sábado, 2 de janeiro de 2010

Mauro Chaves :: Acreditar

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Neste comecinho de ano, muitos arrastam seu caminhão repleto de esperanças por uma estrada esburacada de decepções. Decepção quanto à demolição de valores a que se assiste na vida pública brasileira, na qual as ambições e os interesses individuais sufocam qualquer perspectiva de engajamento em benefício real da sociedade. Decepção quanto ao desprezo ao esforço do aprendizado e ao reconhecimento do mérito, já que o que mais vale, para crescer e ter as melhores oportunidades, é ligar-se às panelas de apaniguados e manipular o tráfico de influência.
Decepção quanto à facilidade com que se diz e desdiz, se condena e se absolve, se repudia e se bajula, como se os que ouvem afirmações - ou as assistem ao vivo e em cores - não tivessem capacidade alguma de retenção, de memória e muito menos de juízo moral. Mas, apesar de tudo, o negócio é acreditar.

Acreditar que ainda existem pessoas públicas decentes neste país - e que nem tudo o que existe se vê. Acreditar que há quem se preocupe, de fato, em diminuir a dor dos que sofrem, tanto quanto em deixar o caminho, livre de inveja, para os que vencem. Acreditar que o meio político brasileiro não é apenas o espaço das ambições individuais descontroladas, o campo de caça das vantagens escusas ou o depósito de acumulação de prebendas. Acreditar que o cenário político é também um espaço de beneficio coletivo - desde que os cidadãos exijam que o seja. Que é uma alavanca de crescimento, de desenvolvimento, de enriquecimento comum - desde que os cidadãos exijam que o seja. Então, acreditar no poder de exigência da sociedade.

Acreditar que os que passaram mais de duas décadas fingindo ser o que nunca foram e, depois, usurparam a paternidade do que pretendiam destruir finalmente se mostrarão por inteiro, sem disfarces, assumindo ao menos parte da culpa pelo que deixou de ser feito. Acreditar que a responsabilidade do poder, que experimentaram, os fará recuperar alguns pedaços de sua antiga integridade, que o exercício do poder, que praticaram, poderá gerar-lhes algo que os entusiasme acima do simples desfrute - ou seja, o verdadeiro prazer de se colocar a serviço dos necessitados cidadãos contribuintes. Acreditar que cessará a cultura do despreparo, a arrogância da ignorância e o orgulho da insuficiência. Acreditar que o estrago ético que causaram não é irreversível e que os bons padrões de comportamento haverão de retornar ao espaço público. Acreditar que o Executivo recuperará a majestade da imagem de chefia de Estado e governo, que o Legislativo se desfará de suas quadrilhas e o Judiciário acabará encontrando a arca perdida de sua credibilidade. Acreditar, então - por mais difícil que isso seja - que acabará a impunidade.

Acreditar no efeito multiplicador dos pequenos ânimos que restam: de luta, de sobrevivência, de recuperação, de cura. Acreditar no impulso impossível, no salto que se dá do fundo do poço quando se pensa que nem dá mais para pular. Acreditar nas reservas vitais esquecidas, no pequeno estoque de energia espiritual que sobrou, mas que ainda é suficiente para provocar a maior das viradas. Acreditar naquela misteriosa capacidade de resistir, que nos faz rezar para que não nos testem, pois, se nos testarem, aguentamos. Acreditar contra a evidência de que não tem mais jeito, a descambada é irrefreável, o mergulho é abissal, o plano inclinado é mais liso do que pau de sebo e não segura nada - acreditar, então, que o plano é móvel, que antes do fim ele pode erguer-se, reverter o curso da queda, reequilibrar-se. Acreditar na possibilidade de inverter o curso da guerra, mesmo sentindo-se as defesas desbaratadas - mas ainda contando com um último baluarte. Acreditar na teimosia dos resistentes, dos não desistentes, dos que não desertam. Acreditar até no acaso, se a expectativa deste é o fator único de esperança de vitória.

Acreditar neste sistema chamado democracia, assentado em arraigadas convicções, de liberdades civis, de direitos humanos inalienáveis, de consciência de cidadania, de representatividade política, social e regional, de escolha eleitoral, de respeito ao pensamento plural, à divergência, à legitimidade de voto e voz das minorias e, sobretudo, de acato à livre expressão e ao sagrado direito à informação. Acreditar que a excrescência da censura não sobreviverá, apesar de tanto se nutrir da adiposa covardia cívica. Acreditar que a democracia é capaz de produzir instituições duradouras, à prova de sobas e tiranetes, destinadas a atravessar séculos e forjar civilizações, com já faz em algumas partes do mundo.

Acreditar que um certo arqueólogo interplanetário, em alguma remota era futura, descobrirá, num ponto do universo, um grande monumento: a imagem desta criatura chamada ser humano, tão dolorosamente frágil e finita quanto imensamente forte e extensa. Acreditar que nossa espécie não terá sonhado em vão com a transcendência e a imortalidade, pois esta já existe no esforço de permanência das sucessivas gerações. Acreditar, então, que, apesar da devastação que temos causado, do consumo predatório e alucinado, do irresponsável desperdício, das agressões incontroláveis que temos praticado ao planeta, ainda temos condições de nos disciplinarmos para o mantermos, mesmo meio capenga, girando em algum ponto do universo. Acreditar que nos manteremos nele - pelo menos até podermos nos transferir para algum outro, por perto.

Sim. Acima de tudo, acreditar no recomeço.

Feliz ano-novo.

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor.

Leandro Konder::O enigma da modernidade

DEU EM IDEIAS & LIVROS / JORNAL DO BRASIL

Livro que reabilita Marx discute a política como atividade própria do homem

Na área das ciências sociais, uma das novidades mais surpreendentes é o livro “o enigma do político”, com o subtítulo “Marx contra a política moderna”, de autoria de Thamy Pogrebinschi.

A autora mergulha fundo no texto de Karl Marx e, remando sempre contra a corrente, acentua os extraordinários méritos do pensador alemão. Na nossa época atual, não é pouca coisa alguém se dedicar a explorar as qualidades do filósofo socialista.

A idéia central exposta por Pogrebinschi é a de que em Marx se desenvolve uma crítica implicável à economia, tal como ela funciona a partir do modo de produção capitalista. Mas Marx não é hostil a um reconhecimento efetivo e radicalmente crítico dos valores políticos, no plano ontológico.

Segundo a interpretação de Pogrebinschi, há uma questão que nos desafia, a qual Marx teve a lucidez de abordar, porém não resolveu completamente em que consiste o político, como dimensão da atividade própria do gênero humano.

Quando a lógica do seu pensamento o conduz a enfrentar a questão da eliminação do Estado, fica no ar a dúvida: o que ocupará o lugar do Estado? Marx está consciente de que, extinto o Estado, os seres humanos continuarão a buscar elementos institucionais necessários à existência dos indivíduos nas sociedades.

Nas condições da modernidade, a sociedade civil opõe resistência tanto ao poder do Estado como à dinâmica perversa da associação que lhes é imposta. A divergência entre Marx e os anarquistas tem sido reconhecida como um debate que se prolonga em torno do tempo histórico da revolução: a sociedade será transformada do dia para a noite ou necessitará de todo um processo para transformá-la.

A autora empreende uma minuciosa pesquisa em torno das divergências de Marx com Bakunin. Mas seu trabalho ganha maior densidade quando se ocupa das formas de organização coletiva que os seres humanos vêm adotando em seus esforços para promover as modificações necessárias.

Para chegarem ao imprescindível comunismo, os estudos de Pogrebinschi mostra que o movimento da história surge como associação (Vereinigung) e não como união (Verein).

Por meio dessas categorias, a autora sustenta que Marx, pensando a simultaneidade da permanência e da mudança, momentos, dernidadeidade.nque Marx realizou no plano te.
anca de professores que a julgou. resgatou a categoria de superação/conservação do velho Hegel e foi capaz de esclarecer alguns aspectos significativos da concepção das transformações históricas – ao que tudo indica, um tanto graduais - promovidas de acordo com uma categoria proposta pela própria autora do livro: o desvanecimento do Estado.

Em sua origem, o livro foi uma tese de doutorado, elogiada merecidamente pela banca de professores que a julgou. Houve, porém, críticas que devem ser lembradas. È difícil enfrentar o desafio de analisar a teoria marxista do Estado, mantendo-se sistematicamente à margem dos escritos de Antonio Gramsci (e isso numa banca da qual participava o filósofo Carlos Nelson Coutinho, grande conhecedor da obra do marxista italiano).

Os leitores mais experientes também sentirão falta de uma contextualização das idéias de Marx que foram sendo, em alguns momentos, retrabalhadas pelo próprio Marx. A autora brasileira teve a perspicácia de aproveitar a contribuição do jovem Marx, mas não teve a precaução de assinalar pontos importantes das mudanças que Marx realizou no plano teórico.

Há certos aspectos de nossa realidade que, na análise crítica de Pogrebinschi, são um tanto enigmáticas. Marx não os resolve, porém nos ajuda a encarar o enigma da modernidade.

* Filósofo, colunista mensal deste Ideia.
O enigma do político
Thamy Pogrebischi
Civilização Brasileira
392 páginas
R$ 44,90

Dora Vianna Vasconcellos :: Rui Facó e os pobres do campo

DEU EM GRAMSCI E O BRASIL

Rui Facó. Cangaceiros e fanáticos: gênese e lutas. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, 347p.

Nascido em 1913 em Beberibe, no Ceará, Facó ainda era jovem quando se filiou ao Partido Comunista Brasileiro. Formou-se em direito em Salvador, mas exerceu o jornalismo durante a sua breve vida. Facó faleceu em março de 1963 num desastre de avião. Cangaceiros e fanáticos foi publicado em 1963. É, portanto, uma obra póstuma escrita em meio ao debate que se fazia sobre as potencialidades revolucionárias do campesinato brasileiro. É um livro de leitura fácil e prazerosa, que apresenta uma análise histórico-descritiva do “fanatismo” e do cangaço fortemente marcada pela teoria marxista.

Em nova edição, lançada recentemente pela Editora UFRJ, Cangaceiros e fanáticos possui uma apresentação de Leonilde Servolo de Medeiros. Nela, Medeiros frisa que a leitura de Facó sobre as rebeliões do interior do país foi um forte questionamento às concepções teóricas de então. Ela considera a interpretação de Facó como um “lento processo de reconstrução de imagens socialmente instituídas sobre os trabalhadores do campo, tais como as de sujeição absoluta ao mando dos grandes proprietários, passividade, preguiça, atraso, dificuldade de organização” (Facó, 2009; p.10). Segundo ela, Facó se oporia a essa caracterização, erigindo uma imagem do homem pobre do campo como insubmisso, trabalhador e ciente das injustiças.

Já no prólogo do livro, ao advertir que “fanatismo” e “banditismo” — termos utilizados na época para classificar os movimentos de Canudos, Contestado e Juazeiro, principalmente — possuíam um teor pejorativo que retirava o conteúdo progressista e revolucionário dessas rebeliões, Facó deixa clara a posição defendida ao longo de Cangaceiros e fanáticos. A partir de uma leitura marxista, ele considera que esses movimentos foram verdadeiras tomadas de consciência das populações pobres rurais, e que o misticismo religioso expressava a rebeldia, a capacidade de organização e a insubmissão das populações sertanejas.

De modo semelhante, Facó também interpreta o cangaceirismo como movimento contestador da ordem social. Para sustentar tal posição, ele defende que o cangaceiro era diferente do capanga, espécie de matadores profissionais que dependiam econômica e socialmente dos fazendeiros e, por isso, tinham que obedecer à ordem do patrão. Os cangaceiros, ao contrário, comporiam um bando que conquistara a autonomia, ainda que relativa, do fazendeiro e do latifúndio. Portanto, o cangaceiro não seria, para ele, um assalariado, um semisservo praticante de crimes sob encomenda do patrão. Tratava-se de um homem livre que praticava crimes por conta própria; um rebelde que lutava contra a ordem dominante imposta pelo latifúndio semifeudal. O cangaceirismo, para ele, seria um meio de vida que proliferava no Nordeste, sobretudo, nas épocas de seca e de fome.

O livro divide-se em três capítulos, sendo o primeiro “O despertar dos pobres do campo”, o segundo “Canudos e conselheiros” e o último “Juazeiro e Padre Cícero”. Nesses capítulos, Rui Facó, a partir de uma leitura marxista, faz uma análise histórica dos fenômenos que ficaram conhecidos como “fanatismo” e “banditismo”, ocorridos do último cartel do século XIX e início do século XX no interior brasileiro. O autor analisa principalmente os acontecimentos de Canudos (1896-1897) e Juazeiro, duas rebeliões que, segundo ele, teriam um forte cunho religioso, mas não podem ser explicadas e entendidas somente por esse traço característico.

Para o autor, foi a luta de classes entre os homens pobres do campo e os fazendeiros a maior motivação desses movimentos; era, segundo ele, “uma luta aguerrida contra o latifúndio, contra a miséria e contra a exploração” (Facó, 2009; p. 32). Ele caracteriza Contestado (1912-1916), Caldeirão (1936-1938), Pau de Colher, Pedra Bonita e o cangaceirismo — fenômeno que se prolongou até a década de 1930 — também como expressões de conflitos no interior do país. Para Facó, o latifúndio geraria lutas de classe desde sua origem. De início, com fazendeiros tentando salvaguardar suas propriedades de ataques de índios; depois contra as incursões de posseiros; mais tarde contra cangaceiros e fanáticos; e naquele momento contra o proletário rural sem terra.

Rui Facó, em Cangaceiros e fanáticos, faz uma análise da conjuntura que propiciou os acontecimentos de Canudos e Juazeiro. Para ele, esses movimentos aconteceram num período de crise de ordem econômica, ideológica e de autoridade. Era época em que findava o Império e a escravidão era abolida. Esses acontecimentos teriam abalado os critérios de mando da sociedade brasileira, principalmente no Nordeste. Contudo, nada disso permitiu que relações de produção de tipo superior, à base do trabalho livre, surgissem. As relações no campo, principalmente no Nordeste, continuavam a ser majoritariamente servis.

Além da crise do instituto escravista, o Brasil vivia também a crise do latifúndio pré-capitalista e o arruinamento dos antigos engenhos banguês do Nordeste. Os antigos engenhos de açúcar ruíam e eram substituídos pelas usinas de açúcar, sem que acontecesse, segundo Facó, uma revolução na Zona Canavieira. Uma nova estrutura mecânica foi implantada com as usinas de açúcar, mas os arcabouços do velho latifúndio permaneceram intactos. A usina intensificou, segundo ele, o processo de monopolização da terra. A renovação técnica preservou a situação de miséria das massas sem terra e agravou a concentração de terras no Nordeste.

Deste modo, Rui Facó considera que os “cangaceiros” e “fanáticos” eram o fruto da decadência de um sistema socioeconômico que tinha o latifúndio semifeudal como nexo fundamental. Essa situação de crise teria se agravado sobremaneira quando o centro da gravidade econômica se transferiu do Nordeste para o Sul, por conta do café. O latifúndio continuaria a entravar brutalmente o crescimento das forças produtivas, a mecanização da agricultura e o crescimento das indústrias. O monopólio da terra continuava a promover uma divisão de classes sumária: o senhor de grandes extensões de terras e o homem sem terra, o semisservo.

O Nordeste, do final do século XIX e início do século XX, é caracterizado pelo autor como uma sociedade em estágio econômico seminatural, na qual o capitalismo e as cidades tinham pouca influência e repercussão sobre o latifúndio semifeudal. As relações entre usineiro e homens pobres eram semisservis, pré-capitalistas [1].

Para Facó, o latifúndio reduzia as populações do interior ao mais brutal isolamento, ao analfabetismo quase generalizado, e deixava como única forma de consciência do mundo exterior a religião ou as seitas nascidas nas próprias comunidades rurais — vertentes do catolicismo. Os homens sem terra, ao formarem grupos de cangaceiros e seitas de “fanáticos”, como ficaram conhecidos Juazeiro e Canudos, organizaram-se e rebelaram-se por uma melhor condição de vida. Esses movimentos teriam sido rebeliões inconscientes contra a servidão da gleba, contra o latifúndio. Tiveram boa dosagem de misticismo religioso — o autor não nega —, mas eram mobilizados fundamentalmente pela dinâmica da luta de classes.

Com esse argumento, Rui Facó contrariava os historiadores que exageraram o misticismo religioso dos habitantes de Canudos e Juazeiro. Atribuindo-lhes a classificação de “fanáticos”, esses estudiosos retiravam o conteúdo progressista e reformador desses fenômenos, dando-lhes um sentido pejorativo.

O autor enumera ainda como uma das causas para o “banditismo” e do “fanatismo” o fato de o latifúndio criar em seu entorno um excedente de mão de obra capaz de assegurar a quase gratuidade da força de trabalho. Isso possibilitava a imposição de relações semisservis aos pobres do campo. Deste modo, criava-se no Nordeste dos fins do século XIX e início do XX um contingente de pessoas pobres, sem bens e sem terra, nômade, que fugia da seca e não era absorvida pelo latifúndio, mas tinha algo a reivindicar, ainda que não soubesse formular claramente essa reivindicação. Segundo Facó, a reação à miséria e à fome teria vindo com a formação de grupos de cangaceiros e de seitas místicas.

Facó aponta ainda que a ruptura da estagnação no campo se iniciou com o êxodo em massa de nordestinos para a Amazônia e para o Sul, por causa do surto da borracha e do cultivo do café, respectivamente. A fuga teria sido ocasionada também pelas constantes secas do Nordeste. Para ele, a emigração era o primeiro passo na busca de outras condições de vida e permitia que os homens pobres do campo se evadissem da imobilidade multissecular em que viviam. Graças ao contato com outras formas de vida social, estes migrantes, quando retornavam ao Nordeste, voltavam diferentes, menos conformados com a vida de miséria e de fome que levavam.

Não só o monopólio da terra explicaria o cangaço e o “fanatismo”. O atraso econômico, o isolamento do interior, o imobilismo social também seriam fatores geradores do cangaço e do “fanatismo”. Por essa razão, para o autor, a penetração do capitalismo no meio rural seria de suma importância, já que possibilitaria a existência de novas relações de produção e de troca, permitindo que o semisservo saísse da estagnação do meio rural e abrindo novos caminhos para os bandos de cangaceiros e para os místicos itinerários dos beatos e conselheiros.

Deste modo, com essa argumentação, Rui Facó contrariava as explicações, como as formuladas por Euclides da Cunha, que viam o cangaço com o resultado da má eugenia, de atavismos étnicos. Contrariava também aquelas que afirmavam que as condições biológicas geravam o fenômeno do cangaço. Assim, Rui Facó explicava o cangaceirismo e o fanatismo pelas circunstâncias sociais e econômicas, pela extrema desigualdade social provocada pela grande concentração de terras, acentuada pelo débil desenvolvimento do capitalismo no interior do país, local onde se constituiriam, de acordo com a sua leitura marxista, relações de produção pré-capitalistas, semifeudais, e que era marcado pelo pouco incremento das forças produtivas.

Longe de considerá-los como criminosos, como fez a historiografia do início do século XX, Rui Facó considerou os pobres do campo envolvidos nessas rebeliões como o resultado do atraso econômico. O “banditismo” e o “fanatismo” seriam movimentos subversivos, “elementos ativos geradores de mudança social” e “contestadores da pasmaceira imposta pelo latifúndio”. Esses homens eram consequência dos choques de classe e das lutas armadas.

Seriam, assim, o prólogo de uma revolução social que estaria por vir. Segundo ele, “banditismo” e “fanatismo” eram “elementos regeneradores de uma sociedade estagnada”, preparadores de uma nova época, representando um “primeiro passo para a emancipação dos pobres do campo”.

A opinião que marca a singularidade da interpretação de Facó é a de que Canudos e Contestado foram movimentos de cunho religiosos que revelavam uma drástica separação entre religiosidade popular e a religião oficial da Igreja Católica [2]. Na sua interpretação, o “fanatismo” constituía uma ideologia de cunho místico, condizente com a condição de vida das populações rurais do final do século XIX e início do século XX, que era contrária à ideologia das classes dominantes e das camadas médias urbanas.

Assim, ao longo do livro Cangaceiros e Fanáticos, Facó defende que a seita abraçada pelos homens pobres do campo, como toda ideologia, tinha um conjunto de conceitos morais, religiosos, artísticos que traduziam suas condições materiais de vida e eram antagônicos às ideologias das classes dominantes. Ele considera que em todos os casos analisados — principalmente em Juazeiro, Canudos e em Contestado — as massas espoliadas teriam criado uma religião própria, uma espécie de consciência primária, no sentido marxista do termo, que lhes serviu de instrumento na luta por sua libertação social contra o latifúndio e contra as relações semifeudais de produção. O “fanatismo” teria sido o elemento de solidariedade grupal impulsionador de uma reação contra a ordem dominante [3]. Deste modo, a tônica da interpretação marxista do autor é dada pela crença de que essas aglomerações seriam movimentos de tipo primário que traduziam, contudo, as aspirações da população rural empobrecida em luta pela libertação do jugo do latifúndio.

Dora Vianna Vasconcellos é socióloga, mestre em Desenvolvimento, Sociedade e Agricultura (CPDA-UFRRJ)/ Rio de Janeiro.

Notas

[1] “Nas terras dos grandes proprietários, eles (os agregados, a gente pobre, os foreiros) não gozam de direito político algum, porque não têm opinião livre; para eles o grande proprietário é a polícia, os tribunais, a administração, numa palavra tudo; e, afora o direito e a possibilidade de os deixarem, a sorte desses infelizes em nada difere da dos servos da Idade Média”. Facó, apud Freyre, Gilberto. Nordeste. Rio de Janeiro: José Olympio, 1937.

[2] Outro ponto de vista controverso defendido por Rui Facó é o de que a Igreja Católica desempenharia o papel de polícia ideológica no meio rural, antecipando as forças repressivas da Polícia, do governo e dos potentados rurais. Era a força que convertia, pela repressão, o protesto inconsciente e até então passivo dos “crentes” em um movimento contra a ordem das coisas existentes.

[3] Facó argumenta que, em todos os lugares onde esse fenômeno se desenvolveu, as populações rurais não só ocuparam uma determinada área de terra, mas também organizaram formas de trabalho cooperativo que contrariavam as relações servis. Esse fato comprovaria, segundo o autor, o teor revolucionário de manifestações populares como Canudos e Juazeiro.

Vannuchi: comissão favorece Forças Armadas

DEU EM O GLOBO

Secretário de Direitos Humanos volta a defender punição para militares e afirma que não há revanchismo BRASÍLIA. O secretário especial de Direitos Humanos da Presidência da República, ministro Paulo Vannuchi, disse ontem que a criação da Comissão da Verdade não é um ato contra as Forças Armadas. Em entrevista a Agência Brasil, Vannuchi defendeu a apuração de fatos ocorridos no período da ditadura militar e disse não ver motivos para divergências entre a área de direitos humanos do governo e os militares.

- Criar a Comissão da Verdade é a favor das Forças Armadas, que são formadas por oficiais militares das três armas, pessoas dedicadas à pátria, ao serviço público, com sacrifícios pessoais, das suas famílias. Esses oficiais não podem ser misturados com meia dúzia, uma dúzia ou duas dúzias de pessoas que prendiam as opositoras políticas, despiam-nas e praticavam torturas sexuais, que ocultaram cadáveres - disse Vannuchi. - É um grande equívoco e eu tenho certeza de que o ministro da Defesa (Nelson Jobim) sabe disso.

Para Vannuchi, a criação da Comissão da Verdade é uma forma de não permitir o uso das Forças Armadas para acobertar crimes contra os direitos humanos. O ministro disse ainda que os contrários à criação da comissão não leram a proposta:

- O programa não é contra a Lei da Anistia. Não se trata nem de revisão e nem de anular a lei. Está lá, no item que propõe a ação programática 23, que propõe a elaboração de um projeto de lei, até abril, instituindo uma Comissão Nacional da Verdade, nos termos definidos pela Lei da Anistia. Não há nenhum sentido revanchista.

A criação de uma comissão especial para investigar casos de tortura e desaparecimentos ocorridos durante a ditadura militar (1964-1985) está prevista em decreto que cria o Programa Nacional de Direitos Humanos, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na semana passada.

Reunião no dia 11 decidirá sobre comissão

A ideia desagradou os militares e provocou uma crise, com Jobim e os três comandantes militares entregando ao presidente Lula cartas de demissão. Para os militares, a comissão teria o objetivo de revogar a Lei de Anistia de 1979, que extinguiu crimes políticos cometidos durante a ditadura. Lula rejeitou os pedidos de demissão, alegando que não conhecia o completo teor do programa, e prometeu rever a parte do decreto que gerou o descontentamento. Ontem, Vannuchi insistiu que não se pode defender os que praticaram crime de tortura:

- É necessário terminar um processo sem revanchismo, sem retorno ao passado e de mãos estendidas para a reconciliação nacional. Mas essa reconciliação não pode representar acobertar, jogar milhares de bons cidadãos brasileiros, do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, na defesa de pessoas que praticaram crimes de lesa-humanidade.

O ministro disse que tudo será resolvido em reunião, quando o presidente Lula retornar ao trabalho, em 11 de janeiro.

- Nesse dia estaremos juntos ouvindo as orientações do presidente - acrescentou o ministro.

Clóvis Rossi:: Sobre verdades e venenos

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Episódio de envenenamento de opositores à ditadura de Augusto Pinochet no Chile tem pista brasileira revelada

A Comissão da Verdade, proposta pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, bem que poderia começar procurando a verdade nos argumentos contra ela esgrimidos pelos comandantes militares. Não vai encontrar.

O argumento mais popular, a julgar pelo Painel do Leitor de ontem desta Folha, é o de que a proposta quer investigar os abusos de um lado (o dos militares) e ignorar os do outro (os militantes da esquerda armada). Ou é desinformação ou má-fé.

Todos os abusos da esquerda armada foram punidos. Alguns, na forma da lei. Outros, muitos, à margem da lei, por meio de assassinatos, torturas, exílio, banimento, desaparecimentos.

Já os abusos praticados pelo aparato repressivo não foram nem investigados, com pouquíssimas exceções.

Para ficar apenas no âmbito mais próprio para este espaço, o internacional, está mais do que na hora de buscar a verdade sobre a Operação Condor, o mecanismo repressivo multinacional armado pelas ditaduras militares do Cone Sul, nos anos 70/80.

Deve haver, escondido em algum arquivo bem protegido, um documento assinado por chefes militares da época anulando a soberania de cada país para que militantes da oposição às ditaduras pudessem ser caçados livremente.

Eu mesmo andei atrás desse papel, quando estava para cair a ditadura boliviana da época (começo dos 80), a primeira brecha que se abriria para ter acesso a arquivos oficiais. Um coronel, que fazia a ligação entre o candidato presidencial Hernán Siles Zuazo e as Forças Armadas, me disse que teria, sim, que haver um documento oficializando, digamos assim, a Operação Condor.

Pena que um novo golpe adiou a vitória de Siles, e perdi a pista.

Ainda nesse terreno de repressão internacional, a nova comissão poderia procurar a verdade sobre o envenenamento de opositores à ditadura de Augusto Pinochet. No domingo, o jornal espanhol "El País" fez um belo levantamento sobre a morte, por aparente envenenamento, do ex-presidente Eduardo Frei Montalva, pai de Eduardo Frei Ruiz-Tagle, também ex-presidente e hoje candidato de novo.

A investigação indica que Frei foi assassinado com três doses de mostarda sulfúrica, tálio e um fármaco não identificado.

No percurso para chegar a essa suspeita surgiu o caso de quatro militantes políticos presos em uma cadeia de segurança máxima em Santiago. Todos foram também envenenados, juntamente com quatro presos comuns, mas Ricardo Aguilera, então com 28 anos, sobreviveu.

Para encurtar a história, descobriu-se que o agente venenoso era a bactéria "clorstridium botulinum", que provoca botulismo, e chegara ao Chile "em um pacote letal enviado do Brasil por valise diplomática", segundo "El País".

Em vez de incomodar-se com uma "Comissão da Verdade" não seria mais lógico que os comandantes militares brasileiros se preocupassem com o uso do território nacional, pelo qual têm a obrigação de zelar, para um crime político?

Villas-Bôas Corrêa:: As férias de Lula e dos convidados

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Contra fatos não há argumentos: o presidente Lula é uma das mais poderosas vocações de líder popular da história deste país. E não é provável que este século produza rival que lhe faça sombra. Nada a estranhar nas merecidas férias, com numerosos convidados nas praias paradisíacas da Base Militar de Aratu, da Bahia dos balangandãs, de Dorival Caymmi e do Senhor do Bonfim.

Os planos de descanso em local reservado, com pouca gente, não resistiram à amistosa pressão de parentes, amigos mais chegados e convidados especiais. O governador da Bahia, Jaques Wagner, é um dos penetras oficiais. Lurian, a filha de Lula, não podia faltar. A praia é imensa, espaço é o que não falta, e Lula e Marisa Letícia terão os seus momentos de privacidade. Afinal, no próximo Natal e Ano-Novo o presidente Lula será um ex-presidente sonhando com mais dois mandatos.

A ausência da candidata, ministra Dilma Rousseff, que não desgruda do presidente nas viagens domésticas da pré-campanha para os comícios nas visitas às obras do PAC e do Minha Casa Minha Vida é explicada pela cautela com a saúde.

Claro que nem tudo são flores em dois mandatos, com a agenda entupida de compromissos internacionais, pois Lula não recusa convite nem para missa de sétimo dia ou para visita a qualquer país dos cafundós da África. Mas os sinais de fadiga são desculpa mais conveniente para os escorregões presidenciais, cada vez mais frequentes, comentados em surdina por assessores, parlamentares e raros ministros.

Na véspera da viagem, na solenidade da sanção do projeto de lei que beneficia os taifeiros da Aeronáutica, Lula não apenas escolheu o mais inadequado momento como o pior tema para criticar a imprensa. E o presidente com o maior, mais sofisticado e competente sistema de publicidade no mundo, para criticar os repórteres que suportam a humilhação de cobrir o pior, mais escandaloso e desmoralizado Congresso da história deste país, virou as costas à evidência e apelou para o sofisma: “Se a gente for analisar o conjunto do trabalho produzido pelo Congresso durante o ano, vai perceber que tem muito mais coisa positiva do que negativa”.

Ora, com todo o respeito, será que o presidente não lê as manchetes dos jornais? Nem folheia as revistas? Ou não passa os olhos pelos resumos da sua competente equipe de excelentes profissionais? Será que não viu nos noticiários das redes de TV a degradante sequência do governador de Brasília, José Roberto Arruda, derreado na poltrona do seu gabinete e distribuindo pacotes de notas com as propinas milionárias de R$ 100 mil, R$ 200 mil que cada um escondia nas meias, na cueca, nos bolsos, nos sapatos e uma senhora na bolsa de confiança para o transporte dos maços de notas?

Mas este é um episódio do big boss de araque, um governador que não devia existir na cidade construída para ser a capital do Brasil. Mas, e a roubalheira com as verbas do Senado? E se remexer no lixo da Câmara, teremos um bis de arromba para o início do próximo ano parlamentar.

E que tal a sutileza da lógica presidencial: “Não fazemos distinção de que partido é o governador ou o prefeito. Você não pode deixar de dar comida a um porco porque não gosta do dono do porco”. A degringolada do governador do DF, Roberto Arruda, tocou na corda sensível do coração presidencial, inspirando esta frouxa desculpa: “A imagem não fala por si. O que fala por si é todo o processo de investigação e de apuração”.

Lula também encaixa observações sutis e generosas. No acaso de uma visita ao quartel de comando do II Exército, no Ibirapuera, onde Dilma Rousseff esteve presa e foi torturada, quando o helicóptero parou, a ministra-candidata olhou para o presidente e comentou:

“Engraçado, eu não tenho raiva. Eu vim para cá quando fui presa”.

Na cerimônia recente, em 21 de dezembro, do lançamento do Programa Nacional de Direitos Humanos, a ministra Dilma Rousseff, estreando o novo cabelo ainda curto, emocionou-se às lágrimas ao lembrar os dias de prisioneira: “Muitas pessoas foram presas, torturadas e mortas pelo regime militar”.

Testemunho de uma possível presidenta da República.

Cesar Maia:: Indivíduo e política

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Curiosa convergência entre populismo, liberalismo tradicional e marketing político. Para eles, quem faz a história é o indivíduo, de acordo com a sua vontade. Assim se acha o líder populista, que se considera o próprio movimento. Já na lógica da análise liberal, tradicional, a história se confunde com os indivíduos que lideram os processos. As circunstâncias ou são eles mesmos ou são aleatórias.

Sempre é bom lembrar um repetido trecho de Marx no início do "18 de Brumário" (1851): "Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; nem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas legadas e transmitidas pelo passado".

Se não bastasse esse binário simplificador da história, nas últimas décadas, a tecnologia publicitária aplicada às campanhas eleitorais maximizou a função do indivíduo.

Por vezes potencializando uma de suas características e, não poucas vezes, criando um personagem ao fantasiar o candidato com esse figurino. A cada dia é maior o destaque do indivíduo como a razão da politica. Por isso a obsessão em controlar a imprensa, na medida em que a individualização da liderança só consegue ver a imprensa como competidor. O método marxista, que reduzia o papel do indivíduo a mero fantoche das classes sociais abstratas, se esvai, mas não no caminho da assertiva do "18 de Brumário". Quando aquelas "se foram", ficaram os líderes e o culto à personalidade.

A mercadologia política norte-americana, ao dar à publicidade a razão do sucesso eleitoral, minimizou as circunstâncias e maquiou os personagens. A tecnologia audiovisual exacerbou o papel do indivíduo e presidencializou as eleições no parlamentarismo. São os governos de líderes populistas os que mais tendem a intervir na imprensa. São os líderes produzidos por marketing os que são atraídos pelo populismo e pela intervenção na mídia. Ou que, alternativamente, gastam milhões com publicidade, convencidos de que esse é o caminho da popularidade. Quando isso não ocorre, a culpa é da imprensa.

Esse foco na pessoa dos chefes de governo tirou visibilidade de seus assessores, possíveis sucessores.

Lula é exemplo disso. Por um lado, sente cócegas para intervir na mídia. Não podendo, gasta bilhões. E, naturalmente, sua candidata o é por decisão pessoal. Ela nunca disputou eleição, não tem currículo no partido. É levada como andores da romaria de N.Sra. da Pena, em Vila Real, para que seja percebida.

As campanhas eleitorais se resolvem em si mesmas. Por isso o candidato da oposição não tem pressa. A imprevisibilidade aumenta, a politica se torna inorgânica, representantes se descolam de representados e os riscos relativos ao governo eleito se multiplicam.

Cesar Maia escreve aos sábados nesta coluna.

Vaga para Senado abre crise no PT

DEU EM O GLOBO

Berzoini defende Benedita e diz que candidatura de Lindberg não está garantida

Camila Nobrega, Flávio Tabak e Aloysio Balbi

Diante da tensão instaurada entre o presidente eleito do PT no Rio, Luiz Sérgio, e o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias - devido a um acordo eleitoral feito entre o prefeito e o governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) - o presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, disse que pode ter havido uma conversa paralela, mas não uma combinação entre o PMDB e o PT para assegurar a candidatura de Lindberg ao Senado. O petista tem como concorrente a ex-governadora Benedita da Silva, que também quer disputar o Senado pela legenda. Berzoini classificou de "pretensão" a declaração de Lindberg de que o pacto com o PMDB garantiria sua candidatura a senador pelo PT:

- Se a conversa existiu, foi entre duas pessoas. Mas é pretensão acreditar que uma combinação assim se torne um acordo do partido. Nenhum filiado do PT está acima das instâncias estadual e nacional. Os agentes políticos têm que conversar, mas o teor precisa ser submetido à direção nacional. O Luiz Sérgio é o presidente, mas também não depende só dele, e sim de toda a executiva nacional - disse Berzoini, ressaltando que desconhecia qualquer pacto entre Lindberg e Cabral. - Esse tipo de conversa acontece frequentemente. Vamos lidar como sempre fazemos, discutindo dentro do PT.

Sobre a possibilidade de o partido priorizar a candidatura de Lindberg ao Senado, tirando da corrida Benedita da Silva, Berzoini disse que não há nada definido. O presidente, que fica no cargo até fevereiro, quando será sucedido por José Eduardo Dutra, deu razão à Benedita, que defendeu uma disputa interna no PT para escolher os candidatos:

- Benedita tem razão. Ela anunciou há algum tempo sua intenção de concorrer ao Senado e tem todo o direito de pleitear uma vaga. O Lindberg é prefeito do PT, temos muito respeito por ele, mas é preciso se submeter às regras do partido.

"Ele é lindinho e eu não posso ficar feia"

Já Benedita voltou a afirmar que é candidata ao Senado nas eleições deste ano. Ela elogiou a decisão de Lindberg de apoiar a reeleição de Cabral ao governo do Rio, retirando seu nome da disputa, mas acha cedo para comentar a possibilidade de o PT ter dois postulantes a uma vaga no Senado pelo Rio. A ex-governadora espera que o assunto seja decidido nas prévias do partido.

- É tradição do PT discutir esse assunto nas prévias. Minha candidatura foi colocada há muito tempo, é bem aceita no partido e todos sabem que é para valer - disse ela.

Em Campos, onde faz um tratamento de para perder peso, Benedita brincou sobre a possível candidatura de Lindberg ao Senado:

- Ele é lindinho e eu não posso ficar feia. Mas é cedo para discutir a questão, pois a nova executiva do PT vai tomar posse em fevereiro. Não posso assinar embaixo de coisas que só li pelo jornal. E li inclusive que Lindberg completaria o mandato em Nova Iguaçu, onde faz boa administração. Decidi emagrecer na passagem do ano para ter disposição física e encarar essa campanha. Aos 67 anos, tenho um problema em um joelho, e tenho que perder peso para poder andar muito - disse ela, que também fez um tratamento para retirar gorduras localizadas.

Como Berzoini, o atual presidente do diretório do PT no Rio, Alberto Cantalice, que será sucedido por Luiz Sérgio em fevereiro, também negou a existência de um acordo entre a legenda e o PMDB para ceder uma vaga de candidato ao Senado a Lindberg.

- Acordo é feito no partido. Sabíamos sobre essas conversas entre o Lindberg e o Pezão, mas o PT não participou. A Benedita tem legitimidade para colocar o nome dentro do PT. O partido vai decidir na convenção de março - disse Cantalice.

Há uma possibilidade, segundo Cantalice, de o PT indicar dois nomes para o Senado, e o PMDB concorrer com outros dois. Tudo depende do que for decidido para a vaga de candidato a vice-governador na chapa de Cabral.

Gabeira perto da candidatura

DEU EM O GLOBO

Lista tem ainda Cesar e Picciani

Flávio Tabak

O cenário para as candidaturas ao Senado no Rio começa a tomar contornos mais definidos. Os principais nomes que disputarão duas vagas na Casa já estão costurando alianças para tornar suas campanhas mais robustas. O deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), antes cotado para concorrer ao governo do estado por causa do bom resultado nas eleições de 2008 para prefeito do Rio, disse ontem que "é praticamente certa" sua candidatura ao Senado.

De acordo com o deputado, o anúncio oficial deve ser feito na semana que vem. O que mais pesou para a decisão, segundo ele, foi a pré-candidatura da senadora Marina Silva (PV-AC) à Presidência da República. Com ela na disputa, Gabeira não poderia ser apoiado pelo PSDB, do governador e presidenciável José Serra, para disputar o governo do estado.

- Estão faltando algumas conversas para completar a decisão, que deve ser tomada na primeira semana deste mês. Tenho uma experiência parlamentar bastante longa e posso usar o mandato para realizar muitas coisas. O Rio, com a Copa do Mundo e as Olimpíadas, precisa de uma conexão em Brasília e no mundo. Consigo cumprir bem esse papel - disse o deputado.

O deputado criticou os atuais senadores do Rio e disse que ainda pode conquistar o apoio do PPS:

- Considero que a representação do Rio não expressa o avanço do estado no Brasil e no mundo. Os senadores não têm uma boa visão. Toda vez que se pronunciaram durante crises políticas, estiveram contra a opinião pública. Vou tentar o apoio de todos e creio que o PPS e até o PSDB podem estar comigo neste ano.

Os atuais senadores do Rio são Francisco Dornelles (PP), Paulo Duque (PMDB) e Marcelo Crivella (PRB), que tentará se reeleger. Ainda estão no páreo o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani (PMDB), que tem investido em agendas no interior do estado; Benedita da Silva e o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, ambos do PT; o pastor Manoel Ferreira (PTB) e o ex-prefeito Cesar Maia (DEM).

Por e-mail, Cesar diz que, se preciso, vai registrar em cartório sua candidatura a uma vaga na Casa. "O Democratas já decidiu que sou candidato ao Senado. Isso foi explicado, já que eles insistiam em minha candidatura ao governo do estado. (...) O partido foi categórico e eu expliquei as razões que foram entendidas e aplaudidas, de meu nome para o Senado. Senado certissimamente. E se necessário com registro do compromisso em cartório".

Auxiliares de Serra preparam saída do governo

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Além do próprio governador tucano, pelo menos três secretários devem se afastar para disputar a eleição

Silvia Amorim

O desfalque no governo paulista provocado pelas eleições de 2010 deve ir além da saída do governador José Serra (PSDB). Titulares do secretariado do tucano estão de olho nas urnas e devem se afastar do cargo. Por enquanto, ao menos, três baixas são consideradas certas.

Uma delas, diretamente ligada à sucessão estadual, tem sido bastante discutida. Ou o secretário do Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, ou o titular da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, deixará o posto para ser o candidato do PSDB ao governo de São Paulo. Por enquanto, as pesquisas de intenção de voto dão larga vantagem a Alckmin, mas Aloysio tem se movimentado bastante no partido e conta com a simpatia do principal aliado dos tucanos no Estado, o DEM do prefeito Gilberto Kassab.

O imbróglio terá de ser resolvido até 3 de abril, data limite em todo o País para as desincompatibilizações - afastamento obrigatório do cargo nos casos previstos pela legislação eleitoral. O prazo vale para Serra, caso ele entre na disputa pela Presidência da República, e para seus secretários. É o caso também da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), pré-candidata à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Já deputados e senadores podem disputar a eleição sem se licenciar do mandato.

No governo paulista, os chefes das pastas de Gestão, Sidney Beraldo, e de Assistência e Desenvolvimento Social, Rita Passos, são os outros dois desfalques praticamente assegurados. Ambos foram eleitos deputados estaduais em 2006 e querem renovar a cadeira no Legislativo. A dúvida é se tentarão um voo mais alto à Câmara ou optarão pela reeleição.

"Devo me afastar. É mais provável para que venha a disputar algum outro cargo", diz Rita. Beraldo é cotado para reforçar a chapa do PSDB para a Câmara. O secretário, entretanto, diz que é cedo para tratar do tema.

Outro nome sempre lembrado é o de Guilherme Afif Domingos, secretário de Emprego e Relações do Trabalho. Ele é cotado para ser o candidato a vice ao governo paulista. Filiado ao DEM, Afif surpreendeu na eleição de 2006, quando quase derrotou o senador Eduardo Suplicy (PT) na disputa ao Senado. Num cenário mais remoto, é opção para uma nova disputa para senador. Afif tem se mostrado disposto a entrar na corrida em qualquer posição. Mas também tem dito que a decisão caberá ao DEM e ao PSDB. "É o partido quem escala o candidato."

Outras duas secretarias-chave que têm titulares que podem sair do governo são as de Educação e Meio Ambiente. Na primeira, o secretário Paulo Renato é um dos nomes do PSDB para o Senado. Seu colega, Xico Graziano também é citado para a vaga. A briga pelo posto está acirrada no tucanato. Até Alckmin está cotado, se não sair candidato a governador.

Ex-ministro da Educação, Paulo Renato deixou a cadeira de deputado para assumir o posto de auxiliar de Serra. Ele adianta que não cogita voltar à Câmara. Mas está aberto à disputa ao Senado. "Se o governador entender que eu ajudo disputando a eleição, eu vou."

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Celso Ming :: Casa emperrada

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quando lançou seu programa de habitação popular, o presidente Lula garantiu que não havia data para a entrega do 1 milhão de casas para famílias com renda de até 10 salários mínimos.

Mas deu a entender que a construção teria prioridade nos dois últimos anos do seu governo.

Quase nove meses depois, a percepção que se tem é de que o "Minha Casa, Minha Vida" está emperrado e que tão cedo não se desemperrará.

As estatísticas da Caixa Econômica Federal, encarregada de gerir a concessão de empréstimos e subsídios para financiar a compra de moradias, mostram que, de 14 de abril (início do programa) até 10 de dezembro, foram contratadas 220 mil das 596 mil unidades propostas pelas empresas de construção civil, que somam um total de R$ 11,2 bilhões.

"O programa vai bem para as circunstâncias do setor", diz, com certo inconformismo, o presidente do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP), João Crestana.

Como quem não pode deixar de comemorar fatos positivos, ele aponta para o salto dos investimentos em habitação com o uso dos recursos do Fundo de Garantia e da caderneta de poupança: "Em 2003, não passavam de R$ 5 bilhões. Neste ano, podem ter chegado a R$ 50 bilhões."

Mas não dá para disfarçar os problemas. Crestana lamenta a excessiva lentidão com que os projetos vêm saindo do papel: "Há um descompasso entre a estrutura das equipes encarregadas de aprovar os projetos e o crescimento da demanda gerada por habitações."

Como acontece com praticamente todos os que querem resultados, Crestana se queixa, também, do baixo sentido de urgência das autoridades do Meio Ambiente, responsáveis pela liberação de licenciamentos das áreas destinadas aos projetos de grande porte.

O coordenador do Núcleo de Real Estate da Poli/USP, João da Rocha Lima Júnior, aponta outros fatores inibidores. Um deles são as divergências entre as avaliações dos projetos feitas pelos técnicos da Caixa e as feitas pelo mercado. E há o nunca resolvido problema da falta de infraestrutura necessária para abrigar grandes conjuntos habitacionais. "Não há disponibilidade de terrenos a preços adequados nos grandes centros urbanos", reconhece.

Para o presidente do Secovi, que aponta para o mesmo problema, uma solução estaria no melhor aproveitamento dos vazios urbanos, onde já existe infraestrutura, como áreas deterioradas nos centros das cidades de São Paulo e Belo Horizonte.

É preciso ainda que o setor se adapte às novas demandas. Não há no Brasil número suficiente de empresas de grande porte especializadas na construção de moradias populares. "Uma coisa é a engenharia de construção para baixa renda e outra, a engenharia de construção para a média e a alta", avisa Lima Júnior. Ele explica que o mercado de moradias populares depende quase exclusivamente de escala de produção e de custos mais baixos, enquanto o segmento de luxo está mais focado na publicidade.

Assim, enquanto as peças desse jogo não se encaixarem, a realização do sonho da casa própria de tantos e tantos brasileiros vai sendo adiada.

Colaborou Nívea Terumi

Miriam Leitão :: Flores no verde

DEU EM O GLOBO

Você não tem vontade de falar de flores? A pergunta veio pelo twitter e eu respondi, econômica, que sim, sempre que posso. Hoje, dia dois de janeiro, o ano já começou, mas ainda descansa à espera do primeiro dia útil, quem sabe posso falar de flores? Vou andar hoje por campos preparados para receber cinco mil mudas de espécies nativas da Mata Atlântica, algumas darão flores como os ipês.

Refazer é difícil e insuficiente.

Nos campos em que andarei hoje, num pedacinho de terra em Minas Gerais, a luta contra o braquiária é desigual. O capim, uma vez plantado, vira praga.

Mesmo arrancado, renasce; capinado, cresce mais perigoso. É preciso fazer a coroa e abrir o espaço que vai receber as mudas das espécies próprias para essa região da Mantiqueira.

Como todos os biomas brasileiros, a Mata Atlântica não é uma só, ela assume várias caras, dependendo da parte do Brasil onde está.

Na Mantiqueira, área mais fria, a mata tem até araucária. Não sei se vocês já contemplaram a araucária quando a lua nasce. Os braços abertos parecem chamar a lua para mais perto, mais perto.

Ao longo do ano, será preciso vigiar as mudas para evitar que o inimigo, o capim braquiária, cresça e sufoque a recém-nascida.

As formigas precisam ser contidas porque também podem ameaçá-las.

Há a chuva excessiva, o sol demais, a pouca chuva, tudo que estiver fora do ponto certo ameaça a espécie que acabou de ser devolvida ao solo ao qual sempre pertenceu.

A Mata Atlântica foi a primeira a enfrentar o colonizador, o crescimento da população brasileira, todos os ciclos econômicos. Foi morrendo um pouco a cada encontro. Foi posta abaixo a ferro e fogo. Alimentou os fornos dos usineiros e os altos-fornos das siderúrgicas.

Caiu para a formação dos pastos e plantações. Virou móveis, casas, lenha.

Continua sendo derrubada.

Quem tiver que replantar um metro que seja dessa mata, há de desistir da destruição, por três motivos.

Primeiro, o trabalhão que dá plantar e garantir que as mudas cresçam. Depois, a alegria que dá vê-las crescendo.

Por fim, a calma que transmitem quando já se transformam em pequenos bosques. É inevitável pensar nos que virão e verão o verde diverso se espalhando, sombreando e florindo.

No meio de cada pedacinho de mata há flores. Já viram as quaresmeiras do mato? Vários tipos e cores do roxo à púrpura. Melhor nem falar das paineiras que se cobrem inteiras uma vez por ano.

As patas de vacas brancas são minhas favoritas.

Tenho uma na minha casa no Rio. Um dia chegou uma paisagista e sugeriu cortá-la porque sua sombra impedia o crescimento da grama. A dona da ideia foi dispensada, a pata de vaca ficou e agradeceu florindo em seguida, como nunca antes.

O Brasil tem muitos biomas e eles são, além de tudo, um passaporte para o século XXI que valorizará cada vez mais a biodiversidade perdida. Em Copenhague, o primeiro-ministro Wen Jiabao disse que a China tem a maior floresta plantada do mundo. Como se sabe, as plantadas, por mais que se esforcem, não chegam aos pés das naturais em biodiversidade. O Cerrado garante as águas de boa parte do Brasil e tem espécies resistentes aos tempos extremos que se aproximam. E por falar nisso, nada mais extremo do que a área da Caatinga, que nasce de teimosa. A Amazônia é ela só: soberana, inigualável, preciosa. Onde se ouve falar de clima do planeta, das ameaças ao meio ambiente, dos "tipping points" da mudança climática lá estará a Amazônia no centro da conversa.

Famosa. O pantanal é belo, frágil, exuberante; parece berço de vida. Os Campos gaúchos de horizonte longo são ainda pouco entendidos como bioma. Mas de tudo o que floresce por aqui, a Mata Atlântica tem esse quê de aconchego, da mata lá da infância, de verde conhecido, das ervas dos bochechos, gargarejos e infusões, do erro que cometemos e queremos reparar.

A Mata é a mata. Merece tantos cuidados porque está quase no fim, porque está onde moram mais brasileiros e porque tem sido refeita arduamente por milhares de proprietários de pequenas e médias propriedades, nas RPPNs, as Reservas Particulares do Patrimônio Natural.

Já contei as histórias de alguns heróis da Mata Atlântica: Lélia e Sebastião Salgado que em Aymorés, em Minas, no caminho para o Espírito Santo, replantaram um milhão e meio de árvores para refazer a cobertura da fazenda onde o fotógrafo brasileiro, mundialmente famoso, passou a infância. De lá o projeto se estende produzindo um milhão de mudas para refazer a mata ciliar do Rio Doce.

Eles querem aumentar a produção ainda mais a cada ano. Um dia, se tiverem sucesso, poderemos voltar a dizer: como é verde o nosso vale. O outro herói, também contei aqui neste espaço, é Feliciano Miguel Abdala, que protegeu persistentemente e sozinho mil hectares de mata na cidade em que nasci, Caratinga. E, assim, preservou a maior população de muriquis. Ao estudar esses macacos, a primatóloga Karen Strier provou, na sua tese de doutorado de Harvard, que era mito a ideia de que todos os primatas têm o mesmo comportamento. Os muriquis são diferentes: pacíficos, cooperativos, sem macho dominante. Vivem de comer frutos e flores da Mata Atlântica.

E assim termino esse artigo que me pediram, nos poucos toques que cabem no twitter. Os outros temas de sempre — os excessivos gastos públicos, as atas do Copom, a valorização do yuan, o desemprego, a oscilação do dólar — que esperem.

Porque hoje é sábado e o ano mal começou, falo das flores que, quando se espalham no verde da mata, são ainda mais belas.

Com Bruno Villas Bôas

Bom dia! - Maria Rita - Samba Meu / O Homem Falou / Tá Perdoado

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Vinícius de Moraes :: A rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Anistia: para presidente do STM, posição de Vannuchi é retrógrada

DEU EM O GLOBO

"Rever a lei é de uma inconstitucionalidade absurda", diz Carlos Alberto Soares

BRASÍLIA. O presidente do Superior Tribunal Militar (STM), o civil Carlos Alberto Marques Soares, disse que o ministro Paulo Vannuchi, dos Direitos Humanos, adota uma posição retrógrada ao defender punição para militares que atuaram no regime militar. Carlos Alberto Soares saiu em defesa do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e dos comandantes das três Forças, que reagiram ao Programa Nacional dos Direitos Humanos. Para o presidente do STM, a possibilidade de rever a Lei de Anistia, prevista no programa, é absurda e inconstitucional.

- O ministro Jobim está corretíssimo. Rever a Lei de Anistia é de uma inconstitucionalidade absurda. Foi uma lei que serviu para um determinado momento do país e não pode, anos depois, ter outra finalidade - disse Soares.

Soares foi mais a um a reagir em meio à crise que opôs os ministros militares a Vannuchi por causa do programa de direitos humanos. Os comandantes militares e Jobim ameaçaram entregar os cargos. O presidente do STM afirmou que o Brasil não deve seguir o caminho de outros países sul-americanos que julgaram e puniram militares responsáveis por ditaduras.

- Não sou de direita nem de esquerda. Mas, seguir o que fizeram Argentina, Chile e Uruguai (que condenaram militares) é ir na contramão da história. A posição do ministro Vannuchi é retrógrada, de 30 anos atrás. Não é momento mais para isso. O Brasil é outro.

Soares, diferentemente dos militares, defende que as arbitrariedades ocorridas durante a ditadura, como perseguições, tortura e mortes sejam esclarecidas.

- Rever fatos políticos, para efeito de História, é claro que defendo. Pode se rever tudo.

Ninguém é favorável à tortura. Mas não se pode confundir História com direito. A Lei de Anistia produziu efeitos numa época e todo mundo a aceitou.

A primeira versão do Programa de Direitos Humanos previa a extinção do STM. Durante os debates, os militares, com atuação forte do Ministério da Defesa, excluíram essa proposta.

- O argumento de que julgamos pouco não convence. Não vamos trocar qualidade por quantidade. A Justiça Militar é a mais antiga do país. Provou sua independência na época da revolução de 64, quando foi o primeiro tribunal a conceder uma liminar em habeas corpus.

Soares é o primeiro ministro oriundo da magistratura a presidir o STM. Relatou, em 1999, reabertura do caso do Riocentro, episódio em que dois militares tentaram explodir bombas num show musical no Rio, em abril de 1981, e acabaram vítimas dos artefatos.

Eliane Cantanhêde:: Os caras e as caras de 2010

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA -
Acabou a brincadeira. Em 2010, é guerra. Guerra que os tucanos querem que seja entre Dilma Rousseff e José Serra e que os petistas forçam para ser entre os governos Lula e FHC. Ou seja: a oposição tem o candidato mais forte, e o governo, o melhor discurso.

O foco da eleição não está em nenhum dos candidatos. Está em Lula, um ex e futuro candidato, cheio de manha, de soberba, de garra, com o controle da campanha de Dilma, manipulando o futuro de Ciro Gomes, constrangendo a sua ex-ministra Marina Silva e mirando FHC para ricochetear em Serra.

Lula disputou em 1989, 1994, 1998, 2002 e 2006. Perdeu três, ganhou duas e faz um grande teste nesta sexta vez em que subirá ao palanque, não mais como candidato, mas como padrinho. Se Dilma vencer, ele poderá estar novamente encabeçando uma chapa em 2014. Se ela perder também.

Mas não custa fazer justiça neste primeiro dia de um ano tão eletrizante: o elenco de candidaturas é mais que um sinal; é uma prova de quanto o Brasil vem evoluindo desde os anos 1980, antes mesmo do início formal da redemocratização.

Serra, Dilma, Marina e, menos um pouco, a incógnita Ciro (que queria tudo e pode ficar sem nada) têm credenciais, história, imagem limpa e experiência administrativa, representam ideias e setores.

São, enfim, bons candidatos. O eleitor tem produtos de qualidade na prateleira, terá tempo para analisá-los, confrontá-los e escolher qual será melhor para o país de hoje e para o país de amanhã.

Só não esqueça que serão eleições gerais, hora de votar em governadores, senadores e deputados federais e estaduais, aqueles que, ou vão empurrar o Brasil e os brasileiros para frente, ou vão continuar assombrando o país com seus castelos, panetones, cuecas e escândalos. Você decide.

Ótimo ano, bom voto!

PT e PSDB correm para desatar nó que ameaça ruir palanques estaduais

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Tucanos não têm candidato no RJ, CE e AM e, na seara petista, imbróglio está em SP e MG, maiores colégios eleitorais

Julia Duailibi e Pedro Venceslau

Com palanques desarticulados nos principais colégios eleitorais do País, PSDB e PT dedicam o começo do ano para desembaraçar os nós nos Estados onde ainda não têm estrutura eleitoral definida para dar suporte a seus candidatos à Presidência da República em 2010. O objetivo é criar vitrines regionais robustas para os prováveis postulantes ao Palácio do Planalto - a petista Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, e o tucano José Serra, governador de São Paulo. Para isso, os dois partidos pretendem fechar a costura política até março.

Os tucanos se preocupam com três Estados nos quais não há candidato definido até agora - Rio de Janeiro, Ceará e Amazonas. Do lado petista, o imbróglio maior está em São Paulo e em Minas Gerais, primeiro e segundo maiores colégios eleitorais do País, respectivamente. Há ainda indefinição no Rio, Paraná, Pará e Maranhão.

Na segunda quinzena de janeiro, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), e o secretário-geral do partido, Rodrigo de Castro (MG), começam a viajar pelo País. O medo é repetir 2006, quando o então candidato a presidente, Geraldo Alckmin, ficou praticamente sem campanha nos Estados.

À época, o receio de perder votos fez com que candidatos a governador evitassem fazer oposição à reeleição de Lula. "É melhor um palanque menor, mas que seja fiel ao nosso candidato a presidente. Dessa vez, não vamos admitir os erros de 2006", declarou Rodrigo de Castro. "Na campanha passada, tivemos palanque demais e campanha de menos", disse Guerra.

O Rio é o principal motivo de dor de cabeça no PSDB. Havia dois anos que se apostava no palanque com Fernando Gabeira (PV). O deputado, no entanto, prefere o Senado. Tucanos agora se dividem entre fabricar a candidatura de um parlamentar - Marcelo Itagiba, Otávio Leite ou Índio da Costa, este do DEM - ou convencer o ex-prefeito César Maia (DEM), que também quer o Senado e resiste a "ir para o sacrifício". O PT enfrenta o problema contrário.

Além do governador Sérgio Cabral (PMDB), apoiado por Lula, o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias (PT), colocou o nome no páreo para o governo.

O PSDB não tem candidato no Ceará, reduto do presidenciável Ciro Gomes (PSB). O senador Tasso Jereissati, amigo de Ciro, resiste a disputar contra o governador Cid Gomes (PSB). O PT fechou apoio a Cid, em uma frente com PMDB e PSB.

Maior vexame da eleição de 2006, o Amazonas continua sendo uma interrogação. Lá, Alckmin teve apenas 176.338 votos contra 1.159.709 de Lula. E nada diz que a situação será diferente. O partido ensaia um flerte com Amazonino Mendes (PTB), mas foca na reeleição do senador Arthur Virgílio.

No Distrito Federal, os tucanos perderam o palanque do governador José Roberto Arruda, envolvido no mensalão do DEM. Não está descartado o apoio ao ex-governador Joaquim Roriz (PSC) ou, num cenário menos provável, palanque próprio com Maria de Lourdes Abadia.

Paraíba e Rio Grande do Sul também estão indefinidos. No primeiro caso, ala do ex-governador Cássio Cunha Lima no PSDB apoia Ricardo Coutinho (PSB), prefeito de João Pessoa. Outra quer lançar o senador Cícero Lucena. No Rio Grande do Sul, Yeda Crusius quer se reeleger, mas a cúpula prefere o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB).

FRONTE PETISTA

O maior problema para o PT está em São Paulo, onde o PSDB governa de 1995. A alternativa Ciro Gomes, construída por Lula, desperta cada vez mais desconfiança. "O tempo da candidatura Ciro se esgota e o PT toma a frente para lançar candidatura própria", disse o líder petista na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP). O cenário está indefinido entre o deputado Antonio Palocci, a ex-prefeita Marta Suplicy e o prefeito de Osasco, Emidio de Souza. Ventilou-se o nome do senador Aloizio Mercadante, que quer a reeleição.

Em Minas, o ex-prefeito Fernando Pimentel e o ministro Patrus Ananias colocaram seus nomes.
A cúpula do PT quer evitar uma prévia e não vê com maus olhos o apoio ao ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB). Há ainda enrosco no Pará, onde a governadora Ana Júlia Carepa vive às turras com o PMDB, de Jader Barbalho. E no Maranhão, onde parte do PT resiste a apoiar Roseana Sarney. No Paraná, há indefinição para petistas e tucanos. Ambos cortejam o palanque do senador Osmar Dias (PDT) - mas o PSDB tem dois nomes, Álvaro Dias e Beto Richa.

Na Bahia, Lula mostra otimismo e Serra usa twitter

DEU EM O GLOBO

Presidente diz que descansará agora para aguentar ano eleitoral

SALVADOR. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Marisa Letícia, acompanhados de filhos e netos, chegaram por volta de 11h de ontem à Base Naval de Aratu, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, onde fica a praia de Inema, escolhida por Lula e seus familiares para passar o réveillon. Na sua chegada à capital baiana, o presidente disse que pretende descansar bastante durante dez dias, lembrando que 2010 será um ano eleitoral e que ele pretende participar ativamente da campanha.

Ao desembarcar, recepcionado pelo governador Jaques Wagner e pela primeira-dama Fátima Mendonça, o presidente fez um pronunciamento de otimismo para 2010:

- Tenho a convicção de que 2010 será um dos melhores anos da história do Brasil. E só não digo o melhor porque cada um acha que o ano melhor é o que foi bom só para ele. Mas tenho a certeza de que, para o Brasil, 2010 será um ano excelente. Temos obras sendo realizadas em todos os estados e em quase todas as cidades. A economia vai de forma excepcional.

Depois de dizer que o povo brasileiro merece ter um ano excepcional como ele acha que 2010 será, o presidente disse que sua intenção, durante os próximos dez dias, será apenas descansar. Lula não vai participar de festas enquanto estiver em terras baianas.

- Até porque 2010, além de ser um ano bom, será um ano de muita política e eu pretendo entrar nesta luta - disse o presidente.

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), principal nome da oposição para a disputa presidencial de 2010, também optou pela Bahia para passar o réveillon, mas escolheu como refúgio a casa da sua filha Verônica Serra, num condomínio de alto luxo em Trancoso, no Sul do estado. Ele chegou ao condomínio Alto do Segredo na quarta-feira e pretende ficar até domingo, divertindo-se na companhia dos netos e da mulher, Monica.

Serra não se separou da "febre" do momento, o twitter, através do qual tem se comunicado com as mais de 154 mil pessoas que o acompanham. Depois de informar aos seus seguidores que está passando o fim do ano na Bahia, o governador disse que se divertiu assistindo ao filme Gilda, um clássico que celebrizou a atriz Rita Hayworth.

Desempenho em SP traz alívio à oposição

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Oposicionistas estão atrás nas pesquisas em 6 dos 8 maiores colégios

Marcelo de Moraes, BRASÍLIA


As pesquisas de intenção de voto mostram que a liderança do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), na corrida presidencial e a vantagem de Geraldo Alckmin (PSDB) na sucessão de São Paulo estão salvando a oposição de fechar o ano com um cenário eleitoral nebuloso. Segundo os levantamentos dos institutos de pesquisa, entre os maiores oito colégios eleitorais do País, os partidos de oposição aparecem em primeiro lugar apenas em São Paulo e estão em empate técnico com os governistas no Paraná.

Nos outros seis maiores Estados, porém, a oposição (PSDB, DEM e PPS) vê seus candidatos perderem ou nem sequer definiu o nome para disputar a eleição. É o caso de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará.

A eventual vitória em São Paulo salva a pele da oposição, uma vez que o Estado reúne 29,4 milhões de eleitores, mais que o dobro do total de eleitores do segundo maior, que é Minas Gerais. Nessa disputa Alckmin tem uma diferença consistente sobre Ciro Gomes, do PSB.
Segundo o Datafolha, essa vantagem seria de 50% contra 14%.

O problema mais grave acontece no Rio. Levantamento feito pelo Datafolha, divulgado no dia 21, mostra o atual governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) em primeiro, com 38%, seguido por Anthony Garotinho (PR), com 23%. Ambos apoiam a candidatura presidencial da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT).

O melhor resultado de um candidato ligado à oposição é o do deputado Fernando Gabeira (PV), que aparece em terceiro com 14%. No partido da senadora e pré-candidata Marina Silva (AC), Gabeira tem proximidade política com a campanha de Serra. Ainda assim, após a divulgação da pesquisa, insistiu que será candidato ao Senado.

No Rio Grande do Sul, a situação é semelhante. A disputa está se polarizando entre o ministro da Justiça, Tarso Genro (PT), e o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB), enquanto a candidatura da oposição é representada pela governadora Yeda Crusius (PSDB). Segundo o Datafolha, Tarso e Fogaça lideram com 30%.

Em Minas, o ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), é o primeiro, com 31%. Antônio Anastasia, vice-governador de Aécio Neves (PSDB), surge apenas em terceiro, com 10%, batido pelo petista Fernando Pimentel, que soma 19%.

A oposição ainda enfrenta problemas com pré-candidatos que já foram hegemônicos em seus Estados. Ex-governadores, os senadores Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) ocupam apenas a segunda posição na pesquisa do Datafolha em Pernambuco e Ceará.
Na Bahia, o petista Jaques Wagner ocupa o primeiro lugar com 39%, contra 24% do democrata Paulo Souto. No Paraná, o prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB), aparece como a melhor opção da oposição - tem 40%, contra 38% do senador Osmar Dias, do PDT.

CHARGE


Jornal do Commercio (PE)

Contra oposição, PT adota o discurso do risco de retrocesso

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Estratégia é alertar para possível ruptura de políticas sociais de Lula em caso de derrota

Em 2002, campanha tucana usou discurso do "medo" de que possível vitória de Lula trouxesse de volta inflação e instabilidade econômica


Ana Flor, Catia Seabra

Menos de oito anos depois de ser vítima do discurso do "risco PT", em que a oposição tentava associar uma vitória de Lula à volta da inflação e à instabilidade econômica, o governo pôs em marcha uma estratégia semelhante para 2010.

Ministros, autoridades do governo e o próprio Lula passaram a embutir em suas falas pelo país alertas para a possibilidade de ruptura nas políticas econômicas e sociais caso a candidata do Planalto, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), não vença as eleições.

Em 2002, quando tucanos e aliados adotaram o discurso do "risco PT", a atriz Regina Duarte foi à TV declarar o voto a Serra, que concorria à Presidência, afirmando ter "medo" de Lula.

Hoje, a estratégia é vincular Dilma à continuidade das políticas do governo Lula, e colar, na possibilidade de vitória da oposição, o risco de retrocesso.

Em entrevista, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou ter convicção de que Dilma manteria a atual política econômica -mas sobre o principal nome da oposição para enfrentá-la, o governador José Serra (PSDB), disse não ter a mesma certeza.

Diante dos bons resultados da Petrobras, o presidente da estatal, José Sergio Gabrielli, atribuiu o sucesso ao governo Lula e afirmou, também em entrevista, que se tivesse vencido em 2002 e 2006, "o PSDB já teria vendido parte" da empresa.

Ainda mais enfático foi o presidente Lula que, ao encontrar catadores e moradores de rua, alertou para o perigo da não continuidade de seu governo: "Não sabemos o que pode acontecer no país".

Aprovação

O expediente de associar Dilma ao sucesso do governo Lula é uma das principais estratégias de campanha. Sem nunca ter enfrentado as urnas, Dilma tem apenas o trabalho como ministra para mostrar.

O comando do PT e ministros próximos ao presidente rechaçam as expressões "terrorismo" ou "medo". Avisam, entretanto, que intensificarão a estratégia de associar Serra à administração Fernando Henrique Cardoso.

O ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) afirma que é "inevitável" a comparação de projetos. "É uma linha de defesa do governo. E não é apenas continuidade, o projeto é continuar avançando", diz.

Segundo o líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), o partido quer promover um debate sobre "os destinos do Brasil" -em que sobram ataques para o governo tucano.

"[Vamos discutir se o Brasil] vai ser potência mundial ou não", diz ele. "O PT defende o Estado forte, um Estado que enfrenta a crise como nós enfrentamos. Eles acham que isso é gastança", afirmou o deputado.

O presidente do PT, Ricardo Berzoini, diz que a estratégia de comparação entre os governos terá o seu ápice durante o horário eleitoral. "Não queremos que o eleitor tenha medo. Mas que possa optar entre dois projetos antagônicos."

Berzoini afirma que o tucanato praticou terrorismo também em 1998 ao dizer que a eleição de Lula ameaçaria a estabilidade econômica.

Enquanto o PT investe na comparação dos governos Lula e FHC, o PSDB vai insistir no confronto dos currículos de Dilma Rousseff e José Serra. Os tucanos realçarão as realizações do tucano no governo de São Paulo e no Ministério da Saúde. Lembrarão, por exemplo, a criação dos medicamentos genéricos:

"A história de Serra é anteparo para esse debate medíocre. A estratégia [do medo] não cola em quem fez o genérico e quebrou patente", disse o deputado federal Jutahy Magalhães (PSDB-BA).

Miriam Leitão:: Desafio e promessa

DEU EM O GLOBO

A sensação é oposta. Há um ano, eram sombrias todas as previsões da economia. O Brasil e o mundo entraram no ano passado pisando em terreno recessivo, de ameaças e riscos. Neste começo de 2010 a dúvida aqui dentro é se o Brasil crescerá 5% ou 6%. O mundo voltou a crescer.

Mesmo assim há perigos, principalmente na economia mundial.

O crescimento do Brasil este ano está dado. Parte dele será efeito estatístico da comparação com uma base fraca, parte será a ampliação do consumo e investimento.

A economia entrou em 2010 com a menor taxa de juros do passado recente, com o maior percentual de crédito/PIB, com a inflação dentro da meta, deflação nos preços do atacado, desemprego em queda e reservas cambiais nunca vistas.

O cenário é bom, mas tem riscos. O crescimento da demanda se exacerbou no fim do ano e pode pressionar os preços. As cotações das commodities exportadas pelo Brasil estão em alta, o que faz bem para o comércio exterior, mas pressiona os preços internos.

Os juros de pessoa física são os mais baixos desde a estabilização, mas são de 43% ao ano num país com inflação de 4,3%. Já endividados, mas otimistas com a economia, os consumidores podem perder a noção do perigo de um crédito com juros que, mesmo parecendo baixos para nós, continuam exorbitantes. O déficit em transações correntes vai crescer.

O mercado financeiro, após ler todas as comunicações do Banco Central, concluiu que as taxas de juros podem ser elevadas para conter o excesso de demanda e a pressão de preços. E isso pode acontecer já em abril. Se o presidente do Banco Central estiver saindo para concorrer a cargo público a dúvida que fica é se o BC terá uma atuação técnica ou cederá às pressões políticas de um ano eleitoral.

O crescimento vai reverter parte da deterioração fiscal que houve em 2009.

Mesmo assim, as contas públicas preocupam porque, há vários anos, o governo tem elevado as despesas com funcionários num percentual maior do que o do crescimento do PIB. No ano passado isso ocorreu novamente mesmo com queda de arrecadação.

Elevar gasto público foi o remédio adotado no mundo inteiro, mas o Brasil aumentou contratações e salários de funcionários públicos. Essa conta ficará para os anos seguintes.

O setor privado entra no ano de 2010 com baixos estoques, o que indica que haverá aumento da produção para recomposição de estoques. Que diferença com o cenário há um ano que era de férias coletivas generalizadas! As reduções de impostos para setores escolhidos incentivaram o consumo, mas deixaram também uma conta salgada e uma dúvida: quando esses estímulos fiscais serão retirados? A mesma dúvida pesa sobre a economia mundial de forma muito intensa.

Os estímulos fiscais e monetários foram volumosos nos países desenvolvidos. Agora, o desafio será saber a hora da retirada. A grande dúvida de 2010 na economia internacional é exatamente a retirada dos benefícios fiscais e monetários. A maioria dos países já voltou a crescer, mas as economias continuam dependendo de socorro governamental. Em alguns países, mesmo com todos os estímulos, a economia ainda patina, como a Inglaterra. Isso pode ter efeitos políticos. O governo Gordon Brown depois de 13 anos de trabalhismo pode perder a eleição para os conservadores.

Há um ano o cenário era assustador. As maiores economias do mundo estavam sob risco.

Hoje não é mais assim, mas os problemas financeiros recentes de Dubai e Grécia lembram que não se pode dizer que está tudo superado. O que é um rebaixamento na Grécia comparado ao risco de desabamento da economia americana há um ano? Parece ser nada, mas é bom estar atento a alguns sinais.

As maiores economias do mundo saem da crise com uma enorme dívida pública, há vários sinais de que bolhas estão se formando, as autoridades terão que agir contra essas bolhas antes de ter certeza de que a recuperação econômica está consolidada. A administração da ressaca da crise global não será tarefa trivial.

Outra dúvida que paira sobre o Brasil e o mundo este ano é o que vai acontecer com a moeda chinesa.

O aviso do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, de que a China não cederá às pressões para valorizar a moeda, mostra que a distorção no comércio internacional continuará.

O maior exportador do mundo, a economia que mais cresceu na crise, continuará com uma moeda com um preço artificial.

Equivale a um campeão olímpico que, não contente com o próprio desempenho, decide tomar anabolizante e sem que haja um comitê olímpico para puni-lo.

No Brasil, a década que começa hoje traz grandes promessas. Com todo o avanço que houve nas últimas duas décadas o Brasil parece preparado para crescer de forma sustentada.

Há eventos já garantidos que puxarão investimentos como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Desafios do tamanho das promessas nos aguardam.

O país ainda não sabe como debelar a corrupção que corrói silenciosamente a confiança na democracia e distorce as bases dos contratos de fornecimento ao estado. Os gargalos da falta de investimento ficarão mais explícitos exatamente quando o país retomar o crescimento. O envelhecimento da população exigirá que o assunto previdência seja encarado com menos paixão e mais objetividade.

O crescimento econômico terá que respeitar as novas imposições ambientais. Pela dimensão dos desafios e promessas, esta será uma década que marcará nosso destino no mundo.

O feliz ano novo do Brasil

DEU EM O GLOBO

Após estagnação de 2009, projeções de crescimento para 2010 variam entre 5% e 6,5%

Cássia Almeida

Crescimento forte, inflação baixa, emprego em alta, mais importações que exportações e mais dinheiro externo para financiar o consumo. Assim é o Brasil desenhado por economistas em 2010. Depois de enfrentar estagnação no ano passado, reflexo da crise financeira que abalou o mundo, o país cresce rápido. As projeções giram entre 5% e 6,5%, puxadas pelos investimentos - que recuaram com força em 2009.

A busca de máquinas, equipamentos e de bens para atender o consumo interno fará as importações aumentarem. E as exportações não conseguirão acompanhar, já que a economia mundial crescerá num ritmo bem menor que o Brasil - perto de 3%. Assim, o nosso saldo na balança comercial terá uma queda drástica, na opinião de analistas, saindo de mais de US$20 bilhões em 2009 para perto de US$10 bilhões, na mais otimista das previsões.

Sem o saldo na balança para compensar a sempre deficitária conta de serviços com o resto do mundo, o déficit em transações correntes (contas entre o Brasil e o mundo) deve dobrar em 2010, ficando perto de US$40 bi. O investimento direto estrangeiro ajudará a fechar as contas.

Contas públicas não preocupam
"Ano de Pibão", resume assim Francisco Pessoa Faria, economista da LCA Consultores, a situação do Brasil este ano. A LCA prevê alta de 6% em 2010, e a economia com sinal positivo em 2009 (o resultado só sai em março), ligeiramente superior a zero:

- Um ano de recuperação do investimento e consumo puxado pelo emprego, confiança e renda. Os juros devem subir pela alta forte da demanda, mas antes, teremos o aumento dos compulsórios (dinheiro retido no Banco Central) - diz.

As contas públicas não preocupam em 2010. A arrecadação em alta equilibrará as despesas que subiram em 2009, diz Faria. Elson Teles, economista-chefe da Corretora Concórdia, apesar de concordar que a arrecadação maior melhorará as contas públicas, lembra que no período eleitoral os gastos aumentam. Teles prevê algum entrave, criado pelo aumento dos gastos do governo no ano passado.

O investimento será a vedete de 2010. As taxas de crescimento devem superar 20% no ano, mas a parcela da economia brasileira destinada a aumentar a capacidade de expansão do país só volta aos patamares de antes da crise em 2011. Este ano, a taxa deve ficar próxima de 18%, enquanto que em 2008, superou 19%.

No mercado de trabalho, o céu é de brigadeiro. No início do ano, deve haver o aumento sazonal da taxa de desemprego, mas ela deve ficar, na média do ano, em 7,5% da força de trabalho, taxa inferior aos 8% esperados para o ano passado (o número oficial só sairá no fim do mês).

As eleições pesaram pouco nesse cenário projetado pelos analistas, na opinião do economista da Tendências Consultoria, Bernardo Wjuniski, que não consegue enxergar "medidas drásticas" anunciadas pelos candidatos já confirmados: o governador José Serra (PSDB) e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT).

Faria, da LCA, prevê algum ruído quando a campanha tomar as ruas, com alguma crítica em relação ao câmbio, mas nada nem perto do que houve nas eleições de 2002. Na época, a instabilidade fez dobrar a cotação do dólar. Como consequência, a economia ficou estagnada em 2003.

- Não se vê hoje ameaça de mudança na gestão da política econômica - destaca Faria.

Inflação é outro grande indicador da economia que se manterá tranquilo em 2010, com as expectativas em torno da meta fixada pelo governo de 4,5%. Os índices gerais de preço (IGPs), medidos pela Fundação Getulio Vargas, fecharam o ano em queda. Assim, reajustes de aluguéis, escolas, telefonia, energia terão reajustes baixos, já que são baseados nesses índices de inflação.

O economista Luiz Carlos Prado, da UFRJ, destaca que a população brasileira cresce num ritmo muito menor. Pelo Brasil crescer acima da média mundial, em breve, diz, a renda do brasileiro se aproximará da dos países desenvolvidos:

- O crescimento de 5% hoje corresponde, em termos de renda per capita, à expansão de 7%, 8% da época do fim do milagre, nos anos 70.

O dólar deve se valorizar ao longo do ano, principalmente perto das eleições, mas fechará 2010 perto de R$1,80, impulsionando as importações.

Vale lembrar que as projeções vão se modificando ao longo do ano. No início de 2009, a expectativa era de que o país cresceria 2,5%. Em abril, com dois trimestres seguidos com o PIB recuando caracterizando a recessão, as estimativas pioraram para -0,3%. Depois melhoraram, voltando a cair no fim do ano passado. Agora, a expectativa é de que o país fique estagnado. Em suma, projeções são apenas projeções: nem sempre se confirmam.

No mundo, expansão será lenta

DEU EM O GLOBO

Cássia Almeida

Com economia global instável, risco de novo baque permanece

O mundo que está emergindo da pior crise financeira desde os anos 30 vai crescer mais devagar, com regulação apertada sobre os mercados financeiros e países mais endividados. O crescimento esperado entre 3% e 4% no ano que vem - depois da recessão mundial estimada entre 0,8% e 1,1% deste ano - será muito desigual. Estados Unidos e Europa, onde tudo começou, andarão mais devagar, enquanto emergentes como China, Índia e Brasil puxarão o crescimento global.

A tendência, segundo economistas, é diminuir o desequilíbrio entre os EUA e a China. Os EUA, um consumidor exacerbado, suprido de dinheiro e bens pelo resto do mundo. E a China, com a moeda artificialmente desvalorizada, exportador agressivo. Apesar de exibir uma população 1,3 bilhão, só agora começa a fortalecer seu mercado interno.

Mas o risco de novo baque, nem de perto parecido com o que estourou em 2008, não está afastado. O cenário externo é instável. A intervenção forte do Estado na economia, depois da hegemonia por décadas de um sistema mais liberal, veio para ficar na opinião de alguns analistas. Mas, para outros, o governo recolhe as armas com o arrefecimento da crise.

Para Armando Castelar, economista da Gávea Investimentos, quem ganhou foi o Fundo Monetário Internacional. Esvaziado e com dívidas, recebeu capital. Ganhou importância:

- Sem dúvida quem saiu melhor da crise foram Brasil e Austrália. A China se saiu bem, mas foi afetada por ser dependente do dinamismo dos EUA e da Europa. Houve aumento do crédito doméstico e do investimento público para combater a crise.

Rússia e México são os mais afetados pela crise

Na posição contrária, Rússia e México são escolhidos por unanimidade. O primeiro, com 80% de sua economia dependente do petróleo, perdeu receita de uma hora para outra. O barril do óleo, cotado antes da crise em US$100, caiu para US$40. Com instituições frágeis, sofre com inflação alta e estagnação.

- A Rússia é o único país que ainda está cortando juros, junto com a Islândia, na contramão do resto do mundo. A inflação não cede diante da depreciação cambial - afirmou Mariam Dayub, ex-economista do Banco Mundial.

Já o México sofreu pela ligação umbilical com os EUA, assim como os países da América Central.

- No colapso foi todo mundo para o buraco. Na volta, houve a distinção de países sem problemas com a conta corrente (contas com o resto do mundo), inflação controlada, crescimento menos volátil, sistema bancário mais sólido. Países mais fechados economicamente se saíram melhor - afirmou Mariam.

O economista afirma que os governos vão se recolher depois que tudo se acalmar, mantendo apenas mais regulação no sistema financeiro:

- Não haverá uma guinada ideológica, mas um grau de controle, que era pequeno. Ficarão mais parecidos com o Brasil, que já tinha sofrido sua crise bancária nos anos 80 e 90.

Já para o professor da PUC-SP Antonio Correa de Lacerda, a maior participação do Estado veio para ficar, pelo menos, por algumas décadas, quebrando a "hegemonia do neoliberalismo dos anos 90":

- Era a execração do Estado. Na crise, ficou claro que o setor privado sozinho não funciona. Mas os impostos podem aumentar - diz.

O professor de Economia Internacional da UFRJ Luiz Carlos Prado diz que o esfriamento da crise impediu reformas mais radicais no sistema financeiro, mas que ela afastou a ideia de que é possível ter economia autorregulada. Para ele, o investimento ambiental será outro ator nessa recuperação.