quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Reflexão do dia - Roberto Freire

(...) Não podemos abrir mão do nosso direito de discutir e votar todos os anos o reajuste do salário mínimo, transferindo essa responsabilidade para a vontade exclusiva da presidente da República. A Constituição não permite isso, (...)

(...) de forma inadmissível, usurpa dos legítimos representantes do povo brasileiro o direito de discutir e decidir sobre os valores adequados para o reajuste e aumento do piso do trabalhadores.(...)

(...) Operacionalizar a política do salário mínimo por decreto fere a Constituição Federal, que determina que ele deve ser fixado em lei, ou seja, ser votado pela Câmara e pelo Senado. É isso que estabelece o inciso IV do artigo 7º da Carta Magna, que dispõe sobre os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais. A instituição de uma política de longo prazo para o reajuste e aumento do mínimo, como prevê o projeto do governo, é benéfica, mas ela não pode ignorar a Constituição, tampouco desconsiderar a importância da participação do Congresso Nacional nesse processo, propondo mudanças, melhorando a proposta e garantindo a defesa dos reais interesses dos trabalhadores brasileiros. (...)

(...) Não resta ao partido, a partir de agora, outra opção senão acionar o STF, caso o Senado não corrija a inconstitucionalidade flagrante do projeto aprovado na Câmara. "É a única forma de garantir a altivez do parlamento e o cumprimento da Constituição. (...)



FREIRE, Roberto. PPS ingressará com Adin no STF para impedir reajuste do mínimo por decreto. Câmara dos Deputados. 16/1/2011

Mudar para permanecer:: Merval Pereira

Quem assiste à discussão sobre o valor do salário mínimo pode ficar convencido de que a responsabilidade fiscal entrou definitivamente na agenda política da administração petista. O governo acusa de irresponsáveis os oposicionistas que defendem o valor de R$600, e ameaça os dissidentes de sua base parlamentar com retaliações.

O ministro da Fazenda Guido Mantega desenhou uma catástrofe se a posição do governo de manter o mínimo em R$545 não prevalecesse na Câmara, levando a aumentos mais fortes dos juros para controlar a inflação, que já surge no horizonte acima do teto oficial.

Mantega fez as contas: cada real a mais no piso salarial leva o governo a gastar R$300 milhões a mais por ano, por causa da Previdência e demais benefícios de assistência social que são regulados pelo mínimo.

Fundado em 1980, o PT tem mais tempo de oposição no plano federal do que de governo, aonde chegou apenas em 2003, depois de ter sido derrotado em três eleições seguidas - 1989, 1994 e 1998.

Durante esse período, estabeleceu um padrão de oposição que distorceu a política brasileira de tal maneira que a irresponsabilidade passou a ser uma arma perfeitamente legítima do jogo político.
Nos oito anos e 47 dias de governo, buscou o equilíbrio fiscal durante a maior parte do tempo, embora objetivos políticos de tomar conta da máquina estatal não tivessem barreiras, e o aparelhamento e o inchaço do setor público já prenunciassem um desequilíbrio nas contas governamentais muito antes que ele se materializasse.

E o PT não hesitou em rasgar o compromisso com o equilíbrio fiscal quando a prioridade passou a ser a eleição da sucessora de Lula.

Atingido o objetivo pessoal de Lula, e corporativo do PT, o novo governo está tendo que lidar agora com a dura realidade que ele mesmo criou, e subitamente torna a ser responsável e fiscalista, acusando a oposição de irresponsável.

É verdade que o salário mínimo foi fixado inicialmente em R$540 - e mais tarde passou para R$545 com uma pequena revisão nos cálculos - de acordo com uma política acertada com os sindicatos em 2007, com validade até 2023, baseada em critério que combina a reposição da inflação com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos dois anos anteriores.

Como o crescimento do PIB em 2009 foi negativo por causa da crise econômica mundial, o reajuste do mínimo será menor este ano.

Mas com a economia tendo se recuperado em 2010, com crescimento próximo a 8%, em 2012 o mínimo terá um reajuste maior. Não há, portanto, razão para mudanças de critérios.

Mas o parâmetro estabelecido pelo PT nos seus muitos anos de oposição é justamente esse, o de exigir do governo, qualquer governo, todas as concessões, fazendo sempre o papel de bom-moço e capitalizando simpatia por suas irresponsabilidades.

Em 2004, quando José Dirceu ainda era o primeiro-ministro, ele propôs a desvinculação da Previdência do salário mínimo, para permitir que a política de aumentos reais não colaborasse com o aumento do déficit.

A reação das centrais sindicais e dos aposentados foi tão forte que nunca mais o assunto voltou à discussão, a não ser que algum economista independente o ressuscite.

Dois em cada três aposentados ganham o salário mínimo, e os aumentos reais impactam diretamente os custos da Previdência.

Pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede a inflação até seis salários, o aumento real do salário mínimo foi de mais de 120% desde 1994, tendo sido de 44% no governo Fernando Henrique e de 54% no governo Lula.

Pela reação das centrais sindicais, que se mobilizaram contra o salário mínimo de R$545 que elas mesmas haviam aprovado em acordo com o governo na gestão de Lula, já se vê como é praticamente impossível se pensar em uma reforma da Previdência que realmente prepare o país para o futuro que terá mais velhos do que jovens, ao contrário de hoje.

A cada ano o número de pessoas acima de 60 anos nos próximos 25 anos vai aumentar em torno de 4%, e a atual situação não é sustentável.

Mas nada indica que existirá no horizonte um cenário político equilibrado para uma discussão de temas como esse.

Mais que técnica, a questão é política. O governo tem o direito de ser irresponsável quando bem entende, e exigir que a oposição seja responsável quando já não é mais possível conviver com o desequilíbrio fiscal que provocou?

A responsabilidade fiscal pode ser um instrumento transitório a ser ignorado quando os interesses políticos do partido no governo assim determinarem?

O ministro da Fazenda que comandou a gastança do dinheiro público pode ser o mesmo que agora exige austeridade?

A presidente que se elegeu à custa da irresponsabilidade fiscal, garantindo que não faria um reajuste fiscal, tem credibilidade para comandar os esforços de corte de R$50 bilhões?

São essas questões políticas que estão no ar pesado de Brasília nestes últimos dias, a denunciar certa farsa que tenta transformar um governo de continuidade num de ruptura para que tudo continue na mesma.

FONTE: O GLOBO

Sob nova (?) direção:: Dora Kramer

A presidente Dilma Rousseff tem sido muito elogiada por seu estilo, na forma e no conteúdo. Faz por merecer no gestual firme, porém contido, no tocante aos apetites fisiológicos (só do PMDB, note-se), nas ações racionais em relação aos gastos públicos, na inflexão democrática no que tange à política externa e principalmente na conduta cotidiana comedida.

Dilma não desfruta abusivamente do poder para destratar críticos nem se exibe desfrutável para cima e para baixo a tagarelar despropósitos ao molde do antecessor. Aos olhos e ouvidos fartos de espetáculos diários de vaudeville presidencial, a presidente assume feição de maravilha curativa.

Mas Dilma, como governante algum, não é um bálsamo. Trata-se apenas de uma pessoa, digamos, normal, que identifica os problemas e se dispõe a atacá-los. Por exemplo, dá à aproximação da volta da inflação acima do razoável sua real dimensão de desastre a ser evitado.

Nada disso, contudo, dá à presidente da República um salvo-conduto para se eximir da responsabilidade que tem sobre o atual cenário resultante da inconsequência do governo Luiz Inácio da Silva em relação à realidade da Nação. Notadamente em relação às irracionalidades cometidas durante o ano eleitoral de 2010.

Entre outros motivos porque decorrentes do afã de Lula em elegê-la como sucessora. De repente, parece que Dilma Rousseff é fruto de outra árvore, que chegou à Presidência depois de uma longa vida de serviços prestados à política e à construção de uma candidatura por esforço próprio.

Até poucos meses atrás ela dizia amém a tudo o que seu mestre mandasse. Estava ao lado dele para, como gerente administrativa do governo, corroborar a justeza de toda e qualquer decisão tomada. Inclusive aquelas que rendem agora um montante de R$ 11,5 bilhões de contas atrasadas, mais de R$ 4 bilhões em relação às pendências de 2009 para 2010.

Louve-se a mudança, mas que não se perca o discernimento. Não se pode imaginar que Dilma, candidata de Lula, o desmentisse a cada bravata nem que brigasse internamente para que o governo não entrasse na rota da gastança.

Tampouco ser aceitas de forma acrítica as providências de contenção tomadas agora, como se na campanha que a elegeu não houvesse sido vendido ao público um horizonte de esplendores num País arrumadíssimo sob todos os aspectos da economia.

Nada ia mal e iria muito melhor, dizia Lula com a anuência de Dilma.

Não cabe, evidentemente, à presidente nem aos governistas imprimir uma boa dose de relatividade aos fatos. Eles estão no papel deles: representam e, onde essa representação significar ganhos coletivos, ótimo.

Mas a sociedade não pode perder de vista o passado a fim de que no futuro não venhamos a dizer que a cigana nos enganou. Nem deixar essa tarefa ao encargo da oposição para depois reclamar que o Brasil não dispõe de oposicionistas à altura.

E que futuro é esse? Está muito próximo: mais exatamente em 2012, quando, então, haverá de novo eleições, poder em disputa e oportunidade para conferir se o País está mesmo ou não sob uma nova, racional, civilizada e legalista direção.

Lição do abismo. Eis o PSDB: o partido decide apoiar a proposta de um salário mínimo de R$ 600, baseado em promessa de campanha, sustentando que há condições objetivas para tal. Certa ou errada, foi uma decisão.

Mas uma ala, liderada pelo senador Aécio Neves, na última hora abraça a tese de R$ 560 no intuito de se "aproximar das centrais sindicais", posando ao lado de um dos maiores detratores da candidatura presidencial tucana, Paulo Pereira da Silva.

Considerando que o governo tem os instrumentos que as centrais gostam e está apenas começando, com no mínimo mais quatro anos pela frente e uma identidade indissociável, o PSDB não consegue uma coisa nem outra: não quebra a aliança com os sindicalistas incrustados e dependentes da máquina e perde a chance de unir o partido numa discussão de repercussão nacional.

É assim, privilegiando disputas internas, que se constroem as grandes derrotas.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Um grande teatro:: Eliane Cantanhêde

O velho líder metalúrgico Vicentinho, ex-presidente da CUT e agora deputado do PT, foi vaiado pelos antigos companheiros sindicalistas ao ler o seu parecer defendendo o aumento do salário mínimo para R$ 545.

E o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, deputado do PDT, jogou a toalha já de manhã, reconhecendo a derrota dos R$ 560 antes mesmo do início da sessão.

A frase dele é emblemática: "Para ganhar, a gente teria de dormir 18 dias na praça". Uma referência óbvia à oposição do Egito que derrubou o ditador Hosni Mubarak com 18 dias na praça Tahrir.

A votação do salário mínimo, portanto, se transformou num grande teatro, com plenário cheio, galerias barulhentas, as centrais sindicais aliadas ao DEM e a parte do PSDB, e o próprio ministro do Trabalho em cima do muro.

Escrevo antes do resultado, por causa do fechamento e por pura falta de juízo, mas o tempo todo a expectativa foi de vitória do governo, ou seja, dos R$ 545. E o motivo é óbvio: dos 513 deputados, 388 são de partidos aliados ao Planalto.

Com 100% de presença, bastavam 257 a favor, porque o quorum de votação de projetos de lei é metade mais um dos presentes. O governo, portanto, tinha uma margem folgada de 131 votos.

Com Dilma recém-empossada, na chamada fase de "lua de mel", e sem consenso na oposição, era considerado muito improvável que uma súbita onda arrastasse todos os oposicionistas e mais 131 votos.

A discussão, assim, ficou em torno não de ganhar ou perder e sim de dois interesses políticos marqueteiros: o governo vendendo dificuldade para comprar uma votação expressiva, e a oposição testando forças internamente, entre os grupos de Serra e Aécio, entre fazer oposição ativa ou praticar bom-mocismo com prefeitos e mercado.

Resultado: governo é governo. E estão faltando talento e estratégia para fazer real oposição.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Contradições em torno do mínimo:: Cláudio Gonçalves Couto

O então candidato presidencial tucano, José Serra, propôs durante sua campanha um salário mínimo de R$ 600. Dizia ser este um valor possível para o país e incapaz de prejudicar a solidez das contas públicas. Ia ainda mais longe, afirmando que não se tratava de uma promessa de campanha, mas do anúncio de uma decisão de governo, a qual seria implementada tão logo tomasse posse. Agora, por ocasião da discussão do novo valor do salário mínimo no início do governo de sua então adversária, Dilma Rousseff, o PSDB cumpre seu papel de oposição e encampa no Congresso o compromisso da campanha, defendendo o mesmo valor de R$ 600.

O valor proposto pelo candidato de oposição era consideravelmente superior ao salário mínimo de então, de R$ 510 (representaria um aumento de 17,6%) e inclusive superava por larga margem o valor do piso estadual de R$ 560 vigente em São Paulo, até pouco antes governado pelo mesmo Serra. O novo governador tucano, Geraldo Alckmin, já no início de seu mandato e antes mesmo que o novo salário mínimo nacional fosse estipulado, seguiu o valor sugerido por Serra para o Brasil, fixando o mínimo estadual em R$ 600 na sua menor faixa (R$ 620 na maior delas). Poder-se-ia ver aí um sinal de coerência tucana, mas há uma inconsistência.

Disputa sobre o mínimo mostra oportunismo

Ela fica clara, primeiramente, quando comparamos o PIB per capita brasileiro com o do Estado de São Paulo. Utilizando dados do Ipea Data referentes a 2008 (a preços de 2000), o PIB per capita do país era de R$ 8,28 mil, enquanto o paulista era de R$ 12,66 mil; ou seja, 53% maior que o brasileiro. Se tomarmos esse valor como um indicador da riqueza relativa do país e do Estado, poderíamos esperar que numa unidade federativa que é cerca de 50% mais rica que a média do país, o salário mínimo vigente pudesse ser igualmente superior. Assim, poder-se-ia esperar que ao salário mínimo nacional de R$ 510 correspondesse um piso estadual paulista de R$ 780 - e não os R$ 560 de então. Mas se poderia objetar (com razão) que as coisas não funcionam exatamente desta maneira e que o valor do mínimo não deve ser diretamente proporcional à riqueza per capita de cada lugar.

Todavia, há uma segunda maneira de explicitar a inconsistência, pois é plausível esperar que um Estado tão mais rico que o resto do país como São Paulo ofereça a seus trabalhadores um mínimo significativamente superior ao estipulado nacionalmente - ainda que não de forma proporcional ao PIB per capita. Façamos então outra comparação. Em 2010, o salário mínimo definido pelo governo paulista de José Serra correspondia a 1,098 salário mínimo nacional. Mantendo essa proporção para a proposta de um piso nacional de R$ 600, feita pelo PSDB no Congresso, deveríamos ter agora um mínimo paulista de R$ 659 - bem maior do que o hoje concedido pelo governo do PSDB paulista. Por que então isto não foi feito?

Talvez porque a principal razão que explica a promessa de Serra durante a campanha
presidencial e a proposta oposicionista do PSDB congressual hoje é a mesma que, outrora, explicava a oposição sistemática do PT ao governo Fernando Henrique Cardoso: oportunismo. Durante a campanha esse oportunismo derivava das dificuldades de vencer uma candidata favorita sobretudo entre os mais pobres - principais beneficiários de qualquer elevação do salário mínimo real. O irônico é que esse oportunismo não tem se mostrado frutífero no Brasil. Por um lado, o PT foi seguidamente derrotado nas eleições presidenciais, vencendo-as apenas quando moderou sua postura (lembre-se da "Carta ao Povo Brasileiro"); por outro, a proposta de José Serra não se mostrou convincente ao grosso do eleitorado de baixa renda, que permaneceu fiel a Lula e sua candidata - dotados de credenciais bem mais consistentes no que concernia à elevação do mínimo e ganho de renda das classes baixas.

Mas o oportunismo não é uma exclusividade de oposicionistas, como bem demonstrou a atuação do PDT neste episódio - capitaneado pelo deputado Paulo Pereira da Silva e com o beneplácito do ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Num contexto em que a CUT, organicamente ligada ao PT, vê-se constrangida a não bater de frente com seu próprio governo, a Força Sindical - adversária histórica, aliada ocasional do petismo - percebeu uma brecha para ganhar espaço na disputa da base trabalhista. É pouco provável que os pedetistas e seus membros sindicais reiterem esta conduta na votação futura de outros temas de interesse do governo. Mesmo porque, embora alguma retaliação moderada a Lupi e correligionários seja provável, como forma de demonstrar contrariedade e autoridade, não é do interesse do governo estiolar em demasia essa relação. É um típico caso em que a nenhuma das partes interessa acirrar tensões, pois há muita coisa em jogo no futuro, principalmente porque o governo Dilma está apenas começando. As declarações de Paulinho da Força, de que é preferível perder lutando, indicam uma certa aceitação da derrota, mas sem maiores ressentimentos.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Governo: desafios e credibilidade. Opositores: erosão e disputa de liderança:: Jarbas de Holanda

Firmeza na limitação a R$ 545 do reajuste do salário mínimo, rejeitando as agressivas demandas contrárias das centrais sindicais, dobrando as resistências manifestadas no PT, negociando o apoio da maioria da bancada do PMDB, bem como enquadrando as dos demais partidos da base aliada, inclusive o recalcitrante PDT. E a antecipação na semana passada de um corte de gastos do governo – acima do que se previa fosse capaz de adotar, embora abaixo do que vários analistas consideram necessário dado o grau de descontrole das contas públicas federais nos últimos dois anos. Com essas decisões (a primeira das quais dependente de respaldo do Congresso, a partir da provável aprovação hoje na Câmara), a presidente Dilma Rousseff, sob a ameaça de persistente pressão inflacionária e do risco de ampla reindexação da economia, deixou para trás a negação da carência de um ajuste fiscal, feita nos palanques de sua campanha, convencida agora de que se tais medidas não forem aplicadas de pronto poderá comprometer todo o seu mandato.

As duas decisões ou iniciativas foram bem recebidas pelos grandes veículos da mídia em editoriais que as avaliaram como voltadas na direção certa, embora ainda insuficientes. Mas o tom do debate que se tem seguido está dominado pelo ceticismo doa agentes econômicos e dos analistas, especialmente a respeito da qualidade do corte de gastos (a ser ainda detalhado) e de sua efetiva implementação, devido à falta de credibilidade do conjunto do governo e em particular da equipe econômica para ações desse caráter. Falta essa cuja ultrapassagem constitui um outro desafio para a presidente Dilma – adicional e condicionante da obtenção de resultados concretos no controle inflacionário.

Seguem-se títulos e trechos de duas grandes reportagens de ontem, bem expressivas de tal ceticismo. Do Valor: “Analistas projetam mais inflação e ciclo mais longo de juros”. “O mercado não acreditou na efetividade do corte de R$ 50 bilhões nos gastos públicos, e as expectativas inflacionárias que já estavam bem acima do centro da meta, de 4,5%, pioraram muito. Os economistas, agora, já esperam um ciclo mais longo de alta de juros e um menor crescimento do PIB em 2011”. “Com relação à taxa de câmbio, também houve redução para baixo das projeções. O mercado acredita que a cotação do dólar encerará o ano na casa dos R$1,7”. Do Estado de S. Paulo: “Corte de gasto não convence o mercado , que volta a elevar projeção de inflação”. “Analistas ouvidos pela pesquisa Focus (feita pelo Banco Central)alteram projeção do IPEA de 5,66% para 5,75% e já há quem veja risco de descumprimento da meta em 2011”. E o editorial do Valor, de anteontem, com o título “Ajuste indica que tributos podem aumentar este ano”, vincula o pacote do corte de gastos a possível aumento da carga fiscal. Por meio da recriação da CPMF, que teve apoio unânime da bancada do PT em reunião promovido na semana passada. O texto conclui afirmando que “novas investidas do Estado sobre a economia em busca de mais receitas serão muito mal recebidas”.

A erosão do DEM e a disputa no PSDB - Enquanto no campo dos partidos situacionistas os problemas básicos no relacionamento entre eles, que se manifestam neste início de legislatura e do governo Dilma, são os conflitos em torno de caros da máquina administrativa federal e do controle do Congresso, apenas começando a configurar-se contradições sobre projetos eleitorais futuros e temas político-institucionais, enquanto isso no polo oposicionista desenvolvem-se dois processos negativos. O de erosão da segunda maior legenda, o DEM, estimulado pelo polo adversário e com ele articulado. E o de paralisia ou emperramento de definições e iniciativas do partido mais importante, o PSDB. Quanto ao DEM, já afetado por forte queda das bancadas federais, está em vias de sofrer a acentuação dessa queda e expressiva redução de seu peso político geral com o desligamento do prefeito da capital de São Paulo, Gilberto Kassab, de um dos governadores que conseguiu eleger, o de Santa Catarina, Raymundo Colombo, e de grande número de prefeitos nos dois estados, além de vários deputados estaduais e federais.

Abertura de artigo, na Folha de S. Paulo de ontem, do colunista Vinícius Torres Freire, intitulado “A oposição se desmancha”: “A agonia dos partidos de oposição é evidente desde 2010. Há tempos doentes, de dengue programática e anorexia social, partidos como PSDB e DEM parecem agora ter-se entregue à autoamputação. Gilberto Kassab pode causar a hemorragia de um terço dos quadros de seu DEM, a caminho que está de algum outro partido que lhe dê a legenda para o governo paulista em 2014 e para boas relações com o petismo”. “... José Serra talvez ameace cortar braços e pernas do PSDB, dada a disputa que trava com Alckmin e com Aécio Neves, mas o fato mesmo de que sugira a cisão ilustra o baixo nível da discórdia tucana”.

É jornalista

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Trabalhadores perdem 1ª batalha da “Era” Dilma (PT)

Dilma vence 1ª batalha na votação do mínimo

No primeiro teste da presidente Dilma Rousseff no Congresso, a Câmara dos Deputados aprovou ontem à noite o projeto que fixa o salário mínimo em R$ 545. O texto-base passou em votação simbólica, com voto contrário apenas do PSOL. Mas a fidelidade da base aliada seria colocada à prova, ainda ontem à noite, na votação de destaques ao texto: um deles fixava o mínimo em R$ 560, e outro, em R$ 600.

Durante os debates no plenário, houve uma inversão de papéis: ex-presidente da CUT, o deputado Vicentinho (PT-SP), relator do projeto apresentado pelo governo, foi vaiado por manifestantes da Força Sindical que lotavam as galerias. E parlamentares tradicionalmente rivais da esquerda, como Ronaldo Caiado (DEM-GO), ex-presidente da UDR, foram aplaudidos ao defender um valor maior.

Câmara aprova projeto de Dilma

O TESTE DO MÍNIMO

Governo pressiona e esvazia propostas da oposição; valor final seria votado ainda ontem

Cristiane Jungblut e Isabel Braga


Com a base enquadrada diante de ameaça de perda de cargos e a oposição dividida, a presidente Dilma Rousseff enfrentou bem o primeiro teste parlamentar de seu governo, na votação de uma proposta impopular. A Câmara dos Deputados aprovou o texto-base do projeto que fixa o salário mínimo em R$545, em votação simbólica. Aprovado o texto-base, os deputados ainda precisavam votar nominalmente, na noite de ontem, as emendas de R$600 e R$560 como valores alternativos para o mínimo. O projeto estabelece uma política de reajuste para o benefício até 2015.

Desde cedo os defensores da emenda de R$560 já admitiam a derrota. Iniciada às 13h40m, a sessão da Câmara se arrastou pelo dia e pela noite. Com a matéria vencida na Câmara, o governo quer votar o novo mínimo no Senado na próxima quarta-feira para que entre em vigor a partir de 1º de março.

Conforme acordo de procedimentos entre governo e oposição, primeiro foi aprovado o texto-base do projeto. Mas o valor final do mínimo só seria conhecido depois de votadas as emendas com valores de R$600 e de R$560. A votação nominal das duas emendas, em especial dos R$560, era o teste real da lealdade da base aliada, exigida pela presidente Dilma Rousseff.

Governo quer fixar mínimo por decreto

Um artigo incluído no projeto surpreendeu o plenário e acabou atrasando a votação. Pelo texto, a partir de 2012, a presidente Dilma Rousseff poderá fixar o valor do mínimo por meio de decreto e não mais por medida provisória. Na prática, com isso, Dilma fugirá do debate, a cada ano, sobre o mínimo no Congresso. E a oposição perde o palanque. O relator Vicentinho (PT-SP) teve que apresentar uma emenda deixando claro que o decreto se baseará na lei aprovada agora pela Câmara, e se limitará a definir o percentual do reajuste com base nas regras aprovadas até 2015.

A proposta de R$545 terá um impacto de R$7,84 bilhões em 2011, sendo que os R$5 de diferença entre os R$540 e os R$545 será de R$1,36 bilhão. Já em 2012, pela regra de reajuste - inflação do período mais o PIB de dois anos anteriores - o mínimo deverá subir para R$616.

O líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), previa placar confortável.
- Devemos aprovar com pouco menos de 300 votos, mas teremos cerca de 80 votos a mais dos que os que são contra - disse Vaccarezza.

O líder do PMDB, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), fez questão de defender o projeto de R$545 para mostrar lealdade.

- É a posição do meu governo, e é esperada pelo povo brasileiro. Essa bancada vai mostrar hoje sua cara. O PMDB vai oferecer os seus 77 votos a favor do governo - disse Henrique Eduardo Alves, sendo aplaudido.

Do lado da oposição, a situação só piorava ao longo do dia. No início da noite, não houve nem acordo entre eles em torno de uma proposta do presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP): que o valor de R$560 seria fruto da antecipação de 2,9% do reajuste que seria dado em 2012.

Os líderes do DEM, ACM Neto (BA), e do PSDB, Duarte Nogueira (SP), responderam a Paulinho, afirmando que não aceitavam a antecipação e mantiveram a proposta de R$560.

- O DEM não quer antecipar o que vai acontecer no ano que vem. O DEM quer garantir os R$560 já. O acordo em torno dos R$560 não previa antecipação - disse ACM Neto.

- Lamentamos - disse Paulo Pereira da Silva, que passou o dia fazendo campanha pelos R$560 a título de antecipação.

Na prática, a pressão do governo esvaziou o movimento a favor de um valor diferente de R$545. O cerco do Palácio do Planalto sobre o PDT esvaziou qualquer esperança de vitória.

-- É muito difícil ganhar do governo. Para ganhar do governo é preciso dormir 18 dias na Praça (Tahir) - disse Paulinho, em referência aos 18 dias de protestos que derrubaram o ex-presidente do Egito Hosni Mubarak.

O líder do DEM, ACM Neto, admitiu antes da votação que o governo era favorito e criticou a forma como a presidente está tratando a questão:

- O governo é favorito, todo mundo sabe disso. Isso se tornou um enfrentamento político, uma questão de força política. Ela está testando a sua base - disse ACM Neto.

Pelo projeto do governo, o novo valor do mínimo de R$545 deverá valer a partir de 1º de março, se o texto for aprovado já na próxima semana no Senado. A "novela" sobre o salário mínimo de 2011 começou em dezembro, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou medida provisória fixando o mínimo em R$540 a partir de 1º de janeiro, com uma correção de 5,88%. O problema é que a inflação cheia, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), foi de 6,47%, o que faria o valor ser de R$543. A presidente Dilma Rousseff decidiu "arredondar" o valor para R$545 - uma diferença de R$2, ou de 0,38%.

FONTE: O GLOBO

Planalto avisa que PDT será tratado a 'pão e água' por defender os R$560

O TESTE DO MÍNIMO

Governo enquadra partido para evitar que aliados se rebelem no futuro

Gerson Camarotti, Chico de Gois e Isabel Braga

BRASÍLIA. A presidente Dilma Rousseff e a coordenação política do governo decidiram reagir de forma exemplar contra dissidentes para evitar a contaminação da base em futuras votações importantes. Antes do resultado da votação, o PDT foi alertado ontem pelo Planalto que será tratado a "pão e água" por causa do comportamento do partido durante a discussão do mínimo.

O líder do governo, Cândido Vaccarezza, afirmou:

- O que o governo espera do PDT é que vote como governo e não com a oposição.

O líder do PDT na Câmara, Giovanni Queiroz, reagiu:

- O PDT é aliado, não subordinado.

Único partido da base a bombardear a proposta de R$545, o PDT foi ameaçado de ser retaliado no loteamento dos cargos de segundo escalão e está arriscado a perder espaço no governo. Mas apesar da contrariedade da presidente Dilma, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, será mantido no cargo. Na votação do mínimo, a bancada do PDT votou a favor do texto-base, mas ficou liberada para votar contra o governo nos destaques.

A decisão do Planalto de enquadrar o PDT e outros eventuais dissidentes foi tomada ontem, numa reunião coordenada pelo chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e com as presenças dos ministros Luiz Sérgio (Relações Institucionais), Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) e dos líderes do PT no Senado, Humberto Costa (PE), na Câmara, deputado Paulo Teixeira (SP), e do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).

Para o Planalto, Lupi teve atuação "tímida"

A constatação palaciana é que se não houvesse um "enquadramento pedagógico" do PDT, o governo seria desmoralizado. O consenso era que a votação não corria risco, mesmo com a posição dúbia do PDT. Mas, sem reação ao exemplo dos pedetistas, o governo teme que a desobediência se repita.

Dilma foi avisada por Palocci sobre o cenário na Câmara e avalizou o endurecimento na relação do governo com o PDT. Também ficou decidido que não haverá flexibilização no valor do salário mínimo de R$545, quando a matéria for para o Senado.

Só depois do recado do Planalto Lupi saiu a campo e liberou a bancada com promessa de metade dos votos para os R$545. O Planalto considerou a atuação de Lupi "tímida, constrangida", além de ter vindo muito tarde, nas palavras de um ministro.

Outros ministros, como Mário Negromonte (Cidades), do PP, Alfredo Nascimento (Transportes), do PR, e Fernando Bezerra (Integração Nacional), do PSB, garantiram maioria folgada em suas respectivas bancadas.

A reunião de ontem do PDT foi quase um contramovimento da bancada a Lupi. Isso porque muitos lembraram os compromissos históricos do partido, e alguns disseram que não apoiavam o governo por cargos.

- Há uma crise de liderança no PDT - avaliou um auxiliar da presidente.

No final do dia de ontem, depois de participar de reunião em que a bancada do PDT foi liberada, o presidente interino do partido, Manoel Dias, calculava que os R$560 teriam pouco mais de oito votos:

- O PDT está no governo. Se o governo fecha questão, a maioria dos aliados aceita, ou aceitamos ou pedimos o chapéu.

Dias justificou a atitude frouxa de Lupi em pedir que a bancada votasse os R$545:

- Ele não pediu porque teríamos reunião permanente. As coisas evoluíram de última hora. Brigamos até onde era possível, mas não sendo vitoriosos, a maioria da bancada caminhará com os R$545.

Dilma ficou contrariada com Lupi. Para o Planalto, o PDT não deveria ter permitido que o deputado Paulinho da Força (PDT-SP) tivesse contaminado o restante da bancada.

FONTE: O GLOBO

No PMDB, ordem unida por R$545

Adriana Vasconcelos

BRASÍLIA. Nada de troco agora, mas pode haver mais adiante. O PMDB parece ter entendido bem o recado do Palácio do Planalto aos possíveis dissidentes da base governista na votação da medida provisória do salário mínimo. De olho na retomada das nomeações para o segundo e terceiro escalões do governo, o vice-presidente Michel Temer foi para Câmara e, com o líder do partido, Henrique Eduardo Alves (RN), se empenhou ontem em convencer os colegas de legenda a engolir eventuais insatisfações, para ajudar o partido a mostrar toda sua força e peso.

Na tentativa de assegurar uma posição unânime da bancada a favor do mínimo de R$545, Alves chegou a convocar pelo menos dois deputados licenciados do Rio, Pedro Paulo e Leonardo Picciani, para a votação.

- Minha expectativa é garantir todos os 77 votos da bancada a favor do mínimo de R$545. Quero mostrar que o PMDB pode votar unido não só hoje (ontem), seja a favor ou contra - observou Alves, devolvendo as ameaças feitas pelo Planalto.

Alves recebeu a ajuda de Temer em seu esforço para garantir a unidade do partido na votação do mínimo. Convidado pelo líder do PMDB a expor ontem para a bancada sua proposta de reforma política, Temer aproveitou a oportunidade para fazer um apelo aos deputados peemedebistas.

- Temos de manter a nossa unidade, porque a força política de qualquer partido se dá pela sua unidade de ação - disse Temer, aplaudido pela bancada.

FONTE: O GLOBO

Vaias, churrasco e decepções

Trabalhadores e representantes das centrais sindicais passaram o dia na Câmara torcendo para que pelo menos os R$ 560 fossem aprovados pelos parlamentares. A pressão foi maior durante a manhã

Josie Jeronimo

A contraofensiva do Planalto para enquadrar a base e pressionar os integrantes da base governista a votar favoravelmente ao projeto que estabelece em R$ 545 o salário mínimo de 2011 refletiu no comportamento de integrantes de movimentos sociais que tradicionalmente lotam as galerias do plenário da Câmara.

Na manhã de ontem, representantes das entidades sindicais ainda tinham a esperança de que a proposta de R$ 560 tivesse vitória. Organizaram um churrasco, subiram em carro de som e ocuparam o gramado em frente ao espelho d’água do Congresso. No início da tarde, a chuva e as informações de que o Planalto já havia retomado o controle de sua base dispersaram grande parte dos manifestantes.

Os mais insistentes ocuparam cerca de um terço das galerias do plenário da Câmara. Trabalhadores ligados à Força Sindical, Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) e Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (Cobap) resistiram aos longos discursos dos cerca de 60 parlamentares inscritos para usar a tribuna.

As vaias que tomavam os discursos a cada vez que um deputado usava a vez para defender a proposta do governo desmentiam o pequeno número de manifestantes que passaram a tarde e a noite na Câmara. Quando o relator do projeto do governo, deputado Vicentinho (PT-SP), leu e defendeu a proposta de R$ 545, dezenas de representantes de entidades trabalhistas reforçaram a vaia.

Contrariando a lógica histórica, os parlamentares do DEM, como Ronaldo Caiado (GO) e Antônio Carlos Magalhães Neto (BA), por sua vez, foram aplaudidos pelos sindicalistas. Deputados da base chegaram a pedir que as galerias fossem esvaziadas. O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) ressaltou a ausência de representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT) na fileira dos manifestantes.

Gosto amargo

A lembrança da central mais vinculada ao PT, no entanto, foi marcada pelas intervenções de Vicentinho. Presenciar o ex-presidente da CUT representando o Planalto em uma proposição que, segundo as entidades sindicais, prejudica os assalariados teve um gosto amargo para os ex-companheiros, desabafou Paulo Sabóia, presidente da CGTB. “É triste ver um partido que era de oposição se curvar a essa política neoliberal. Fazer arrocho em cima de salário mínimo é revoltante. Isso é que é tergiversar”, disse, referindo-se à expressão usada com frequência por Dilma Rousseff. “Ele (Vicentinho) não podia se prestar a esse papel. O país tem 90 milhões de ocupados e o salário mínimo vai afetar 47 milhões. O líder do governo chegou às raias de fazer ameaça subliminar para aprovar o projeto”, reclamou o presidente da CGTB.

O trabalhador rural Noé de Oliveira Santos, morador de São Sebastião, engrossou o coro dos manifestantes das centrais. Noé, que sustenta a família com o salário mínimo que recebe, defende a proposta de R$ 600. “Se a gente estabelecesse R$ 600, já ajudava muito os trabalhadores. Acho que, para o cidadão ter uma vida digna, ele deveria ganhar pelo menos R$ 1,2 mil.”

Aposentados que ganham um mínimo e mais de um salário também acompanharam de perto as discussões. Os pensionistas que têm o benefício vinculado ao salário-base dos trabalhadores da ativa fizeram barulho pela aprovação do mínimo de R$ 560. Atentos à discussão que se desdobrará após o projeto do governo deixar o Congresso, os aposentados que ganham mais de um mínimo aproveitaram a mobilização para pressionar por projeto de recuperação de perdas das aposentadorias e regra para vincular o índice de reajuste do mínimo ao do benefício. “Eu me aposentei em 1993 ganhando cinco salários mínimos, agora ganho dois. O PT só fala nossa língua quando está na rua. Quando chega ao governo, muda até o linguajar”, reclama o aposentado Amadeu Lima.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Oposição promete ir ao STF contra reajuste por decreto

A oposição anunciou que vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal para impedir que o salário mínimo seja reajustado por decreto nos próximos anos. O texto aprovado ontem pela Câmara estabelece que o aumento seja feito por decreto, seguindo a regra da lei: PIB de dois anos anteriores mais inflação anual.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Liberação de emendas nas vésperas de votação do mínimo cresce 441%

Nos primeiros 11 dias do mês de fevereiro, o Executivo repassou a deputados e senadores R$ 653,7 milhões, montante que se refere a gastos que tinham ficado pendentes no governo anterior; deputado Paulinho, da Força Sindical, recebeu R$ 2 milhões

Marta Salomon

BRASÍLIA - Nos primeiros 11 dias de fevereiro, às vésperas da votação do valor do novo salário mínimo, o governo pagou R$ 653,7 milhões de gastos autorizados ou ampliados por meio de emendas parlamentares. O ritmo de liberação de verbas públicas nesse período aumentou 441% em relação a janeiro.

Os gastos referem-se a contas pendentes de pagamento do ano passado (os chamados restos a pagar) e equivalem a 7% do saldo deixado até o último dia de governo Luiz Inácio Lula da Silva das despesas que foram objeto de emendas parlamentares.

Entre os agraciados com direito a voto na definição do novo salário mínimo, destaca-se o deputado Paulinho Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical. Ele teve R$ 2 milhões liberados para ações de orientação profissional e intermediação de mão de obra em São Paulo. Apesar de integrar a base governista, Paulinho não defendeu o valor do mínimo de R$ 545, fixado pelo governo.

Por meio da assessoria, o deputado informou que não negociaria voto em troca do pagamento de emendas. O dinheiro liberado teria sido pedido pelo Ministério do Trabalho, comandado pelo presidente do PDT e companheiro de partido Carlos Lupi.

O apoio de parte do PDT a um valor maior do salário mínimo, de R$ 560, deixou o ministro Lupi numa situação delicada. Integrantes da base aliada defenderam que Lupi fosse demitido após a votação do mínimo ontem na Câmara. Até o fechamento desta edição, a votação não havia sido concluída. O constrangimento levou a bancada do PDT a liberar os deputados na votação, sem fechar questão a favor do valor de R$ 560 (leia texto ao lado).

Tradição. O petista Jorge Boeira (SC) disse que não negociou seu voto. "Sempre fui governo e defendo esse governo." Tradicional frequentador da lista de campeões em liberação de emendas parlamentares, o deputado alega que o sucesso se deve ao perfil das emendas, concentradas na área de educação. Ele teve liberados R$ 1,3 milhão para obras em instituições federais de educação e para o transporte escolar.

Outro pedetista da lista de campeões de liberação de verbas neste início de ano, o deputado Sebastião Bala Rocha (PDT-AP) teve R$ 784 mil pagos de uma emenda para o sistema de saúde do Amapá. Ontem, disse que não troca voto por emenda. "Não tem relação, vou votar pelos R$ 560 reais."

"Fui premiado", reagiu Chico da Princesa (PR-PR), contemplado com a liberação de R$ 1,7 milhão para programas de saúde no Paraná e a construção de cartório eleitoral no município de Joaquim Távora. Princesa não foi reeleito. "Estava tudo empenhado, o governo tinha de pagar", comenta o ex-deputado.

Tampouco foram reeleitos outros campeões em liberação de verbas, como Solange de Almeida (PMDB-RJ), com mais de R$ 4 milhões de emendas pagas, e Flávio Bezerra (PMDB-CE), com R$ 2 milhões de verbas liberadas. Ambos centraram as propostas de gastos em investimentos do Fundo Nacional de Saúde nas suas bases eleitorais.
O levantamento da liberação de emendas foi feito pelo Siga, sistema operado pelo Senado. Para listar os campeões de verbas, o Estado se baseou num montante de R$ 32,6 milhões de despesas propostas por emendas individuais de parlamentares. Foram desconsiderados os programas que tiveram reforço de verbas por emendas.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

PT escolhe réu do mensalão para CCJ

Réu no processo do mensalão, por lavagem de dinheiro, o deputado João Paulo Cunha foi escolhido pelo PT para presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, a mais importante da Casa. O PT fatiou o mandato de dois anos: João Paulo comandará a CCJ no primeiro ano e Ricardo Berzoini no segundo.

Réu do mensalão, petista comandará a principal comissão da Câmara

PT escolhe João Paulo Cunha, acusado de lavagem de dinheiro, para presidir CCJ

Isabel Braga e Adriana Vasconcelos

BRASÍLIA. Num acordo fechado pela cúpula petista, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), um dos réus no processo do mensalão que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), presidirá a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), principal comissão temática da Câmara. Ele foi o escolhido para iniciar o rodízio no comando da CCJ com o colega Ricardo Berzoini (PT-SP), que ocupará seu lugar no segundo ano do mandato de dois anos da presidência da comissão.

O fatiamento do mandato foi a fórmula usada para dar fim ao embate entre alas da bancada petista que disputam espaço na Câmara, desde a escolha do deputado Marco Maia (PT-RS) para presidir a Casa. A vaga na CCJ estava sendo agressivamente disputada por João Paulo e Berzoini.

No processo do mensalão, João Paulo é réu por lavagem de dinheiro, corrupção e peculato. Segundo a denúncia da Procuradoria Geral da Republica, ele teria enviado a esposa, Márcia Regina Cunha, ao Banco Rural para receber R$50 mil do esquema operado pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. O objetivo seria "ocultar a origem, natureza e o real destinatário do valor pago como propina".

João Paulo disse que trabalhará para dar celeridade aos projetos na CCJ. Ao ser perguntado se o fato de ser réu no processo do mensalão poderá prejudicar sua atuação, respondeu:

- Não sou condenado, fui reeleito, nas duas últimas votações, o mais votado do PT. Estou seguro da minha inocência e confiante na Justiça. Vou ajudar a dar celeridade às leis e às medidas para um país melhor.

Líder do PT, Paulo Teixeira (SP) disse não ver problema no fato de João Paulo assumir a CCJ:

- Ele está gozando plenamente seus direitos políticos. O vínculo dele com a bancada dá condições de pleno exercício de qualquer função.

O PT usou método semelhante adotado pelo partido no Senado, onde o mandato de dois anos na vice-presidência da Mesa Diretora foi dividido entre Marta Suplicy (SP) e José Pimentel (CE). O acordo na Câmara garantiu ainda, à ala que apoiou a eleição de Maia, mais espaço na Casa: Arlindo Chinaglia (PT-SP), um dos coordenadores da campanha de Maia, será o relator do Orçamento da União deste ano.

Comissão de Infraestrutura do Senado ficará com PSDB

Indagado se o método de dividir a ocupação de espaços estava sendo recorrente no PT, Teixeira brincou:

- Não é divididinho, é unidinho. O partido está inteiro, vibrante. Houve um entendimento de natureza política, não teve vitória ou derrota.

No Senado, os líderes partidários chegaram a um consenso sobre a distribuição das comissões. Prevaleceu o critério da proporcionalidade partidária, conforme vinha sendo defendido pela Mesa Diretora.

Mesmo contrariado, o PT, que reivindicava a aplicação da regra da proporcionalidade dos blocos partidários - por liderar o maior deles -, aceitou o acordo e desistiu de disputar no voto com os tucanos a presidência da Comissão de Infraestrutura. O posto é estratégico para o governo petista, devido às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Essa comissão ficará com o PSDB.

Colaborou: Cristiane Jungblut

FONTE: O GLOBO

Protestos antirregime chegam à Líbia

ONDAS E REVOLTAS

País governado desde 1969 por Gaddafi registra primeiras ações opositoras após o início das revoltas na região

Confronto em cidade no litoral deixa 38 feridos; Gaddafi, neoaliado dos EUA, promete aumento de salários em reação

A onda de protestos que assola países árabes e do Oriente Médio há dois meses chegou ontem pela primeira vez à Líbia, onde confrontos entre opositores antirregime e forças de segurança deixaram ao menos 38 feridos.

O país governado desde 1969 pelo ditador Muammar Gaddafi, mais longevo mandatário africano, era um dos poucos até então imunes às revoltas que depuseram ditadores na Tunísia e no Egito e já ameaçam outros líderes.Segundo relatos, as manifestações eclodiram na cidade mediterrânea de Benghazi -a cerca de 1.000 km da capital, Trípoli-, com tradição de oposição, e tiveram como estopim a prisão de um ativista de direitos humanos.

Em pouco tempo, porém, assumiram contornos anti-Gaddafi, com algumas centenas de pessoas ateando fogo em carros e atacando a sede das forças de segurança, que reagiram com balas de borracha e com canhões d"água.Vídeo postado na internet mostrava manifestantes entoando cânticos de "nenhum Deus além de Alá. Muammar é inimigo de Alá" e "abaixo a corrupção e os corruptos".

Nas cidades de Zentan, cerca de 120 km ao sul de Trípoli, e Beyida, a leste de Benghazi, manifestantes atacaram delegacias de polícia.

Segundo a ONG Human Rights Watch, nove opositores foram presos pelo governo em Trípoli e Benghazi. O ativista cuja detenção desatou o início dos protestos foi solto horas mais tarde.

Os protestos foram contidos em poucas horas, mas seus organizadores convocaram para hoje um "dia de fúria", a exemplo de movimentos organizados em países da região nas últimas semanas.

Os levantes não foram noticiados pela imprensa oficial, mas a TV estatal transmitiu atos de apoiadores do ditador líbio e a convocação de novas ações em defesa de Gaddafi, refletindo o temor do regime de que os protestos se espalhem pelo país.

O governo líbio anunciou ainda aumento de 100% nos salários dos funcionários públicos e a libertação de 110 supostos ativistas de organização islâmica proscrita.

PETRÓLEO

Durante muito tempo um pária internacional e alvo de sanções, a Líbia de Gaddafi se reaproximou nos últimos anos dos EUA e é atualmente aliado americano na região.

Com índices sociais e econômicos relativamente mais avançados do que os de vizinhos, o país de 6,5 milhões de habitantes tem importância estratégica por deter as maiores reservas comprovadas de petróleo da África. São 47 bilhões de barris.

Gaddafi, que chegou ao poder mediante golpe militar, governa há mais de 40 anos com poderes quase ilimitados, sem Parlamento eleito e sem Constituição.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO E DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Confrontos sacodem Iêmen

Pelo sexto dia consecutivo, o Iêmen foi palco ontem de manifestações contra o presidente Ali Abdullah Saleh. Centenas de pessoas saíram às ruas da capital, Sanaa, e das cidades de Áden e Taiz. Na capital, estudantes fizeram uma passeata por ruas próximas à Universidade de Sanaa. Muitos manifestantes são jovens desempregados – a taxa de desemprego no Iêmen é superior a 35%. Partidários de Saleh – no poder há 32 anos – se armaram com cassetetes, facas e pedras para atacar os jovens na saída da universidade, de onde iriam ao palácio presidencial.

– Não somos mais fracos que os tunisianos e os egípcios, e nossa situação é pior que a deles – disse o estudante universitário Rafea Abdullah, referindo-se às revoltas populares que derrubaram o ditador tunisiano Zine el Abidine Ben Ali e o presidente egípcio Hosni Mubarak.

Em Áden, um manifestante morreu e outros três ficaram feridos durante confrontos com a polícia em Áden, a principal cidade do sul do Iêmen. Em Sanaa, três jornalistas foram agredidos por partidários do Congresso Popular Geral (CPG, no poder) durante a repressão à manifestação.

FONTE: ZERO HORA (RS)

Ameaça não impede novo confronto no Irã

Grupos pró e contra Ahmadinejad se enfrentam em funeral de universitário morto durante a manifestação de segunda-feira

Teerã – Partidários do governo iraniano entraram em confronto com manifestantes da oposição ontem, durante o funeral de um estudante baleado em um protesto contra o governo há dois dias, o primeiro em um ano. A informação é da emissora estatal Irib. O curdo sunita, Sanee Zhaleh, se tornou um mártir tanto para os partidários como para os oponentes do presidente do país, Mahmud Ahmadinejad. As duas partes trocam acusações de responsabilidade pela morte do jovem, de 26 anos.

A TV estatal mostrou milhares de manifestantes pró-governo na cerimônia do funeral de Zhaleh, na Universidade de Teerã, onde ele estudava. Segundo a versão oficial, "estudantes e as pessoas que estavam no enterro de Zhaleh se chocaram com alguns membros do Movimento de Sedição (incitação ao motim) e os forçaram a sair do local, entoando slogans de “morte aos hipócritas”. O enfrentamento ocorreu no dia seguinte à ameaça de Ahmadinejad de não aceitar a revolta da oposição. Ele também prometeu combater os “inimigos do país”.

De acordo com a agência de notícias Fars, o mártir iraniano era membro da Basij, milícia formada por voluntários e ligada à Guarda Revolucionária do Irã, unidade militar da elite do regime. A Basij teve papel importante na supressão dos protestos contra o governo em 2009. Sites da oposição não negam que ele fosse um membro da milícia – que tem milhões de integrantes por todo o país –, mas disseram que ele foi à manifestação na condição de ativo partidário dos protestos contra o governo. De acordo com esta versão, o funeral foi organizado pela seção estudantil da milícia. Além do jovem, um outra pessoa morreu nos protestos de segunda-feira, que foram encabeçados pelos dirigentes da oposição no país, Mir Hossein Mussavi e Mehdi Karubi. Ambos agora estão em prisão domiciliar. Na terça-feira, deputados pró-governo chegaram a pedir a execução deles.

Ontem, eles pediram ao governo que "ouça o povo", em declarações publicadas na internet. "Eu os alerto, abram os ouvidos antes que seja tarde demais", afirmou Karubi, o ex-presidente reformador do Parlamento. "As ações violentas e a hostilidade ante as exigências da população só podem ajudar a manter a situação atual durante certo tempo. Aprendam a lição do destino dos poderes que se afastaram do povo", acrescentou o líder, aludindo às recentes revoltas no Egito e na Tunísia.

Mas o procurador-geral do Irã, Gholam Hossein Mohseni Ejeie, advertiu que serão tomadas ações contra os mentores dos protestos e afirmou que várias pessoas foram presas na segunda-feira. A maioria teria sido libertada na sequência. O governo também convocou um comício contra os "chefes da sedição" para amanhã, depois das habituais orações. Na cidade sagrada de Qom, partidários do regime se reuniram ontem na principal escola religiosa da área para ouvir o clérigo linha-dura aiatolá Ahmad Khatami.
FONTE: ESTADO DE MINAS

Maria Rita- Não Deixe o Samba Morrer(DVD)

O Rio – continuação:: João Cabral de Melo Neto

Ou
relação da viagem
que faz o Capibaribe
de sua nascente
à cidade do Recife

trem de ferro

Agora vou deixando
o município de Limoeiro.
Lá dentro da cidade
havia encontrado o trem de ferro.
Faz a viagem do mar
mas não será meu companheiro,
apesar dos caminhos
que quase sempre vão paralelos.
Sobre seu leito liso,
com seu fôlego de ferro,
lá no mar do Arrecife
ele chegará muito primeiro.
Sou um rio de várzea,
não posso ir tão ligeiro.
Mesmo que o mar os chame,
os rios, como os bois, são ronceiros.

Outra vez ouço o trem
ao me aproximar de Carpina.
Vai passar chã, lá por cima.
Detém-se raramente,
pois que sempre está fugindo,
esquivando apressado
as coisas de seu caminho.
Diversa da dos trens
é a viagem que fazem os rios:
convivem com as coisas
entre as quais vão fluindo;
demoram nos remansos
para descansar e dormir;
convivem com a gente
sem se apressar em fugir.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Reflexão do dia – Merval Pereira

Durante a campanha eleitoral, a candidata Dilma Rousseff garantia, naquela sua maneira rude de falar que anda sumida, pelo sucesso da quase mudez: "Não vou fazer ajuste fiscal em hipótese alguma. O Brasil não precisa de ajuste fiscal."

O "ajuste fiscal" de R$50 bilhões anunciado agora pelo governo, necessário para reequilibrar as contas públicas, não é chamado de "ajuste fiscal", e sim de "consolidação orçamentária".

E assim o novo governo vai seguindo os passos do antecessor, fazendo as inevitáveis maldades nos primeiros momentos, por uma necessidade criada por ele mesmo.

PEREIRA, Merval. A rainha imaginária. O Globo, 15/2/2011.

Torre de Babel:: Dora Kramer

Há uma comissão no Senado, outra na Câmara, todos os partidos e políticos estão interessados em debater e até o vice-presidente da República rascunhou uma proposta para ser apresentada ao Congresso.

A reforma política está na ordem do dia. Se não ainda de direito, pelo menos de fato porque é só disso que se fala.

O problema é que ninguém sabe direito o que quer, para além dos respectivos interesses partidários. Sendo assim, sem querer ser desmancha-prazeres, o mais provável é que mais uma vez não se chegue a lugar algum.

Ou pior, que a exemplo de outras ocasiões em que se tentou fazer alterações, se façam mudanças cosméticas com o objetivo de mudar só o que mais desconforta suas excelências.

E, neste momento, o ponto em comum é a abertura da chamada "janela" na legislação de modo a permitir o troca-troca de legendas durante certo período e, assim, burlar a interpretação do Supremo Tribunal Federal à Constituição, de que os mandatos pertencem aos partidos e não aos eleitos.

Seria leviano e precipitado afirmar que esse debate todo esconde o desejo exclusivo de aprovar a "janela" até outubro, prazo final para alterações na legislação que presidirá as eleições municipais de outubro de 2012.

Não há razão para duvidar de que existam realmente outras e boas intenções nessa movimentação. Ocorre, porém, que falta organização e principalmente ainda está ausente da discussão o principal interessado: o eleitorado.

Enquanto cada partido estiver falando um idioma e de forma dispersa, a sociedade continuará apartada do debate. Não adianta um propor o "distritão", outro o distrital, um terceiro falar em lista fechada, dois ou três defenderem o financiamento público de campanha, porque tudo isso soa como grego antigo a ouvidos leigos.

Sem uma pauta clara, compreensível, traduzida para linguagem comum com exposição de todos os prós e contras, identificando claramente os interesses envolvidos, explicando o que e onde o sistema representativo perde ou ganha, não haverá reforma, mas remendo.

Vox populi. José Sarney saiu-se com gracejo à mensagem postada indevidamente na página do Supremo Tribunal Federal no Twitter instando-o a "pendurar as chuteiras" por impossibilidade de reagir de outra forma.

Ou fazia piada ou se tornava ele próprio a piada, dada a identificação popular com o pleito da funcionária tuiteira.

De maduro. Quem pergunta ao PMDB sobre a ida de Gilberto Kassab, ouve que o prefeito de São Paulo "está louco para vir". Se a pergunta é feita na mão inversa, quem fica no papel de ansioso é o PMDB.

Fato é que em ambos os lados começa a surgir uma leve impressão de que a adesão do prefeito às hostes pemedebistas pode ter subido no telhado e de lá em breve ir ao chão.

Gordura. A anunciada decisão do presidente do Senado de cortar o pagamento de horas extras aos servidores ocupantes de cargos em comissão só ressalta os privilégios do Legislativo.

No Judiciário, por exemplo, quem tem cargo de confiança não tem direito a hora extra. Com base no pressuposto de que se o posto é de confiança o servidor está disponível o tempo todo. Nenhuma hora de trabalho, portanto, é considerada "extra".

Faltava essa. Marta Suplicy tem recebido o tratamento de "presidenta" quando na presidência das sessões do Senado.

Slogan. Na verdade, país rico é país educado, com bom atendimento de saúde, sentido ético, infraestrutura suficiente para sustentar o desenvolvimento, preocupado em preservar o meio ambiente, capaz de garantir segurança ao público e, sobretudo, com uma sociedade que não se deixa enganar por políticos farsantes.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Enfim, na oposição:: Merval Pereira

Nada indica que o governo vá perder a primeira batalha no Congresso, sendo derrotado por sua própria base parlamentar na definição do novo salário mínimo. Mas provavelmente terá algumas baixas em partidos como o PMDB e o PDT, o que já delimitará os limites reais de sua sustentação política, mas nem de longe definirá o tamanho exato de sua maioria.

Este é o Congresso mais fragmentado da História brasileira, e a aliança parlamentar governista é a mais heterogênea já registrada.

A base parlamentar na Câmara pode chegar a 400 dos 513, o que indicaria uma maioria folgada para até mesmo aprovar reformas constitucionais, quanto mais uma matéria que se decide pela maioria dos votos.

Como era previsível, no entanto, a real fonte de oposição está dentro da própria base governista, a começar pelas centrais sindicais, que ganharam uma coragem cívica que não demonstravam nos oito anos de governo Lula.

Também o PMDB deve apresentar uma dissidência na medida certa para demonstrar sua insatisfação, mas não para perder o papel importante que tem na base parlamentar governista.

O PP, o PTB e o PR são base de qualquer governo. Quem saiu do script oficial, mas mesmo assim só um pouquinho, foi o PDT, cujo presidente é o ministro do Trabalho, Carlos Lupi.

O partido tem como principal base operária a Força Sindical do deputado federal Paulo Pereira, e Lupi, embora queira ficar no governo, não pode se afastar de sua base, sob pena de perder sua representatividade dentro do PDT.

Pressionado pelo governo, mas também pela base partidária, Lupi conseguiu encerrar a reunião de ontem equilibrando-se em cima do muro, e o mais provável é que o PDT dê a maioria de votos para o salário mínimo de R$560, mas um número suficiente de votos a favor do governo para não o tornar descartável.

Dará o governo uma primeira demonstração de força, tendo inclusive como que controlada a rebeldia escandalosa do líder da Força Sindical, Paulo Pereira, tão mais escandalosa quanto mais longe fica de obter resultados na sua luta pelo mínimo de R$560.

Tudo indica, como ele mesmo deixou a entender já no final do dia, que a rebelião de setores da base será grande o suficiente para os rebeldes ficarem bem com a opinião pública, mas na medida certa para não colocar em risco a decisão governamental de manter o mínimo em R$545.

Ao mesmo tempo, também a oposição tirará algum ganho da derrota, mantendo a coerência da campanha eleitoral em favor do mínimo de R$600 defendido pelo candidato tucano José Serra, mas jogando com as centrais sindicais a favor do mínimo de R$560.

Melhor perder ao lado dos sindicatos do que isolados na sua insignificância parlamentar. Além do mais, como bem salientou o senador Aécio Neves, é sempre bom que um partido que se quer social-democrata esteja próximo aos sindicatos.

Na construção do PSDB, houve a tentativa de se aproximar das comunidades eclesiais de base (CEBs) para que o novo partido tivesse uma base operária, mas o interlocutor procurado, Frei Betto, não se interessou pelo projeto, considerando-o elitista, e se engajou mais tarde na criação do PT.

O PSDB nasceu, assim, sem bases operárias que caracterizam os partidos social-democratas europeus.

Essa aproximação do PSDB com os sindicatos seria um primeiro passo para uma tentativa futura de entendimento político, que dificilmente acontecerá, mas que no momento interessa aos dois lados fingir que tem futuro.

Não está em discussão, nem para as centrais sindicais nem para a oposição, se a decisão correta é manter o acordo anterior, que define o mínimo pelo crescimento do PIB dos dois anos anteriores, ou se a economia não aguenta um aumento maior que o definido pelo governo.

Tudo indica que, tecnicamente, o governo está correto em querer restringir esse aumento diante do descalabro das contas públicas.

O que está acontecendo no Congresso é que a oposição decidiu afinal assumir seu papel na luta política, assim como sempre fez o PT na oposição.

Defender um aumento maior do salário mínimo é sempre uma posição confortável para oposicionistas, e a promessa de um mínimo de R$600 foi benéfica para a candidatura oposicionista.

As centrais sindicais, por seu turno, também fazem seu papel criando dificuldades para o governo, a favor de seus associados. Ou pelo menos fingem.

Certamente não teriam a mesma desenvoltura se Lula estivesse no governo, mas o relacionamento com as centrais sindicais é um problema que a presidente Dilma vai ter que resolver em seu devido tempo.

Dizer que a política salarial que está em vigor para o mínimo foi aprovada nas urnas, como faz o governo, é uma falácia, já que a então candidata oficial não teve coragem de combater durante a campanha a proposta de R$600 feita pelo seu adversário.

Se o fizesse diretamente, sairia perdendo votos. O próprio Lula foi apenas irônico com Serra, afirmando que ele não estava dizendo de onde sairiam os recursos para esse aumento todo.

A oposição, depois de se debater com a síndrome de bom-mocismo que a acomete desde que perdeu o poder em 2002, resolveu assumir seu papel de constranger o governo em defesa dos interesses do cidadão.

E desta vez, com as contas governamentais em desordem, tem mais uma razão para estar desse lado. Acusa o governo de gastos insensatos e corporativos, quando poderia cortar custos em favor de um salário mínimo maior.

Um discurso ideal para a oposição, da mesma maneira que o PT fazia quando nela estava.

Já é famosa a foto de maio de 2000 em que várias figuras que viriam a ser importantes nos governos petistas, como Palocci, José Dirceu e Berzoini, zombam do aumento do salário mínimo dado por Fernando Henrique naquele ano.

Hoje, Palocci é o chefe do Gabinete Civil, que coordena politicamente a base parlamentar governista em busca de aprovar um mínimo menor do que pede a oposição.

FONTE: O GLOBO

Métodos e costumes:: Fernando Rodrigues

Dilma Rousseff completou ontem um mês e meio como presidente. Está fazendo bom ou mau governo? Essa é a pergunta mais ouvida em Brasília.

Não há métrica capaz de aferir com precisão a qualidade do mandato da petista em tão pouco tempo -exceto, é claro, para alguns bolsões da mídia, uma espécie de PMDB do jornalismo, aquela turma propensa à adesão imediata e "con gusto".

Se uma maneira de julgar o governo é o relacionamento entre a presidente e o Congresso, pouca coisa ainda mudou. A possível votação de hoje para definir o valor do salário mínimo foi (e está sendo) precedida pelos mecanismos de sempre. Uma combinação nefanda de chantagem e baixo fisiologismo. Foi assim com sucessivos ocupantes do Planalto pós-ditadura -Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula.

Emendas ao Orçamento propostas por deputados e senadores e nomeações para cargos políticos só serão consubstanciadas depois da votação do salário mínimo. Os que ajudarem a aprovar os R$ 545 terão a devida recompensa. Aos demais, a amargura da "realpolitik".

Pode-se argumentar, com razão, que Dilma evita por enquanto dar espaço para uma certa banda podre dos seus aliados -do PT ao PMDB. Sobre a concessão de emendas e cargos em troca de votos, é também um fato que a presidente não tem muita escolha. Os métodos e os costumes são esses mesmos. Seria ocioso (e ingênuo) tentar fazer de outra forma com apenas um mês e meio de mandato.

Tudo considerado, é cedo para julgar Dilma. O estilo circunspecto é um alívio para quem não tolerava mais ouvir "ad nauseam" as alegorias retóricas de Lula. Mas essa é apenas a forma. Não garante o sucesso de uma administração.

Nos próximos meses, Dilma terá a chance de mostrar se alterou de maneira real certos maus costumes na política brasileira. Por enquanto, como na votação de hoje, tem dançado conforme a música.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dores do gigantismo:: Rosângela Bittar

Divididos, todos os partidos estão. Se pudessem e o fundo partidário os acompanhasse, sairiam por aí se desdobrando em siglas a qualquer divergência. O PMDB está rachado entre Câmara e Senado; o PSDB entre duas regiões; o DEM entre opções de aliança e criador e criatura; o PSB entre governadores nordestinos; os pequenos partidos, fracionados por preferência de líderes, por representantes, por privilégios. Mas a disputa de espaços de poder - insuficientes para tanta gente - dentro do PT, a mais forte legenda da aliança política do governo Dilma Rousseff, que vinha conseguindo manter a convivência das suas históricas divisões, provocou novas diásporas. São subdivisões, das divisões, das facções em que o partido se cindiu.

Há um fracionamento novo, dentro da tendência Construindo um Novo Brasil, no interior de uma representação estadual, a de São Paulo. Na última reunião do partido, véspera das comemorações do seu aniversário, semana passada, em Brasília, a guerra se explicitou a partir de uma forte e ríspida discussão em torno das eleições para escolha do petista que vai presidir a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, provavelmente ainda nesta semana.

Não é uma fragmentação de todo sem conteúdo, ou apenas motivada por preferências de nomes. Envolveu uma discordância radical em torno dos métodos de escolhas do partido, ou das escolhas sem critério que o vale tudo da conquista de espaço provoca.

Na eleição do novo presidente da Câmara, quando o depois vitorioso Marco Maia ainda disputava a candidatura com Cândido Vaccarezza, ambos da mesma corrente, partilhando ideias e ideais, aprofundou-se essa divisão do PT, antes velada, agora desabrida. Na bancada espalhou-se a informação, atribuída ao ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha de que o candidato a presidente da Câmara do campo majoritário era Vaccarezza. Maia reagiu, disse que também era candidato do mesmo campo, e que não havia sido consultado sobre esta importante definição. Uma entrevista de Vaccarezza à "Veja", em que faz restrições à ação dos sindicalistas, atiçou a rebelião do grupo do sindicalista Maia.

Entre os insatisfeitos perfilaram-se Arlindo Chinaglia, Ricardo Berzoini, Henrique Fontana, até que, ao fim da campanha, vésperas da votação, contaram-se os votos, Maia tinha mais, Vaccarezza retirou seu nome. Os mesmos personagens estão lutando o próximo round, a indicação do novo presidente da Comissão de Constituição e Justiça. Ao PT apresentou-se como fato consumado que a facção Construindo um Novo Brasil, majoritária, apoia João Paulo Cunha para o cargo. Ricardo Berzoini informou que também é do CNB, também de São Paulo, e também é candidato. Uma batalha de vazamento de notinhas em jornais resultou na mais constrangedora sessão de debates das mazelas partidárias na reunião de aniversário do partido.

Berzoini, numa pré-contagem rigorosa de votos, pode reconhecer que não vence e até aceitar a presidência da Comissão de Finanças. Mas o estrago está feito e a cisão consolidada. O líder do governo está com João Paulo, o líder do PT com Berzoini; o grupo de petistas que deu peso à candidatura Maia está com Berzoini, mas João Paulo, como ex-presidente da Câmara, conquistou uma popularidade interna que ninguém mais tem.

As discussões da semana passada foram tão fortes que até o mensalão voltou à tona. Houve queixas de que o grupo de Berzoini estava atribuindo a condição de mensaleiros aos que apoiam João Paulo. Berzoini fez uma intervenção violenta. Disse que é CNB, ex-presidente do PT, está em seu terceiro mandato, tem o direito de disputar a CCJ. Por que João Paulo? Perguntou. E foi à forra: "Recrimino ficarem falando que quem apoia João Paulo é mensaleiro. Estou isento. Fui presidente do PT no Mensalão e defendi a todos. Defendi José Dirceu, João Paulo Cunha, José Genoino."

No discurso, apontou o cerne da questão: "O problema é de procedimento". A proposta é rever as regras internas do partido para redefinir como serão tomadas as decisões. Alguns participantes do debate veem, por trás da tensão ali presente, a falta não só de instâncias de decisão, como de uma liderança incontestável. "Quando Lula era presidente da República, ele mandava um recado à bancada e tudo se ajeitava. Saiu o Lula, não tem recado, é preciso fazer a discussão, não há ninguém autorizado a decidir sozinho", avaliou um integrante da cúpula.

Na cena estavam o ex-presidente do PT José Dirceu e o atual, José Eduardo Dutra, que tudo ouviram, atônitos. Dutra ficou de conversar com o CNB, com a bancada, e com quem mais se habilitar para definir novas regras de definições internas a constar do Estatuto.

A equação Gilberto Kassab-Democratas, em processo de decifração há meses com a demonstração prevista para os próximos 40 dias, embute elementos ainda pouco nítidos mas existem evidências que saltam agressivamente aos olhos:

1- Kassab faz parte de um grupo de seis políticos que estão articulados de alguma forma, com projeto político absolutamente solidário mesmo que o destino imediato de uns não seja o de todos. Nele estão Guilherme Afif Domingos, Jorge Bornhausen, Raimundo Colombo, Kátia Abreu e Marco Maciel.

2- O primeiro passo já definido é a criação de um novo partido, mas os subsequentes estão em aberto. As hipóteses de fusão, coligação ou aliança, pelo menos com o PSB, soam teatrais, para não dizer um ensaio da pior mágica política.

3- O ex-ministro, ex-senador, ex-prefeito, ex-governador José Serra, do PSDB, perdeu o posto de líder político natural desse grupo de liberais. Não há ainda ninguém em seu lugar, tudo dependerá do esperado desfecho.

A relação da presidente Dilma Rousseff com os partidos aliados e a gestão que fará da coalizão no governo terão parâmetros explicitados na forma como a presidente reagirá ao PDT. Se o partido for infiel ao projeto do governo na votação do salário mínimo, o ministro Carlos Lupi, do Trabalho, poderá amanhecer a quinta-feira fora da capitania que assumiu na cota do partido do qual é presidente licenciado, presidente de honra e líder maior. Ou não.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

O Egito pós-Mubarak: os atores parecem à altura de um bom enredo democrático:: Bolívar Lamounier

Avaliar de longe o que se passa no Egito é obviamente muito difícil. Por mais que se leia, o fato é que se trata de um país complexo atravessando uma situação complexa.

Minha impressão é que as coisas vão muito bem. Mubarak teve o seu momento de glória.

Desempenhou um papel importante após a morte de Sadat. Mas isso foi há trinta anos. Num percurso tão longo, qualquer um se desgasta, mas ele se desgastou muito. Perdeu pé na realidade do país, usou e abusou da violência e, segundo consta, chafurdou na corrupção.

Não ter designado um vice-presidente é um pequeno detalhe que diz muito sobre sua concepção de poder. Pretendia agarrar-se a ele até quando desse, provavelmente pensando que daria ad aeternum. Não deu.

Com a percepção moldada pelas realidades da América Latina, eu obviamente não iria acolher com entusiasmo o controle do poder pelos militares. Acolhi-a com realismo e frieza. Sem Mubarak na equação, o essencial é assegurar a melhor transição possível para um governo civil e democrático. Para isso é preciso constitucionalizar o país, assegurar a eficácia e a confiabilidade da maquinaria eleitoral e dar algum tempo para as forças políticas se organizarem e encontrarem seus respectivos pontos de coagulação.

Pelo que tenho lido e ouvido, os militares vêm conduzindo essa agenda com sensibilidade e lucidez. Não descarto a necessidade de escrever o contrário dentro de alguns dias ou semanas, mas é esta, até agora, a minha leitura da situação interna do país.

Num enquadramento mais amplo, parece-me bem provável que uma nova onda de democratização esteja se configurando. Sou levado a acreditar nisso, talvez em parte por wishful thinking, mas principalmente pela derrubada do ditador de plantão na Tunísia, pelo sucesso dos protestos no Egito e pelos sinais que começam a aparecer aqui e acolá: leia-se no Iêmen e na Argélia, desde logo.

Para ver o quadro inteiro, é preciso encaixar mais alguns fatos. Alguém imaginava que os países árabes viriam a ser a bola da vez? Eu não imaginava, e até agora não encontrei na imprensa ninguém disposto a investir nessa potoca.

Estará o islamismo radical na moita, só aguardando o momento certo para empalmar e controlar as lutas pela democracia? Também não vejo sinais disso. Sim, a Irmandade Muçulmana está lá, está atenta, deve estar agindo, mas daí a dizer que está com um pé no estribo para tomar o poder vai uma certa distância.

Eis o que estou tentando dizer: o que há é um movimento amplo, pluri-classista, pluri-profissional, pluri-isto e aquilo. Como ocorreu no Brasil em 1984 com a campanha das Diretas-Já.

Há uma multidão pedindo democracia e reformas, reclamando da situação econômica e obviamente mostrando que aprendeu alguns truques novos. Aprendeu que celulares, Iphones etc podem ser utilizados para muitos fins, inclusive alguns bastante úteis.

Um quarto de século atrás, o governo chinês não gostou nem um pouco de saber como as notícias da Praça Tianamen chegaram ao Ocidente. Alguém se lembra como elas chegaram?

Eu me lembro: chegaram nas asas de um dinossauro chamado fax. Comparados ao fax, os gadgets atuais têm um imenso potencial libertário. Recebem do exterior e mandam para o exterior uma quantidade enorme de informações, tudo online e com muito mais qualidade.

Espero que o leitor não perca a paciência por eu estar repisando coisas tão óbvias. O que eu quero dizer é que os ventos de Pandora estão espargindo um novo ânimo democrático por toda parte. Por todos os cantos do planeta. Por favor, observem que sublinhei a expressão ânimo democrático. Ânimo é uma coisa, realidade é outra. Ânimo democrático é desejo, sonho, vontade de democracia.

Estou falando de um ânimo e sugerindo que se trata de algo “novo”. Seus portadores são multidões como a que acorreu durante 18 dias à praça Tahir no Cairo. Lá no meio com certeza havia oradores inflamados, militantes de pequenos grupos radicais e aspirantes a ideólogos, alguns destes provavelmente ainda seguros de conhecer de antemão as etapas do processo histórico. Mas isto é o que menos interessa.

A questão, salvo um redondo engano, é que estamos na ante-sala de algo grande, muito grande. Esse novo ânimo democrático não será detido facilmente. O governo que quiser pará-lo na base da violência precisa estar disposto a derramar muito sangue. Neste aspecto eu já contei dois pontos para os militares egípcios. Eles compreenderam rapidamente que a situação é nova.

Que os manifestantes não queriam destruir o país. E que não faria o menor sentido matar um monte de gente para preservar um governo em adiantado estado de putrefação.

Mas atenção, atenção. Eu não sou ingênuo a ponto de ver o bem em tudo o que vem da massa e o mal em tudo o que vem dos governos. Isso, decididamente, não é o que eu penso. Até aqui, acho que os dois lados merecem aplausos. Nota 10. Mas as próximas etapas não serão mais simples ou mais fáceis. Até concluírem a nova Constituição, as novas regras eleitorais etc etc , as agruras econômicas não vão desaparecer.

O que vai desaparecer ou pelo menos diminuir muito é a fantasia, o sonho, a sensação de viver um momento único na vida do país. Uma comunhão total de todo mundo com todo mundo.

Enquanto o sonho se esvai, o general Realidade vai entrando em cena. Vai chegando de mansinho, mas vem acompanhado por todo o seu séquito de desencantos e aborrecimentos.

FONTE: BLOG DO BOLÍVAR

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Para aprovar os R$ 545, governo cede mais no IR

O governo, na véspera da votação do mínimo, decidiu propor benefício adicional: a correção de 4,5% da tabela do Imposto de Renda não será só para 2011, mas para os próximos 4 anos. O ministro Guido Mantega disse que um valor acima de R$ 545 e incongruente com os cortes no Orçamento e traz descontrole fiscal. A presidente Dilma mandou um recado: tratará dissidentes como dissidentes.

A moeda de troca pelo mínimo

O SALÁRIO DA DISCÓRDIA

Para aprovar os R$545, governo oferece reajuste da tabela do IR em 4,5%, por quatro anos

Martha Beck

Num esforço de última hora para tentar convencer o Congresso Nacional a aprovar um salário mínimo de R$545 para 2011, o governo decidiu dar um benefício adicional aos trabalhadores e definiu que a política de valorização da renda será acompanhada de uma correção de 4,5% na tabela do Imposto de Renda (IR) não só para 2011, mas pelos próximo quatro anos. Segundo técnicos da área econômica, a ideia é ter um projeto de prazo mais longo para evitar que ao final de cada ano do mandato de Dilma Rousseff, o governo seja pressionado a reajustar a tabela das pessoas físicas.

- Uma correção de quatro anos tira o assunto do caminho - disse um técnico.

A proposta para o IR, no entanto, está diretamente condicionada ao valor do salário mínimo defendido pelo governo. Uma correção de 4,5% na tabela representa, por ano, uma renúncia fiscal de R$2,2 bilhões. Ou seja, ao final do mandato, o governo abriria mão de quase R$9 bilhões.

Depois de reunião com os partidos de oposição ontem, o secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, afirmou que qualquer negociação sobre o IR só será feita depois do debate sobre o salário mínimo. O secretário passou a manhã em reuniões com as bancadas do PSDB e do DEM para defender os argumentos do governo e lembrou que cada real de aumento no mínimo tem um impacto de R$300 milhões no Orçamento. Segundo ele, qualquer valor acima do que propõe a equipe econômica poderia desequilibrar as contas públicas num ano de austeridade fiscal.

- Se fosse aprovado um salário mínimo de R$580 (como defendem as centrais), isso teria um impacto de R$10,5 bilhões no Orçamento. Não há espaço para esse aumento sem comprometer a recuperação das contas públicas - disse o secretário.

Salário para ajudar a diminuir juros

O secretário afirmou ainda que o valor do mínimo faz parte de um esforço do governo para conter pressões inflacionárias e ajudar o Banco Central (BC) a reduzir as taxas de juros mais rapidamente. Segundo Barbosa, as medidas que o governo vem adotando - como o corte de R$50 bilhões no Orçamento - têm condições de permitir que os juros voltem a cair já no final de 2011:

- A política do salário mínimo contribuirá para a redução dos juros, que podem voltar a cair no final deste ano - disse ele.

O secretário, no entanto, não convenceu quem apoia um mínimo acima de R$545. O líder do DEM, deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (BA), disse que embora o governo diga que pratica uma política de valorização do mínimo, o valor fixado para 2011 não dá ganhos reais.

- É possível conceder R$15 a mais por mês aos trabalhadores - disse ACM Neto.

Já o PSDB propôs ao secretário que o governo faça ajustes no Orçamento para acomodar um mínimo maior:

- Pode haver um remanejamento da execução orçamentária para permitir esse aumento sem desequilíbrio fiscal - afirmou o líder da bancada tucana na Câmara, deputado Duarte Nogueira (SP).

O ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, admitiu que a "luta" para aprovar o mínimo será difícil:

- É uma luta que não é fácil. Mas temos confiança. O importante da vitória do mínimo é que você complete uma política de seriedade fiscal.

Numa primeira vitória para o governo, a Câmara aprovou na noite de ontem urgência para a tramitação do projeto do mínimo. Com a aprovação da urgência, o projeto será ser votado nessa quarta-feira, em sessão a partir das 13h.

FONTE: O GLOBO

Na distribuição de cargos, Dilma vai tratar 'dissidentes como dissidentes'

O SALÁRIO DA DISCÓRDIA

Aliados recebem recado sobre castigo para quem votar contra o governo

Gerson Camarotti e Isabel Braga

BRASÍLIA. Na véspera da votação do salário mínimo, o Palácio do Planalto decidiu jogar pesado com os aliados para demarcar a base governista na Câmara dos Deputados. O objetivo é mapear o tamanho real dos votos dos deputados que será usado como critério no loteamento político dos cargos de 2º e 3º escalões.

Ontem, deputados da base receberam o recado de que a presidente Dilma Rousseff passaria a tratar "os dissidentes como dissidentes". Ou seja, haveria nomes de afilhados políticos vetados para cargos no governo. No Palácio do Planalto, a postura "vacilante" do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que se negou a defender a posição do governo, pegou muito mal. O governo queria um enquadramento do PDT, o que não aconteceu.

Ontem, ministros com filiação partidária iniciaram uma grande mobilização com as respectivas bancadas por determinação de Dilma. O governo avalia que, se na primeira votação importante flexibilizar nas negociações e sair enfraquecido, perderá autoridade e ficará refém do Congresso Nacional pelos próximos quatro anos.

Por isso, a ordem é demarcar autoridade. Ontem, o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), repassou para as lideranças aliadas a postura palaciana de cobrar fidelidade. Alguns partidos estão se sentindo até constrangidos diante da pressão pesada de Vaccarezza. Mas, no fim do dia, o líder do governo demonstrava confiança.

- Se o governo não tivesse endurecido, a situação seria outra. Vamos ganhar essa votação com uma margem segura - disse Vaccarezza.

Num acordo com os líderes na Câmara, com aval do Planalto, foi decidido que a votação será nominal. Isso porque os líderes governistas desejam o registro de cada um dos deputados para saber quem apoia o governo e quem preferiu dar o troco ou jogar para a plateia numa matéria considerada fundamental.

O deputado e presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), foi procurado pelo ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

Segundo Paulinho, Carvalho enfatizou que a votação não é a guerra, mas uma batalha, e que o governo quer discutir com as centrais a política de aumento dos aposentados que ganham acima do mínimo, fator previdenciário, correção da tabela do Imposto de Renda.

- Eu, então, perguntei: querem discutir ou impor? Porque, se for para propor a correção de 4,5% para o IR, não nos chamem. Vão chamar para quê? Anunciem. Nossa queda de braço é com o modelo econômico do governo Dilma. Se for assim apenas no começo, tudo bem. Mas nós sabemos que o mercado é insaciável - disse Paulinho.

FONTE : O GLOBO