terça-feira, 17 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Operação da PF demonstra o risco de emendas opacas

O Globo

Falta de transparência nos recursos abre brechas a fraudes, corrupção e lavagem de dinheiro

É oportuna a operação conjunta de Polícia Federal (PF), Controladoria-Geral da União, Ministério Público Federal e Receita Federal que investiga a suspeita de desvios de emendas parlamentares. O foco são fraudes licitatórias, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e outras entidades. Em 2024, os investigados assinaram contratos de R$ 825 milhões com órgãos públicos. No período sob investigação, movimentaram R$ 1,4 bilhão. Mandados de busca e apreensão, prisão preventiva e sequestro de bens foram executados nos estados da Bahia, do Tocantins, de São Paulo, Minas Gerais e Goiás.

'O pessoal do agro’ - Merval Pereira

O Globo

É preciso saber quem financiou, mas também quem negligenciou com objetivos políticos

Eu soube, antes que tenha acontecido, que a invasão da Praça dos Três Poderes em Brasília vinha sendo planejada. Só não sabia quando, nem de que forma. Todo mundo, aliás, sabia que algo era organizado pela oposição. As redes convocavam para “a festa da Selma”, mas ninguém tinha a dimensão do que ocorreria.

Foi assim: dias antes do 8 de Janeiro, eu estava no restaurante Nido, no Leblon, e encontrei o publicitário Washington Olivetto, que jantava noutra mesa. Conversávamos, quando nos abordou um senhor de cerca de 60 anos, sotaque do Centro-Oeste, que estava numa terceira mesa. Os dias eram tumultuados, preparava-se uma grande manifestação em Brasília de apoio a Bolsonaro, derrotado por Lula na recente eleição presidencial.

O senhor nos reconheceu e puxou assunto. Criticou a imprensa, disse que a eleição havia sido roubada e, indignado, declarou:

— Mas isso vai acabar logo, logo, vocês vão ver.

O que levou à prisão do general - Míriam Leitão

O Globo

Há fatos novos que levaram à prisão de Braga Netto, segundo as investigações. Ele, ao entregar o dinheiro aos kids pretos, ficou na mesma posição dos executores

O que motivou a ação contra o general Walter Braga Netto foi o fato de que “ele seguia buscando informações sobre dados sigilosos para, de alguma forma, interferir no processo”. Foi isto o que me disseram fontes a par das investigações, quando questionei por que Braga Netto e por que agora. Há ainda outro fator que levou o ex-ministro da Defesa à peculiar situação de estar preso no mesmo Comando Militar do Leste que um dia comandou, na Vila Militar Marechal Deodoro, onde tantos presos políticos sofreram durante a ditadura. Trata-se do relato prestado por Mauro Cid, segundo o qual o general teria entregado R$ 100 mil de integrantes do agronegócio aos chamados "kids pretos".

Contagem regressiva para o pacote fiscal - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Para destravar a pauta do Congresso, o governo pagou R$ 7,1 bilhões em emendas parlamentares, na quinta e sexta-feira da semana passada; querem mais R$ 8 bi

O Congresso tem até a sexta-feira para aprovar todas as matérias econômicas pendentes, indispensáveis para o controle da inflação e a redução da taxa de juros: a reforma tributária, o Orçamento da União de 2025 e o ajuste fiscal deste ano, do qual o governo depende para cumprir o arcabouço fiscal. Nesta segunda-feira, após visita ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, fez um apelo para que as propostas “não sejam desidratadas”.

Essas matérias estão com apreciação atrasada porque os congressistas, principalmente os deputados, represaram as votações para pressionar o governo a executar as emendas parlamentares que haviam sido suspensas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). As novas regras para garantir a rastreabilidade das emendas, ou seja, a transparência sobre sua autoria e destinação, como determina a Constituição, irritaram os parlamentares.

Coincidentemente, a Polícia Federal vem realizando diversas prisões e operações de busca e apreensão contra gestores públicos e empresários envolvidos no desvio de recursos dessas emendas. Esses inquéritos estão sob sigilo de Justiça porque há mais de uma dezena de parlamentares envolvidos.

Uma convalescença sob pressão - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Última semana de votações mostra que o golpismo ruma para ser desbaratado sem que a ordem política que o sustentou seja desmontada. É disso que a convalescença de Lula será obrigada a se ocupar

No único momento de exaltação da entrevista que deu à jornalista Sônia Bridi, do “Fantástico”, por ocasião de sua alta hospitalar neste domingo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que ninguém no país tinha mais responsabilidade fiscal que ele. Dois dias antes, o Banco Central havia subido em um ponto os juros e indicado que a taxa poderia bater em 14,25%. No dia seguinte, o ministro da Fazenda saiu do primeiro dos despachos que o presidente fará de sua casa, em São Paulo, até quinta, quando será reavaliado, dizendo que o pacote fiscal não será desidratado. Enquanto Fernando Haddad estava com Lula, o BC fez sucessivos leilões que somaram US$ 1,6 bilhão.

Centro prevalecendo sobre polarização - César Felício

Valor Econômico

Levantamento recentes indicam que uma divisão do eleitorado em três faixas praticamente iguais

Um conjunto de pesquisas divulgadas nos últimos dias indicou que a sociedade brasileira está menos polarizada do que dizem as aparências e que há um senso comum a favor da democracia. Existe ceticismo, contudo, em relação ao inquérito no Supremo Tribunal Federal que apura uma tentativa de golpe de Estado em 2022.

Esses dois achados, para o bem ou o mal, dialogam entre si. O extremismo ideológico patrocinado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro está confinado a uma parcela minoritária do eleitorado, mas não há, ainda, convicção de que o ex-presidente estaria envolvido no golpismo, mesmo diante do intenso noticiário nesse sentido.

Buracos na pista de pouso do Fed - Marcelo Carvalho

Valor Econômico

Se nos EUA a preocupação do Fed deve ser com buracos na pista de pouso, no Brasil o grande desafio pela frente é a cratera fiscal

Todo piloto de avião experiente sabe que um pouso suave é mais fácil com condições climáticas favoráveis de vento e visibilidade, e controle adequado de velocidade e altitude. Mas nada disso é suficiente para evitar acidentes se, apesar do aparente sucesso na aproximação inicial, houver buracos na pista de pouso.

Digo isso porque essa parece a situação atual do banco central americano, o Federal Reserve. O consenso da maioria dos analistas econômicos tem previsto um pouso suave da economia americana. Nesse cenário, o crescimento do PIB desacelera gradualmente, mais em linha com o potencial de longo prazo. Enquanto isso, a inflação converge para a meta oficial de 2%, permitindo ao Fed reduzir o juro para mais perto da neutralidade. Esse, por exemplo, era o cenário básico predominante que presenciei nas reuniões recentes do Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial em Washington.

O Brasil tem medo de crescer? - Ingo Plöger*

Valor Econômico

Produtividade da economia brasileira é subestimada

Desde 2021, o Brasil tem crescido acima de todas as previsões de instituições brasileiras e internacionais. Em artigos no Valor, tenho alertado sobre tal pessimismo e perguntado: por que estamos errando sempre para baixo? Para 2025, as instituições preveem um crescimento de 2,2% do PIB do Brasil. Novamente, temos a chance de errar para baixo. A pergunta insistente é: por que não temos a capacidade de aprender com os nossos erros? O que não conseguimos enxergar, ou insistimos em errar? Eis algumas hipóteses para este comportamento.

a) Subestimamos a produtividade nacional

A produtividade brasileira tem crescido ano após ano, tanto nos serviços, quanto na indústria e no agronegócio. Esta produtividade é medida pelos fatores de produção não monetizados, ou seja, é o aumento sucessivo da produção medido por fatores relacionados ao tempo, à área, aos insumos, à energia, à unidade de trabalho, enfim à eficácia do trabalho.

Na teoria econômica neoclássica, se mede a produtividade pela poupança, investimento, razão capital-trabalho colocando os EUA como o indicador referência. Esta forma de medir parte do pressuposto que todos os países têm uma estabilidade de moeda comparável aos EUA e que as estruturas produtivas são idênticas. Esta forma de medir está superada, altamente imprecisa e incompleta. Atualmente, temos indicadores interempresariais ou setoriais que nos possibilitam realizar comparativos precisos e contundentes.

Presentes de grego - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Dor de cabeça de Lula não passou: 2023 acabou em festa, mas 2024 chega ao fim de mau humor

O presidente Lula superou a nova cirurgia no cérebro e a embolização, teve alta do hospital e se recupera em São Paulo até quinta-feira, mas a dor de cabeça com a realidade política e econômica não passou. Se 2023 acabou em festa, com PIB surpreendendo positivamente, reforma tributária aprovada e Fernando Haddad bombando, 2024 vai chegando ao fim com ambivalências, nuvens de incertezas e mau humor.

O Congresso é uma parte importante disso, mas não a única. Lula está proibido de fazer exercícios físicos por um tempo, mas obrigado a fazer malabarismos políticos para a aprovação do pacote do corte de gastos, que ele mesmo questiona, e da regulamentação da reforma tributária, só não abandonada pelo relator, senador Eduardo Braga, durante esse ano inteirinho. Só faltam três a quatro dias até o recesso.

Ler pouco, crescer pouco - Jorge J. Okubaro

O Estado de S. Paulo

Baixo índice de leitura significa menor compreensão do mundo em que se vive e mais dificuldades no acesso a melhores postos de trabalho

A redução da pobreza e da extrema pobreza no Brasil para os níveis mais baixos já aferidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deveria instilar-nos algum otimismo, de que tanto carecemos nestes tempos. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, entre 2022 e 2023, 8,7 milhões de brasileiros deixaram a linha de pobreza, outros 3,1 milhões saíram da condição de miséria e a proporção da população considerada pobre diminuiu de 31,6% para 27,4%. O aquecimento do mercado de trabalho e o pagamento de benefícios sociais, como os vinculados ao Bolsa Família, são apontados como fatores decisivos para a melhora, o que mostra a importância desses programas.

Marçais, Trumps e a favela - Sérgio Magalhães

O Globo

Famílias em moradias precárias apoiam-se em comunidades religiosas, apostam em salvadores da pátria

O poeta Antônio Cícero há alguns anos, no Instituto de Arquitetos do Brasil, alertou sobre a impropriedade de tratarmos as favelas por comunidade. Para ele, favelas mais se aproximavam do conceito de sociedade, “onde os indivíduos são diversos, e os mais opostos convivem e contribuem uns com os outros”. O filólogo Antônio Houaiss atribui o termo comunidade ao “conjunto de indivíduos com determinada característica comum, inserido em sociedade maior que não partilha suas características fundamentais”.

O artigo 19 do Marco Civil e o artigo 5º da Constituição - Gustavo Binenbojm

O Globo

As redes sociais há muito deixaram de ser, se é que um dia foram, plataformas digitais neutras em relação ao conteúdo que nelas circula

Com o que uma rede social (tipo YouTube ou TikTok) mais se parece: um telefone ou uma televisão? Houve um momento em que a novidade era imaginar um mundo em que as comunicações fossem livres, em que as pessoas pudessem falar e ser ouvidas, a custo zero. Engraçado, porque hoje um celular é tudo, menos um telefone.

Se terroristas combinarem por telefone um atentado aos prédios dos três Poderes em Brasília, por certo ninguém dirá que a companhia telefônica tem alguma responsabilidade. Mas e se o ataque tivesse a forma de uma convocação contra o Estado Democrático, por meio de uma grande rede social? Lembrem-se da campanha de difamação que a maioria budista fez em Mianmar contra a minoria muçulmana. Investigadores da ONU concluíram que os discursos de ódio no Facebook (e a omissão da empresa, apesar dos alertas da comunidade internacional) tiveram papel fundamental no genocídio de muçulmanos naquele país.

A corrida da IA está empatada – Pedro Doria

O Globo

É difícil afirmar, com clareza, qual empresa está à frente na capacidade de seus modelos

Os lançamentos anunciados na semana passada por OpenAI e Google deixam claro que a corrida pela inteligência artificial apertou. É difícil afirmar, com clareza, qual empresa está à frente na capacidade de seus modelos. Há diferenças, mas são cada vez menos de ordem tecnológica. E a briga não é apenas entre o GPT da OpenAI e o Gemini do Google — há pelo menos um terceiro na disputa, chegando bem perto dos concorrentes. É o Claude, da Anthropic.

As três empresas não facilitam a vida de ninguém. Os nomes que usam para as versões de cada modelo seguem lógicas que nos escapam. O GPT opera, hoje, com três modelos essenciais: 4o, 4o mini, 4o1. O Gemini está na versão 1.5 e caminha para lançar a versão 2.0 em breve. Parece um salto, mas não é. Ampliará a capacidade de um mesmo modelo. O Claude, da Anthropic, está no Sonnet 3.5. Seu modelo alternativo é o Opus 3. Mas a diferença entre um e outro não é de todo clara.

Bolsonaro sabia do golpe? - Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Nossa relação com o debate público polarizado, hoje, é similar a um tribunal

Braga Netto, agora preso preventivamente, era o cabeça do plano golpista. Bolsonaro participou apenas da elaboração de um decreto de estado de sítio, dispositivo previsto na Constituição. Foi dissuadido pelo general Freire Gomes. Todas os elementos mais sórdidos do plano que hoje se descortina —com sequestro e assassinato— eram obra de Braga Netto e outros militares extremistas. O golpe seria dado, inclusive, no próprio Bolsonaro, posto que o comitê que assumiria o poder a partir do uso do artigo 142 não o incluiria.

Foi Braga Netto que, segundo Mauro Cid, arranjou o dinheiro pagou os kids pretos. Era ele quem, por meio do general Mario Fernandes, mantinha contato com os acampamentos golpistas, dos quais saíram os atos violentos como a "noite do fogo" de 12 de dezembro e o atentado terrorista no aeroporto de Brasília.

O diabo vestiu farda – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O quanto antes o Congresso decidir por afastar militares da política, melhor

Um general de quatro estrelas presooito militares detidos e 25 indiciados por suspeita de formar organização criminosa para tramar atentados contra o Estado de Direito não é algo trivial em lugar algum do mundo.

Ocorrência menos usual ainda; na verdade, inédita em nossa República instituída mediante um golpe, e que atravessou o século 20 acossada por diversas sublevações fardadas nas quais civis foram coadjuvantes ativos.

É preciso reformar as Forças Armadas - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Seria um erro não aproveitar momento para tentar tornar os militares mais profissionais e mais legalistas

Entre as coisas que eu não achava que veria em vida está a prisão de um general de quatro estrelas por tentativa de golpe de Estado. É verdade que Braga Netto já estava na reserva e, por enquanto, amarga só uma prisão preventiva.

Seu encarceramento, porém, faz com que eu suspenda meu natural ceticismo em relação à Justiça brasileira e passe a considerar bastante real a possibilidade de Jair Bolsonaro e alguns de seus asseclas serem condenados e começarem a cumprir pena em um par de anos.

Filho golpista não tem pai - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

O candidato a vice na chapa de Bolsonaro nem sempre foi considerado um traidor da farda

Filho feio não tem pai. As Forças Armadas hoje procuram afastar os laços com Braga Netto, considerando-o traidor da farda e, ao lado de Bolsonaro, arquiteto do golpe de 2022. Nem sempre foi assim.

Em 2018, quando a popularidade da caserna atingia o auge, os políticos tradicionais eram demonizados e Bolsonaro já ocupava o segundo lugar nas pesquisas eleitorais para presidente, Braga Netto foi escolhido para chefiar a intervenção federal no Rio. A operação foi um desastre digno do governo Temer, não mudou o quadro de insegurança, deixou um rastro de casos de corrupção e os milicianos aproveitaram para matar Marielle. Mas o caminho para a entrada dos generais no poder estava aberto.

Pedalada natalina - ProfºAylê-Salassié Quintão

Para aquecer a memória, essa história de manipulação parlamentar dos orçamentos da União, dos Estados e até de municípios já gerou muitas confusões, prisões e até assassinatos. Não me lembro de problemas especificamente regionais, mas não me esqueço de crimes como os dos Anões do Orçamento, a morte da professora Elizabeth Lofrano, e de como Itamar Franco (1992-1995) governou até quase a metade do mandato sem orçamento, por negligência do Congresso Nacional. Foi uma sorte ter acontecido justo com o Itamar Franco, porque ele manteve a governança inalterada, sem sofrer uma acusação sequer de corrupção. Com Itamar, o PIB cresceu 10%, e a renda per capita 6,78%. Foi o último período de tranquilidade política vivido pelo País nesses últimos anos.

Poesia | Fraga e Sombra, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Guinga e Mônica Salmaso - Bolero de Satã

 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Governadores erram ao criticar PEC da Segurança

O Globo

Objetivo da proposta não é tirar poder dos estados, mas implantar combate eficaz ao crime organizado

São equivocadas as críticas dos governadores do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud) à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, uma tentativa bem-vinda do governo federal de ampliar sua participação no combate às organizações criminosas. Reunidos em Florianópolis (SC) no final de novembro, os governantes de sete estados se manifestaram contra o projeto apresentado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, alegando que ele enfraqueceria o poder estadual.

Na Carta de Florianópolis, afirmam que, se aprovada, a PEC trará “incertezas” às gestões estaduais. Dizem ser contra “qualquer proposta que enfraqueça os estados e reduza sua capacidade de agir de forma rápida e adequada às necessidades locais”. Acrescentam que a segurança deve ser implementada com cooperação, respeito às diferenças regionais e fortalecimento das capacidades locais, “e não por meio de estrutura centralizada, que limita a eficiência e amplifica a burocracia”.

Vivendo na distopia – Fernando Gabeira

O Globo

Não cabe mais a pergunta ingênua: onde vamos parar? Já estamos numa situação inaceitável

Escassos dezembros. Outros meses também não se repetirão muito. Mas o clima de fim de ano sempre nos força a um balanço, ao suspiro de como passa rápido o tempo, ao espanto com as surpresas da vida.

Considero-me feliz por ter passado um fim de semana colado à TV, vendo o fim de uma longa ditadura, as pessoas festejando nas ruas de Damasco, os presos saindo das masmorras, bandeiras, gritos, exilados preparando a volta.

Pensei em escrever sobre a Síria. Na verdade, estou lendo o livro de Clarissa Ward, uma repórter de TV que conta suas incursões clandestinas para documentar a oposição a Bashar al-Assad. À noite, depois de enviar suas reportagens, ela costumava se indagar como os americanos receberiam aquilo, na hora do jantar, ou mesmo levando as crianças para a cama. Tudo tão distante.

O ‘janjismo’ cultural – Miguel de Almeida

O Globo

Acredito que Janja da Silva já tenha ouvido falar da Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. Na dúvida, ajudo: foi uma campanha de consolidação de poder a partir de 1966 contra os “Quatro Velhos” — costumes, cultura, hábitos e ideias. Como saldo, mortes estimadas entre 500 mil e 2 milhões, crise econômica brutal e, no que nos interessa aqui, a destruição do patrimônio histórico e artístico.

Entre outras boçalidades, lembra Rosa Freire d’Aguiar no delicioso “Sempre Paris”, artistas foram enviados ao campo para plantar repolho e camponeses colocados na cidade para fazer cultura. Ninguém se lembra dessas realizações, e obviamente houve desabastecimento de repolho.

É o que deve ficar do espírito do “janjismo” cultural que inspira os resultados do edital da Petrobras. São alegados R$ 250 milhões destinados às diversas áreas da produção artística. De início, rezavam as regras, seriam 30% para as afamadas cotas — gênero, raça e localização geográfica (uma tal desregionalização). Terminaram por ser 95%. São Paulo e Rio de Janeiro ficaram com os restantes 5% que escapam às citadas delimitações ideológicas.

Em linguagem corrente, aos dois principais centros culturais do país, onde se concentra o maior número de produtores e artistas, sobrou apenas 5% da verba que não se enquadra no corte de raça, gênero e localização geográfica. Como Mao Tsé-Tung, não se deseja premiar a qualidade dos projetos, tampouco a experiência do realizador. Valem os novos conceitos dados como divinos pela camarilha petista, inspirados, como se sabe, pela primeira-dama Janja da Silva.

As contradições da ‘Trumponomics’ - Gillian Tett*

Valor Econômico

Se você se sente confuso em relação a Trump, não se preocupe: incerteza é a resposta mais racional neste momento

Que raios vai acontecer com a política econômica dos Estados Unidos quando Donald Trump se tornar presidente do país? A pergunta já vem gerando preocupações generalizadas. E até os investidores supostamente mais experientes parecem perdidos quanto à resposta.

Nesta semana, por exemplo, o fundo hedge Bridgewater informou aos clientes que as “nomeações [para cargos] e a retórica” de Trump “até agora parecem sugerir que ele vai tentar pensar grande e remodelar radicalmente as instituições dos EUA, o comércio internacional e a política externa dos EUA”. Ai, ai. Na sequência, contudo, frisou que isso é apenas “um palpite”, já que há “pouca confiança agora na probabilidade dos programas”. Em português claro: tenha um plano B para proteger qualquer aposta financeira que fizer.

A regulamentação das redes e a garantia da democracia - Marcus Vinicius Furtado Coêlho*

Valor Econômico

Em situações de incitação ao crime, desinformação ou discurso de ódio, se faz necessária uma intervenção para proteger o Estado democrático e os direitos da coletividade

O crescente impacto das redes sociais no cenário global tem gerado discussões sobre a regulamentação dessas plataformas, especialmente no contexto do Estado democrático de Direito. Há mais de uma década, o Brasil já reconhecia a relevância de se estabelecer, em lei, deveres e direitos no ambiente digital.

Contudo, a evolução tecnológica e a explosão de conteúdos ilícitos nas redes deram urgência a uma resposta jurídica precisa e adaptada aos desafios impostos pela internet, como o fenômeno da desinformação e a disseminação de discurso de ódio.

A sopa de letrinhas da concentração de renda - Bruno Carazza

Valor Econômico

Decisão do STF sobre incidência de ITCMD sobre PGBL e VGBL ilustra máquina de concentração de renda

A mensagem de WhatsApp foi disparada no final do expediente de sexta-feira. A gerente de contas de um banco-boutique comunicava a seus clientes ‘prime’ que o Supremo Tribunal Federal (STF), por unanimidade, havia acabado de afastar a cobrança do Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doações (ITCMD) sobre os planos de previdência privada chamados de PGBL e VGBL (respectivamente Plano e Vida Gerador de Benefício Livre).

No cabeçalho do informe do banco veio o assunto: “Alerta Wealth Planning”. E é exatamente disso que a decisão do STF trata: um incentivo ao planejamento sucessório dos mais ricos.

Conservador, Galípolo surpreende o mercado - Alex Ribeiro

Valor Econômico

Alta maior que a esperada da Selic, como costuma acontecer nessas circunstâncias, gerou muita volatilidade

A alta da taxa Selic em três pontos percentuais até março, para 14,25% ao ano, foi um minichoque de juros e pegou os participantes do mercado de surpresa. Mas, apesar do aperto forte, ainda há muito ceticismo. Alguns atribuem a decisão ao presidente que sai do Banco Central, Roberto Campos Neto, e não ao que entra em janeiro, Gabriel Galípolo.

A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, que sai amanhã, e o fim do período de silêncio do colegiado devem começar a desfazer essa impressão. Podem mostrar que o colegiado votou unanimemente pela alta mais forte de juros na reunião da semana passada, de 11,25% ao ano para 12,25% ao ano, e pela sinalização feita para subir um ponto percentual nos encontros de janeiro e março.

Braga Netto e a oportunidade - Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Os conspiradores de 2022 viram oportunidade onde não havia e calcularam mal o risco de punição

A prisão preventiva do general Braga Netto é uma demonstração de que a PF, a PGR e o STF não estão dispostos a pegar leve com quem possivelmente conspirou contra a ordem democrática. Caberá à Justiça concluir se ele e outros indiciados pela tentativa de golpe, inclusive Jair Bolsonaro, são culpados. A historiadores e cientistas políticos, porém, já é permitido se perguntar por que um grupo de militares, 36 anos depois da redemocratização, se sentiu no direito – ou mesmo no dever – de arquitetar um golpe e o que os fez acreditar que poderiam ser bem-sucedidos.

A derrota do colonialismo iraniano - Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

O Irã colecionou nos últimos meses uma série de derrotas que abalou todo o seu projeto estratégico de dominação do Oriente Médio

O “Eixo da Resistência” não resistiu. O “Eixo do Mal” quebrou. O Irã colecionou nos últimos meses uma série de derrotas que abalou todo o seu projeto estratégico de dominação do Oriente Médio, tendo como alvo a destruição do Estado de Israel. O Hamas foi militarmente destruído. O Hezbollah foi duramente atingido, sendo hoje uma pálida figura do que era. No Iraque continua reinando, embora o seu poder de influência seja menor. O Iêmen segue intacto, porém os seus dias estão contados. A joia da coroa, a Síria, sob o seu controle, desmoronou em dez dias. Gastou bilhões de dólares que desapareceram em um efeito dominó.

Cidades ao pé da letra - Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Todas têm um patrimônio tipográfico em suas fachadas, que só percebemos quando elas são destruídas

É raro, mas acontece —um livro nos cair às mãos e nos darmos conta de que, sem saber, esperávamos ardentemente por ele. Acaba de acontecer comigo, diante do recém-lançado "O Texto da Rua – Tipografia Pública no Rio de Janeiro", do designer gráfico Victor Burton, pela Sextante. É o primeiro livro de Burton como autor, com seu nome acima do título —ele, que tem sido responsável pela beleza gráfica de tantos livros alheios, um deles, meu.

É preciso acabar com o DDD - Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Academia Riograndense de Letras produziu um exemplo lamentável de DDD na entrega da Premiação Literária 2024

O Brasil precisa acabar com o DDD. Não me refiro ao sistema de telefonia que conecta pessoas dos diferentes estados e municípios pela discagem direta a distância. Falo do ciclo vicioso de Desvalorização, Discriminação e Desigualdade da população negra, coisa que o procurador do estado do RS Jorge Terra, homem preto, batizou de DDD.

A desvalorização se traduz no olhar para pretos e pardos como uma gente inferior, sem reconhecer o potencial da maioria do povo brasileiro, que cotidianamente é desrespeitado e maltratado.

A discriminação se dá pelo tratamento desigual e injusto em razão da aparência.

Emendas orçamentárias - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Nos EUA o orçamento é globalmente impositivo mas o país não degenera numa espécie de localismo centrípeto

O assim chamado orçamento secreto ou emendas Pix assentam-se na ocultação da autoria das emendas. Eis um paradoxo: Por que os autores das emendas orçamentárias não reivindicam o crédito pelo seu patrocínio?

Reivindicar crédito por obras e provisão de serviços é parte essencial do que parlamentares fazem em qualquer democracia. A expressão credit claiming entrou no jargão da ciência política através da obra seminal de Mayhew, que também identificou duas outras atividades fundamentais para a sobrevivência política: a propaganda, ex. marcar presença para o reconhecimento do nome e marcar posição (position taking), que visa defender bandeiras de seu eleitorado mais que mudar políticas.

Poesia | Inscrição para uma lareira, de Mário Quintana

 

Música | Seu Jorge e Alexandre Pires - Carinhoso (Pixinguinha)

 

domingo, 15 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Estatal deficitária deve ser vendida ou liquidada

O Globo

Não faz sentido querer dar sobrevida a empresas que custarão só neste ano R$ 3,7 bilhões ao contribuinte

O governo continua andando em círculos em torno das estatais deficitárias. Em mais uma tentativa, que se revelará infrutífera, por não tratar a questão da forma devida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou três decretos com o objetivo de modernizar a gestão dessas empresas, reduzindo ou eliminando sua dependência do Tesouro. Nos dois governos anteriores, de Michel Temer e Jair Bolsonaro, as empresas públicas federais passaram por saneamento e deixaram de pesar tanto nos cofres públicos. Foi só Lula voltar ao Planalto, e elas voltaram a fechar no vermelho. Nos oito primeiros meses do ano, acumularam déficit de R$ 3,4 bilhões. A projeção é um prejuízo de R$ 3,7 bilhões em 2024, o pior resultado em dez anos.

Um passo adiante - Merval Pereira

O Globo

Não há privilégios para militares quando se trata de crime contra a democracia e o Estado de Direito

À medida que os detalhes da operação “Punhal Verde e Amarelo” vão se tornando realidade, com áudios, fotos, textos, documentos deixados pelo caminho pelos golpistas, mais fica claro que estivemos próximos de uma guerra civil, de que a invasão bárbara na Praça dos Três Poderes é exemplar. Como aconteceu nos Estados Unidos, em que houve até mortes na invasão do Capitólio em Washington, só não aconteceu um golpe militar porque as Forças Armadas, especialmente o Exército, não aderiram.

Para mim, o fato mais chocante foi ver que o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Gilmar Mendes, foi fotografado na fila de embarque de um voo de Lisboa para o Brasil. Uma foto banal, que poderia ter sido tirada por qualquer passageiro, mas que foi feita por um “olheiro” dos golpistas, o que significa que o plano de assassinar ministros do STF estava em andamento.

O General Braga Neto, preso ontem por obstrução da Justiça, foi um dos que arranjou dinheiro vivo para financiar as manobras dos “kids pretos”, força especial do Exército que teve participação ativa na tentativa de golpe. Denunciado pelo tenente-coronel Mauro Cid, o ex-ministro da Defesa passou a usar sua influência entre os militares para saber detalhes do depoimento e, assim, tentar esconder as pistas que levavam à sua participação na trama golpista.

Golpismo de quatro estrelas - Bernardo Mello Franco

O Globo

A prisão de Braga Netto é histórica. Mas o fato de ter chegado tão longe mostra que país falhou na transição da ditadura para a democracia

Em agosto de 2021, o general Braga Netto foi convocado a dar explicações ao Congresso. Havia ameaçado a cúpula da CPI da Covid, que investigava o envolvimento de militares em falcatruas na compra de vacinas. Considerado o braço direito de Jair Bolsonaro, o então ministro da Defesa não se intimidou. Ao contrário: sentiu-se à vontade para mentir sobre o presente e o passado do país.

“Não considero que tenha havido uma ditadura”, disse, sobre o regime instaurado em 1964. “Se houvesse ditadura, talvez muitas pessoas não estariam aqui”, provocou, dirigindo-se a deputados de esquerda.

Braga Netto gosta de se apresentar como um militar linha-dura. O fiasco da intervenção na segurança pública do Rio, marcada pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, não interrompeu sua escalada. Ele foi alçado ao Estado-Maior do Exército, à chefia da Casa Civil e ao Ministério da Defesa. Depois ganhou a vaga de vice na chapa de Bolsonaro à reeleição.

Às vésperas de deixar o governo, o general enviou aos quartéis uma mensagem que falsificava a História para exaltar a ditadura. Enquanto debochava das vítimas da repressão, tramava um novo golpe para manter a extrema direita no poder em caso de derrota nas urnas.

As investigações da Polícia Federal descrevem Braga Netto como figura central na conspiração contra a democracia brasileira. Ele coordenou ataques ao sistema eleitoral e recrutou extremistas para impedir a posse do presidente eleito. Segundo o tenente-coronel Mauro Cid, o general ainda entregou dinheiro vivo, numa sacola de vinho, para financiar as ações criminosas.

Prisão de Braga Netto é mudança de paradigma – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A PF apontou a participação ativa do general Braga Netto na tentativa de pressionar os comandantes das Forças Armadas a aderirem ao golpe e destituir o presidente Lula

A prisão do general de Exército da reserva Walter Souza Braga Netto, ontem, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido da Polícia Federal (PF), após parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR), é uma mudança de paradigma no tratamento dado aos militares na política brasileira desde a redemocratização. O ministro também autorizou busca e apreensão em relação a ele e ao coronel Flávio Botelho Peregrino, assessor do general. Ambos são suspeitos de envolvimento em tentativa de golpe de Estado e de obstrução de Justiça por tentar atrapalhar as investigações sobre os episódios relacionados aos atos antidemocráticos de 8 de janeiro.

Só falta um - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Braga Netto garantia o dinheiro e Cid transmitia as ordens à tropa. A mando de quem?

Mesmo após a conclusão das mais de 800 páginas do inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado durante o governo Jair Bolsonaro, a Polícia Federal e o Supremo trabalham numa nova frente de investigação: a origem do dinheiro usado para a articulação e a execução do plano. Dinheiro público? De Bolsonaro? É o famoso “Follow the money” de Watergate e de grandes operações policiais envolvendo poderosos.

Foi exatamente pelo foco no dinheiro que a PF ameaçou cancelar os benefícios da delação premiada, exigiu novos depoimentos do tenente-coronel do Exército Mauro Cid e chegou ao “homem da mala”: o general de quatro estrelas Walter Braga Netto, ex-chefe da Casa Civil e vice na chapa de Bolsonaro em 2022, que agora entra para a história como primeiro general preso pós-redemocratização.

Cid fazia a conexão entre os golpistas e Bolsonaro, enquanto Braga Netto providenciava os recursos para “kids pretos” (das Forças Especiais do Exército) matarem o então presidente eleito Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STF Alexandre de Moraes, que presidia o TSE e neutralizou o esforço de Bolsonaro e dos golpistas para desacreditar as urnas eletrônicas.

Visão pessimista contraria os fatos - Míriam Leitão

O Globo

Um pessimismo glacial domina as análises do mercado financeiro sobre a economia, que tem alguns problemas e bons números

A economia este ano desafiou todos os prognósticos e cresceu mais do que o mais otimista havia previsto. Fechar o ano em 3,5%, com a agricultura no negativo e com o Banco Central subindo os juros a partir de agosto foi impressionante. O crédito pessoal e corporativo cresceu, apesar dos juros. E como será o próximo ano? Está mais difícil calcular porque o país começará o ano no meio de um choque violento de juros. Mesmo assim, há previsões de crescimento entre 1,5% a 2,2%. A agricultura terá um resultado positivo no ano que vem, já a indústria certamente voltará ao terreno negativo e o desemprego vai subir, mas não se espera uma escalada.

Um pessimismo glacial domina grande parte do mercado financeiro, mas com pouca sustentação nos fatos. É difícil encontrar quem faça uma análise objetiva da conjuntura. Normalmente, o que se ouve são repetições de clichês. Uma das frases comuns é a de que o governo está repetindo erros do governo Dilma, que levaram ao aumento do déficit público, da inflação e à queda do PIB. É sério isso? De um interlocutor mais sereno do mercado financeiro ouvi que não faz qualquer sentido tal comparação.