(Alberto Aggio, no ensaio “Livres, desiguais, porém fraternos”)
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Reflexão do dia – Alberto Aggio
(Alberto Aggio, no ensaio “Livres, desiguais, porém fraternos”)
Fernando Rodrigues:: Por enquanto, polarizou
DEU NA FOLHA DE S. PAULOBrasília - A profecia se autocumpriu. Deu-se a polarização na disputa presidencial. José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) são os protagonistas, segundo a pesquisa Datafolha -de longe a mais completa sobre a sucessão presidencial de 2010, com 11.429 entrevistas, de 14 a 18 deste mês.
O tucano Serra venceria qualquer concorrente se a eleição fosse hoje. A petista Dilma consolidou-se em segundo lugar. A escolhida de Lula também ganha de todos na ausência de sua nêmesis paulista.
Definiu-se a eleição, então, entre PSDB e PT? Longe disso. O primeiro turno ocorre apenas em 3 de outubro. É impossível fazer previsões com tanta antecedência. Fatores imponderáveis -imprevisíveis, portanto- podem mudar tudo.
Em novembro, poucos previam o mensalão do DEM. Varreu-se do mapa em instantes a hipótese de esse partido continuar a sustentar sua tática neoudenista. Hoje, "mensalão" como discurso é um jogo zerado. PT, PSDB, DEM e tantos outros já têm o seu. Anulam-se.
Na sucessão presidencial, a longevidade da polarização tucano-petista dependerá da resiliência de seus atores principais. José Serra confrontará seu destino na última semana de março. É quando vence o prazo para se decidir se renuncia ao cargo de governador de São Paulo para disputar o Planalto.
Tudo considerado, Serra e Dilma polarizam hoje. Mas é impossível saber se vão se manter protagonistas até outubro de 2010.
Fernando de Barros e Silva:: A força de Lula
DEU NA FOLHA DE S. PAULOO dado mais relevante do processo pré-eleitoral, nem sempre devidamente considerado, tamanha é a sua obviedade, é a força política do presidente da República. Sua face mais visível e mensurável está traduzida nos 72% de aprovação obtidos por Lula, recorde histórico registrado pelo Datafolha e divulgado por este jornal.
Mas a força de Lula se reflete também no protagonismo incomum que ele vem exercendo no arranjo do jogo da sua própria sucessão. É uma influência sem paralelo desde a redemocratização do país.
Lula determinou e comunicou ao PT que a candidata seria Dilma Rousseff, cristã-nova no partido, uma descoberta política recente, obra do segundo mandato, além de virgem em matéria eleitoral -nunca disputou um voto na vida.
Lula reorientou a trajetória de Ciro Gomes (PSB), aliado bom mas incômodo, cujas pretensões pareciam ameaçar o roteiro -da polarização com o PSDB- escolhido pelo presidente. Com o título eleitoral transferido para São Paulo, Ciro tornou-se um curinga a ser usado, no Estado ou no país, contra a candidatura (agora mais do que provável) de José Serra.
Mais recentemente, Lula cortou as asas do PMDB, lançando um ponto de interrogação sobre os apetites de Michel Temer e sua turma. Como disse ontem Janio de Freitas, o vice de Dilma "não é assunto dela nem do PT, é de Lula". E foi por obra dele, Lula, que o presidente do BC, Henrique Meirelles, agora uma opção a mais, se filiou ao PMDB.
A despeito das indefinições do quadro eleitoral, com a subida de Dilma (que foi a 23% e descolou de Ciro, com 13%), fixou-se desde já, até segunda ordem, a polarização anunciada entre PT e PSDB.
Serra é sabidamente um candidato forte, com currículo e experiência na bagagem. Ele não teme Dilma, mas a popularidade de Lula. A força do presidente é a grande esperança de sua candidata, mas também o seu limite. Dilma irá até onde Lula conseguir carregá-la.
Ricardo Noblat :: Vai, minha filha, ajuda!
DEU EM O GLOBO— Se o clima fosse um banco eles já o teriam salvo.
(Hugo Chávez, presidente da Venezuela, sobre a reunião de Copenhague)
Tudo bem que a eleição de Dilma Rousseff para presidente da República dependa acima de tudo da capacidade de Lula de transferir votos para ela. Haverá transferência. O que ninguém sabe é se será suficiente.
Mas convenhamos: Dilma tem de fazer sua parte.
Foi um fiasco, por exemplo, seu desempenho na conferência sobre o clima em Copenhague.
Que melhor cenário poderia ter sido montado para Dilma desfilar como apóstola da preservação do meio ambiente? Apóstola seria um exagero. A senadora Marina Silva (PV-AC) é quem tem jeito de apóstola.
Desafetos apontam Dilma como adepta do desenvolvimento a qualquer preço — o que é um exagero.
Copenhague foi uma oportunidade desperdiçada por ela.
Primeiro trombou com o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente. Desautorizou uma declaração dele que em nada criaria embaraços para a posição do Brasil na conferência.
Em seguida trombou com Marina e o governador José Serra (PSDB).
Os dois propuseram que o Brasil doasse um bilhão de dólares para a criação de um fundo internacional de financiamento de medidas de adaptação e redução de emissões de gases nos países pobres.
Dilma rebateu a proposta sem pensar que ficaria mal na foto: “Um bilhão de dólares não faz nem cosquinha”.
Mais tarde provou o remédio amargo que empurrara goela abaixo de Minc — acabou desautorizada por Lula.
Ao pedir aos países desenvolvidos que se comprometessem com metas concretas de defesa do meio ambiente, Lula disse que o Brasil estava disposto, sim, a doar dinheiro para o tal fundo.
E ainda houve o que muitos atribuíram a um ato falho de Dilma. Em uma de suas intervenções antes que Lula chegasse a Copenhague, Dilma afirmou em discurso por escrito: “O meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável”.
Pobre redator do discurso.
Da forma como a frase foi construída é improvável que ele tenha escrito: “O meio ambiente não é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável”. Nesse caso, o “sem dúvida nenhuma” teria sido extirpado em favor da clareza. Dilma leu o que foi escrito.
Culpa não lhe cabe.
Coube-lhe o desgaste pela trapalhada. Sorte dela que não tenham vazado durante o encontro inconfidências cometidas por seus próprios assessores. O desgaste teria sido ainda maior. Dilma cobrou do governo da Dinamarca tratamento conferido apenas a chefes de Estado.
Não obteve.
Ao desembarcar, pretendia entrar direto em um carro e se mandar do aeroporto. Não conseguiu. Estava disposta a driblar detectores de metal.
Não conseguiu. Exigiu que lhe servissem comida especial — conseguiu. Requisitou para uso exclusivo uma copiadora capaz de imprimir a cor — conseguiu também.
Distante dos marqueteiros, por sua própria conta e risco, Dilma foi Dilma em estado puro.
Talvez tenha sido mais feliz assim. Recentemente, ela admitiu que cansou de ouvir conselhos para mudar determinados traços do seu temperamento.
Decidira não tentar mais parecer com o que não é.
A simpatia não é o seu forte.
Por que penar para ser simpática? Quem convive com ela a reconhece como uma executiva eficiente e talentosa, embora centralizadora.
E na maioria das vezes ríspida com seus subordinados.
Gosta de mandar — um ponto positivo para quem aspira ao cargo mais importante do país. E não gosta de ser contrariada.
Ora bolas! Por que fazer de conta que a dama de ferro esconde uma espécie de Dilminha paz e amor? Lula é quem domina a requintada arte de se comportar como um camaleão.
É grosseiro em particular com os que o cercam.
Em público é doce com eles.
Em particular diz muitos palavrões.
Só falou merda uma vez em público.
Políticos são atores — Dilma sabe. Falam em campanha o que a distinta plateia quer ouvir — Dilma sabe. E não dão um passo sem pesquisar antes seus efeitos — Dilma sabe. Portanto, ou ela segue as regras ou perde de véspera.
Lula ainda não chegou ao ponto de operar milagres.
Marco Antonio Villa :: O poder e a glória
DEU NA FOLHA DE S. PAULOInegavelmente, Lula é, até agora, o maior mito da nossa história. O fenômeno nasceu nos anos 70, gerado por um conjunto de fatores
O culto ao presidente Lula chegou a tal ponto que não causará estranheza se alguma edição popular da Bíblia iniciar com: "No princípio, Lula criou...". Inegavelmente, ele é, até este instante, o maior mito da nossa história.
Esse fenômeno nasceu nos anos 70, ainda durante o regime militar. Foi produzido por um conjunto de fatores. De um lado, pela ausência de novas lideranças sindicais, produto da supressão das liberdades pelo regime militar. Por outro, devido à repressão que atingiu o Partido Comunista Brasileiro, além das cisões do final da década de 60. O PCB acabou perdendo espaço no movimento operário. E a pequena influência que manteve foi por meio de alianças com os sindicalistas conhecidos como pelegos.
Foi nesse campo aberto que apareceu Luiz Inácio Lula da Silva, em 1977. Tinha sido eleito, dois anos antes, presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
Após a divulgação por esta Folha do relatório do Banco Mundial, em que ficou demonstrado que o índice de inflação de 1973 tinha sido manipulado por Delfim Netto, então ministro da Fazenda, Lula iniciou uma campanha pela reposição salarial. Não obteve resultado, mas chamou a atenção da imprensa nacional.
O novo líder operário foi imediatamente adotado por alguns intelectuais de São Paulo. Eles criticavam Vargas, o PCB e o populismo. Ambicionavam participar da grande política, mas não tinham voto.
A eles se somaram os derrotados da luta armada, também sem influência popular, e os membros das comunidades eclesiais de base, da Igreja Católica. Estes últimos obtiveram ampla inserção nos movimentos sociais, que surgiram nos anos 70, mas careciam de formação política sólida.
Sustentado por essas três vertentes, Lula foi incensado como líder popular: antipopulista, anticomunista e católico. Em pouco tempo, transformou-se na maior referência do sindicalismo. As greves de 1978-1980, dirigidas de forma atabalhoada, fizeram a transição de líder sindical para dirigente partidário.
Em 1980, foi um dos fundadores do PT e seu primeiro presidente. Outra vez Lula foi usado como referência de ruptura. O PT seria o primeiro partido de trabalhadores do Brasil, apagando a história de mais de 60 anos dos partidos operários.
Anos antes, os mesmos intelectuais haviam transformaram Lula no primeiro sindicalista "autêntico" do ABC, mas a região teve movimentos grevistas desde a década de 20.
Tudo o que falava era considerado original, sábio. Quando exagerava na dose -como numa entrevista, em 1979, em que elogiou a "determinação" de Adolf Hitler-, era perdoado.
Durante 20 anos participou de cinco eleições. Ganhou uma, em 1986, eleito deputado constituinte. Mesmo assim, o mito não foi abalado. Pelo contrário, os intelectuais do partido transformaram as derrotas em vitórias políticas, sempre encontrando alguma razão para os fracassos.
O processo de construção mítica foi ampliado depois da eleição de 2002. Todos os êxitos do governo foram creditados a ele, e as dificuldades e problemas de difícil resolução a curto prazo foram imputados a uma herança maldita dos governos anteriores, especialmente da presidência FHC. Continuou contando com a colaboração entusiástica de intelectuais. Tudo o que falava ou fazia era considerado extraordinário. Era uma espécie de Espinosa de São Bernardo do Campo.
Na crise do mensalão, o encanto não foi quebrado. Tudo teria sido tramado pela imprensa golpista. Mais uma vez, a figura de Lula era o divisor de águas. O caixa dois teria sido colocado de ponta-cabeça. Os destinatários dos recursos não contabilizados seriam o partido e a campanha. Era a corrupção positiva, companheira.
Com a reeleição, o mito chegou ao auge. Ultrapassou as fronteiras nacionais. O ufanismo entrou na ordem do dia. O delírio do presidente que foi ungido em Caetés para libertar o Brasil tomou conta do noticiário. Como nas ditaduras do "socialismo real", o presidente foi considerado infalível. Se Stálin, pouco antes de morrer, dissertava sobre linguística, Lula passou a explicar até as variações climáticas.
Porém, como o mito foi construído em vida, corre o risco de o próprio Lula ajudar a destruí-lo. Se perder a eleição de 2010, terá de descer do Olimpo. As críticas à sua liderança irão crescer, inclusive dentro do PT.
Há muito deixou de ouvir contestações e negativas dos que o cercam. Os áulicos só dizem sim. O todo-poderoso voltará ao mundo real. O mito vai resistir?
Marco Antonio Villa, 54, é professor de história da UFScar (Universidade Federal de São Carlos) e autor, entre outros livros, de "Jango, um Perfil".
"Governador depende da derrota de Serra para viabilizar seu projeto nacional"
A seguir, a entrevista com o diretor do Instituto Cultiva, Rudá Ricci:
Valor: A candidatura de José Serra à Presidência sofrerá um abalo com a desistência de Aécio Neves em concorrer?
Rudá Ricci :Sem dúvida, em razão da forma como Aécio preparou sua saída. Ele a fez causando um profundo desgaste na imagem de Serra, ao menos em Minas Gerais. Procurou-se transmitir a sensação de que Serra é um homem que empurrou Aécio para fora da disputa de forma maquiavélica, sem tomar uma decisão. O Aécio poderia esperar até janeiro, conforme as lideranças tucanas pediram, mas preferiu fazer na semana passada, na sequência das definições locais e do fortalecimento da candidatura de Ciro Gomes no PSB.
Valor: Como isso se traduzirá em termos eleitorais em Minas? Até que ponto o sentimento de frustração regional pesa para o eleitor?
Ricci :Em Minas Gerais pesa muito. Ao contrário de São Paulo e Rio, aqui não é um Estado fundamentalmente de migrantes. Serra poderá ser visto como mais um paulista que veio tirar o espaço dos mineiros.
Valor: Mas uma recente pesquisa mostrou Serra com 40% dos votos em Minas. Como isso se dissiparia de uma outra para outra?
Ricci : Por mais que Aécio tenha negado, sempre se partia da perspectiva de que poderia haver uma chapa Serra/Aécio para a Presidência da República. Na medida em que ficar claro que isso não vai ocorrer, Serra tende a cair aqui e Dilma (Rousseff, ministra da Casa Civil) a subir. Ou Ciro (Gomes, deputado federal do PSB), se tiver o apoio de Aécio nos bastidores.
Valor: Por que Aécio não vai sair de vice de Serra?
Ricci : Aécio já anunciou a possibilidade de se colocar como uma espécie de conciliador nacional. Ele tentará ser senador para forjar uma nova aliança, diferente do alinhamento partidário atual, com o PT de um lado e o PSDB do outro. Ele não depende da vitória do candidato a governador dele aqui para isso e duvido que se empenhe muito para eleger (Antonio) Anastasia (vice governador). Mas ele depende da derrota de Serra para tal. Com Serra na Presidência, Aécio não tem como propor uma nova aliança.
Valor: Por que então ele não procurou fazer isso saindo do PSDB ao perceber que não tinha como concorrer com Serra?
Ricci: Porque ele tinha que recompor suas bases no interior de Minas. Diferente do que a vitória dele em Belo Horizonte pode indicar, Aécio fragilizou-se no Estado como um todo. Precisava refazer sua liderança, abalada em 2008. Além disso, o PSDB é parte essencial do projeto de Aécio. O problema dele são os tucanos paulistas.
Valor: Ou seja, na visão do senhor, se o Serra tornar-se presidente, nascerá aqui em Minas um foco de oposição..
Ricci: Na verdade, Aécio hoje talvez seja um obstáculo para Serra chegar à Presidência. Como Ciro Gomes é um obstáculo para a Dilma nesse mesmo sentido.
Valor: E porque a vitória de Anastasia não seria importante para o projeto conciliador de Aécio?
Ricci: Evidentemente que a vitória de Anastasia fortaleceria Aécio, mas ele joga com mais de um cenário. Ele sabe que seu projeto não estará comprometido caso o PT ganhe em Minas, se o candidato petista for Fernando Pimentel, e o ex-prefeito ganhou as eleições internas do PT uma semana antes de Aécio retirar a candidatura. Ele sabe que o projeto também sobrevive com Hélio Costa, e o ministro das Comunicações ganhou as eleições internas do PMDB dois dias antes da retirada. Observe que trata-se de uma sequência. Houve um método. Mesmo se o próximo governador de São Paulo for (Geraldo) Alckmin, o projeto da conciliação nacional sobrevive. Ele só não sobrevive com Serra na Presidência.
Valor: Um dos propósitos de Aécio é tornar-se uma figura nacional, como era o avô Tancredo Neves pouco antes de eleger-se presidente no Colégio Eleitoral em 1985. O senhor acha que Aécio conseguiu?
Ricci: Tancredo cresceu politicamente e tornou-se o que se tornou em seus dois últimos anos de vida. Mas antes disso ele era uma figura sem tanto impacto nacional, sem tanta presença no imaginário como a que Ulysses Guimarães tinha dentro do PMDB. Ulysses era paulista, controlava o partido e parecia vocacionado para chegar à Presidência. Tancredo era uma figura do conchavo político, estava em Minas Gerais, fora do palco. Há semelhanças entre a estaturas dos personagens do passado e dos de hoje. (C.F.)
Estratégia tucana inclui caravana com Serra
PSDB quer governador de SP e pré-candidato a presidente viajando o País a partir de janeiro
Carol Pires
Com a decisão do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, de sair da disputa pela Presidência da República, a cúpula do PSDB trabalhará durante as últimas semanas do ano para "reorganizar o partido", nas palavras do secretário-geral da legenda, deputado Rodrigo de Castro (MG). Castro e o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), trabalharão, nos próximos dias, um calendário de viagens que farão juntos, de janeiro a março.
Apesar da agenda complicada do governador de São Paulo, José Serra, a ideia é levar o paulista a todas essas viagens, para expor a imagem do pré-candidato do partido. Como Aécio Neves ocupou, nos últimos meses, a função de articulador nos Estados do Norte e Nordeste, onde o presidente Lula tem mais força, os tucanos avaliam que será indispensável a presença de Serra nesses locais. "É claro que vai crescer a exposição de José Serra porque ele é o nome que o partido apresenta, diferente de antes, quando tínhamos duas opções", resume Sérgio Guerra.
Em contrapartida, para afagar o governador mineiro, o PSDB realizará uma reunião da Executiva em Belo Horizonte e, assim, deslocará as lideranças tucanas até o ninho de Aécio Neves. Segundo interlocutores da legenda, o propósito é mostrar que, mesmo sem o governador como postulante à Presidência, os mineiros são importantes para o projeto do PSDB.
Nos meses em que ficará enclausurado em Minas Gerais, Aécio Neves deve trabalhar para fazer do vice Antonio Anastasia seu sucessor no governo.
Só voltará a se mobilizar nacionalmente em favor da legenda quando o candidato for anunciado formalmente, o que deve ocorrer apenas em março. No Estado, Aécio Neves também deve pavimentar sua vaga ao Senado. Segundo um aliado do governador mineiro, ele sequer aceita discutir entre amigos a hipótese de ser vice numa chapa com Serra. "Este assunto só está em discussão na imprensa. Vice é um assunto para o segundo capítulo", endossa Guerra.
VIAGENS E PROBLEMAS
Nas viagens que ainda serão programadas, os tucanos tentarão resolver os problemas regionais. No Ceará, diz um tucano, o senador Tasso Jereissati resiste em ser o candidato ao governo. O PSDB também está sem palanque no Rio de Janeiro, uma vez que Fernando Gabeira, do PV, trabalhará pela candidatura de Marina Silva. Sem um postulante natural, Gabeira era a alternativa dos tucanos.
Sem o apoio do PV, os tucanos trabalham com duas alternativas, de acordo com o deputado Rodrigo de Castro.
Uma seria lançar o ex-prefeito César Maia, do DEM, ao governo do Estado.
Outra possibilidade em debate seria "construir um candidato" a partir de um deputado federal de expressão.
Os nomes em discussão na cúpula do partido são os da deputada Andreia Zito, e dos deputados Otávio Leite e Marcelo Itagiba, que recentemente saiu do PMDB e ingressou no PSDB.
Minas terá romaria de tucanos
Ivana Moreira
A decisão do governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), de desistir da pré-candidatura à Presidência vai continuar rendendo visitas ao Palácio da Liberdade durante muitas semanas. Na agenda de hoje estão confirmados os deputados tucanos Eduardo Gomes, do Tocantins, e Rodrigo de Castro, de Minas. Segundo fontes ligadas a Aécio, foi isso que ele planejou. Quanto mais os tucanos o pressionarem a mudar de posição, melhor para ele.
Embora já tivesse desistido da candidatura há vários meses, ele esperou o momento certo para fazer o anúncio e assegurar seus reais objetivos. "Há tempos o cenário não era tão positivo para Aécio", comenta o sociólogo Rudá Ricci. "Ele estava jogando para a plateia, tornou-se de fato um Neves, com toda a habilidade para a arte da política, não é mais o neto do Tancredo."
"No caso de José Serra perder a eleição de 2010, o que não é um cenário improvável, o PSDB cairá no colo de Aécio em 2014", aposta o cientista político Fábio Wanderley Reis. Nem Ricci nem Reis acham que o mineiro está blefando ao dizer que nem cogita fazer parte de uma chapa com Serra.
José Goldemberg :: Dilma e Serra em Copenhague
DEU EM O ESTADO DE S. PAULOOs dois principais candidatos à sucessão do presidente Lula participaram da Conferência do Clima que se reuniu durante as duas últimas semanas em Copenhague. O que isso significa é que preocupações com o clima deixaram de ser privilégio dos especialistas e amantes da natureza para entrar na agenda política. Os candidatos prepararam seus discursos não só para impressionar os participantes da conferência, mas, principalmente, os eleitores brasileiros, sobretudo aquela parte do eleitorado que não se preocupa apenas com Bolsa-Família.
A ministra Dilma Rousseff apresentou no caderno Aliás de 13 de dezembro suas visões sobre o problema e o governador José Serra expressou as dele na apresentação que fez, juntamente com o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, na terça-feira, dia 15, em concorrida sessão na capital dinamarquesa.
A ministra repetiu no seu artigo a posição histórica do governo federal, que não muda há muitos anos, incluindo o período do governo Fernando Henrique Cardoso:
Os países industrializados são os que têm de reduzir primeiro suas emissões por causa da "dívida acumulada com o planeta" (responsabilidade histórica). A Convenção do Clima e o Protocolo de Kyoto são intocáveis porque isentam os países em desenvolvimento de reduzir suas emissões.
Os países industrializados têm de pagar pelas ações necessárias nos países em desenvolvimento - nunca fica claro se é por meio de financiamentos (o que o Banco Mundial já faz) ou de concessões a "fundo perdido" que não são reembolsáveis.
Essas colocações são obsoletas e foram superadas pelos fatos. Em 1992, quando a Convenção do Clima foi adotada, os países em desenvolvimento emitiam menos de um terço das emissões mundiais. Hoje emitem metade e estão crescendo a 4% ao ano, principalmente por causa da China, que já é o maior emissor mundial. Cerca de metade das emissões mundiais ocorreu desde 1980, de modo que a "responsabilidade histórica" é difícil de justificar. Além disso, as "ações necessárias" não são do tipo que foi preciso para enviar um homem à Lua, mas tecnologias simples e disponíveis.
No caso brasileiro, aliás - em que a maioria das emissões se origina no desmatamento da Amazônia -, não é necessária nenhuma tecnologia nova, mas a presença do poder público na região, regularização da propriedade da terra e estimular alternativas de desenvolvimento que não sejam predatórias.
No caso da China, isentá-la de assumir compromissos de reduzir suas emissões (que, por sinal, ela já está fazendo com o uso mais eficiente de energia) é também difícil de justificar.
A posição tradicional do Itamaraty, que a ministra agora endossa, sempre se baseou na tentativa de manter coeso o "Grupo dos 77" (que tem mais de 120 países), incluindo os mais pobres da África e da Ásia, como Sudão e Tuvalu, que realmente necessitam de assistência técnica e financeira. Usá-los como desculpa para não reduzir as emissões na China, na Índia, na África do Sul e em outros países com economia pujante pode ser boa política no tabuleiro político das Nações Unidas, mas reflete uma falta de compreensão real da gravidade dos problemas que estão sendo criados pelo aquecimento global.
É por essas razões que a retórica da ministra de que o Brasil está no grupo dos países dos quais se esperam ações voluntárias (mas que, apesar disso, apresentou em novembro as metas de reduzir as emissões em nosso país entre 36,1% e 38,9% do que se estima que elas serão em 2020) é um exercício de futurologia e impressiona pouco. Em primeiro lugar, a precisão dos números (até com casas decimais) tenta passar uma imagem de segurança técnica que inexiste nessa área. Em segundo lugar, o governo federal só fez isso depois de um amplo movimento nacional que o forçou a abandonar o seu imobilismo - e seria generoso da parte da ministra reconhecer isso. Em terceiro lugar, a insistência na palavra "voluntárias" acaba por desorientar as pessoas. Se as metas são mesmo para valer, qual é a diferença entre metas voluntárias e "legalmente vinculantes", que é a linguagem dos tratados internacionais?
Em contraste, o discurso do governador Serra, tal como o do governador Schwarzenegger, é exemplo de discurso adulto, que reconhece claramente que estamos todos contribuindo para o aquecimento do planeta e precisamos tomar providências concretas e efetivas para evitá-lo, independentemente do que os outros estão fazendo e tampouco exigindo que nos paguem por fazer o que não é mais do que nossa obrigação com a saúde do planeta.
O governador Serra não condicionou suas ações a benesses internacionais, mas explicou que a lei adotada em São Paulo pretende reduzir as emissões do Estado em 20% (abaixo do nível de 2005) até 2020, por meio de um conjunto de políticas públicas que, ao contrário de frear o desenvolvimento paulista, vai estimulá-lo pela adoção de tecnologias mais modernas, mais eficientes e, portanto, menos poluentes.
A ministra tenta dar às propostas do Brasil (feitas em novembro) o papel de desencadear ações de outros países e atribuir, portanto, ao Brasil um papel de liderança no processo. As medidas em preparação nos outros países (como China, Índia e EUA) são bem conhecidas há vários meses e o Brasil foi um retardatário nas discussões, exceto pelos progressos na redução do desmatamento da Amazônia, que são mérito da então ministra Marina Silva.
Liderar teria sido reunir os principais emissores entre os países em desenvolvimento - que se contam nos dedos - e apresentar uma proposta comum, assumindo as suas responsabilidades e se afastando de retórica inútil de "culpar os outros".
José Goldemberg, professor da Universidade de São Paulo, foi secretário do Meio Ambiente da Presidência da República em 1992, durante a Conferência do Clima no Rio de Janeiro
Luiz Carlos Mendonça de Barros:: 2009: lições e cicatrizes
DEU NO VALOR ECONÔMICOAproveito nosso último encontro do ano para fazer uma reflexão sobre esse período tão complexo e confuso na economia global que foi 2009. Para o analista que procura olhar para além do horizonte da chamada conjuntura econômica, os acontecimentos dos últimos meses trazem lições que não podem ser desconsideradas. Apesar de saber do risco que existe quando se procura associar uma dimensão histórica a fatos que ainda estão ocorrendo, não posso deixar de fazê-lo agora. Creio que estamos em um momento de ruptura no funcionamento do mundo econômico global de hoje, tanto nas economias desenvolvidas como nos chamados países emergentes.
O leitor do Valor sabe que tenho uma opinião consolidada sobre o aparecimento de um novo grupo de economias que deve - em futuro não muito distante - ocupar uma posição de liderança no mundo. Os acontecimentos de 2009 acabaram por ser um teste muito forte para essa tese e, agora, já na transição para um novo ano, as estatísticas e previsões mostram que caminhamos nessa direção. As críticas contra os defensores do chamado descolamento - e que eram muito comuns no auge da crise entre outubro de 2008 e abril deste ano - praticamente desapareceram da mídia mundial e cabocla.
Mas, por outro lado, é preciso reconhecer que os fatos provaram que esse movimento do mundo emergente não acontecerá sem que os países mais ricos recuperem um mínimo de crescimento econômico. Essa vinculação entre os dois blocos não estava tão clara - pelo menos para mim - antes da quebra do banco Lehman Brothers. Por isso, a consolidação deste mundo com duas velocidades de crescimento precisa ainda passar pelo teste da retomada do crescimento - ainda que medíocre - nas nações mais ricas do mundo. E isso ainda não está totalmente garantido, embora seja o cenário previsto pela Quest para o ano de 2010.
Um segundo ensinamento importante é a reafirmação, trazida pela crise, da tese da instabilidade intrínseca do funcionamento das economias de mercado. Essa instabilidade está associada principalmente ao comportamento dos agentes econômicos - consumidores e empresários - em momentos de insegurança e pânico. E sabemos, já há bastante tempo, que o mecanismo mais importante de criação de uma situação de pânico parte quase sempre do mercado financeiro. A razão para isto é o fato de que as instituições financeiras trabalham com elevado grau de alavancagem em suas operações, maximizando em situações de crise seus prejuízos.
Por isso não surpreende a mim o fato de que foram as distorções associadas ao mito do comportamento racional dos agentes econômicos - e que se transformou na peça central da teoria econômica da última década - que nos levou à crise bancária do sub prime. No fundo, a teoria do comportamento racional foi uma versão mais sofisticada - principalmente pelo uso da matemática - mas não menos ingênua da utopia criada pelo pensamento clássico no século XIX na Europa e que desembocou na grande depressão dos anos 30. A história repetiu-se agora, quase 80 anos depois.
Mas a lembrança dessa falha no metabolismo das economias de mercado não deve trazer de volta o sistema centrado no Estado, mas a crítica realizada por Keynes e alguns seguidores no âmbito mesmo do chamado capitalismo. Não se trata de substituir o sistema de mercado por outro mas de entender e reconhecer seus pontos fracos e perigosos e estabelecer mecanismos externos de controle. Agora mesmo, nos países mais afetados pelo liberalismo extremado dos últimos anos, procura-se reconstruir um sistema de regulação que proteja a sociedade dos excessos da especulação financeira. Na prática uma volta ao passado depois que as perdas e os sofrimentos que a crise espalhou pelo mundo tornaram isso politicamente viável, mesmo nos Estados Unidos.
Nesse movimento, legítimo e correto, não se pode deixar levar pelo clima de acerto de contas com os maiores responsáveis pelo que aconteceu a partir de julho de 2007 em que muitos legisladores parecem incorrer. O que se deve buscar no redesenho do sistema regulatório do mercado financeiro é a construção de uma versão mais moderna do que a que existiu durante muito tempo e que foi desmontada na euforia com a racionalidade e eficiência associadas às decisões econômicas.
Outra lição importante que deve ser tirada dos dias que vivemos é o reconhecimento de outra falha genética do chamado capitalismo: o vácuo em que pode mergulhar a demanda em uma situação de pânico financeiro. Mais uma vez é o resgate do pensamento original do grande Keynes que nos mostra o caminho. Em uma situação como esta o comportamento de manada de empresários, consumidores e governos pode levar a um vácuo na atividade econômica pela sincronização do corte dos gastos.
Mas, mais importante do que reviver a possibilidade que isso possa ocorrer de tempos em tempos, é reconhecer que nessas situações extremas é a ação do governo a única forma de evitar a depressão econômica. O que nos leva diretamente à questão de que a presença do Estado - em parceria com o setor privado - é fundamental para que o sistema de economia de mercado possa funcionar de forma racional e eficiente. E a definição do papel do Estado não pode estar balizada por valores ideológicos radicais, sejam eles à direita ou à esquerda, mas sim por questões de eficiência dentro dessa visão complementar à ação privada.
Gostaria de encerrar esta reflexão chamando a atenção do leitor para uma cicatriz profunda - existem outras - que esta crise deixará no tecido econômico de países importantes. O custo do resgate do sistema financeiro mundial provocou um aumento significativo no endividamento dos governos, principalmente nos Estados Unidos, Europa e Japão. Essa realidade vai provocar dois efeitos colaterais importantes nos próximos anos. O primeiro será uma pressão forte de redução dos gastos públicos ou aumento de impostos em um cenário de baixo crescimento e desemprego elevado. O segundo, por conta dessa fragilidade da situação fiscal e do valor elevado da dívida pública, será uma redução do espaço de manobra da política monetária.
Como sair dessa verdadeira camisa de força vai limitar as alternativas de política econômica durante os próximos anos em um grande número de países.
Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas.
Luiz Carlos Bresser-Pereira:: A "fúria" dos financistas
DEU NA FOLHA DE S. PAULOO que o governo britânico faz ao taxar os bônus ganhos pelos financistas não é nada mais do que a sua obrigação
A leitura do sisudo "Financial Times" do dia 10 estava até engraçada. Sua manchete de primeira página era "Fúria dos banqueiros com o superimposto sobre os bônus". A fúria refere-se ao imposto de 50% sobre todos os bônus obtidos por financistas acima do ganho anual de 25 mil libras que foi anunciado pelo ministro das Finanças do Reino Unido, Alistair Darling.
Fiquei curioso em saber como se manifestaria na prática a fúria ou o ódio desses senhores que não são apenas dirigentes de bancos; são principalmente operadores financeiros ("traders") que ganham bônus. Eles dominaram o mundo durante 30 anos, definiram as regras da "nova" racionalidade econômica baseada no velho "laissez-faire", enriqueceram-se e tornaram ainda mais ricos os rentistas a quem estavam associados, provocaram um enorme aumento da desigualdade em toda parte, aumentaram a instabilidade financeira mundial e, afinal, provocaram a crise global de 2008, que obrigou os governos a gastarem cerca de 5% do PIB mundial para salvá-los.
A decisão do governo britânico foi surpreendente, porque até há pouco era esse governo e o dos Estados Unidos que mais resistiam à pressão dos demais países ricos, principalmente os demais países da União Europeia, para que o sistema financeiro fosse mais fortemente regulado, e os bônus dos financistas, taxados. Resistiam porque Londres e Nova York são os dois maiores centros financeiros do mundo e medidas restritivas a suas atividades poderiam promover a migração do sistema financeiro para outras praças.
Essa preocupação é legítima e salienta a necessidade de coordenação das ações regulatórias entre as maiores economias mundiais. Está claro, porém, que essa cooperação existirá. Haverá sempre aqueles tentados a agir como caronas ("free riders"), mas os demais países dispõem de poder suficiente para neutralizá-los. O que definitivamente não é razoável é deixar de regular o sistema com a desculpa de que não haverá cooperação internacional; é manter incentivos para que um grupo relativamente grande de jovens e brilhantes profissionais ou tecnoburocratas formados nas melhores universidades inventem inovações financeiras que dão lucro aos rentistas e bônus para eles próprios, mas prejudicam os demais; é permitir que adotem práticas arriscadas que levam os países à crise e obrigam seus governos a gastar bilhões e bilhões dos contribuintes para salvar suas economias de crise sistêmica.
Vivemos no capitalismo do conhecimento ou no capitalismo tecnoburocrático -um tipo de capitalismo caracterizado por cooperação e conflito entre a velha classe capitalista e a relativamente nova classe profissional ou tecnoburocrática. Sei que os membros da nova classe terão uma participação crescente na renda do país porque detêm o monopólio do conhecimento técnico, organizacional e financeiro. Mas isso não significa que devamos deixá-los livres para agir como quiserem.
As sociedades modernas se caracterizam por um sistema econômico flexível e dinâmico -o capitalismo tecnoburocrático- que lembra um tigre e que, por isso mesmo, é cego à justiça e à ordem ou à estabilidade e por um sistema político -o Estado democrático- que tem o papel de regular ou domar esse perigoso mas insubstituível animal. O que o governo britânico está fazendo é apenas isso. Nada mais do que a sua obrigação. Os financistas podem ficar furiosos; mais indignados estão os cidadãos que foram prejudicados por sua irresponsabilidade e cobram agora dos governos as medidas regulatórias necessárias.
Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Globalização e Competição
Cabral lidera com 15 pontos à frente de 2º
Principal adversário é o ex-aliado Garotinho, que fez as pazes com Lula e, na TV, se diz inspirador do Bolsa Família
Governador tem até 39%; Garotinho chega a 24% no melhor cenário; Gabeira vai a 17%, Cesar Maia a 13%, e Lindberg, no máximo a 8%
Da Sucursal do Rio
O governador Sérgio Cabral (PMDB) lidera pesquisa Datafolha sobre a sucessão estadual no Rio, com índices entre 36% e 39% dos votos, abrindo uma vantagem de 13 a 15 pontos sobre o segundo colocado, dependendo da lista de concorrentes. O principal adversário de Cabral é um ex-aliado: o ex-governador Anthony Garotinho (PR), que tem entre 23% e 24% das intenções de voto.
O deputado federal Fernando Gabeira (PV), quando incluído no rol de candidatos a governador, obtém entre 14% e 17%. Ao ser substituído por seu hoje aliado Cesar Maia (DEM), o ex-prefeito do Rio varia entre 12% e 13% do eleitorado. O prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias (PT), fica entre 6% e 8%.
Cabral sai-se melhor no interior -onde chega a 44%- do que na capital - 32% na sua pior taxa. Tem forte apoio entre os jovens, estrato em que atinge até 47% das intenções, e está mais enfraquecido entre os eleitores de alta escolaridade -no qual tem 29%.
Garotinho também é forte no interior e nas faixas de menor renda e escolaridade. Gabeira tem mais votos na capital e nos estratos de alta renda e escolaridade. Maia tem na capital o dobro dos votos que consegue no interior do Estado.
O pré-candidato do PR provavelmente foi beneficiado pela propaganda gratuita partidária na TV e em rádio, transmitida nas últimas duas semanas, na qual se vincula diretamente ao presidente Lula, afirmando ter sido criador do cheque cidadão, programa de transferência de renda que, segundo ele, inspirou o Bolsa Família.
O ex-governador do Rio foi aliado de Lula na eleição de 2002, mas rompeu no começo do mandato. Agora, fez as pazes com o presidente e se filiou a partido da base do governo.
Em junho deste ano, Garotinho deixou o PMDB, do qual era presidente regional, e filiou-se ao PR, depois que o governador Cabral o alijou do controle da máquina estadual do partido.
A sucessão no Estado do Rio se divide em dois blocos: em defesa da pré-candidatura de Dilma Rousseff estão Cabral, Garotinho e Lindberg, bloco que soma entre 65% e 71% das intenções de voto; na oposição, Gabeira e Maia trafegam em um faixa com menos de um terço dos votos dos situacionistas e devem se dividir entre Marina Silva (PV), e José Serra (PSDB), respectivamente.
O cenário eleitoral do Rio hoje está enxuto. Nomes com forte penetração como o do senador Marcelo Crivella (PRB) e do deputado estadual e apresentador da TV Record Wagner Montes (PDT) não devem disputar. Crivella deve buscar novo mandato como senador e o PDT tende a apoiar um candidato de outro partido.
O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, ministro do Trabalho, fez declarações públicas de apoio ao petista Lindberg, que pleiteia ser candidato apesar de Lula defender apoio do PT à reeleição de Cabral.
No lado oposicionista, Cesar Maia já defendeu publicamente o apoio a Fernando Gabeira, aliado possivelmente ao PSDB e ao PPS. Com o lançamento da candidatura de Marina Silva à Presidência, Gabeira, que era próximo a Serra, anunciou que fará campanha para ela, provocando desavenças.
Gabeira já sinalizou que pode optar pelo Senado, abrindo espaço para que Maia seja candidato ao governo. Se Gabeira não entrar na disputa, o ex-prefeito deve lançar seu nome.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Reflexão do dia - FELIZ NATAL

que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
(Morte e Vida Severina)
A hora de Serra
VEJAO governador de Minas, Aécio Neves, abre caminho para que seu colega paulista seja o candidato do PSDB à Presidência em 2010. Mas o mineiro ainda pode aparecer nessa chapa

Fábio Portela
O PSDB, de Aécio e Serra, se dividiu na última eleição, mas deverá marchar unido em 2010
Faltam dez meses e meio para que os eleitores brasileiros escolham o próximo presidente da República. A base aliada do governo Lula já sabe há algum tempo que irá para a disputa tendo à frente a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. A oposição, no entanto, resistia a definir o seu representante no pleito. Essa dúvida acabou na quinta-feira passada. O candidato que enfrentará Dilma nas urnas será o tucano José Serra, atual governador de São Paulo. O caminho dele ficou livre por uma decisão tomada em Belo Horizonte pelo governador mineiro, Aécio Neves. Muitíssimo bem avaliado em seu estado e festejado por políticos de todo o país, Aécio era o único que ameaçava disputar com Serra a cabeça da chapa presidencial do PSDB, mas decidiu retirar sua pré-candidatura. A partir de agora, todo o campo oposicionista, que além do PSDB abarca o DEM e o PPS, voltará integralmente sua atenção para o Palácio dos Bandeirantes, sede do Executivo paulista. Serra personifica a esperança de alternância de poder no Brasil. É a melhor aposta para romper com a hegemonia alcançada pelo PT na política brasileira durante os últimos sete anos.
Serra não anunciará oficialmente sua candidatura agora. Ele avalia que, se fizesse isso, teria a perder. Afinal, já está muito bem posicionado para 2010, pois aparece em primeiro lugar em todas as pesquisas de intenção de voto. Na visão de Serra, se assumir a candidatura neste momento, ele só estará se expondo à intensificação dos ataques adversários. O governador pretende provar que não estava brincando quando disse, recentemente, que tem "nervos de aço na política". Vai deixar o anúncio oficial para a última hora, em março, quando expira o prazo legal para que os candidatos renunciem aos cargos públicos e se dediquem exclusivamente à campanha. Enquanto isso, deixará nas mãos do presidente do PSDB, Sérgio Guerra, a missão de negociar por ele as formações de palanques estaduais com aliados fora de São Paulo.
Aécio, por seu lado, cresceu em admiração dentro do PSDB. A decisão de abrir espaço para Serra foi muito bem recebida pelos tucanos, que atribuem a divisões internas - entre outras questões - a derrota do partido para o PT em 2006. A movida de peças de Aécio pode significar que o PSDB, enfim, marchará unido. Como Serra se tornou o candidato natural, todos os grupos do partido - além do DEM e do PPS, que também integram a oposição ao governo Lula - deverão trabalhar com afinco por sua candidatura. Dessa vez, afirmam tucanos graúdos, não haverá fissuras.
Conhecido pelo bom relacionamento que mantém com os mais diversos grupos políticos, Aécio vem cumprindo à risca o roteiro que planejou para si próprio. Embora cortejado por outras siglas, permaneceu no PSDB. Propôs a realização de prévias para escolher o candidato do partido, mas não fez disso um cavalo de batalha. Por fim, tomou sua decisão em dezembro, dentro do prazo que estabeleceu caso o partido deixasse a decisão por um nome em suspenso. Isso porque essa indefinição no âmbito nacional estava atrapalhando a amarração política em Minas Gerais. Se passasse mais tempo indeciso, Aécio poderia perder o controle de sua própria sucessão. Agora, sem a expectativa de ser candidato a presidente - e sem a consequente obrigação de formar uma aliança ampla também em seu estado -, está livre para fazer campanha para que seu vice, Antonio Anastasia, seja o próximo governador mineiro, mesmo que isso desagrade a outros políticos locais.
Aécio ainda não revelou o que será de seu próprio futuro político. Até agora, a opção mais certa é disputar uma eleição assegurada para uma vaga de senador por Minas Gerais. Talvez seja muito pouco para ele. Dez entre dez tucanos querem que Aécio seja candidato a vice-presidente na chapa de Serra. É o que eles chamam de chapa puro-sangue. Os aliados DEM e PPS também vibram com a ideia, e a razão é simples. Serra governa o estado mais populoso do país, e Aécio, o segundo. Só em São Paulo e em Minas Gerais vivem 33% dos eleitores brasileiros. São quase 44 milhões de votos. Como ambos os governadores têm índices de aprovação muito elevados, imagina-se que uma coligação Serra-Aécio seria arrasadora nesses dois estados, abrindo uma vantagem numérica virtualmente impossível de ser superada pela chapa governista no restante do país. Embora não admitam em público, os tucanos acreditam que, sozinho, Serra tem boas chances de vencer Dilma, mas com Aécio a seu lado a fatura estaria praticamente liquidada.
Antes de tornar pública sua decisão, o governador mineiro reuniu-se várias vezes com o presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Definido o tom do anúncio, Aécio telefonou para Serra, que estava embarcando de volta de Copenhague, na Dinamarca, onde havia participado da conferência mundial sobre o clima. Avisou-o de que sairia da disputa e ambos chegaram a cogitar fazer um anúncio conjunto em Belo Horizonte. Desistiram logo da ideia. Na quinta-feira, o governador paulista divulgou uma nota oficial com elogios ao colega. Nela, já se percebem o namoro com vistas a fazer de Aécio seu vice e o antídoto ao caráter plebiscitário que o PT tentará imprimir à campanha do ano que vem: "Não me surpreendem a grandeza e desprendimento que ele demonstra neste momento (...) Não somos semeadores da discórdia e do ressentimento. Nem estimuladores de disputas de brasileiros contra brasileiros, de classes contra classes, de moradores de uma região contra moradores de outra região. Trabalhamos, ambos, sempre, pela soma, não pela divisão. Somos brasileiros que apostam na construção e não no conflito. Temos o sonho de um país melhor, unido e progressista, com oportunidades iguais para todos. E é nesse sentido que vamos continuar trabalhando. Juntos".
O PT insiste em discordar da avaliação de que a desistência de Aécio foi positiva para o PSDB. Os cardeais do partido passaram a dizer, inclusive, que estavam "animadíssimos" com a decisão de Aécio, pois o consideravam um adversário potencialmente mais perigoso do que Serra. Eles sustentam que, com a definição tucana, a tal estratégia do plebiscito bolada pelos marqueteiros de Dilma - de transformar a eleição do ano que vem num duelo entre as gestões de Lula e a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - poderá ganhar mais sentido. Os petistas apostam que a enorme identificação de Serra com FHC, de quem foi ministro do Planejamento e da Sáude, garante o tom plebiscitário do pleito. Eles também viram positivamente o fato de o figurino de candidato ter sido empurrado para cima de Serra antes da virada do ano. Acham que o tucano, até março, passará a dividir com Dilma Rousseff um peso que ela carregava sozinha: a suspeita de que todos os seus atos no governo sempre ocultam uma motivação eleitoral.
Dilma, que assim como Serra resiste a admitir oficialmente sua candidatura, não disse uma palavra sobre a movimentação tucana. Passou a semana preocupada em apagar um incêndio criado pelo presidente Lula. Ele ofereceu ao PMDB a vaga de vice na chapa da ministra. O partido topou, e decidiu indicar o presidente da Câmara, Michel Temer. Lula não gostou. Ele não nutre simpatia pelo deputado e acha que uma chapa Dilma-Temer teria pouco apelo. Sugeriu então que o PMDB apresentasse três nomes para que a própria Dilma escolhesse o vice. Soprou que via com bons olhos os nomes dos ministros Hélio Costa (Comunicações) e Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) e até o do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Os peemedebistas estrilaram. Em política, esse tipo de interferência é um tremendo desaforo. Peemedebistas mais escaldados passaram a desconfiar que Lula semeia a discórdia no partido para tentar dominar integralmente a aliança governista.
Dilma correu para avisar à cúpula do PMDB que a definição do vice é questão interna do partido, e que a decisão tomada será respeitada. O PMDB é vital para as pretensões presidenciais da ministra por ser o mais capilarizado dos partidos brasileiros. Seus caciques regionais podem carregar Dilma de votos em regiões onde ela é pouco conhecida. Além disso, a enorme participação da legenda no horário eleitoral gratuito é estratégica. Juntos, PT e PMDB ficarão com 50% do tempo da propaganda política no rádio e na TV, contra menos de 30% da chapa do PSDB, com DEM e PPS. O ano político, então, termina assim: enquanto Serra tentará fazer de Aécio o vice dos sonhos, Dilma precisa cuidar para que a definição do seu companheiro de chapa não se transforme em pesadelo.
Com reportagem de Sophia Krause
Serra nem precisa decidir
ÉPOCA
A desistência de Aécio Neves transforma José Serra no que ele menos queria: candidato da oposição à Presidência, antes da hora marcada
Leandro Loyola e Paulo Moreira Leite
ESCOLHIDO
O governador de São Paulo, José Serra, estava de saída de Copenhague, na Dinamarca, na semana passada, quando soube que seria tratado como candidato à Presidência da República ao chegar ao Brasil. Pouco antes de embarcar, Serra recebeu uma ligação de Aécio Neves, governador de Minas Gerais. Aécio avisava que estava definitivamente fora da disputa pela vaga de candidato do PSDB à Presidência. Ao desembarcar, Serra foi direto a um compromisso no interior de São Paulo. Chegou mal-humorado e, mais tarde, cancelou uma entrevista coletiva marcada para falar sobre um programa do governo paulista. A um amigo, Serra reclamou do modo repentino como Aécio fez seu anúncio. Mas ele também estava contrariado porque deixara de ser o condutor da presença do PSDB na sucessão presidencial para se transformar em refém da dinâmica da eleição de 2010. Aécio anunciou, na tarde da quinta-feira, que não insistiria na disputa para ser o candidato tucano à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Busco contribuir, dessa forma, para que o PSDB e nossos aliados possam, da maneira que compreenderem mais apropriada, com serenidade e sem tensões, construir o caminho que nos levará à vitória em 2010”, disse, ao lado do presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Aécio anunciou a decisão numa carta de 1.000 palavras. A principal informação no texto era uma ausência. Em nenhum momento ele menciona o nome de José Serra.
A decisão colocou Serra na posição que ele procurava evitar havia meses. A presença de Aécio na disputa servia como uma espécie de proteção a sua candidatura. Na intimidade, Serra jamais acreditou que o concorrente de Minas Gerais pudesse ameaçá-lo, nem mesmo quando a direção do PSDB fingiu que levaria a sério a ideia de escolher o candidato ao Planalto em prévias eleitorais. Com a sombra de Aécio, Serra podia inaugurar obras, percorrer o país e comparecer a programas de TV sem responder a questões desgastantes sobre a disputa presidencial. Líder nas pesquisas, seu principal cuidado sempre tem sido evitar situações que possam lhe trazer qualquer tipo de prejuízo eleitoral. Horas depois de Aécio anunciar a decisão, Serra se dizia disposto a manter a mesma estratégia silenciosa – até março de 2010.
Observador atento dos costumes políticos, Serra considera que alimentar o suspense sobre sua decisão é a melhor forma de manter a fidelidade e o bom comportamento do PSDB e das legendas aliadas, que serão obrigados a multiplicar gestos de simpatia para garantir a candidatura. No momento em que anunciar a decisão de concorrer, porém, a situação se inverterá. É o candidato quem vai precisar andar atrás dos aliados em busca de todo tipo de apoio. O raciocínio faz sentido. Mas a saída de Aécio criou um fato novo. Serra torna-se candidato até por eliminação. “Serra agora é o candidato à Presidência pelo PSDB. E será tratado como tal.
Ele estava tentando evitar isso”, afirma o cientista político Fernando Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e colunista de ÉPOCA. Mantidas as atuais condições, a simples hipótese de Serra desistir de concorrer ao Planalto pode ser um golpe equivalente a destruir o PSDB.
“Na política, tudo pode mudar“
(AÉCIO NEVES, governador de Minas)
A decisão de Aécio sepultou, por ora, a ideia de uma “chapa puro-sangue” só com peessedebistas em 2010. Nem todos os tucanos desistiram da ideia, porém, até porque Aécio anunciou que zelaria pelo futuro de Minas e dos mineiros, mas não entrou em detalhes sobre seu próprio futuro. Nem sequer falou de seu projeto mais provável: disputar o Senado, cadeira para a qual seria eleito sem sair de casa. Questionado pelos jornalistas, Aécio lembrou que, “na política, tudo pode mudar.” “O modo como Aécio anunciou sua decisão não prejudica a possibilidade de o PSDB formar uma chapa pura”, afirma o deputado José Aníbal (PSDB-SP).
Num esforço para seduzir Aécio, até o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, aliado de Serra, já entrou em campo. Há meses, Quércia vem tratando com Aécio de uma alternativa. Ele propõe uma grande operação. Aécio assume a vaga de vice de Serra, enquanto o PMDB entra na campanha do candidato de Aécio à sucessão, o vice Antonio Anastasia, que tem apenas 6% das intenções de voto. É um projeto tão engenhoso como complicado. O candidato a governador do PMDB é o ministro das Comunicações, Hélio Costa, que há anos batalha para concorrer. Para o plano sair do papel, seria preciso convencer Costa a rebaixar suas ambições e disputar o senado mais uma vez.
Apesar dos encontros pessoais e constantes conversas pelo telefone, nos últimos tempos o convívio entre Serra e Aécio já deixara de ser cordial. Aécio dava sinais de impaciência ao participar de um ritual que se transformou numa armadilha para retirá-lo da disputa no momento conveniente para Serra. A decisão de Aécio não foi uma surpresa em si. Surpresa foi o momento do anúncio. Os aliados de Serra sonhavam com uma cerimônia grandiosa, em que um concorrente levanta o braço do outro e faz juras de apoio eterno até a contagem do último voto.
“Uma coisa é uma decisão em janeiro, com todo o partido, o Sérgio Guerra e talvez até o Serra presentes”, diz um deputado tucano. “Outra é fazer de repente, pela imprensa, antes do que se esperava.” Informados da decisão na última hora, aliados de Serra chegaram a referir-se a Aécio com palavrões, na semana passada. De olho nos próximos meses, a principal dúvida dos aliados de Serra envolve a postura de Aécio diante do eleitorado mineiro, o segundo maior do país, indispensável em qualquer plano de vitória tucana. Serra fará tudo, mas tudo mesmo, para não perder um aliado tão precioso.
Cai diferença entre Serra e Dilma
A pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, rompeu a barreira dos 20% e reduziu para 14 pontos sua diferença ante o primeiro colocado, o governador José Serra (PSDB). Na pesquisa Datafolha com 11.429 entrevistas de 14 a 18 deste mês, Serra tem 37%, Dilma, 23%, Ciro Gomes (PSB), 13%, e Marina Silva (PV), 8%. A margem de erro é de dois pontos.
Dilma se consolida em 2º e reduz diferença para Serra
Tucano é líder isolado, com 37%, enquanto petista chega a 23% e se descola de Ciro
Sem Ciro, governador de SP tende a vencer no 1º turno; com saída de Heloísa Helena da disputa, a candidata de Lula e Marina crescem mais
Fernando Rodrigues
Brasília
A pré-candidata do PT a presidente da República, Dilma Rousseff, consolidou-se como segunda colocada, rompeu a barreira dos 20 pontos percentuais em todos os cenários e reduziu para 14 pontos sua diferença em relação ao primeiro colocado isolado na disputa, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Em agosto, a diferença a favor do tucano variava de 19 a 25 pontos.
Esses são os principais resultados da pesquisa Datafolha realizada de 14 a 18 deste mês, com 11.429 entrevistas em todo o país. No cenário no qual quatro candidatos são apresentados como possíveis concorrentes, Serra fica com 37%, Dilma está com 23%, seguida de Ciro Gomes (PSB), com 13%, e de Marina Silva (PV), com 8%. Há 9% dos entrevistados que vão votar em branco ou nulo; 10% dizem estar indecisos.
Com esses quatro candidatos na disputa, haveria segundo turno se a eleição fosse hoje. A soma de Dilma, Ciro e Marina resulta em 44%. Ou seja, mais do que os 37% de Serra. Para ser eleito no primeiro turno, um candidato tem de ter pelo menos 50% mais um dos votos válidos (os dados aos candidatos, excluídos brancos e nulos).
Quando Ciro é retirado do processo, as coisas ficam mais fáceis para Serra. O tucano vai a 40%. Como Dilma pontua 26% e Marina atinge 11% (as duas somam 37%), haveria uma tendência de vitória do tucano na primeira rodada, marcada para 3 de outubro de 2010.
A última pesquisa Datafolha havia sido em agosto. Heloísa Helena (PSOL) aparecia em todos os cenários, mas ela anunciou que ficará fora da disputa para apoiar Marina. Em um dos cenários de então, Heloísa tinha 12%. Serra pontuava 36%, Dilma tinha 17%, Ciro estava com 14% e Marina com 3%.
É errado comparar o levantamento deste mês com o de agosto. Os cenários apresentados ao eleitor são diferentes. Feita a ressalva, é necessário registrar que Dilma melhorou seu desempenho acima da margem de erro em qualquer combinação de candidatos.
Em agosto, a petista pontuava de 16% a 24%, conforme o cenário pesquisado. Agora, seus percentuais vão de 23% a 31%. Serra variava de 36% a 44%. Agora, de 37% a 40%.
Com a saída de Heloísa, quem mais cresceu foram Dilma e Marina (5 pontos), que deve ter seu apoio. Mas não é possível aferir exatamente para quem se deu a transferência dos votos da ex-senadora. Ciro Gomes oscilou um ponto para baixo e Serra, um ponto para cima. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Também deve ser considerado o fato de a pesquisa Datafolha ter sido realizada em seguida a uma bateria de comerciais no rádio e na TV do PSDB e do PT. Os tucanos apresentaram seu programa partidário no dia 3. Os petistas apareceram no dia 10. Os dois partidos também tiveram inserções curtas neste mês.
"A diferença é que o PT apresentou sua candidata, Dilma Rousseff, explicitando o apoio a ela por parte do presidente Lula. Já o PSDB dividiu seu programa entre dois pré-candidatos, José Serra e Aécio Neves", diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.
Na semana passada, depois de ter usado metade das propagandas do PSDB, Aécio Neves anunciou que estava deixando a disputa. Como o Datafolha foi a campo antes do anúncio, o nome do mineiro aparece em dois dos quatro cenários.
Num cenário com Ciro, Aécio fica em terceiro, com 16%. Sem ele, Dilma lidera com 31% e Aécio vem em segundo, com 19%, mas empatado na margem de erro com Marina (16%).
Em agosto, quando o Datafolha indagava aos pesquisados para que respondessem de maneira espontânea _sem ver uma lista de nomes_ em quem desejavam votar em 2010, o presidente Lula liderava com folga: 27%. Serra era citado por 6%. Dilma por apenas 3%.
Agora, houve uma mudança. Mesmo impedido pela Constituição de ser candidato (já disputou uma reeleição e está no segundo mandato), Lula ainda lidera, mas sua taxa é de 20%. Serra tem 8%, exatamente o mesmo percentual de Dilma.
"Esse dado é relevante porque mostra que o eleitor talvez esteja percebendo que Lula não é candidato. E como Dilma mais do que dobrou o seu percentual, saindo de 3% para 8%, talvez muitos já a identifiquem como sendo o nome apoiado por Lula", diz Mauro Paulino.
Quando se observa um corte da pesquisa nos Estados, nota-se que Serra tem seu melhor desempenho no Estado que governa: em São Paulo, tem 47%, contra 18% de Dilma. Já a petista é mais forte na Bahia, onde aparece à frente do tucano, com 34% contra 30%.
Numa análise combinada sobre voto e renda do eleitor, Dilma ainda não consegue replicar a força histórica de Lula entre os mais pobres. No grupo de eleitores que ganham até dois salários mínimos, a petista tem 23% das preferências. Já entre os com renda acima de dez mínimos, é a preferida por 30%. Para Serra, os percentuais são 35% e 38%, respectivamente.
Serra vence Dilma e Ciro no 2º turno
Tucano derrota petista por 49% a 35%; contra deputado, placar é de 51% a 28%
Em cenário hoje improvável, de disputa final entre Dilma e Ciro, resultado é apertado em favor da ministra, com 40% a 35% em favor dela
Da Sucursal de Brasília
Pela primeira vez o Datafolha testou cenários possíveis para um segundo turno na eleição presidencial de 2010. José Serra, do PSDB, é o que atinge os percentuais mais altos.
Na principal hipótese segundo as pesquisas, num segundo turno entre Serra e Dilma Rousseff (PT), o tucano pontua 49% contra 34% da petista.
Esse confronto Serra x Dilma é o mais desejado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na opinião de Lula, a melhor forma de vencer a disputa pelo Planalto seria a polarização entre uma petista e um tucano que foi duas vezes ministro no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), fazendo uma comparação entre as duas administrações.
O Datafolha mostra que a primeira parte da estratégia lulista está dando certo _há uma crescente polarização, pois Dilma está isolada em segundo.
Mas mesmo com a comparação entre FHC e Lula presente em centenas de exibições de comerciais do PT nas últimas semanas, a maioria dos eleitores ainda prefere votar em Serra numa eventual disputa de segundo turno contra Dilma.
Apesar de perder nas simulações atuais, a petista é, entretanto, a que mais bem se posiciona num embate direto contra Serra. Quando o Datafolha testou um possível segundo turno entre o governador e Ciro Gomes (PSB), o tucano ganha com 51% contra 28%.
Na eventualidade de nenhum tucano passar ao segundo turno e Dilma disputar contra Ciro Gomes, a ministra venceria a disputa hoje. Ela teria 40% contra 35% de seu adversário do PSB. Uma diferença de cinco pontos apenas, pouco acima do limite da margem de erro combinada de ambos.
Os outros dois cenários de segundo turno testados pelo Datafolha confirmam como era frágil a pré-candidatura presidencial _agora abortada_ do governador mineiro, Aécio Neves. O tucano perde tanto para Dilma como para Ciro, sempre por larga diferença de pontos.
Um embate Dilma x Aécio terminaria hoje, de acordo com o Datafolha, em uma vitória da petista com 44% contra apenas 28% do tucano. Se o segundo turno se desse entre Aécio e Ciro, o mineiro manteria seus 28% e o postulante do PSB venceria com 42%. (FR)
Gaudêncio Torquato :: O jogo de Aécio Neves
DEU EM O ESTADO DE S. PAULOTancredo Neves era ás na arte de dizer um sim puxando as letras do não. Depois de entrevista a um repórter, pediu para ler o texto. Lá estava: "Não pretendo ser governador de Minas." Pediu licença, pegou a caneta e emendou: "Não pretendo ser candidato a governador de Minas."
Aécio Neves herdou a matreirice do avô. Anuncia, em nota, sua desistência do páreo presidencial de 2010. Antes que a leitura sugira fechamento de portas, é mais que oportuno o esclarecimento. Aécio, como a raposa Tancredo, quer dizer: "Quero ser presidente da República, mas reconheço que José Serra tem preferência. Cedo a vez para ele."
O gesto do governador mineiro, bem pensado, terá implicações na frente política com vista à disputa do próximo ano. Ao deixar José Serra entre a cruz e a caldeirinha - o governador paulista é tolhido na alternativa de recuo -, Aécio contribui para acelerar o processo eleitoral, ajustar o foco do discurso dos contendores, definir as alianças eleitorais e clarear os horizontes, que até o momento se mostram nebulosos. Com sua decisão o mineiro também demonstra preferência pela hipótese bastante utilizada no enfrentamento de circunstâncias adversas: nem sempre a menor distância entre dois pontos é uma reta, pode ser uma curva.
O desvio momentâneo poderá ser-lhe útil para galgar, no futuro, meta mais ambiciosa que a vaga do Senado por Minas Gerais.
A retirada de Aécio da arena presidencial estreita o espaço de articulação do PSDB. A observação ampara-se no perfil de um governador que transita com facilidade na esfera partidária, colecionando amigos e simpatizantes nas grandes agremiações. Trata-se de um político de centro, identificado com um escopo pontuado por conceitos como modernização, eficiência e eficácia, desburocratização e integração de estruturas. Não se veste da coloração ideológica pesada que se impregna em bolsões de partidos, inclusive do PT, identificando-se como tucano defensor do ideário da social-democracia, cuja balança ajusta os pesos de uma economia aberta e plural com controles do Estado para evitar excessos. Por isso mesmo Aécio Neves se recusa a entrar no jogo do "a favor ou contra" o governo Lula. Tanto apoia programas como critica desvios.
O selo que inventou - "pós-lulismo" - lhe conferiria, enquanto candidato, boa condição para escapar da armadilha que o PT seguramente vai arrumar para capturar as oposições. A armadilha chama-se plebiscito. O petismo/lulismo anuncia a todo momento que a comparação entre os oito anos de FHC e os dois mandatos de Lula será objeto central da campanha. Aécio, de maneira cordial, sem arengas, fugiria à emboscada. Como?
Reconhecendo pontos positivos, sem louvações exageradas, e pontuando sobre áreas que estão a merecer ajustes. Já o governador Serra terá dificuldades para enveredar por essa trilha, eis que simboliza o oposicionismo dos embates históricos entre PSDB e PT. Ademais, agrega valores, ideias e atitudes mais próximas ao perfil técnico de Dilma Rousseff. A verdade é que o ideário de ambos não parece tão diferente, havendo quem garanta ter o paulista visão até mais estatizante que a pré-candidata de Lula. As divergências dão-se mais na esfera de abordagens formais e detalhes do que no plano substantivo.
Sob o prisma partidário, diminuem as chances de amplo leque de alianças em torno da chapa oposicionista. O PSDB poderá atrair boa fatia do PMDB, por exemplo, mas essa parcela poderia ser mais larga caso Aécio fosse o candidato. O mesmo poderia ocorrer com outros partidos, entre eles o PDT, que chegaram a acenar simpatia pelo candidato mineiro. O estreitamento do espaço de articulação na seara oposicionista poderia ser compensado com a chapa puro-sangue. Serra e Aécio formariam uma dupla de peso e respeito. Mas esse é o busílis do tucanato. O risco é alto. Se ambos perderem a campanha, ficariam sem palanque.
Passariam boa temporada em limbo político exatamente no ciclo em que se começa a enxergar a aura de um Brasil potente no contexto das nações. Ora, a viabilidade de derrota conta com certa lógica aritmética, fácil de recitar. Vejamos os grandes números que cercam a base da pirâmide: a Previdência Social beneficia cerca de 75 milhões de brasileiros, o salário mínimo laça 43 milhões e o Bolsa-Família, distribuído a 12 milhões de famílias, atinge 46 milhões de pessoas. Se considerarmos que os maiores contingentes desses programas tendem a votar pensando no bolso (leia-se também estômago), deduz-se que será dado um voto de agradecimento aos patrocinadores. Núcleos insatisfeitos - que se localizam nos estratos médios - poderão fazer contraponto ao discurso emotivo das margens, sem condições, porém, de abalar a avalanche que delas virá.
As oposições terão de achar um verbo para desconstruir espaços sociais pulverizados de programas, ações e benesses. Mudar? Se a palavra for essa, a candidata governista alçará voo.
Resta saber o que Tancredo Neves, com seu indecifrável sorriso, andou cochichando aos ouvidos do neto nestes dias pré-natalinos.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação
Eliane Cantanhêde:: Serra e seus múltiplos adversários
DEU NA FOLHA DE S. PAULOBRASÍLIA - Pelo Datafolha, Serra chega ao fim do ano com sólidos 37%, mas Dilma sobe bem e vai para 23%. A rejeição é equivalente, de 19% e 21%, e a eleição esquenta.
Na espontânea, quando o pesquisado pode chutar o nome que bem entender para presidente, Lula é o grande vencedor, com 20%, deixando os dois reais candidatos empatados em 8%. Excluída a chance de citar Lula, o resultado é significativo. Serra tem 8%, concorrendo com dois adversários: Dilma, com 10%, e o "candidato do Lula", com 8%.
Faça a conta de somar. Agora, subtraia: muitos acham que Serra é o candidato do Lula, mas um dia vão parar de achar.
Logo, a oposição tem um candidato forte, mas o governo reúne condições bem favoráveis. Mais ainda considerando-se discurso, numeralha, a estrutura, a penca de partidos e, a depender do PMDB, cerca do dobro de tempo na TV.
A oposição, pois, tem de preservar e ampliar o seu principal capital: o candidato. Não dá para brincar, nem para se dividir e menos ainda para errar. O cenário é difícil.
Já o governo precisa equilibrar o apoio a Lula com o voto a sua candidata. Persiste uma enorme distância entre eles, mesmo Dilma tendo suplantado mais um obstáculo: Ciro Gomes. Em todos os cenários, ela está à frente dele, que tende a esfarelar caso entre em campanha sem Lula, sem força partidária, sem aliados e sem suporte.
Não há dados sobre a consequência da saída de cena de Aécio no quadro eleitoral, mas fica claro que os votos de Ciro, se ele trocar a eleição nacional pela paulista, vão se pulverizar.
Serra, Dilma e Marina Silva lucram exatamente a mesma coisa: três pontos cada um. Ciro fica ou sai, e não muda nada.
O governo não pode errar, e a oposição, além disso, precisa acertar. O próximo passo crucial é a definição dos vices, que andou para trás no caso de Dilma e está bloqueada para Serra enquanto Aécio não vem. Se é que virá.
Sequer cogito essa hipótese', diz Aécio, sobre ser vice
Governador descarta possibilidade de chapa puro-sangue com Serra
Fábio Fabrini
BELO HORIZONTE.O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), descartou ontem a possibilidade de ser vice do governador de São Paulo, o tucano José Serra, na disputa presidencial de 2010. Questionado sobre a pressão de setores da oposição pela chapa purosangue e sobre declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que disse ser possível um acordo que viabilize a composição, o mineiro foi categórico: — Sobre essa questão específica, a minha resposta é muito simples: sequer cogito essa hipótese.
A declaração foi feita em visita a Bonito de Minas (MG), dois dias após Aécio informar que desistiu de disputar a indicação do partido à vaga de candidato ao Planalto, abrindo caminho para o concorrente interno. O desempenho de Serra junto ao eleitorado de Minas agora preocupa a cúpula tucana.
O governador mineiro prometeu empenho numa eventual candidatura do paulista, mas ponderou que lealdade não é garantia de votos: — Estarei sempre ao lado dos meus compa nheiros .
Quando o partido definir seu candidato, serei aqui mais um soldado, entre tantos
Marina confirma pré-candidatura e critica Dilma
Senadora diz que ministra não tinha experiência para participar da Cop 15
SÃO PAULO.A senadora Marina Silva confirmou ontem que a decisão de se lançar candidata à Presidência da República pelo PV, no ano que vem, já está tomada.
Ela afirmou que está na fase “laboriosa de construir uma candidatura”.
— Essa decisão política já existe, agora o processo legal, formal, se dará no ano que vem — disse a senadora, que afirmou não ter se surpreendido com a decisão do governador de Minas, Aécio Neves, de desistir de se candidatar à Presidência: — Sabíamos que mais hora, menos hora, isso ia acontecer.
Ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, voltou a criticar ontem a decisão do governo brasileiro de indicar a chefe da Casa Civil, a ministra Dilma Rousseff, para representar o país nas negociações da Cop 15, semana passada em Copenhague.
Segundo Marina, a pré-candidata do governo não tinha a experiência necessária para comandar a delegação brasileira e sua indicação teve finalidade puramente eleitoral.
— Quando vi a posição da ministra, pensei: tomara que o presidente Lula venha aqui para colocar as coisas no seu devido eixo — disse.
Cresce exigência para apoiar Dilma
Após o PMDB, que se disse ofendido com a lista tríplice, é a vez de o PP querer dote para aceitar o casamento
Vera Rosa
Com a nova arrumação no ninho tucano, aliados do governo Lula já começam a fazer "exigências" para apoiar a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao Palácio do Planalto, em 2010. Depois de dirigentes do PMDB dizerem-se ofendidos com declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - que sugeriu ao partido a apresentação de uma lista tríplice para Dilma escolher o vice de sua chapa -, agora é a vez do PP de querer um dote para aceitar o casamento.
"Aprecio a Dilma e acho que ela é uma mulher de valor, mas não faremos acordo federal sem São Paulo", afirmou o deputado Paulo Maluf (PP-SP), que não foi ao jantar da ministra com a bancada do PP, há 53 dias, em Brasília. "A definição do nosso apoio tem de passar por uma conversa sobre o maior colégio eleitoral do País."
Presidente do PP paulista, Maluf gostaria que o PT avalizasse a candidatura do deputado Celso Russomanno (SP) à sucessão do governador José Serra (PSDB). Na prática, sabe que essa hipótese é impossível, mas quer o compromisso de que o PT não hostilizará Russomanno.
"Temos de deixar definido já como ficam as coisas e se vão nos apoiar lá na frente, pois temos um candidato que tem votos e discurso", insistiu Maluf. "Quem o PT tem em São Paulo?", perguntou Russomanno, que também não bateu ponto no jantar de outubro, no qual Dilma caprichou nos elogios ao PP.
Para arrepio de petistas mais radicais, a ministra chegou a dizer, naquele jantar, que não sabe distinguir entre as "realizações" do PP e do PT no governo Lula, tamanha a "afinidade" entre os dois partidos, ex-rivais históricos. "É possível ter acordo com o PP em São Paulo", disse o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), informado sobre a imposição de Maluf. "Se o candidato deles apoiar a Dilma, podemos firmar acordo para estarmos juntos no segundo turno." Cauteloso, o senador Francisco Dornelles (RJ), presidente nacional do PP, disse que é cedo para a legenda resolver com quem ficará em 2010. "Política e pressa não combinam", resumiu. Nem mesmo a desistência do governador de Minas, Aécio Neves (PSDB) - que retirou sua pré-candidatura, deixando o caminho livre para Serra -, fez Dornelles antecipar a decisão do PP. O senador é tio de Aécio e estava numa saia-justa, aguardando o desfecho da novela na seara tucana.
FATOR CIRO
Além da indefinição de muitos aliados, há o "fator Ciro". O PT não definiu quem será seu representante na disputa ao Palácio dos Bandeirantes porque está à espera do deputado Ciro Gomes (PSB-SP). Defensor de uma eleição polarizada entre Dilma e Serra - para investir numa campanha plebiscitária, de comparação entre os projetos do petismo e do tucanato -, Lula quer que o PT desista da candidatura própria e apoie Ciro.
O deputado continua de olho na Presidência e jura que, se não tiver apoio suficiente para a empreitada, não concorrerá a nada. Pior: tem dado fortes estocadas no PMDB do presidente da Câmara, Michel Temer (SP), cotado para vice de Dilma.
Os últimos protestos de Ciro, para quem a coalizão entre o PT e o PMDB faz "mal ao Brasil", entornaram o caldo da aliança. "Ele quer a vaga de vice (de Dilma) e eu faço gosto", rebateu Temer. Berzoini saiu em defesa da parceria peemedebista. "O PMDB está presente em várias alianças com o PSB, inclusive no Ceará de Ciro, e acho que ele não precisa brigar com os aliados", afirmou. A cúpula petista já decidiu que, se Ciro não entrar na corrida ao Bandeirantes, o candidato será do PT. Nesse caso, o nome mais cotado é o do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci.
O PTB do deputado cassado Roberto Jefferson - que denunciou o mensalão, em 2005 - é outra legenda que enfrenta divergências internas em relação ao apoio a Dilma. Motivo: fatia considerável da sigla defende dobradinha com Serra. Após a transferência de José Múcio Monteiro da Secretaria de Relações Institucionais para o Tribunal de Contas da União (TCU), o PTB de Jefferson ficou sem assento na Esplanada dos Ministérios.
"O ideal é não ter ninguém no governo, para ficar com mais liberdade", afirmou Jefferson. Se depender de Múcio e do líder do PTB no Senado, Gim Argello (DF), o casamento petebista com Dilma será de papel passado.
"Darei palanque para a ministra no Distrito Federal", garantiu Argello, pré-candidato do PTB a governador. Diante das divergências, a tendência do PTB é liberar diretórios estaduais para agirem como bem entenderem em 2010.
Ministra tem dificuldade com eleitores pró-governo
José Roberto de Toledo
Mesmo após sua candidatura ter sido lançada extraoficialmente pelo programa do PT no horário gratuito de TV, Dilma Rousseff patina eleitoralmente. Aparentemente, não avança nem entre aqueles que, em tese, estariam mais propensos a votar nela.
Segundo a pesquisa Vox Populi/IstoÉ, só 1 em cada 4 dos que avaliam o governo Lula como "ótimo" ou "bom" pretende votar em Dilma. Ao mesmo tempo, uma fatia maior declara voto no principal candidato da oposição, José Serra (PSDB): 36%.
Esse porcentual é idêntico ao obtido nesse segmento pelo tucano duas semanas antes, na pesquisa CNI/Ibope. Do mesmo modo, os 24% de intenção de voto de Dilma entre os pró-governo na pesquisa Vox Populi estão muito próximos aos 21% registrados no fim de novembro pelo Ibope. Considerada a margem de erro, são estatisticamente equivalentes.
Por que, então, a popularidade de Dilma não acompanha a do governo? Algumas hipóteses.
Em primeiro lugar, a maioria ainda não está preocupada com a eleição de 2010. Metade dos eleitores não sabe indicar um candidato espontaneamente. Outros 15% dizem "Lula" (que é inelegível) e 9% preferem anular ou votar em branco. Ou seja, em dezembro, assim como era em novembro, só 1 em cada 4 eleitores tem seu presidenciável na ponta da língua.
Há também um problema de comunicação: 45% do eleitorado desconhecem que Dilma é a candidata apoiada por Lula. Segundo o Vox Populi, a maioria desses eleitores que não associam a ministra a seu chefe é formada por pessoas de baixa renda e baixa escolaridade, justamente os principais beneficiários dos programas assistenciais do governo.
Para completar, Dilma enfrenta resistência maior em alguns estratos do eleitorado: aqueles com nível superior, os de maior renda e os moradores do Sul do País. São os segmentos onde ela tem alto grau de conhecimento e baixa intenção de voto e/ou rejeição acima da média.
Até agora, nada menos do que 92% da intenção de voto na ministra vêm daqueles que consideram o governo "bom" ou "ótimo". Ou seja, suas chances de vencer dependem exclusivamente dos pró-Lula. É neles que a ministra vai precisar focar seus esforços. Eles serão o termômetro da eleição 2010.
* É jornalista especializado em reportagens com uso de estatísticas e coordenador da Abraji
Dora Kramer :: Dedo na ferida
DEU EM O ESTADO DE S. PAULOO procurador-geral da República, Roberto Rangel, tomou uma atitude que pode fazer pelo País o que nenhuma reforma política seria capaz.
Na quinta-feira, ele pediu ao Supremo Tribunal Federal autorização para investigar as atividades do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, sem autorização da Câmara Distrital, a Assembleia Legislativa de Brasília.
Roberto Gurgel apresentou o STF uma ação direta de inconstitucionalidade contra uma lei aprovada pela própria Câmara do DF que vincula a abertura de ações contra o governador à decisão dos deputados distritais (estaduais).
O argumento do procurador é meridiano: considerando a maioria da "base aliada" ao governador, é obviamente inviável qualquer possibilidade de se obter o aval da Câmara para a investigação pretendida pelo Ministério Público.
"Todos sabemos que não apenas no Distrito Federal, mas na grande maioria dos Estados, senão na totalidade deles, o governador sempre tem maioria na Assembleia Legislativa e essa maioria recusa a licença ou simplesmente não examina, não aprecia, o pedido de licença formulado pelo Judiciário. Os anos se passam, nada acontece e se assegura a impunidade do agente político", justificou o procurador-geral.
Tocou num ponto essencial da deformação do sistema, das relações entre Poderes Executivo e Legislativo e da degradação da política, decorrente das infrações escancaradas sob a proteção de instituições que deveriam resguardar o cumprimento da lei e guardar o decoro nos procedimentos.
O procurador-geral deu ao Supremo a oportunidade de desmontar um dos pilares da impunidade: a conivência por conveniência. Além disso, expôs a natureza do problema: a servidão das maiorias parlamentares formadas a partir do critério da troca de favores.
Se conseguir ganhar a causa, Roberto Rangel terá ido além do caso específico da Câmara Distrital, que aprovou uma lei concedendo a si direitos superiores aos conferidos pela Constituição. Pela Carta, a competência para processar e julgar governadores é do Superior Tribunal de Justiça.
Se julgar procedente a ação direta de inconstitucionalidade, o STF estará mandando um recado de atenção a vários tipos de abusos que, por repetidos, já vão se incorporando à rotina de transgressões como se fossem atos muito naturais.
Não é apenas a Câmara Distrital do DF que adotou como prática a edição de leis que transgridem a Constituição e a subserviência de resultados, em nome de seus interesses imediatos.
No Congresso Nacional, nas Assembleias e Câmaras Municipais Brasil afora ocorre o mesmo. A maioria que se comporta como mercadoria - em todos os governos - impede investigações, produz artificialmente resultados convenientes à chefia e está sempre disposta a prestar quaisquer serviços mediante a distribuição de benesses.
O gesto do procurador não soluciona o problema, mas joga luz sobre a questão.
Deslustre
Depois de 140 dias de imposição de censura ao Estado, o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado desistiu da ação contra o jornal, a fim de reafirmar, com o gesto, seu apreço pela liberdade de imprensa.
Pena que o Poder Judiciário tenha deixado passar a oportunidade de condenar a agressão ao Estado de Direito e com isso evitado o regozijo do cinismo.
O limbo
Enquanto puder, José Serra esticará a oficialização da candidatura ao máximo. Pelas razões já expostas - não quer antecipar o confronto com Lula, quer completar o período regulamentar de governo até o prazo de desincompatibilização etc. -, mas também por um motivo de caráter prático.
Serra argumenta que até a convenção oficial do partido não há nada de objetivo que um candidato possa fazer. A campanha é proibida pela legislação eleitoral e o eleitorado ainda não está devidamente engajado na disputa.
As articulações políticas não contam, porque essas já estão sendo feitas há muito tempo e ocorrem longe dos olhos do público.
Em 2006, quando deixou a prefeitura em abril para ser candidato ao governo do Estado, Serra operou o estômago e passou um mês de molho sem que isso tivesse qualquer efeito sobre a campanha.
Máscaras
Aécio Neves assumiu a desistência alegando que não estava mais disposto a sustentar uma "falsa candidatura".
José Serra, em sua resistência de assumir, sustenta agora uma falsa não-candidatura.
Gato escaldado
Desde o estouro do escândalo, o governador José Roberto Arruda só faz reuniões na ausência de telefones celulares.
Todos os assessores e secretários são obrigados a deixar os aparelhos do lado de fora da sala, aos cuidados de um guardião.


