.

No primeiro, disse: “as imagens não falam por si”. O presidente da República não pode préjulgar. Mas não condenar antecipadamente não é o mesmo que absolver.

Tudo fala por si no escândalo de Brasília: as imagens, os diálogos gravados, as conversas telefônicas, as desculpas improvisadas e mutantes e a hesitação do Democratas. “Aquela despesa mensal com político sua hoje está em quanto?”, disse o governador de Brasília, José Roberto Arruda.

Muita coisa está fora da ordem nessa frase além do pronome possessivo.

O presidente Lula poderia não ter se manifestado. Seria melhor. Mas sua forma de lidar com a imprensa é autoritária como nos governos militares. Naquela época os generais não davam entrevistas coletivas. Eles falavam quando eram abordados em viagens internacionais.

Ao seguir esse modelo, Lula acaba se aborrecendo quando perguntado por essa “coisinha”. Preferia que perguntassem sobre grandes questões internacionais.

Mas, no dia seguinte, brindou seus interlocutores com a defesa dispensável do programa nuclear iraniano.

No Brasil, nunca se viu um movimento de opinião pública a favor do programa nuclear iraniano. Isso não é uma questão por aqui. O que incomoda, machuca, confunde o país neste momento são estas “coisinhas” deploráveis.

Lula quando fala certas coisas deveria esclarecer que fala por si.

Derrota amplia dúvidas sobre destino de Zelaya

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Após Congresso desautorizar por imensa maioria restituição, inicia-se debate sobre futuro de deposto

Ruth Costas, enviada especial, TEGUCIGALPA

O veto contundente do Congresso à restituição do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya - no total, 111 deputados votaram contra a sua volta e só 14 a favor - levantou ontem pelo menos três dúvidas no que diz respeito ao desfecho da crise. O que acontecerá com Zelaya? Como será feita a transição para o governo eleito no domingo? E como o país sobreviverá à crise provocada pelo corte da ajuda internacional, uma vez que a restituição era vista como uma forma de romper o isolamento internacional de Honduras?

O resultado da votação foi recebido como "derrota em final de Copa do Mundo" na Embaixada Brasileira em Tegucigalpa, onde Zelaya está abrigado desde setembro. Mas não com surpresa. O presidente deposto disse ao Estado que, apesar das promessas de diálogo, não recebeu nenhum telefonema do presidente eleito, Porfirio "Pepe" Lobo, do Partido Nacional - sigla que votou em bloco contra a sua restituição.

O mandato de Zelaya termina no dia 27 de janeiro. Segundo uma fonte próxima a ele, uma das opções consideradas pelo presidente deposto seria se asilar depois dessa data. Ontem, os rumores sobre um possível exílio começaram a crescer. Zelaya, porém, nega-se a dizer quais são seus planos. "Não tenho bola de cristal para prever o futuro", esquiva-se.

Em entrevista no palácio presidencial, o presidente de facto, Roberto Micheletti - de volta ao cargo após um afastamento de uma semana - disse que não pode dar anistia a Zelaya porque isso seria responsabilidade do Congresso, mas apenas um indulto (para crimes comuns, não políticos). Segundo Micheletti, o exílio de Zelaya poderia trazer "paz e tranquilidade" para Honduras.

O presidente de facto anunciou a formação de um "governo de reconciliação" - condição prevista no Acordo San José-Tegucigalpa e exigida pelos EUA para reconhecer as eleições de domingo. O problema é que os aliados de Zelaya não estão dispostos a participar e não parecem bem-vindos nesse novo arranjo.

Micheletti se justifica dizendo que dissidentes do governo deposto também terão voz na nova gestão. "No governo há muita gente que esteve com o senhor Zelaya e podemos integrar mais deles", afirmou o presidente de facto, visivelmente bem-humorado.

Para driblar os efeitos do corte da ajuda internacional, o governo anunciou o aumento dos impostos sobre cigarros e bebidas e a redução dos benefícios fiscais de algumas empresas.

Bom dia! - Graúna, choro de João Pernambuco

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Reflexão do dia - Luiz Weneck Vianna

“A política é capturada pelo Estado; de outra parte, o presidencialismo de coalizão em vigência converte os partidos políticos em partidos de Estado e sem representação significativa na sociedade civil. Tal configuração veio a ser reforçada pela crise de 2008, levando a uma revalorização acrítica do Estado Novo e até mesmo de governos do regime militar”


(Luiz Werneck Vianna, no 33º Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu/MG, de 26 à 30/10/2009).

Merval Pereira:: Decepções

DEU EM O GLOBO

A “decepção” que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, está sentindo em relação a Lula, aquele que ele definiu como “o cara” para o mundo, dandolhe um upgrade internacional, parece ser a mesma que o assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, detectou recentemente em relação a Obama. “Lula ainda tem grandes expectativas, mas o fato é que hoje há um certo sabor de decepção”, disse Garcia.

A crescente influência na América Latina do Brasil, líder regional inconteste, que tem dado demonstrações de ser pelo menos condescendente com líderes de países claramente antiamericanos como o Irã e a Venezuela, decepciona Obama. Certamente ele esperava que o presidente Lula levasse o Brasil a ser um parceiro mais próximo dos Estados Unidos, e está se mostrando mais próximo do Chávez do que se poderia supor.

O governo americano ficou muito preocupado com a passagem do Mahmoud Ahmadinejad pelo Brasil, Bolívia e Venezuela, onde consideram que o presidente do Irã teve apoio a seu programa nuclear que, dias depois, foi condenado pela Agência Internacional de Energia Atômica, ligada à ONU.

Também a crise política de Honduras anda afastando os Estados Unidos do Brasil, que estiveram próximos no início dela. Honduras é um país sem importância alguma para a geopolítica brasileira, e está sob a esfera de influência do México e dos Estados Unidos.

A crise de destituição do presidente eleito Manuel Zelaya só entrou no radar da diplomacia brasileira por instância da Venezuela, já que Zelaya havia levado seu país para dentro da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas).

Seguindo os passos de seu líder Hugo Chávez, tentou utilizar em Honduras uma “tecnologia institucional” exportada pelo bolivarismo: a alteração da Constituição por meio de um plebiscito para a permanência no poder.

Reconhecer o novo presidente eleito de maneira legítima no último domingo foi a opção dos Estados Unidos e começa a ser uma alternativa de diversos países europeus, enquanto o Brasil vai ficando isolado na sua posição.

Outra situação delicada para a nossa política externa é a extradição do terrorista italiano Cesare Battisti, condenado na Itália à prisão perpétua. Lula parece disposto a confirmar o asilo, mesmo com o governo italiano pressionando, e o Supremo Tribunal Federal tendo aprovado a extradição.

Esses percalços externos se contrapõem à imagem internacional que o presidente Lula vem cultivando. Fidel Castro, o ditador de estimação dos petistas no poder, dividiu os governantes de esquerda da região em “revolucionários” e “tradicionais”.

A esquerda “tradicional”, que seria representada por políticos como Lula ou Michelle Bachelet, do Chile, ou Tabaré Vázquez, do Uruguai, já não responderia às necessidades dos povos latinoamericanos.

Os “revolucionários” Chávez, da Venezuela; Evo Morales, da Bolívia; Rafael Correa, do Equador; ou Daniel Ortega, da Nicarágua, refletiriam as reais aspirações das populações latino-americanas.

É por isso que Lula, desde a primeira aparição para os “donos do mundo” em Davos, no Fórum Econômico Mundial, em 2003, é tratado como “o cara”, mesmo antes de o presidente Barack Obama identificá-lo como tal.

Mas foi sem dúvida depois da crise internacional que abalou o mundo e a crença na autorregulação do mercado financeiro que a figura de Lula ganhou destaque na mídia internacional, não apenas por suas posições audaciosas, como quando culpou os “louros de olhos azuis” pela crise, mas também pela performance da economia brasileira.

O governo Lula saiu-se bem da primeira grande crise internacional que enfrentou, e os “louros de olhos azuis”, cheios de culpa, o escolheram como exemplo do novo mundo que precisa ser construído dos escombros do antigo.

Lula tem o perfil necessário para se transformar no novo líder mundial: presidente de um país emergente, ele mesmo um emergente em seu país, vindo da pobreza extrema, cuida de tirar da pobreza extrema seus conterrâneos.

Ao mesmo tempo, mantém as regras fundamentais da economia, garantindo o pagamento da dívida e abrindo para o investimento estrangeiro um mercado ávido em obras de infraestrutura, além de garantir juros altos para os investidores nacionais e internacionais.

A esquerda que Lula representa dá tranquilidade à comunidade internacional, que ainda conta com sua interferência para conter os ímpetos revolucionários dos demais líderes latinoamericanos.

Mas aí entra em campo um paradoxo de difícil entendimento para estrangeiros: faz muito tempo que o governo Lula usa a política externa como um contraponto à política econômica ortodoxa que manteve do governo anterior.

Uns consideram que seria uma espécie de compensação para a militância, enquanto não há espaço internamente para uma guinada à esquerda. Outros acham que é apenas isso, uma compensação em troca de tocar a economia nos padrões internacionais.

Mas à medida que vai aprofundando seu esquerdismo na política externa, vai se aproximando mais e mais de Chávez, e se afastando da comunidade internacional, embora precise do apoio dela para se manter como interlocutor importante e, no limite, continuar sonhando com uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Mas votando na contramão do mundo ocidental, ou no máximo se abstendo, como no caso do Irã, ao mesmo tempo em que pode garantir eventuais votos desses “parceiros” terceiromundistas, vai conseguindo se tornar não confiável aos olhos das grandes potências internacionais, que, no fim, têm os votos decisivos.

Lula pode vir a ter um problema de equilíbrio entre seu prestígio interno e o externo. A importância que o Brasil ganhou nos fóruns internacionais tem mais a ver com o êxito na economia e com sua fama de ser o representante de uma esquerda civilizada do que o contrário.

Dora Kramer:: Responsável de plantão

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quando o primeiro escândalo de corrupção do governo Luiz Inácio da Silva emergiu das imagens de Waldomiro Diniz, então braço direito do então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, extorquindo o dito empresário Carlos Augusto Ramos, também conhecido como o bicheiro Carlinhos Cachoeira, de imediato todas as vozes se levantaram em defesa de uma reforma política "profunda".

A tese por trás da proposta era a de que a culpa é do sistema político, eleitoral e partidário daninho.

De lá para cá, repete-se a mesma cantilena a cada novo caso escabroso de corrupção, conferindo-se à reforma política o status de solução de plantão para todos os males.

Por esse raciocínio, o "sistema" é que seria o grande corruptor de pessoas inocentes, cujo desejo de governar para fazer o bem só se realiza ao custo da adesão à realidade nefasta fazendo política com as mãos sujas, não obstante o coração permaneça imaculado. Seria o preço a pagar.

Essa lógica sustentou o discurso de quem queria uma justificativa para apoiar a reeleição de Lula, mas não tinha coragem de dizer que estava pouco ligando para a ética. Esta servira como bandeira de oposição, mas atrapalhava a execução do projeto de poder.

Isso no caso do PT. Nos partidos que não haviam feito nenhum trato explícito com a ética na política, nem se apresentam justificativas.

Muito embora também se agarrem com veemência na defesa da reforma política na hora em que a assombração transita por seus terreiros.

Depois da manifestação espontânea ao modo de Pôncio Pilatos - "as imagens não falam por si"-, orientado por sua assessoria sobre a ultrapassagem do limite do aceitável, o presidente Lula passou a considerar "deplorável" o que todo mundo viu sobre as atividades da quadrilha que atuava no governo de Brasília.

E, claro, atribuiu tudo à ausência da reforma política, acrescentando desconhecer as razões pelas quais ela não é aprovada. Levantou, porém uma suspeita: "Provavelmente porque os parlamentares seriam afetados pelas mudanças."

Para um gênio da política, Lula se mostra um tanto ingênuo. E esquecido. O primeiro enterro da reforma, ainda no primeiro mandato, ocorreu porque os partidos de sua base trocaram o arquivamento por votos a favor do projeto - fracassado - da reeleição do então presidente da Câmara, o petista João Paulo Cunha.

O funeral seguinte deu-se agora em 2009 pela conjugação de interesses dos partidos do governo e da oposição que, no lugar da reforma, aprovaram uns remendos que facilitaram sobremaneira o uso do caixa 2 e encurtaram os prazos para punições, na prática impedindo cassações de eleitos, inclusive os deputados de Brasília agora pegos com as mãos imundas na botija.

Isso quer dizer que o defeito primordial não é das regras - de fato defeituosas - é da deformação das pessoas, da permissividade geral e da impunidade de que desfrutam.

Vice versa

Se mesmo antes do escândalo de Brasília a composição da chapa presidencial do PSDB com o DEM na vice já era uma possibilidade para lá de remota, agora virou algo fora de cogitação.

No mês passado mesmo o tucano presidente do partido, senador Sérgio Guerra, dizia pública e textualmente que a dupla do governo Fernando Henrique "já deu o que tinha de dar".

Nem a ala do DEM, liberada pelo presidente, o deputado Rodrigo Maia, que ressuscitou a proposta recentemente a levava muito a sério. Apenas achou que não devia "entregar os pontos" e usar a exigência da vice para se valorizar.

A fatura do DEM para o apoio em 2010 já fora cobrada e paga anteriormente: a eleição de Gilberto Kassab para a Prefeitura de São Paulo.

Sabem de tudo

Em relação a José Roberto Arruda, nem o DEM nem eleitorado de Brasília nem os partidos que faziam parte do governo podem alegar que a cigana os enganou.

O DEM aceitou a filiação, o eleitor votou e o PSDB se juntou a um reincidente. No caso dos tucanos é ainda mais grave, porque Arruda havia sido convidado a sair do partido no episódio da violação do painel do Senado.

Sempre estiveram todos cientes de que grande quantidade de políticos, já eleitos ou candidatos, processados são potenciais criadores de casos e crises.

Não só eles, claro. Os de boa reputação também podem vir a prevaricar, mas seria um grande avanço se a Nação aderisse ao lema de que é melhor prevenir do que remediar.

Começando por pressionar o Congresso a aprovar a emenda constitucional de iniciativa popular que proíbe o registro de candidaturas de gente condenada em pelo menos uma instância judicial.

Aliás, Parlamento que continua ignorando a emenda que está nas mãos dos líderes dos partidos na Câmara não pode se espantar com nada nem tem moral para censurar ninguém.

Notadamente se o presidente da Casa figura em lista secreta de empreiteira.

Clóvis Rossi:: Memória da falência da UDN

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O leitor é incapaz de imaginar o alívio de não ser mais obrigado a me indignar neste espaço seis dias por semana. Agora são só dois. O pior era ler que as críticas à corrupção no Brasil eram "udenismo". Não duvido que haja "udenismo" por aí, mas, no meu caso, é indignação mesmo -e tenho a leve sensação de que esteja super-híper-blaster justificada.

Por falar em "udenismo", meu colega de página Marcos Nobre, excelente analista por sinal, afirmou na sua coluna de terça que a política brasileira se "peemedebizou".

Não acho não, caro Marcos. A corrupção política no Brasil antecede de muito o PMDB e até o MDB, a versão supostamente mais autêntica que o precedeu.

"Udenismo" é um elogio ou acusação, dependendo de quem o usa, derivado do ataque frontal da União Democrática Nacional ao governo Getúlio Vargas a partir de 1950. "Mar de lama" era a expressão que mais se usava. Nem importa se a expressão correspondia aos fatos ou não. A percepção era tão forte que o presidente se suicidou.

Pouco depois, veio o golpe de 1964, que usou como pretexto não apenas o combate "à subversão" mas também à corrupção -sinal óbvio de que a percepção de corrupção era suficientemente forte para ser usada como uma espécie de habeas corpus para o golpe.

A ditadura pareceu ter sido menos afetada pela corrupção apenas porque a censura bania boa parte do noticiário a respeito. Volta a democracia e o PT, o partido que posava de vestal, uma espécie de UDN supostamente de esquerda, "fez o que todo mundo faz", segundo seu presidente de honra, um certo Luiz Inácio Lula da Silva.

Fez "caixa dois", coisa de bandido, como ensinou o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.

Tudo somado, cabe à perfeição o grito "se gritar pega ladrão, não sobra um, meu irmão". Nem as UDNs de hoje ou de ontem. Que país.

Eliane Cantanhêde:: E nós com isso?

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O golpe do panetone na capital da República atinge a candidatura tucana à Presidência por motivos óbvios: enfraquece a imagem, o discurso e os palanques da oposição e aquece a brigalhada infernal entre PSDB, DEM e PPS. Mas a maior vítima é outra.

No resto do país, a sensação é de "mais um", mas, no DF, o escândalo bate direto em 2,6 milhões de pessoas que vivem aqui e, na grande maioria, estudam, trabalham, produzem e pagam impostos.

Caíram na rede o governador José Roberto Arruda, o vice Paulo Octávio e o presidente da tal Câmara Legislativa (tão cara quanto inútil) -e há integrantes do Tribunal de Justiça na fila.

Quem sobra para administrar a cidade, cuidar de saúde, educação e segurança, tocar obras em andamento, projetar o futuro, atender o telefone? Ninguém.

Essa realidade cruel de hoje remete para a falta de perspectiva. Arruda já vai tarde, Roriz não perde por esperar. Com Cristovam Buarque desmobilizado, o PDT sem estrutura e o PSDB sem nomes, sobra para 2010 a opção Agnelo Queiroz, recém-chegado do PC do B ao PT.

Mais uma aposta, ou mais uma aventura.

Quem chega de avião a Brasília dá de cara, já no "balão do aeroporto", com uma placa colorida de contagem regressiva para o aniversário de 50 anos da cidade, em 21 de abril de 2010. Quatro anos depois, vem aí a exuberante Copa do Mundo.

Engenheiro, ex-secretário de Obras na primeira gestão Joaquim Roriz (a história vem de longe...), Arruda, no seu próprio governo, esburacou a cidade toda e iniciou projetos, contratos, empregos e obras grandiosas para os dois eventos que, evidentemente, se embolam com a eleição do ano que vem. Até Madonna está, ou estava, nos arranjos da programação.

Com tanta chuva, o risco é a buraqueira e as obras virarem um mar de lama. Como todo mundo sabe, menos Lula, "uma imagem vale por mil palavras". Pobres brasilienses.

Maria Inês Nassif :: O juiz da moral e a moral do juiz

DEU NO VALOR ECONÔMICO

A oposição brasileira não se livrou do fantasma udenista nem mesmo quando a ditadura extinguiu o quadro partidário e instituiu o bipartidarismo, em 1966. O pluripartidarismo foi restabelecido no início da década de 80, a União Democrática Nacional (UDN) jamais voltou à luz do dia, mas o partido de Carlos Lacerda sempre foi o grande modelo de oposição no Brasil.

O udenismo pode ser definido como uma ação política firmada num discurso de muita agressividade, em que a retórica moral e moralista é tornada pública, reiterada e repetida de modo a tornar-se impositiva, um padrão que deve ser aceito como uma verdade para todos.

O discurso é construído com base em interpretações sobre fatos que são refratados sob a ótica do moralismo e quase nunca os expressa com o seu exato tamanho, mas de forma muito amplificada, de acordo com a necessidade de propaganda política. A construção do discurso é, assim, emocionalizada - é pela raiva que tenta a adesão ao discurso. No passado - e no limite -, a emocionalização do discurso moral encontrou abrigo não apenas nos setores médios da sociedade, mais vulneráveis a ele, mas também nos setores militares. A UDN foi o braço civil do golpe de 64; o propagandista do movimento político e militar; o partido que mobilizou os setores médios e conservadores. O udenismo fez propaganda política para tentar a conquista o poder pelas urnas, mas não só isso: também para cooptar os aparelhos de coação do Estado, se a estratégia eleitoral fracassasse. O udenismo, portanto, trafegou tanto pelas vias democráticas como por instâncias não democráticas de ascensão ao poder.

Na retórica udenista, os julgamentos morais são reiterados e repetidos como verdade, mesmo que exagerados ou injustos, porque se trata também de fixar, perante um segmento da opinião pública, aquela parte como a legítima julgadora moral dos demais atores que se movem no cenário político. É aquele que domina a retórica agressiva, o depositário da verdade, o juiz da moral nacional, o fiscalizador - e todos os contrários à retórica são os objetos da desconfiança nacional, os desonestos e impatriotas.

O PT adotou um discurso com alta dose de moralismo e agressividade no período em que se manteve na oposição, embora tenha sido um partido de massas pelo menos até 1994, quando a opção pela "institucionalização" o transformou em algo mais parecido com um "partido de quadros". Ainda assim, o discurso de oposição petista foi seduzido pelo udenismo. A mística da "moralidade" - entre aspas, sim, já que ela não passa de um discurso - levou o PT oposicionista a reduzir a sua prática política a uma oposição "moral". Na verdade, tratava-se, no caso, de romper uma barreira de resistência eleitoral que o mantinha no segundo turno em todas as disputas presidenciais, mas o derrotava pela falta de adesão de classes médias mais conservadoras. Ainda assim, esse é um discurso tão fácil que contaminou e marcou a oposição parlamentar petista nos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-1998 e 1999-2002)

Guindado ao poder federal pelo voto, o PT abandonou o discurso udenista. Em 2005, com o escândalo do mensalão, foi descaracterizado como a parte política que dominava o discurso moral - aquele que definia padrões de moralidade para os demais do cenário político.

Ascenderam à posição os dois principais partidos oposicionistas, o PSDB e o então PFL, hoje DEM. O partido do governador José Roberto Arruda (DEM-DF) assumiu o papel udenista com mais agressividade e trazia no bolso enorme similaridade com a velha UDN: é um partido conservador, de quadros, com facilidade de penetração tanto nas classes médias como em setores militares.

Não existiam muitas alternativas para um partido sem lideranças e em declínio do que aproveitar essas características e tentar assumir o lugar de guardião da moralidade. Todo o embate do DEM feito contra o governo do presidente Lula foi moral e moralista. Esse mesmo padrão foi seguido pelos partidos oposicionistas aliados no Congresso, que coincidentemente eram quase os mesmos que davam sustentação ao único governador eleito pelo PFL. O discurso de alta dose de agressividade e moralismo foi o adotado também pelo PSDB e pelo PPS. O chamado Escândalo do Mensalão, de 2005, nunca deixou de ser usado por esses partidos contra o PT e Lula como um pecado coletivo, a ser purgado por todos os petistas e todos os integrantes de partidos aliados; o recurso às CPIs fazia parte da agressividade que os credenciaria, pelo menos junto a parte da opinião pública, como os fiscais morais da política. Toda a estratégia política da oposição foi montada com essa perspectiva, e a partir do episódio moral que subtraiu de vez do PT as credenciais de juiz moral da política brasileira.

O escândalo do Distrito Federal, que está sendo chamado de Mensalão do DEM, tende a forçar a mesma situação do chamado Mensalão de 2005: o esvaziamento de um discurso moral udenista. Isso acontece de forma mais precoce, já que não precisou o partido voltar ao poder para que isso acontecesse. O DEM tende a perder a agressividade nesse discurso - e é difícil imaginar que o PSDB e o PPS não sigam o mesmo caminho. É um dado importante da campanha eleitoral que se avizinha: os dois lados da disputa passam a ter as mesmas armas para um discurso moral agressivo.

Existe uma diferença fundamental entre o moralismo udenista e a ética. O moralismo udenista aumenta, exagera, cria situações-limite - e relativiza a ética, ao distorcer fatos e forçar julgamentos coletivos pautados por fortes ondas de comoção. Por esses critérios moralistas, é feita uma confusão intencional entre moral e ideologia - passam a ser taxados como imorais opções político-ideológicas justificáveis numa democracia. Essas situações são facilitadas quando o partido - ou o espectro político - que se coloca como juiz da moralidade consegue bom trânsito em setores conservadores. Essa confusão produziu muitos danos políticos nos últimos governos. Que o escândalo do DF permita a retomada da racionalidade do debate político.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

Congresso derruba última chance de Zelaya

DEU EM O GLOBO

Presidente deposto de Honduras é derrotado em votação em que não teve apoio sequer de seu próprio partido

Flávio Freire Enviado especial

TEGUCIGALPA. O Congresso Nacional de Honduras enterrou ontem a última chance de Manuel Zelaya voltar à Presidência do país para terminar o seu mandato, em 27 de janeiro, quando assume o novo governo.

Numa sessão marcada por marcha fúnebre, oração e até um vídeo em que o presidente deposto foi chamado até de mentiroso, a maioria dos 128 deputados ratificou o golpe comandado pelo governo de fato.

Com nove horas de sessão, o Congresso somava às 22h44m (em Brasília) 65 votos, a maioria da Casa, o que encerrava as chances de Zelaya ser reconduzido ao poder. Apenas sete parlamentares haviam votado a favor do presidente deposto.

O governo interino argumenta que o ex-presidente tentara, com um referendo para reformar a Constituição, instituir a reeleição, proibido no país. Para evitar o processo, os militares o tiraram de casa em 28 de junho, ainda de pijamas, e o levaram para a Costa Rica.

Sem acordo com o governo deposto, o Partido Nacional de Honduras — ao qual pertence o futuro mandatário, Porfírio Lobo — decidiu votar ontem em bloco contra a restituição de Zelaya, eliminando as chances de o presidente deposto voltar ao poder, ainda no começo da sessão.

Com a decisão da bancada nacionalista, a votação começava, tecnicamente, com 55 votos contra Zelaya, mas cada deputado teve de informar o voto individualmente.

O próprio partido do presidente deposto não chegou a um consenso. A maior parte dos liberais votou a favor do presidente interino, Roberto Micheletti.

— Ao não reconstituirmos Zelaya, afastamos também Hugo Chávez do nosso país — disse o deputado Juan De La Cruz Avelar. Zelaya se aproximou do presidente venezuelano, criando no país uma massa crítica em relação ao seu governo.

“Levando em conta as declarações do ex-presidente Manuel Zelaya, que tem se manifestado publicamente contra o acordo São José-Tegucigalpa, e que nos brindou com declarações claras contra as eleições limpas e transparentes disputadas no país (...) nos manifestamos a favor da ratificação do decreto 141-2009, aprovado em 28 de junho de 2009”, informava o documento do PN.

A avaliação no Congresso é a de que o próprio Zelaya afastou as possibilidades de um acordo para retomar a Presidência. Terçafeira, Carlos Reina, um de seus principais assessores, deixou a embaixada brasileira para informar que o presidente deposto pretendia permanecer no comando do país além de 27 de janeiro, como forma de compensar o período em que esteve fora.

Teria sido a pá de cal.

Ruas em torno do Congresso foram fechadas Confirmada a decisão parlamentar em não reconhecer o governo deposto, o futuro presidente do país terá de criar uma política específica para convencer parte da comunidade internacional, que não pretende reconhecer seu governo como legítimo.

Zelaya, por sua vez, teria endurecido o discurso justamente porque tem como principal interesse a constituição de um tribunal ligado a ONU para julgar os seus delitos.

Do lado de fora do Congresso, 500 homens da Polícia Nacional e do Exército fecharam as ruas de acesso ao Congresso. O comércio também foi obrigado dispensar os funcionários. Usando fuzis, os soldados evitavam qualquer aproximação do grupo de militantes que protestava na praça central de Tegucigalpa.

Ao som de reggaetom, o estilo musical mais apreciado no país, os oposicionistas ao governo interino gritavam palavras de ordem, mas não arriscavam atravessar a rua que os separavam dos militares.

Argentina aprova nova lei eleitoral

DEU EM O GLOBO

Medida que cria primárias 2 meses antes de eleições beneficia Casal Kirchner

Janaína Figueiredo
Correspondente

BUENOS AIRES. Um dia antes da posse do ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) como deputado, o Senado argentino aprovou ontem, por 42 votos a 24, a lei de reforma política enviada pela Casa Rosada após a derrota nas eleições legislativas de junho e duramente questionada pela oposição. Para o governo era fundamental obter sinal verde do Parlamento antes do dia 10 de dezembro, quando tomarão posse todos os deputados e senadores eleitos em junho e o casal K perderá a maioria parlamentar pela primeira vez desde que chegou ao poder, em 2003.

A nova lei prevê uma série de modificações no sistema político e eleitoral do país que, na visão de partidos opositores e de alguns analistas locais, beneficiará o governo Kirchner em futuras eleições, sobretudo nas presidenciais de 2011, quando o ex-presidente poderia buscar a reeleição. O texto aprovado ontem estabelece, por exemplo, a obrigatoriedade de realizar eleições primárias em todos os partidos dois meses antes da eleição nacional.


Com esta medida, a Casa Rosada conseguiu adiar a campanha para 2011 e garantir um ano de 2010 um pouco mais tranqüilo para a presidente Cristina Kirchner.

Reforma prejudica os partidos menores Com uma profunda divisão dentro do Partido Justicialista (PJ) e vários dirigentes já acenando com a possibilidade de disputar a Presidência, entre eles o ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003), inimigo do casal K, a reforma é considerada uma estratégia da Casa Rosada para concentrar ainda mais o poder (o governo será o encarregado de administrar o novo sistema) e tentar boicotar candidaturas opositoras, sobretudo no PJ.

— Todos coincidimos na necessidade de realizar uma reforma política, mas o correto seria que as novas regras só entrassem em vigência após o fim do atual mandato — argumentou o analista Silvio Santamarina, editor do jornal “Crítica”.

— Este governo não se caracterizou por atuar corretamente em temas políticos e eleitorais e não tem credibilidade suficiente para implementar uma reforma tão importante que, além disso, necessitaria um tempo muito maior de debate. Mais uma vez, o casal K aprova uma lei às pressas e impede uma discussão profunda e democrática”.

A reforma prejudicará os partidos menores, já que a partir de agora será necessário obter nas eleições primárias, no mínimo, os votos equivalente sa 1,5% do total do eleitorado para poder disputar uma eleição. Paralelamente, para pode existir, um partido terá de ter quatro filiados a cada mil eleitores. As regras foram questionadas, entre outros, pelo cineasta Fernando “Pino” Solanas, líder do partido Proyecto Sur e uma das grandes surpresas das eleições legislativas passadas.


— Esta reforma fortalece os grandes partidos, sobretudo o PJ, e torna muito complicada a sobrevivência dos partidos minoritários, que têm sido fundamentais em votações no Congresso — disse Santamarina.

Para Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nova Maioria, “a reforma complica os partidos menores e as novas forças ao estabelecer pisos mínimos para que possam apresentar candidatos.

Por ess emotivo, partidos de esquerda que em recentes votações respaldaram o governo agora estão distanciados”.

A nova lei também proíbe que em presas privadas financiem campanhas eleitorais (som entepessoas físicas e o Estado poderão fazê-lo) e deixa em mãos do Estado o controle da propaganda eleitoral.

— Estas iniciativas prejudicarão a oposição, que não terá muitas maneiras de chegar aos eleitores. Já o governo tem mil maneiras, por exemplo, os programas sociais — disse o editor do “Crítica

O QUE PENSA A MÍDIA

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No PSDB, aumenta pressão por ''chapa puro-sangue''

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em jantar, 36 deputados cogitam dobradinha para 2010

Julia Duailibi

O escândalo envolvendo o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), deflagrou no PSDB uma corrida para fortalecer a tese da chamada chapa puro-sangue. Com o DEM no centro da crise, engrossou o coro dos defensores da tese de o PSDB blindar a chapa que disputará a eleição presidencial de 2010, formatando-a apenas com nomes tucanos.

Em jantar com 36 deputados anteontem, na casa do deputado Rômulo Gouveia (PB), em Brasília, cresceu o discurso favorável ao desenho que traz o governador de São Paulo, José Serra, como candidato a presidente, e o governador de Minas, Aécio Neves, na vice. A Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, que investigou pagamento de propinas para deputados e integrantes do governo Arruda, enfraqueceu o poder do DEM nas negociações e deslegitimou a pressão de parte da cúpula do partido para que os tucanos definam logo o candidato. "A única vantagem do episódio é enfraquecer o argumento de dois partidos. O que era uma realidade eleitoral passa a ser uma realidade política", disse um cacique tucano.

Mais do que votos, a aliança com o DEM engorda o tempo de TV nas eleições de 2010. Fato que se torna ainda mais relevante diante da possibilidade de o PMDB apoiar o projeto nacional do PT, formando a coligação com maior tempo de TV. "O PSDB vê no DEM um aliado, mas deve se preocupar com sua agenda e deve respeitar o espaço do DEM para discutir suas questões internas", disse o deputado Eduardo Gomes (TO).

Hoje vai ao ar o programa partidário do PSDB. Serra e Aécio dividirão os dez minutos falando sobre suas gestões. O programa foi montado com os marqueteiros dos dois lados, de modo a passar uma sintonia entre os dois governadores.

Setores pró-chapa puro-sangue levarão a Aécio o argumento de que o discurso da ética ganha sobrevida na dobradinha tucana. Além de integrantes do DEM, políticos do PPS, outro aliado nacional dos tucanos, também apareceram nas investigações da PF. O presidente do PSDB-DF, Márcio Machado, também foi acusado de envolvimento nas irregularidades.

Levantamento feito pelo PSDB mostra que o partido detinha mais de cem cargos no segundo escalão do governo Arruda, além de nove administrações regionais, três secretarias de Estado e três cargos de direção em empresas do governo.SIMPATIA

A chapa pura conta com a simpatia de setores ligados a Serra e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O governador de Minas, no entanto, é contra. "Não vejo essa relação direta. Poderia ter uma outra análise também, dizer que, talvez, esse episódio fortaleça a ala tucana que quer ampliar a aliança, que quer trazer outros parceiros para a aliança", disse ontem Aécio, negando que a crise no DEM fortaleça a chapa pura.

De acordo com o secretário-geral do partido, Rodrigo de Castro (MG), "o episódio do DEM é ruim para a política como um todo, mas não afeta o projeto do PSDB". Questionado se o DEM poderia compor aliança com os tucanos na vice, disse: "Sem dúvida." Para o deputado Arnaldo Madeira (SP), a questão da chapa deve ser discutida apenas em abril. "O episódio mostrou como Serra estava certo em não querer antecipar a discussão eleitoral", disse.

A crise com o DEM também trouxe outra dor de cabeça para o PSDB. O palanque do Distrito Federal, que estava articulado em torno da reeleição de Arruda, precisará ser revisto.