segunda-feira, 22 de junho de 2020

Opinião do dia – Luiz Sérgio Henriques*

O antifascismo consistiu assim numa aliança entre atores diferentes, e até muito diferentes, em razão de um mal maior. Mas se só houvesse diferenças entre eles a aliança se definiria negativamente e teria muito mais dificuldade para se formar. Ainda que de modo parcial e imperfeito, todos os atores aliancistas compartilhavam uma fundamental orientação democrática inerente à modernidade, que lentamente corroía o mundo rigidamente hierárquico, opressivo e “orgânico” de outrora. Por isso se desprendia do campo conservador, e a este acabava por se contrapor ferozmente, uma versão reacionária da modernidade, capaz obviamente de elaborar programas de reerguimento econômico, como no caso do corporativismo italiano ou das políticas nacional-socialistas contra a depressão, mas associados à liquidação radical dos direitos civis e políticos, à uniformização compulsória da vida social e aos mitos mais regressivos do solo e do sangue. Em suma, a grande noite do irracionalismo, a temida temporada do assalto à razão, que deram, por contraste, o cimento essencial para o bloco antifascista.

Com todos os conflitos internos, esse bloco esteve na origem de desenvolvimentos positivos, como, de certo modo, o reformismo rooseveltiano e, seguramente, os “30 anos gloriosos” do capitalismo europeu socialmente regulado. Há décadas tudo isso está sob fogo cerrado não propriamente dos conservadores, que costumam ter uma consciência serena do que merece ser mantido, mas da sua ponta mais extremada e “revolucionária”, a exemplo de Salvini, que, como bem se vê, não é um lobo solitário. Cabe ter esperança na ação de uma esquerda que, desta vez, ao contrário dos avós bolcheviques, assuma a ideia democrática, sem adjetivos, como convicção íntima e incontornável. A alternativa é a barbárie.


*Tradutor e ensaísta, é um dos organizadores das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil. “Fascismo e antifascismo”, O Estado de S. Paulo, 21/6/2020.

Fernando Gabeira - Do tamanho de um cometa

- O Globo

A gigantesca tarefa de evitar um golpe é, infelizmente, apenas uma. Há ainda a tarefa de solidariedade

Ironicamente, um governo machista que cultua armas pode descrever seu maior abalo com um poético símbolo fálico: um pênis do tamanho de um cometa. Foi assim que Fabrício Queiroz descrevia o futuro que esperava o grupo em torno de Bolsonaro.

Ironicamente, Fabrício se escondeu no sítio de um amigo em Atibaia. E a operação que o encontrou foi denominada Operação Anjo, em homenagem ao advogado da família Bolsonaro, acusado, no passado, de bruxaria.

O Brasil é um desafio para os romancistas. A tempestade perfeita acabou se abatendo sobre Bolsonaro: inquéritos sobre fake news e manifestações ilegais, militantes presos, deputados com sigilo bancário quebrado.

E, finalmente, a prisão de Queiroz. Não era o homem mais procurado do país. Mas era o mais solicitado. De todos os cantos brotava a pergunta: onde está Queiroz? Queiroz estava escondido na casa do advogado da família Bolsonaro. Para uma operação no nível de segredo de Estado, é de um amadorismo comovente.

A exposição dessas operações suspeitas de Bolsonaro talvez o enfraqueça nas Forças Armadas, bicho-papão com que ele nos ameaça a cada momento. Os militares têm aceitado tudo. Desde os ataques à República até a necropolítica de Bolsonaro na pandemia de coronavírus. Nos ataques à Proclamação da República pelo menos ficaram calados, não os endossaram. Mas a política de Bolsonaro é executada por um general da ativa que quer nos entupir de cloroquina porque seu líder assim o determinou.

Ricardo Noblat - Dez motivos para culpar Bolsonaro pelas mortes da Covid-19

- Blog do Noblat | Veja

Por que Bolsonaro não compareceu até hoje ao velório de uma única vítima do coronavírus?
-
No dia em que o Brasil superou a triste marca de 50.650 mortos e mais de 1 milhão de infectados pelo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro voou de Brasília ao Rio para participar do velório de um militar paraquedista. À tropa ali reunida, Bolsonaro disse que foi grande amigo do general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército durante o governo José Sarney.

Para variar, mentiu. Está em livros de história que o general fez tudo para punir Bolsonaro, acusado de ter planejado atentados à bomba a quarteis quando reivindicava melhores salários para soldados como ele. Em troca do título de capitão, Bolsonaro acabou concordando em ser afastado do Exército por indisciplina e conduta antiética, como consta de sua folha corrida.

Por que Bolsonaro não compareceu até hoje ao velório de uma única vítima do coronavírus? Não precisaria deslocar-se para outra cidade. Não se passa um dia sem que novos mortos sejam sepultados em cemitérios de Brasília e das cidades do seu entorno. No Paranoá, a pouca distância do Palácio do Planalto, de cada 100 pessoas testadas, 30 têm o vírus. É onde mais se morre.

O que fez Bolsonaro até agora desde que o primeiro brasileiro perdeu a vida para o Covid-19 no final de março último?

Cacá Diegues - O que somos afinal

- O Globo

Escolha do melhor jogo no Maracanã está se parecendo com o que fizemos do Brasil em 2018

Para comemorar os 70 anos do estádio do Maracanã, a seção de esportes do GLOBO pediu a 70 especialistas de jornal, rádio e televisão que escolhessem os 70 maiores jogos ali realizados. O ranking foi formado e publicado na semana passada. Segundo está no jornal, o primeiro lugar ficou, por decisão unânime dos jurados, com o Maracanazo, aquele jogo entre Brasil e Uruguai, na decisão da Copa do Mundo de 1950. A equipe brasileira vinha de grandes exibições e goleadas contra o México, a Suécia e a Espanha, enquanto os uruguaios chegavam à final às duras penas. O Brasil era o franco favorito, seus jogadores chegaram a tirar fotos com as faixas de campeão e foram previamente tratados como tal pelas autoridades esportivas e políticas.

Quando nosso time entrou em campo, mais de 200 mil torcedores, representando a população brasileira que estava ligada num aparelho de rádio, se preparando para a festa, o saudaram como inevitável campeão. Aos 10 anos de idade, agarrado ao grande rádio da sala, gritei o nome dos jogadores, como se estivesse no Maracanã.

Rosiska Darcy de Oliveira - Realidade e pesadelo

- O Globo

Instituições barram os efeitos dos atos tresloucados

A solidez de uma democracia não se mede pelas ameaças que ela sofre e sim pela capacidade que tem de resistir aos que atentam contra nossas vidas e liberdade.

Mesmo se um bando de extrema direita quer fechar o Congresso ou dispara morteiros contra o Supremo Tribunal Federal, se um ex-ministro dementado quer prender seus juízes e se todos juntos agridem a mídia. Se um presidente inominável incentiva a invasão de hospitais para filmar leitos supostamente vazios. Se um seu apoiador é capaz, com gesto imundo, de arrancar cruzes que na areia de Copacabana lembravam os mortos pelo Covid, como se fosse possível esconder 50 mil mortes, apesar de tudo, crimes e desvarios, a democracia resiste à escalada sem fim de que são capazes a insanidade e a desumanidade.

Marcus André Melo* - Depois de Weintraub

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro se enfraqueceu, mas seu governo poderá sair fortalecido

À saída de Weintraub soma-se o emudecimento gradativo da ala ideológica do governo (Salles, Araújo, Damares). O enfraquecimento dessa ala não implica maior instabilidade sistêmica do governo. Pelo contrário.

Ao rejeitar durante a campanha a barganha com partidos, o presidente havia atado as próprias mãos. O "palanque perpétuo" e a cacofonia eram a estratégia buscada para compensar a falta de base. Sua exacerbação levou ao enfrentamento com o STF, do qual a saída do ministro é consequência.

O principal indicador da mudança ocorrida é espacial, geográfico: "Até abril", segundo o ministro da Secretaria de Governo, "nunca tinha conseguido reunir todos os líderes de partidos no Palácio do Planalto. Eles se encontravam na casa do Rodrigo Maia, presidente da Câmara. Agora mudou". A barganha ganhou sede presidencial.

Celso Rocha de Barros* - O debate do centrão

- Folha de S. Paulo

A instabilidade atual também é obra dos senhores

Na semana passada o deputado Arthur Lira (PP-AL) escreveu um artigo nesta Folha defendendo o centrão. É um texto muito bem argumentado. Lira lembrou que o centrão votou a favor de diversas reformas da Previdência, que foi um fator de estabilidade em diferentes governos, que moderou as propostas e organizou os acordos.

Lembrou que Bolsonaro foi do PP por muitos anos e que hoje o PP vota com o governo em 90% das votações. Criticou a Lava Jato por criminalizar a política, mas proclamou que a corrupção sistêmica está morta e enterrada. Defendeu a legitimidade do casamento entre centrão e Bolsonaro, e viu nisso uma reconciliação entre Bolsonaro, as instituições, e, se entendi direito, a democracia.

Muita coisa no manifesto de Lira é verdade. A criminalização da política nos últimos anos foi mesmo um problema. Partidos aliados que votam medidas impopulares têm mesmo o direito de participar do governo e beneficiar-se de sua eventual popularidade.

De fato, faltou conservadorismo, no sentido estrito, ao Brasil nos últimos anos, faltou lembrar que instituições e partidos são fáceis de destruir, difíceis de reconstruir. Isso tudo é verdade, o centrão tem razão nisso.

Leandro Colon - O governo Bolsonaro esfarela

- Folha de S. Paulo

Vendo o precipício se aproximando, o presidente se segura no centrão

O governo de Jair Bolsonaro acelera cada vez mais o passo para um esgotamento político irreversível. Fica a questão sobre até quando o país suportará essa sangria.

Sem ministros efetivos na Educação e na Saúde, o governo é negligente e omisso no combate a uma pandemia que já matou 50 mil e atingiu 1 milhão de pessoas em três meses.

O presidente foi encurralado pelo escândalo do ex-assessor do filho, o agora senador investigado no esquema de desvio de salário de assessores nos tempos de Assembleia no Rio.

Empresários e políticos aliados do Planalto são personagens principais dos inquéritos no STF que apuram atos antidemocráticos e disseminação de notícias falsas, as fake news.

Acuado, o governo lança mão de subterfúgios diplomáticos para facilitar a saída do país de um ministro demissionário para os Estados Unidos.

Ruy Castro* - Estantes no vídeo

- Folha de S. Paulo

Ninguém dá entrevistas online na frente da geladeira ou do armário das panelas

Aldir Blanc, uma das grandes perdas impostas pela Covid, não podia ver uma foto em jornal de alguém diante de uma estante. Saía de lupa a ampliar a foto para ler os títulos nas lombadas dos livros. Aldir queria saber o que aquela pessoa gostava de ler e se tinha livros que ele ainda não tivesse e talvez precisasse ter. Lia dia e noite, sem parar. As fotos o mostravam em seu apartamento, na Muda da Tijuca, quase soterrado por eles. Se Aldir não tivesse sucumbido ao coronavírus, estaria hoje dando entrevistas online cercado por seu mundo de livros. Não seria exibicionismo e nem ele teria escolha. Eles tomavam os aposentos.

Transmissões online abundam agora na programação, e todo mundo aparece com uma estante ao fundo razoavelmente suprida de livros. Ou as pessoas lêem mais do que imaginávamos ou descobriu-se que a estante é o móvel mais nobre da casa, donde ser o cenário ideal. Não vi até agora ninguém se postar na frente da geladeira ou do armário das panelas. Não que não sejam também móveis da maior dignidade --- mas talvez uma parede com caçarolas não tenha o mesmo appeal de uma prateleira de livros.

Paulo Ghiraldelli Jr.* - O grande ataque do bolsovírus

- Folha de S. Paulo

Caos da pandemia ajuda o presidente a deteriorar os poderes republicanos

O responsável pelos heróis da Marvel, Stan Lee, faleceu em 2018. Caso estivesse vivo, então poderíamos ter o melhor relato da pandemia atual no Brasil. Minha avó dizia que psicografava, e se eu tivesse aprendido o ofício poderia receber a mensagem de Stan Lee a respeito do que estamos vivendo.

A mensagem diria que Wuhan, na China, recebeu um alienígena de um paraíso capitalista de um planeta distante. Seu ímpeto de consumir energias era como o de Galactus, o senhor do Surfista Prateado, e que se parece bem com o modo de agir da vontade de potência de Nietzsche. Por onde passou, deixou um rastro de morte. Mas, uma vez no Brasil, encontrou alguém estruturalmente semelhante.

Um vírus nem é um ser vivo, pois não tem DNA. Tem só RNA. Em geral, precisa de uma bactéria para se reproduzir. Uma vez aqui, viu no presidente da República uma estrutura corporal e mental com afinidades para os seus propósitos. A Covid-19 e Jair Bolsonaro se fundiram.

Mathias Alencastro* - Jair Bolsonaro é um Viktor Orbán da série B

- Folha de S. Paulo

Analogias entre brasileiro e autocratas mais bem-sucedidos parecem cada vez mais desproporcionais

Depois de mais uma semana de acontecimentos tirados de um episódio de "Família Soprano", a aura de Jair Bolsonaro, que tanto intimidava no começo do mandato, nunca esteve tão abalada.

Declarar que o presidente será lembrado como uma gripezinha da democracia brasileira seria completamente prematuro. Mas as analogias entre Bolsonaro e os autocratas mais bem-sucedidos da nossa era parecem cada vez mais desproporcionais.

Tome-se por exemplo o caso do húngaro Viktor Orbán, idolatrado por Ernesto Araújo. Objeto de fascínio dos analistas políticos, o seu regime iliberal é frequentemente apontado como o destino natural do governo Bolsonaro.

Bruno Carazza* - Delírios e delícias

- Valor Econômico

Congresso está à mercê do populismo e do oportunismo

“Como será o amanhã?”, perguntava o refrão do samba-enredo da União da Ilha no carnaval carioca de 1978. Apesar de a escola da Ilha do Governador ter ficado apenas com o quarto lugar naquele ano, sua canção caiu no gosto popular, principalmente após o grande sucesso da gravação feita por Simone, cinco anos depois, no disco “Delírios, Delícias”.

“O Amanhã” foi composta por Didi, autor de mais de 20 sambas-enredo. Compositor de vida dupla, durante o dia ele se apresentava como o procurador federal Gustavo Adolfo de Carvalho Baeta Neves. “No meu trabalho eu era muito sério, muito chato mesmo”, declarou a “O Globo” numa entrevista pouco antes de morrer, em 1987. Encerrado o expediente, o procurador tirava o paletó, afrouxava a gravata e se entregava à boemia. Tanto que, em 1991, a União da Ilha o homenageou com outro clássico: “hoje eu vou tomar um porre, não me socorre, eu tô feliz”.

“Bola de cristal, jogo de búzios, cartomante”... nem assim conseguimos pistas sobre como vai ser o nosso destino nos próximos meses ou anos. Condenados a um abre-e-fecha de atividades diante de uma gestão descoordenada da crise, sujeitos a uma segunda onda de contaminação global e sem saber quando poderemos respirar aliviados com uma vacina contra a covid-19, qualquer prognóstico sobre nosso futuro não passa de mera especulação ou “wishful thinking”.

A depender das previsões do mercado colhidas pelo boletim Focus, do Banco Central, somente em meados de 2023 alcançaremos o mesmo nível do PIB de 2019. A mediana da expectativa está se estabilizando em torno de -6,50% neste ano, mas quase ninguém ousa revisar as projeções para 2021 e além.

Denis Lerrer Rosenfield* - Modos sobrevivência e governabilidade

- O Estado de S.Paulo

O presidente não foi eleito para cuidar dos filhos, mas para orientar um projeto nacional

O presidente Bolsonaro entrou no modo sobrevivência, que deve ser distinguido do modo governabilidade. Conforme o primeiro, ele orienta todas as suas ações para se manter no poder, sem nenhuma preocupação com o Brasil, procurando apenas conservar o mandato. Pelo segundo, ele teria de ter projetos, ideias e meios de execução, o que implicaria um governo moderado, sem conflitos e provocações, voltado para a articulação política.

A parceria com o Centrão, por exemplo, se faz sob o modo sobrevivência, mediante a distribuição de cargos em órgãos e empresas estatais, em flagrante contradição, aliás, com sua própria narrativa. Não importa, visto que necessita em torno de 200 deputados para evitar o processo de impeachment e sempre pode haver desfalques. Entre o mandato e a narrativa, o presidente já fez a sua opção, com evidentes prejuízos perante a sua rede de apoiadores digitais.

Daí não se segue, porém, que ele adquira governabilidade, pois isso significaria a capacidade de aprovar projetos de lei e emendas constitucionais, tendo, por sua vez, como condição a existência de ideias a serem apresentadas. Até agora, só tivemos ideias ao léu. E não se recorra à pandemia como justificativa, pois a inércia governamental é anterior a ela. O projeto de privatização e concessões apresentado com grande fanfarra mostrou-se raquítico. Também não foi apresentado nenhum projeto de reforma tributária, administrativa ou política. De novo, só falas e mais falas sem consequência, senão a demagógica.

Entrevista | Jason Stanley: ‘Populismo não define Trump e Bolsonaro’

Para professor e filósofo de Yale, é preciso encontrar outro termo para descrever o anti-intelectualismo de alguns líderes

Paulo Beraldo | O Estado de S.Paulo

Acabar com a legitimidade da oposição, elaborar um discurso de vítima do sistema, eleger culpados para problemas estruturais e criticar o intelectualismo: a fórmula é a mesma, mas se repete em países tão distintos quanto Índia, Hungria, Polônia, Estados Unidos e Brasil. A avaliação é do filósofo Jason Stanley, autor de Como Funciona o Fascismo – A Política do ‘Nós e Eles’, para quem o termo populista não serve para designar o comportamento de líderes como o indiano Narendra Modi, o americano Donald Trump e o presidente Jair Bolsonaro.

• Muitas pessoas perderam confiança nas democracias para garantir serviços fundamentais como educação, saúde e segurança. O estudo Democracias sob Tensão, conduzido pela Fondapol, mostrou que 77% das pessoas no Brasil entendem que a democracia aqui não funciona bem. Em todo o mundo, a média de satisfação com o sistema é de 51%. Como restaurar a confiança?

Para que a democracia seja protegida, os jornalistas devem ser capazes de fazer seu trabalho sem assédio de políticos e os sistemas públicos de educação devem ser fortes e estar disponíveis para todos, assim os cidadãos podem participar da formação das políticas pelas quais são governados. Deve haver um caminho visível para reduzir a desigualdade entre os cidadãos para que o ideal de igualdade política democrática não seja visto como vazio e hipócrita. A democracia promete liberdade aos cidadãos, mas quando eles são esmagados por dívidas e trabalho sem fim, sem esperança de que seus filhos terão uma vida mais digna, eles podem ser manipulados por demagogos a jogar a culpa de seus problemas em fontes que não são as responsáveis por eles: os pobres, os homossexuais, os liberais, os ateus, os imigrantes, os negros e outros grupos que não são responsáveis pelas disparidades de riqueza e oportunidade.

Entrevista | Carlos Pereira, cientista político: ‘Prisão de Queiroz é mais do que um sinal amarelo’

Em entrevista ao GLOBO, Pereira avalia que iniciativa do governo de se aproximar dos partidos do Centrão pode não ser suficiente diante do impacto causado pela prisão de Queiroz

Henrique Gomes Batista | O Globo (21/6/2020)

SÃO PAULO - A iniciativa do governo de tentar construir uma barreira de proteção ao se aproximar dos partidos do centrão pode não ser suficiente para segurar um naufrágio diante do impacto causado pela prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro. Esta é a opinião do cientista político Carlos Pereira, professor da Fundação Getúlio Vargas.

• Qual o impacto da prisão de Queiroz no governo Bolsonaro?

O sistema político brasileiro é muito virtuoso na sua capacidade de se livrar de corpos estranhos, de atores que não entendem como o presidencialismo partidário funciona. Isso ocorreu com o governo Collor e com o governo Dilma. Acho que está acontecendo o mesmo processo com o governo Bolsonaro. Há um mosaico de instituições, como Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal, mídia independente, sendo ativado. Essa prisão do Queiroz foi mais que um sinal amarelo para o governo Bolsonaro na questão de governabilidade. A sustentação política do governo está muito fragilizada. Nem mesmo a iniciativa de construir uma suposta barreira de proteção com o centrão pode ser suficiente agora, após a prisão do Queiroz. Os partidos do centrão vão começar a avaliar se vale a pena continuar. Agora as chances do impeachment do presidente se tornam bem reais.

• O tesoureiro Paulo César Farias, no governo Collor, pagava despesas da família e essa descoberta abriu caminho para o impeachment. Agora, as investigações sugerem que um dos filhos de Bolsonaro teve despesas pagas por Queiroz.

Ele (Queiroz) já é uma espécie de PC Farias. Ele já era a pessoa de confiança do presidente antes de ser a pessoa de confiança do filho dele. Já há evidências de R$ 2 milhões que passaram de forma suspeita pelas contas do Queiroz. Parentes do Queiroz atuavam no gabinete do presidente. As conexões são muito grandes, não resta dúvida que o Queiroz é um capa preta da família Bolsonaro. Até a coalização com o centrão fica muito fragilizada, os deputados vão começar a questionar o custo. Bolsonaro começará a ter uma dimensão tóxica.

Da ‘gripezinha’ às 50 mil mortes pela Covid-19 – Editorial | O Globo

É inequívoca a contribuição de Bolsonaro para ampliar tragédia sanitária sem precedentes

O Brasil ultrapassou no sábado a marca fatídica dos 50 mil mortos pela Covid-19, doença a que o presidente Jair Bolsonaro se referiu em março como uma “gripezinha”. Não é um número estático, pois, considerando a marcha insana do novo coronavírus pelos rincões do país, trata-se de uma tragédia inacabada, e que, portanto, ainda nos reserva altas doses de horror. É como se, entre 16 de março, quando o país registrou o primeiro óbito, e anteontem, desaparecesse uma cidade pouco maior que Paraty (43.165 moradores), município na Costa Verde fluminense que sedia a Feira Literária Internacional (Flip). Ou, para ficar no campo das tragédias, sofrêssemos quase 200 desastres como o da Barragem de Brumadinho (259 mortos). Ou ainda 50 dilúvios como o que devastou a Região Serrana do Rio em 2011, matando quase mil pessoas.

Sim, o Brasil é um país de dimensões continentais, com uma população que já passa dos 211 milhões. Pode-se alegar que o dado é coerente com a demografia — não demorarão a aparecer cálculos para mostrar que, na relação mortes por habitante, não estamos tão mal. Balela. Berço da epidemia, a China, com 1,4 bilhão de habitantes, soma menos de 5 mil mortos, número inferior aos óbitos registrados apenas na cidade do Rio. A Índia, com população de 1,3 bilhão, tem cerca de 13 mil baixas.

Os jovens e a pandemia – Editorial | O Estado de S. Paulo

Além de expor velhas fragilidades do sistema de ensino brasileiro, a pandemia do novo coronavírus agregou novos desafios às crianças e adolescentes. Segundo estimativa da Unicef, 35 milhões de jovens no País estão fora das salas de aula em razão das restrições de circulação de pessoas impostas para diminuir a taxa de expansão do novo coronavírus. Ainda que seja uma empreitada difícil, dadas as limitações de diversas ordens, é uma exigência de justiça com o País, muito especialmente com as novas gerações, assegurar, nas atuais condições de isolamento social, um mínimo de continuidade ao processo educativo desses jovens, em seus respectivos níveis de ensino.

Recente estudo do Fórum Econômico Mundial observa que “a pandemia é uma oportunidade para nos relembrar das habilidades que os estudantes precisam nesse mundo imprevisível, como decisões embasadas, solução criativa de problemas e, talvez, acima de tudo, adaptabilidade”. Além disso, como especialistas têm ressaltado, ensino a distância não é sinônimo de aula online, devendo incluir também vários modos de estimular a aprendizagem remota e a construção colaborativa do conhecimento.

Além da interrupção das aulas presenciais, a pandemia do novo coronavírus expôs desigualdades sociais e econômicas que, em situação normal, já afetavam as condições de ensino e, no contexto causado pela covid-19, são ainda mais deletérias. Segundo dados da pesquisa TIC Kids Online 2019 do Cetic.br/NIC.br, divulgados pela Unicef, 4,8 milhões de estudantes vivem em famílias que não têm acesso à internet.

Hora do saneamento – Editorial | Folha de S. Paulo

Projeto para o setor deve ser enfim aprovado, a despeito de tabus ideológicos

Finalmente parece avizinhar-se a aprovação do projeto de lei que moderniza a regulação dos serviços de saneamento básico. Depois de mais de dois anos de tramitação, a derradeira votação no Senado poderá ocorrer nesta semana.

O parecer do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) mantém os dispositivos essenciais aprovados pela Câmara dos Deputados, que pretendem levar à universalização do fornecimento de água e da coleta de esgoto até 2033 —ou até 2040 em casos excepcionais.

Estima-se que o novo marco regulatório vá abrir espaço para R$ 700 bilhões em novos investimentos nesse período. Nada menos que 100 milhões de brasileiros hoje expostos ao esgoto a céu aberto dependem desses investimentos, que se tornam ainda mais essenciais após a pandemia.

O ponto mais polêmico do texto, a abertura do mercado para empresas privadas, é na verdade um avanço de grandes proporções. No lugar dos chamados contratos de programa atuais, celebrados em sua maior parte pelas prefeituras com empresas estatais sem metas ou referências técnicas, surge o regime de concessão, com licitação.

Plano para ambiente precisa de ações rápidas e contundentes – Editorial | Valor Econômico

Descrédito absoluto do governo na área exige ações claras, corretas e contundentes

Cerca de um ano e meio depois do início do mandato iniciado em primeiro de janeiro de 2019, o governo de Jair Bolsonaro, execrado pela comunidade internacional pelo seu desprezo pela preservação da Amazônia, tenta produzir boas notícias na área ambiental. Trata-se do novo Plano de Combate ao Desmatamento Ilegal, que entrará em vigor a partir de julho e vigorará até meados de 2023. Tempo suficiente, portanto, para comprovar ser mais do que boas intenções apresentadas ao público doméstico e à comunidade internacional.

O plano traz um mapa completo de como o Estado brasileiro deve passar a agir para enfrentar um problema crônico - um diagnóstico recomendado por 10 entre 10 grupos ambientalistas brasileiros e em parte praticado por governos anteriores, que se preocupavam realmente com a questão. O programa tem coerência e se diz voltado a combater ilegalidades, impulsionar iniciativas capazes de promover o desenvolvimento sustentável e reduzir os danos provocados à imagem do Brasil no exterior.

Música | Alceu Valença, Geraldo Azevedo - Papagaio do Futuro / Coco das Serras

Poesia | Bertold Brecht - A Morte voluntária do fugitivo W(alter) B(enjamin)

Ouvir dizer que levantaste a mão contra ti mesmo
antecipando o carniceiro.
Oito anos banido, o olho no triunfo do inimigo,
impelido afinal a uma fronteira intraspassável
passaste, como se diz, o passo traspassável.

Ruem os reinos. Chefes de quadrilha
acodem em compasso de estadistas. Os povos
somem da vista, toldados pelas armas.

O futuro no escuro. Frágeis
os poderes benignos. E vias tudo isso
quando destruíste o corpo torturável.
.

domingo, 21 de junho de 2020

Luiz Sérgio Henriques* - Fascismo e antifascismo

- O Estado de S.Paulo

Cabe ter esperança na ação de uma esquerda que assuma a ideia democrática

Há pouco mais de um ano, não deixou de causar furor e indignação a atitude de Matteo Salvini, o expoente da ultradireita italiana e, na época, a figura mais forte do governo, ao se recusar a celebrar a data de libertação do seu país da ocupação nazista e do despotismo mussoliniano. O 25 de abril, na visão de Salvini, não marcava nenhum renascimento nacional por trazer um vício de origem: independentemente da catástrofe cujo fim aquela data assinala, trata-se de uma contraposição – entre fascistas e antifascistas – já arquivada nos desvãos do passado. O fascismo está derrotado e, por isso, o antifascismo não tem mais razão de ser. E, sobretudo, não tem mais razão de ser porque entre os antifascistas, na primeira fila, estão os odiados comunistas, a quem Salvini, como os demais companheiros de cruzada, não reconhece nenhum papel positivo, em contexto algum.

No entanto, o antifascismo, apesar de Salvini e companhia, é um termo que tem atravessado gerações, redefinindo-se em diferentes conjunturas críticas. Seus símbolos, suas palavras de ordem e até canções, como a Bella Ciao, que os jovens voltam a entoar nas manifestações em várias línguas, mostram que ali, naquele termo, há matéria de memória e de reflexão, especialmente por quem, considerando as frentes antifascistas um tema relevante ainda hoje, nem por isso se abstém de enfrentar contradições muitas vezes dilacerantes no próprio campo.

O comunismo, por exemplo. Onde quer que tenha havido fascismo, ou arremedo dele, como no Brasil do Estado Novo, os comunistas lutaram o bom combate. E a URSS staliniana foi um componente essencial da aliança com as democracias ocidentais que afastou o pesadelo de um Reich de mil anos. Mas é forçoso reconhecer que, lutando pela democracia, os comunistas no poder construíram Estados repressivos e, para falar com franqueza, totalitários; na oposição, ao contrário, tornaram-se pouco a pouco fatores importantes de várias democracias, moderando-se ao longo do tempo num sentido social-democrata e dando origem ao proverbial “reformismo” legalista dos velhos PCs. Eles, em tais contextos, sempre menos antissistêmicos e mais preocupados com a integração dos “de baixo”, eram meios para a expansão virtuosa das democracias, e não para a explosão revolucionária, o que ia ao encontro dos interesses de toda a sociedade.

Celso Lafer* - Ódio

- O Estado de S.Paulo

É a negatividade da mescla do ódio nas opiniões que impacta a convivência democrática

O ódio é um sentimento que conduz à aniquilação dos valores. Promove a falta de conexão entre pessoas, isola e desliga, pulveriza e corrói o papel dos indivíduos, como destaca Ortega y Gasset. Tem um efeito que corrompe e avilta o espaço público.

O ódio tornou-se parte do contorno da vida política brasileira. Virou um ingrediente da nossa circunstância. Esteve presente na dicotomia da eleição de 2018. Alimenta a lógica do confronto da Presidência Bolsonaro. Esta se vê continuamente abastecida por fake news e pelas limitadas, mas estridentes manifestações facciosas de movimentos de ódio, denegadores das instituições democráticas e propugnadores de uma “ascensão aos extremos”. O radicalismo dessas posturas, que usufruem a acolhedora benevolência do presidente, impacta a atmosfera política. Compromete o espaço de um centro agregador da sociedade brasileira.

O ódio não reflete. Agita. Na esfera pública movimenta a obscuridade dos ressentimentos privados em relação ao sistema político.

Instrumentaliza na sua dinâmica o sentimento voltado para identificar não adversários, mas múltiplos inimigos. Com estes, para essas facções, cabe travar uma guerra pública, política e cultural. É uma mensagem de combate que está em impregnadora sintonia com a mentalidade do setor ideológico do governo.

O ódio, público ou privado, contrapõe-se à prescrição bíblica. Diz o Levítico (19,17): “Não terás no coração ódio pelo teu irmão”. A reflexão talmúdica sobre essa prescrição ensina que o ódio no coração ao semelhante coloca o ser humano fora do mundo (Tratado Aboth, II-16), ou seja, para falar como Hannah Arendt, impede a pluralidade do estar no mundo com outros seres humanos. Neste mundo o Senhor abomina “o que semeia a discórdia entre irmãos” (Provérbios 6,20).

Merval Pereira - Guerra fria

- O Globo

Gestos em direção ao STF feitos por Bolsonaro não têm o poder de paralisar as investigações que envolvem seu círculo íntimo

Os gestos do presidente Bolsonaro em direção ao Supremo Tribunal Federal (STF) têm pouca chance de reverter o relacionamento institucional entre os dois Poderes por uma razão simples: eles não têm o poder de paralisar as investigações que envolvem Bolsonaro ou seu círculo íntimo, e nem isso pode ser objeto de proposta de negociação. Seria ofensivo.

Espera-se uma reação menos biliosa por parte do presidente caso alguma decisão judicial nos próximos dias, o que não é improvável, mexa com seu humor. O que é classificado de “guerra fria institucional” pelos enviados especiais do Palácio do Planalto a São Paulo para uma conversa apaziguadora com o ministro do STF Alexandre de Moraes é, na verdade, a irresignação do presidente Bolsonaro com as decisões judiciais que lhe são desfavoráveis, o que não tem solução a ser pactuada.

Os enviados foram o ministro Jorge Oliveira, chefe do Gabinete Civil, o ministro da Justiça André Mendonça (ambos candidatos a vagas no Supremo) e José Levi, Advogado-Geral da União. Obviamente, não conversaram sobre investigações ou casos específicos, focando o diálogo na necessidade de acabar essa “guerra fria institucional”.

Bernardo Mello Franco - Três mentiras e um autoengano

- O Globo

Ao comentar a prisão de Queiroz, Bolsonaro mentiu três vezes em apenas 75 segundos. O capitão já disse que o amigo ‘fazia rolo’, mas agora é ele que está enrolado.

Desde que Fabrício Queiroz foi em cana, Jair Bolsonaro suspendeu as paradas no curralzinho do Alvorada. O presidente fugiu dos microfones e se mostrou abatido em dois vídeos divulgados nas redes. Na única menção ao caso, tentou se descolar da prisão do escudeiro. Em 75 segundos, contou três mentiras e confundiu desejo com realidade.

Bolsonaro disse que o amigo estava entocado em Atibaia para ficar “perto do hospital”. Conversa fiada. A chácara onde Queiroz se escondeu fica a 96 quilômetros do Albert Einstein, onde ele pagou uma cirurgia de R$ 133 mil em dinheiro vivo. Chegaria mais rápido se continuasse no Rio e pegasse um voo da ponte aérea.

O capitão afirmou que o ex-PM não precisava ser capturado porque estava à disposição do Ministério Público. Outra cascata. No pedido de prisão, os promotores lembram que Queiroz não compareceu “a diversos depoimentos marcados e remarcados” desde 2018. Ele ainda prestou informação falsa ao fornecer o endereço de um hotel em que nunca se hospedou. Sua mulher, que chegou a articular um plano de fuga com milicianos, está foragida da polícia.

Luiz Carlos Azedo - Aposta do fracasso

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Houve uma mudança de contexto, ao qual Bolsonaro não se adaptou, em razão de um projeto de poder em bases ideológicas incompatíveis com a realidade”

O governo Jair Bolsonaro pode ter chegado a um ponto de inflexão, em razão da estratégia adotada pelo presidente para impor suas vontades aos demais Poderes e entes federados. As ameaças ao Supremo Tribunal Federal (STF), os desentendimentos com o Congresso e as frequentes retaliações a governadores e prefeitos, a partir de uma concepção de poder centralizado e vertical, incompatível com a Constituição de 1988, são fatores de instabilidade político-institucional. Ainda mais num ambiente dramático, de crise sanitária e econômica, agravado pelo negacionismo da política de isolamento social para combater a pandemia de coronavírus e pelo colapso do projeto de reformas ultraliberais, diante da recessão econômica.

Houve uma grande mudança de contexto político, econômico e social, ao qual o presidente da República não se adaptou, em razão de um projeto de poder em bases ideológicas incompatíveis com a realidade brasileira e nossas relações com o mundo. Esse projeto sempre foi minoritário na sociedade, mas parecia se impor pela audácia e virulência com que Bolsonaro mobilizou seus apoiadores mais radicais e militarizou seu governo. Tornara-se uma ameaça ao Estado de direito democrático e à coesão nacional, além de um fator de isolamento e desmoralização do Brasil perante as demais nações, sobretudo do Ocidente.

Míriam Leitão - Bolsonarismo é uma ideologia?

- O Globo

Não há um conjunto de ideias próprias que formem uma ideologia bolsonarista, mas um amontoado de preconceitos, com ódio à democracia

A resposta para a pergunta do título é não. É um amontoado de preconceitos com o ódio à democracia. O primeiro ponto desse conjunto disforme de ideias está na frase de Abraham Weintraub, de que todos os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) deveriam ir para a cadeia. Isso é a defesa do totalitarismo. Nem a ditadura militar fez isso. Quando se diz que alguém é defendido pela “ala ideológica”, é uma interpretação caridosa para um grupo de malucos que sonha com a ditadura de Bolsonaro. “Intervenção militar com Bolsonaro” é a faixa sempre presente nas manifestações governistas.

Não há um conjunto orgânico de ideias que se possa chamar de ideologia bolsonarista. O conservadorismo que defendem não é o pensamento conservador clássico. É o reacionário, no sentido técnico de saudosismo de um passado idealizado. Em cima da lareira do sítio bolsonarista de Atibaia havia uma bandeira escrito “AI-5”. O mesmo decreto que é defendido nas passeatas. A maioria das pessoas que grita por esse Ato Institucional não saberia dizer o que ele representaria na prática.

Vera Magalhães - E agora, Paulo?

- O Estado de S.Paulo

Saída de Mansueto abre debate sobre legitimar governo Bolsonaro

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?

Numa semana pródiga em escândalos até para os aberrantes padrões bolsonaristas, peço licença para não falar de Sara Giromini, Fabrício Queiroz ou Abraham Weintraub, que já foi tarde.

Figura bem menos exótica, o ex-secretário do Tesouro Nacional Mansueto Almeida, economista e pesquisador do Ipea, virou pivô de um debate sobre em que medida, diante dos arreganhos autoritários do presidente e de suas investidas diárias contra a democracia, aqueles que permanecem em cargos de confiança em sua gestão são cúmplices de seus atos.

A discussão sobre Mansueto foi enviesada e serviu de pretexto para fazerem aflorar velhas antipatias contra o economista, um dos idealizadores do teto de gastos. Mas se um assessor do segundo escalão – que, afinal, pediu demissão – gerou tamanha celeuma, isso é sinal de que existe, sim, uma discussão importante a ser feita sobre quem fica neste governo apesar de tudo.

O título desta coluna procura direcionar a discussão a quem de direito. No caso, ao ex-chefe de Mansueto, o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Eliane Cantanhêde – Fim de festa

- O Estado de S.Paulo

Militares recuam. Weintraub fugindo e Mário Frias na Cultura completam clima de fim de festa

A fuga do inacreditável Abraham Weintraub para Miami e a chegada do também inacreditável Mário Frias à Secretaria de Cultura trazem ao governo um sensação de fim de festa, ou de fim do mundo, com o presidente Jair Bolsonaro catatônico, os generais aturdidos, o trio jurídico tentando um “respiro” do Supremo e o pau comendo na Justiça e na pandemia. Com um milhão de contaminados e 50 mil mortos, o foco do presidente está em outros números: 01, 02 e 03.

Situação dramática. Os militares finalmente se dão conta, o mundo jurídico age e o político se preserva. Todos conversam com todos procurando uma luz no fim do túnel: ex-presidentes (menos Lula), atuais e ex-ministros do Supremo, da Defesa e da Justiça, políticos de diferentes cores, juristas independentes, militares da ativa e da reserva. Os bolsonaristas veem “abuso” e “perseguição” contra Bolsonaro, o STF e os demais lembram que os ataques e ameaças partiram dele. Mas há uma saudável operação de guerra para defender o País – apesar do presidente.

Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, pelo menos, têm conversado com o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, e Gilmar foi ao comandante do Exército, general Walter Pujol (que tem sido exemplar). Também têm canal com o ministro da Justiça, o secretário-geral da Presidência e o advogado-geral da União, além de influentes generais da reserva. Bolsonaro, que deveria liderar esse processo, está alienado. Na sua dimensão, almoça com gatos pingados do Centrão, faz live patética com Weintraub, defende o preso Fabrício Queiroz e desdenha de um milhão de brasileiros com o vírus (“Quase 90% não sentem quase nada”).

Dorrit Harazim - Abraço de afogado

- O Globo

Agora que a casa caiu, a esparrela das movimentações financeiras dos Bolsonaro será escancarada mais cedo do que tarde

Um silêncio nunca consegue ser de todo silencioso. Mais de meio século atrás, o compositor de música contemporânea John Cage sentou-se ao piano do Maverick Concert Hall em Woodstock (pois é, Woodstock), no Estado de Nova York, e apresentou a peça que o tornaria célebre. Durante 4 minutos e 33 segundos “tocou” o que seriam três movimentos com as mãos imóveis sobre o teclado fechado. Daí o nome da peça, “4:33”, e o estrondo que fez. A obra continua a ser apresentada por pianistas clássicos mundo afora, com cada plateia preenchendo o desconfortável silêncio ouvindo os sons ao redor. São sons do cotidiano imprevisível — um tossir, um ranger, um respirar pesado, um roçar de papel — que em salas de acústica afinada adquirem peso novo. No fundo, cada um ouve o que não pretendia escutar.

O abraço de três segundos desta quinta-feira entre o presidente Jair Bolsonaro e Abraham Weintraub também se presta a leituras múltiplas. Cada um interpreta como quiser, mas não é ilícito ver na cena o abraço de um afogado. Um só — Bolsonaro.

Dadas as circunstâncias, os náufragos naquele enlace forçado deveriam ser dois — o ministro da Educação defenestrado e o chefe de Estado no seu dies mais horribilis desde a posse. Só que Weintraub pôde se programar para a cena, enquanto a explosiva prisão de Fabrício Queiroz horas antes deixara o presidente à míngua de oxigênio. Para o vídeo de três minutos em que anunciou sua demissão, Weintraub se apresentou de paletó aberto e mão no bolso, com uma sem-cerimônia estudada e cafajeste, sob medida para os “muitos Weintraubs” que ele disse ter descoberto no Brasil. Agraciado com um cargo de R$ 1,3 milhão anuais no Banco Mundial em Washington, disporá, se efetivado, desse colchão de distância das investigações judiciais que o envolvem no inquérito das fake news. Ainda que venha a ser alcançado pela Justiça, contudo, jamais conseguirá pagar a dívida histórica que contraiu com toda uma geração de brasileiros: ele foi, até o ultimíssimo decreto, o ministro da Educação mais ruinoso da História do Brasil.

Elio Gaspari - A blindagem tabajara de Queiroz

- Folha de S. Paulo / O Globo

Fabrício Queiroz estava guardado no sítio de Atibaia do doutor Frederick Wassef, o “Anjo”, da família Bolsonaro

A blindagem que protegia Fabrício Queiroz foi coordenada por Asmodeu. Em 2019, quando um passarinho da Polícia Federal fez chegar aos Bolsonaro a informação de que havia gente de olho no chevalier servant do capitão, ele foi protegido pelos sete lados. De saída, Queiroz e sua filha foram demitidos dos gabinetes da família em que estavam lotados. Em seguida, tratou-se da sua defesa. O primeiro nome que entrou na roda foi o do advogado Antônio Pitombo. Não era conveniente, porque ele defendia Jair Bolsonaro. Numa segunda hipótese o caso iria para Christiano Fragoso. Profissional renomado, estaria acima das posses de Queiroz. Tratava-se de arrumar um advogado que não desse na vista. Nessa altura, Queiroz sumiu das vistas do público, e Jair Bolsonaro paralisou toda operação, chamando-a a si.

Na quinta-feira, o vexame: Fabrício Queiroz estava guardado no sítio de Atibaia do doutor Frederick Wassef, o “Anjo”, da família Bolsonaro.

Wassef gosta de holofotes, fez fama e tornou-se figurinha carimbada em Brasília e vistosa presença em eventos oficiais. O que foi uma operação para afastar Queiroz da família, virou uma pajelança tabajara que resultou no oposto. Pior, só se ele estivesse no Alvorada.

Queiroz estava sem advogado desde dezembro do ano passado. Seu novo defensor é Paulo Emílio Catta Preta. Até fevereiro ele cuidava dos interesses do miliciano Adriano da Nóbrega, que estava foragido e foi morto pela polícia no interior da Bahia, num sítio do vereador Gilsinho da Dedé, eleito pelo PSL, partido a que pertenceu Jair Bolsonaro. A mãe e a mulher de Adriano estiveram lotadas no gabinete de Flávio Bolsonaro, sob o patrocínio de Fabrício Queiroz.

Janio de Freitas – A turbulência em seu começo

- Folha de S. Paulo

Como se sentem os generais, na condição de integrantes e esteio de um governo que treme porque um miliciano foi encontrado?

Uma presença velada na turbulência trazida pela prisão de Fabrício Queiroz ficou, entre os atingidos, com a perda mais perturbadora. Como se sentem os generais, ainda fardados ou não, na condição de integrantes e esteio de um governo que treme porque um miliciano foi encontrado em seu esconderijo? Podem ser sensações insondáveis ou enganosas, imutáveis ou indiferentes. São efeitos pessoais. Mas nos níveis de responsabilidade pelas Forças Armadas, em especial no Exército, a questão ferve. Os reflexos do vínculo de militares com Bolsonaro e associados estão agravados em seus efeitos, externos e internos, sobre a instituição. Mais: em vésperas de piora.

O Exército exposto a investigação por indícios de superfaturamento em compra, volumosa e sem licitação, de substâncias para fabricar cloroquina, é mais um custo moral, e talvez penal, a pagar por serviço a Bolsonaro, e não ao país e à ciência. E tão elevado quanto justificado pela constatação, devida ao procurador Lucas Furtado, de compra com preço seis vezes acima do valor já corrigido por efeito do coronavírus e do dólar.

Não é tudo, porém. Abrindo-se outra linha de estranheza, a obstinação de Bolsonaro pelo uso de cloroquina e hidroxicloroquina em larga escala, contra a pandemia, tem um precedente obscuro: a sua campanha, quando deputado, pela adoção da pretensa “pílula do câncer”, que pesquisas mostravam ser ineficaz. Bolsonaro teve um ativo parceiro nessa empreitada suspeita: Frederick Wassef —o advogado da família Bolsonaro, íntimo dos palácios da Alvorada e do Planalto no atual governo, hospedeiro dissimulado do desaparecido Queiroz e, claro, entusiasta do novo interesse farmacêutico do seu principal cliente e amigo. Além do mais.

Hélio Schwartsman – Personae

- Folha de S. Paulo

Trump, Bolsonaro e Putin expõem tríade sombria e aparecem em público quase sempre sem máscara

A palavra “personalidade” vem do termo latino “persona”, que significa originalmente “máscara” e, depois, “personagem”, “papel”. O vocabulário do teatro não é gratuito. Atores gregos, e também romanos, usavam máscaras que retratavam o estado de espírito de seus personagens —dessa tradição, sobreviveram as hoje ubíquas máscaras da comédia e da tragédia, que simbolizam o próprio teatro.

Daí ao sentido moderno de personalidade como o conjunto de características psicológicas que determinam os padrões de pensar, sentir e agir, ou seja, a individualidade de alguém, é só um pulinho.

Tudo isso é bem conhecido. A pandemia de Covid-19, porém, revela um novo e inesperado vínculo entre máscaras e personalidade.

Bruno Boghossian – Ideia de perseguição

- Folha de S. Paulo

Após prisão de Queiroz, presidente reforça imagem de que é vítima de conspirações

Mais do que nunca, Jair Bolsonaro tenta convencer seus apoiadores de que é vítima de uma conspiração de gente poderosa. O avanço do Supremo sobre seus aliados e a prisão de Fabrício Queiroz reduziram as linhas de defesa do presidente. O cerco se ampliou tanto que restou apenas a ideia de perseguição.

Bolsonaro quer vender a impressão de que suas derrotas no Congresso não têm relação com a incompetência do Planalto e de que a interferência na PF foi só uma maneira de conter injustiças contra sua família. As mortes na pandemia seriam uma fraude grosseira e o foguetório lançado por seus aliados sobre o STF deve ter sido uma ilusão de ótica.

O presidente, que nunca aceitou a limitação de seus poderes, explora o próprio fracasso. Sem apoio consistente na Câmara, o governo faz propaganda de uma suposta conspiração engendrada por atores políticos.

Quando a equipe econômica se mostrou incapaz de negociar a aprovação de um projeto de socorro aos estados durante a pandemia, Bolsonaro acusou Rodrigo Maia de “quase conspirar por aí contra o governo”.A manipulação primitiva até rende alguns dividendos. A agitação criada pelo presidente costuma energizar sua base nas redes sociais e também ajuda a reagrupar setores hesitantes dentro do próprio governo.

Vinicius Torres Freire - Batalha do novo auxílio emergencial

- Folha de S. Paulo

Programa afeta 40% dos adultos e equivale a um quarto dos salários mensais

A prorrogação do auxílio emergencial chama menos a atenção do que as imundícies do caso Queiroz-Bolsonaro, pelo menos entre os remediados na vida. Deve ser o grande conflito das próximas semanas, com efeitos sociais e econômicos importantes, qualquer que seja o desfecho do confronto, que de resto pode ser decisivo para a popularidade de Jair Bolsonaro.

Antes de mais nada, diga-se que 63,5 milhões de pessoas foram autorizadas a receber o benefício, cerca de 40% da população maior de 18 anos. O gasto estimado até agora é de R$ 154 bilhões. Na média, daria pouco mais de R$ 51 bilhões por mês, o que equivale a um quarto de todos os rendimentos mensais do trabalho do país, segundo o registro do IBGE (Pnad).

A última das três parcelas do auxílio será paga neste junho, diz a lei, embora fiquem restos atrasados a pagar. O governo não queria prorrogação, mas agora aceita até mais duas prestações de R$ 300. Os deputados pensam em até mais duas de R$ 600.
O movimento Renda Básica que Queremos! (RBQQ) quer mais seis parcelas de R$ 600, até o fim do ano.

Ricardo Noblat - Alianças espúrias, segredos mal guardados, fuga espetacular

- Blog do Noblat | Veja

A série que você não pode perder!

O que temos hoje:

um presidente da República (Jair Bolsonaro) e seus filhos políticos reféns de um ex-miliciano (Fabrício Queiroz) preso há 3 dias;

um ex-ministro de Estado (Abraham Weintraub) que fugiu para o exterior numa operação acobertada pelo governo;

um advogado (Frederick Wassef) que confessa ser o verdadeiro homem-bomba, e não Queiroz;

E o celular de um ex-ministro (Gustavo Bebbiano) que guarda segredos capazes de reescrever parte da história recente do país.

É de matar de inveja o mais genial roteirista de tramas que misturam políticos e criminosos, uns a serviço dos outros.

Um político aliado de milicianos se elege presidente de uma República bananeira, monta um governo militar, obriga o Exército a enfrentar uma pandemia com um remédio que não funciona e…
E o melhor ainda está por vir. O desfecho não será para breve. O vírus continuará matando, a essa altura como pano de fundo da ação igualmente mortal do vírus político.

Weintraub escapou para os Estados Unidos com medo de ser preso. Voou de São Paulo para Santiago do Chile – sabe-se lá por que. E de lá para Miami em voo direto.

Lições de uma tragédia – Editorial | O Estado de S. Paulo

A melhor forma de honrar a memória dos mais de 50 mil mortos em decorrência da covid-19 é tornar o Brasil um país menos desigual e mais fraterno

O Brasil ultrapassou a desoladora marca dos 50 mil mortos por covid-19. Em todas as regiões do País, choram dezenas de milhares de pais, mães, filhos, avôs, avós, netos e amigos que perderam gente amada e nem sequer puderam confortar uns aos outros com um simples abraço. A subtração repentina dos ritos funerários, fundamentais para a construção de um sentido para a morte, é uma faceta particularmente cruel dessa doença, tanto mais perversa porque a esmagadora maioria das vítimas passou suas últimas horas de vida sem o acalento de seus familiares. Por empatia ou compaixão, milhões de brasileiros que tiveram a sorte de não perder um ente querido para o novo coronavírus tampouco vivem dias de paz. A maior tragédia nacional em mais de um século fez do luto uma experiência coletiva e impessoal. Hoje, o Brasil é um país triste.

Mas, por mais severas que sejam, quase todas as perdas ocasionadas pela pandemia poderão ser superadas mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor grau de dificuldade. As eventuais transformações da sociedade na direção do que se convencionou chamar de “novo normal”, que tanto tem ocupado filósofos, psicólogos, sociólogos e economistas no momento, serão assimiladas no tempo adequado para cada indivíduo. Empresas quebradas poderão, eventualmente, ser reerguidas. Outras tantas serão criadas pelas necessidades impostas por um evento dessa magnitude. Em breve, aviões voltarão a riscar os céus no mundo inteiro. Empregos serão recuperados. Aulas serão retomadas. O comércio já está em franco processo de reabertura, em que pese a impertinência, para dizer o mínimo, de uma medida como essa no atual estágio da pandemia no País. Mas nada haverá de apagar da memória nacional o fato de que, em apenas três meses de 2020, mais de 50 mil brasileiros morreram em decorrência da covid-19, centenas deles profissionais da área de saúde que atuavam na linha de frente do combate a essa nova e perigosa ameaça sanitária com a bravura e dedicação que os distinguem. De uma hora para outra, mais de 50 mil histórias de vida se tornaram impossibilidades antes que fosse possível assimilar em toda a sua inteireza o que uma tragédia como essa representará para o País no futuro.

Instabilidade na política limita as opções econômicas – Editorial | O Globo

A alternativa de ampliar o fluxo do comércio externo esbarra na criação de conflitos com parceiros

O governo precisa se organizar melhor na atração de investimentos externos para alavancar a recuperação da economia.

O Brasil deve perder ao menos US$ 16,6 bilhões em investimentos estrangeiros diretos este ano, prevê a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad). O fluxo de capital, nessa hipótese otimista, tende a cair do patamar de US$ 72 bilhões, no ano passado, para US$ 55,4 bilhões.

Merece atenção redobrada porque, antes da pandemia, a saída de capitais já era fomentada pela falta de vigor da economia e pela multiplicação das dúvidas fiscais — estas, atenuadas pela reforma da Previdência levada pelo Congresso, apesar das vacilações do Executivo.

A surpresa da pandemia, com efeitos catastróficos, levou o país a novo ponto de partida. O diferencial está na corrosão da confiança dos investidores, porque Jair Bolsonaro transformou a Presidência no principal vetor de instabilidades na República, depois do novo coronavírus.

Fôlego tributário – Editorial | Folha de S. Paulo

Crise da pandemia justifica regras excepcionais para a renegociação de impostos

Com o choque provocado pela pandemia, boa parte de trabalhadores, empresas e outras instituições mal conseguem pagar despesas essenciais, o que impõe a demanda pela renegociação do pagamento de tributos.

Poucas vezes foi tão justificável a implantação de um programa do gênero —depois de quase duas décadas de proliferação de novas versões do inaugural Refis, nem sempre com critérios adequados para o perdão e o escalonamento de dívidas com a Receita Federal.

Aproveita-se agora o aprendizado com os excessos do período. Desde abril existe uma nova modalidade de acordo de renegociação de passivos com o governo federal, a transação tributária, instituída pela Lei do Contribuinte Legal.

Foi com base nesta legislação que Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional publicou portaria que prevê descontos para multas e juros atrasados e o parcelamento de dívidas no período da pandemia, a chamada transação excepcional.

O benefício pode ser estendido a empresas, pessoas físicas, escolas, Santas Casas e organizações sociais que devam à União e comprovem redução de renda ou faturamento desde março deste ano, na comparação com o período correspondente do ano passado, entre outros requisitos legais.