sábado, 7 de junho de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Censo 2022 reflete mutação religiosa do Brasil

O Globo

Católicos seguem maioria, e evangélicos avançam, embora seu crescimento tenha ficado aquém do projetado

Os dados sobre religião do Censo 2022, divulgados ontem pelo IBGE, revelam uma transformação na sociedade brasileira. O Brasil continua sendo um país majoritariamente católico, mas a proporção de evangélicos na população continua a crescer — em 2022, correspondiam a 26,9% da população, ante 21,6% em 2010. É verdade que os católicos são mais que o dobro disso, ou 56,7% dos brasileiros, mas essa proporção era de 65,1% em 2010 e, até 1980, ficava acima de 90%. E, embora o Brasil continue a ser um país predominantemente cristão, os brasileiros que declaram não ter religião aumentaram de 7,9% a 9,3% em 12 anos. Tais mudanças espelham as mutações sociais por que o país vem passando nas últimas décadas.

As denominações evangélicas têm sido o segmento religioso que mais ganha adeptos. Entre 1991 e 2022, sua participação praticamente triplicou, de 9% para 26,9%. Tais números confirmam uma realidade observada em muitas cidades brasileiras, onde a quantidade de templos se multiplica. Mas também é preciso pontuar que, embora em 2022 a proporção de evangélicos tenha atingido o maior patamar já registrado, ela ficou aquém do esperado pelos pesquisadores, algo em torno de 30%. No últimos dois Censos, o crescimento havia sido de 6,5 e 6,1 pontos percentuais — desta vez ficou em 5,3 pontos.

Os brasileiros estão cansados de Lula e Bolsonaro – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Parece que a população manifesta cansaço com a falta de austeridade e contenção no uso do dinheiro público

Quase metade dos brasileiros, ou exatamente 48%, considera que a economia piorou — tal é um dos resultados da pesquisa Quaest divulgada na última quarta-feira. Na rodada anterior, em março, o descontentamento era maior: 56% dos entrevistados. Houve, portanto, ligeira melhora na percepção, mas ainda assim o dado chama a atenção.

Depois de dois anos de crescimento acima de 3%, com desemprego baixo, quase metade dos brasileiros acha que a economia está pior. Mas o presidente Lula acredita que vai muito bem. Ele não perde oportunidade para alardear o “pibão” e zombar dos analistas que antecipam desaceleração. Nos bastidores, Lula cobra de sua equipe mais esforço para “mostrar” à população que o Brasil vai melhor do que ela pensa. De novo, o problema seria de comunicação. Mas não é. Outros dados da mesma pesquisa mostram que a população percebe problemas que o governo não quer ou não pode ver.

Uma piada ruim - Eduardo Affonso

O Globo

Piadas não matam. O que mata é a violência, da polícia, dos traficantes, das milícias. É o desvio de bilhões dos pensionistas

Um humorista foi condenado a oito anos de prisão (e a pagar indenização milionária) por fazer piadas. Piadas ruins, mas, ainda assim, piadas. Que não zoavam militares, juízes, padres e outros senhores do poder divino ou temporal. Os intocáveis de hoje são as minorias, essa coisa difusa que, em última instância, inclui todo mundo. Some mulheres, idosos, crianças, afrodescendentes, indígenas, judeus, crentes, gays, trans, calvos, pais de pet, periféricos, gordos, nordestinos, pessoas com deficiência, HIV ou disfunção erétil — e veja quem sobra.

A sentença diz que o humorista reproduz “discursos e estereótipos que incentivam a perseguição religiosa, a exclusão das minorias e discriminação contra pessoas com deficiência”. Como nos tempos da TV a lenha, quando os intérpretes de vilões de novelas eram xingados nas ruas (e jamais convidados a apresentar bailes de debutantes), a juíza não entendeu a diferença entre o artista e a persona cômica. Não sabe que rir da piada em que a velhinha leva um tombo é diferente de empurrar uma velhinha escada abaixo.

O Barão de Itararé também foi preso — era o governo Vargas. Juca Chaves foi preso, a turma do Pasquim foi presa — era a ditadura militar. As piadas, nesses casos, eram ótimas, mas o que incomoda não é a qualidade do humor, e sim se o alvo da risada tem poder de decidir sobre aquilo de que se pode rir e sobre o que se deve calar. O Barão pendurou na porta de sua sala o cartaz “Entre sem bater”. Pode ser a hora de deixar um “Entre sem prender” na bilheteria dos espaços onde adultos pagam para o ato consensual de rir do que acham risível.

Não se trata Léo Lins – Pablo Ortellado

O Globo

Pena que ele recebeu é superior à aplicada a Sérgio Nahas pelo assassinato da mulher a tiros

A condenação de Léo Lins a mais de oito anos de prisão e multa dividiu o país. A enorme controvérsia não diz respeito particularmente ao humorista ou ao tipo de humor que pratica, mas às enormes implicações de uma regulação dura da liberdade de expressão. Para ter uma ideia, a pena que ele recebeu é superior à aplicada a Sérgio Nahas pelo assassinato da mulher a tiros. Se uma condenação duríssima como essa passa incontestável e se estabelece como precedente para condenações futuras, quais as implicações para o exercício da liberdade de expressão, em especial no âmbito do humor?

As instituições fora de lugar - Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

É a consequência do presidencialismo de cooptação, do sistema eleitoral proporcional e da proliferação de partidos sem conteúdo, além de uma classe política desinteressada

Não há nem harmonia nem independência entre os Poderes, há desarticulação. O Legislativo, antes de legislar, administra, destinando de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões para obras, na maioria pulverizadas, visando a atender aos interesses eleitorais dos congressistas, sem respeito a qualquer política pública.

Segundo a Constituição federal (CF), o Orçamento compreende metas e prioridades da administração. No entanto, com a aprovação das Emendas Constitucionais 86/2015, 100/2019 e 105/2019, as emendas individuais de parlamentares à Lei Orçamentária e as de bancada passaram a ser de execução obrigatória, além de se criarem emendas de comissão e Pix, esta com recursos alocados diretamente a Estados e municípios. Cada parlamentar tornouse um ordenador de despesa de recursos da União.

O silêncio dos líderes empresariais nos EUA - Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Eles costumavam se opor ao poder, mas agora não emitem opiniões diante da destruição de Trump

Antigamente, os CEOs americanos se sentiam livres para criticar as políticas governamentais, muitas vezes com uma reclamação familiar. O ex-CEO da Verizon Communications Inc., Ivan Seidenberg, explicou que ao atingir praticamente todos os setores da vida econômica, o governo estava “injetando incerteza no mercado”.

O então CEO da Cisco Systems Inc., John Chambers, concordou. “As empresas não gostam de incerteza”, disse. Isso foi durante o primeiro mandato de Barack Obama, quando o governo tentava tirar a economia de uma crise financeira global única.

Alta de gastos de estados e municípios serve de alerta - Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Cobrança do ajuste nas finanças públicas deve ser para todos

crescimento dos gastos dos estados e municípios em ritmo muito maior do que o do governo federal tem passado ao largo das cobranças dos parlamentares e serve de alerta nas negociações políticas deste domingo (8) em torno de um acordo de novas medidas fiscais para substituir o decreto de alta do IOF.

Uma das causas para essa expansão, apontada em estudo publicado nesta semana pelo Ibre-FGV, é que o Congresso tem aprovado nos últimos anos medidas que elevaram as despesas do governo federal, mas que, na prática, representam um repasse maior de recursos da União para os governos regionais.

É o caso da complementação do Fundeb (fundo voltado para a educação básica), receitas de royalties de petróleo, e as chamadas emendas Pix, que têm baixa transparência e facilitam a inclusão de despesas no Orçamento por deputados e senadores..

Depois de Musk - Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Trump carece de ideologia, mas escolheu governar com os nacional-populistas

Musk saiu detonando. Qualificou o "Big Beautiful Bill", projeto orçamentário de Trump, como uma "abominação repugnante": "vergonha daqueles que votaram por ele". É a primeira cisão relevante no governo Trump —e a evidência de que, no lugar de sentenças condenatórias sobre o "fascismo", deve-se entender a complexidade.

No primeiro mandato, um Trump inseguro cercou-se de figuras do establishment e apoiou-se na burocracia profissional. O resultado foi o cerceamento de seus impulsos mais destrutivos. No mandato atual, o presidente libertou-se dos grilhões. Convocou arautos extremistas, sicofantas e bajuladores, declarou guerra à burocracia estatal e desafiou a autoridade dos juízes. Mesmo assim, seu governo não é um monolito, mas um arco-íris ideológico.

O pôr do sol do euro - Rodrigo Zeidan

Folha de S; Paulo

Eventual ataque especulativo pode destruir moeda única; risco é remoto, mas existe

O título desta coluna é inspirado no livro de Alberto Bagnai, polímata, professor (e atualmente deputado) italiano que escreveu "Il Tramonto Dell'Euro", em 2012. Ele defendia a saída do país da zona do euro, embora hoje se concentre em combater a multiplicação de regulações ineficientes da União Europeia.

Somos amigos e discordava da sua posição, mas devo admitir que os custos sociais da moeda única estão aumentando. Parte é azar, mas o principal motivo é o abandono informal do Tratado de Maastricht.

Para além da Amazônia: a hora de agir pelo Cerrado é agora! - Dandara Tonantzin

Correio Braziliense

O Cerrado espera mais do que menções protocolares: busca compromissos sólidos, metas ambiciosas e financiamento real para sua conservação

Desde as primeiras luzes do dia até o cair da noite, o Cerrado pulsa vida: é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupa 22% do território brasileiro e abriga quase 30% das águas superficiais do país, alimentando dezenas de bacias que banham outros biomas. No entanto, vive sob a chancela de leis flexíveis que permitem uma exploração sem freios e do racismo ambiental que impõe desafios para as populações que ali habitam.

Desafios para o Congresso na área trabalhista - José Pastore*

Correio Braziliense

Parlamentares terão muito trabalho para atender aos pedidos do STF em campos do mundo do trabalho que implicam em decisões difíceis e onerosas

O Supremo Tribunal Federal (STF) deu prazos para o Congresso Nacional aprovar três leis que são exigidas pela Constituição de 1988 na área trabalhista. A primeira é a lei sobre a licença paternidade, porque a regra atual de cinco dias foi aprovada pelos constituintes como provisória. A segunda é a lei sobre a proteção dos trabalhadores contra os problemas causados pela automação, também prevista na Constituição e, até hoje, não aprovada. A terceira é a lei de proteção dos trabalhadores contra os trabalhos penosos. As três são requeridas pela Carta Magna. São três imensos desafios:

O equilíbrio fiscal e o IOF - Marcus Pestana

Não é novidade para ninguém: o Brasil está submetido a uma aguda e crescente restrição fiscal. Os números presentes no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2026, enviado pelo governo ao Congresso Nacional, revelam que o estrangulamento será absoluto a partir de 2027 e se agravará nos anos seguintes. A IFI lançou alertas sobre isto. É a crônica de uma morte anunciada sem o tempero literário de Gabriel Garcia Márquez.

O governo perde cada vez mais espaço de liberdade para governar. As despesas discricionárias ou não obrigatórias tenderão a ser negativa a partir de 2027. Temos, no Brasil, o orçamento mais engessado do mundo. Há mecanismos automáticos, retomados após a revogação do “Teto de Gastos”, que estabelecem vinculações das despesas de saúde e educação às receitas correntes e a indexação aos aumentos concedidos ao Salário-Mínimo, sempre acima da inflação, do piso da previdência, BPC, Auxílio Desemprego e Abono Salarial.

Uma briga didática - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Disputa entre Trump e Musk expõe pontos fracos da democracia americana e põe apoiadores em dissonância cognitiva que pode ter efeito salutar

Dois egos desproporcionalmente grandes não podem ocupar o mesmo espaço de poder ao mesmo tempo. À luz da psicologia, um rompimento entre Donald Trump e Elon Musk era mais ou menos inevitável. Ainda assim, surpreendem a velocidade da deterioração da relação entre os dois e os termos fortes com os quais um qualifica o outro agora.

As divergências entre o par vinham se acumulando já havia algum tempo, mas apenas uma semana atrás eles ainda tentavam dar um ar de civilidade ao divórcio. Na sexta-feira (30), Trump organizou na Casa Branca uma despedida para Musk, que deixava o governo para cuidar de suas empresas. Ali trocaram palavras elogiosas e juraram amor eterno.

Crônica | O Padeiro - Rubem Braga (Narrado por Juca de Oliveira)

 

Música | Samba da utopia (Jonathan Silva)

 

sexta-feira, 6 de junho de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Acordo sobre o Galeão traz boas perspectivas

O Globo

É louvável entendimento para manter concessionária, mas é preciso preservar as restrições a voos no Santos Dumont

É bem-vindo o acordo, aprovado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), permitindo que a concessionária RIOgaleão continue à frente do Aeroporto Internacional Tom Jobim/Galeão. O atual contrato, firmado em 2014 com prazo até 2039, será reformulado, dando mais fôlego à operadora. Mesmo assim, o terminal terá de passar por um processo simplificado de leilão até março de 2026, e a RIOgaleão precisará apresentar ao menos uma proposta pelo valor mínimo para participar do certame. De modo geral, o entendimento agradou ao governo e à concessionária. Mas, para funcionar, é fundamental manter as restrições de voos no Aeroporto Santos Dumont.

O acordo cria uma regra pela qual, dependendo do número de passageiros no Santos Dumont, haverá um acerto de contas entre a concessionária e o governo. No primeiro ano (2025), se for inferior a 8 milhões, a concessionária pagará ao governo um valor correspondente à diferença; se for superior, será o contrário. Esse patamar sobe para 9 milhões em 2026, 10 milhões em 2027 e daí para a frente dependerá da alta na demanda por voos. Como o movimento atual está em 6,5 milhões, há incentivo para o governo manter as restrições, pois receberá por isso. Mas poderá abrir mão do dinheiro se quiser aumentar o movimento até os 10 milhões. É isso que não pode acontecer.

Batalha contra universidades enfraquece os EUA - Fernando Abrucio*

Valor Econômico

A mão pesada da autocracia trumpista não vai melhorar a academia, provavelmente irá prejudicar o país em seu desenvolvimento

O presidente Donald Trump escolheu vários inimigos em seu segundo mandato, e seu objetivo é neutralizá-los ao máximo para ter um poder autocrático. A oposição democrata, estados da federação, juízes independentes, a mídia, a China e os países que não aceitam ser satélites dos EUA, em suma, a lista é grande dos que devem ser perseguidos e enfraquecidos. Um dos escolhidos são as universidades, cujas ideias não são controladas pelos algoritmos das redes sociais amigas do trumpismo. Atacá-las faz sentido para quem quer perpetuar-se no poder, mas tem um efeito colateral: debilitar o poder real e simbólico dos Estados Unidos.

“Fazer a América grande de novo” é o slogan básico do trumpismo. Aparentemente, ela contém um projeto de longo prazo para os Estados Unidos: reindustrializar o país, aumentar a renda da classe média, ter novamente uma ordem internacional dominada pelos EUA e garantir que os “valores culturais mais profundos” vençam a guerra contra as ideias liberais que estariam pervertendo a nação. Trump seria o escolhido, no sentido religioso da palavra, para levar adiante esse plano, o que só seria possível com uma estratégia que lhe garanta muito poder no curto prazo - quem sabe até garantindo a possibilidade de um terceiro mandato.

A cruz de Marina Silva - José de Souza Martins

Valor Econômico

É preciso perguntar o que os ofensores representam no Senado da República, porque agrediram a unidade da Federação que deveriam representar e claramente não representam

Inacreditáveis as grosserias de membros da Comissão de Infraestrutura do Senado Federal dirigidas à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, no final de maio, quando de seu depoimento sobre áreas de conservação na região Norte. Elas obscureceram os vários dilemas de fato em jogo nas aparentes discordâncias de um falso embate.

Os insultos revelaram graves preconceitos contra ela individualmente, contra o que ela é, como mulher e como ministra de Estado numa área sensível, a ambiental, assunto do qual é internacionalmente qualificada.

Marina falou em política de Estado, não de partido. Um dos opositores do governo falou, portanto, como opositor do Estado, em pendências de 30 anos, em que a questão foi abordada por diferentes governos e partidos.

PL acha que Bolsonaro elege até um poste em 2026 - Andrea Jubé

Valor Econômico

Chapa mais comentada entre lideranças alinhadas com o bolsonarismo é a de Tarcísio para presidente e de Michelle para vice

Notório pelas “malasartimanhas” na política e atento às pesquisas públicas e internas, o presidente nacional do PL, ex-deputado Valdemar Costa Neto, explicou a alguns interlocutores por que acredita que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), pode se tornar mais conhecido nacionalmente e cair no gosto popular.

A teoria do cacique do PL é de que Tarcísio acertou logo na estreia de sua gestão pelo modo como enfrentou as tempestades que devastaram o litoral norte de São Paulo em fevereiro de 2023, e isso o cacifou para disputar o voto nacional.

Rejeição a Lula e Bolsonaro deixa eleição aberta aos demais candidatos – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Com seu prestígio e a força do governo, se for candidato, o petista terá um lugar garantido no segundo turno; vencê-lo são outros quinhentos. Isso dependerá do seu índice de rejeição

Papel, caneta e tinteiro sobre a mesa, Getúlio Vargas escolhia com cuidado as palavras que escreveria na carta endereçada ao presidente Washington Luís em 10 de maio de 1929, para sepultar todas as desconfianças que o Palácio do Catete nutria a seu respeito: "Pode Vossa Excelência ficar tranquilo de que o Partido Republicano do Rio Grande do Sul não lhe faltará com seu apoio no momento preciso", garantiu ao presidente da República, a propósito da sucessão presidencial.

Dias depois de entregar a carta, Getúlio fez a bancada gaúcha encenar um beija-mão de apoio ao presidente Washington Luís e aproveitou um portador para lhe enviar de presente um caixote de linguiças, salsichas e enlatados de Olderich, prestigiada marca gaúcha, como cesta de ano-novo. Com três anos de mandato pela frente no governo do Rio Grande do Sul, dissimulava sua oposição à candidatura de Júlio Prestes, o candidato de preferência dos paulistas. Toda vez que alguém questionava a lealdade de Getúlio, o presidente da República exibia a carta do político gaúcho.

Janela para a popularidade - Flávia Oliveira

O Globo

O mau humor guarda relação com a alta da comida, que pesa mais para quem ganha menos

A régua de popularidade apresentada pela Quaest nesta semana sugere que está aberta a janela de oportunidade para o presidente da República melhorar sua avaliação. A fresta é sazonal. Desde a posse para o terceiro mandato, em 2023, os melhores índices de aprovação de Luiz Inácio Lula da Silva foram obtidos a partir da virada do primeiro para o segundo semestre de cada ano. Não por acaso, é o período habitual de desaceleração ou queda no preço dos alimentos, variável que tem se mostrado aderente à satisfação com um governo que tem na população de baixa renda sua força eleitoral.

O plano Z do bolsonarismo - Bernardo Mello Franco

O Globo

Governador de Minas pisoteia História para ser notado pelo capitão

Romeu Zema declarou que a existência da ditadura militar no Brasil é “questão de interpretação”. O governador de Minas quer ser notado por Jair Bolsonaro. Para isso, mostrou-se disposto a pisotear a História e insultar as famílias de mortos e desaparecidos.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, Zema disse que dará indulto ao capitão se chegar à Presidência. Além de afrontar a Justiça, a promessa se assemelha a uma venda de terreno na lua. Há dois anos, o próprio Bolsonaro tentou tirar Daniel Silveira da cadeia. O Supremo anulou a canetada por desvio de finalidade.

Centro conservador desponta como alternativa - Murilo Medeiros*

O Globo

Eixo ideológico mudou. Social-democracia das últimas três décadas deu lugar ao conservadorismo pragmático

A 14 meses do início do processo eleitoral de 2026, as placas tectônicas da política brasileira se movimentam de forma silenciosa. O governo Lula, sem tração no Parlamento e abatido por gargalos econômicos e perda de credibilidade, corre contra o tempo para reverter a queda de popularidade. A oposição encontra-se fragmentada, dispersa e ancorada à inelegibilidade de Jair Bolsonaro.

O sistema político brasileiro, após uma fase de grande inconstância e polarização sistemática, passa por um período de reajuste, marcado por novas bases de governabilidade, com poder menos assentado no Executivo e mais alicerçado no Parlamento.

Ainda há ética na política no Brasil? - Roberto Livianu*

O Globo

Há inúmeros, incontáveis, exemplos de políticos impunes ao longo do tempo, mesmo praticando todo tipo de delito

Em outubro de 2020, o senador Chico Rodrigues, então vice-líder do governo, foi flagrado com R$ 33 mil entre as nádegas. Na época, o fato grotesco, de óbvia conotação delituosa, fez com que um dono de lanchonete de Brasília colocasse placa em seu estabelecimento avisando que aceitaria pagamentos em dinheiro, se provenientes da carteira dos clientes.

Certamente, muitos devem se perguntar o que se passou com tal político, diante do dever de decoro parlamentar e da Lei de Improbidade, ainda que esmagada pela Lei 14.230/21. Chico Rodrigues não só jamais foi punido, como acaba de ser eleito para integrar a Mesa Diretora do Senado da República, uma espécie de prêmio pelos bons serviços à pátria.

O psicodrama fiscal - Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

O governo Lula é o favorito para herdar o caos financeiro que não pode superar num período de campanha. Isso liquida qualquer esperança de programas de longo prazo

Toda esta discussão sobre o IOF serve para nos educar sobre o universo fiscal, saber que existem impostos regulatórios, por exemplo. A reação instantânea ao aumento do imposto revelou, mais uma vez, a sensibilidade social sobre o tema, demonstrando que há pouco espaço para avançar nesta direção.

O mais interessante, para quem não é especialista, é examinar este permanente psicodrama do governo e do Congresso, uma vez que os gastos da máquina sempre crescem e há limites visíveis na paciência popular.

As bets comendo a renda do povo - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, sugeriu sobretaxar as apostas esportivas (bets) para diminuir o impacto do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e “criar opções mais saudáveis de arrecadação”.

Mercadante adverte que essas plataformas vêm corroendo as finanças populares. Tributá-las, entende ele, seria um caminho para aliviar outros encargos sobre a economia formal.

Como, aparentemente, o governo Lula ainda não tem soluções nem para compensar o IOF nem para conter o estrago financeiro e social que as bets estão causando, especialmente entre as famílias em vulnerabilidade financeira, o discurso descamba sempre para o aumento da arrecadação – o que denota falta de compromisso com o controle das despesas públicas pela atual administração.

Trump e Musk a treta típica da extrema direita - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Principais nomes da finança americana também dizem que déficit chega a nível crítico

A treta entre Elon Musk e Donald Trump começou com o que parecia ser uma discussão sobre déficits e dívida do governo. Musk disse que a lei orçamentária é uma "abominação nojenta", "revoltante, cheia de fisiologia", chamada de "grande e bela" pelo presidente americano. De fato, os déficits aumentarão e a dívida dos EUA cresce sem limite.

Em outros termos, era o que disse Jamie Dimon, presidente do JP Morgan, maior banco americano: vai haver "rachadura" no mercado de títulos da dívida americana e "pânicos", talvez em seis meses, talvez em seis anos. Larry Fink disse que os EUA vão "bater no muro" por causa do déficit. Fink é fundador e CEO do BlackRock, maior administrador de dinheiro do mundo.

Blasfêmias! - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Condenação de comediante por piadas preconceituosas e prisão de músico por apologia do crime mostram nossa involução na liberdade de expressão

A Justiça condenou o comediante Leo Lins a oito anos de reclusão por causa de suas piadas preconceituosas.

Da mesma forma que a sociedade não deve meter o bedelho no que adultos fazem consensualmente entre quatro paredes em matéria de sexo, ela deveria se abster de interferir no conteúdo das piadas que um humorista conta ao público que deseja ouvi-lo.

Lula reformista carece de crédito - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ausência de convicção em mudança de rumo põe em dúvida êxito do pacote de compensação ao IOF

Reformas de fundo —ou "estruturantes", para usar o termo da vez— são feitas no início de governos quando há força suficiente para enfrentar as resistências ao fim de favorecimentos.

Assim ocorre também com apertos de cinto ou quaisquer medidas desagradáveis cuja execução, aconselha-se, fiquem longe da próxima eleição.

Luiz Inácio da Silva (PT), em sua terceira vez na Presidência, preferiu inverter a lógica e agora, em plena véspera do ano eleitoral, se vê na contingência de anunciar reformas que não quis fazer ao tempo recomendado; seja porque discorda delas ou por não querer encarar o inevitável desgaste desse tipo de combate.

Por isso é difícil conferir crédito ao empenho que o governo empregará na promessa que fez ao Congresso Nacional para não ver o decreto do IOF derrubado e ainda tentar obter autorização para um tapa-buraco de emergência fiscal.

Zema nega ditadura em dias de pânico bolsonarista - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Entrevista do governador de Minas à Folha é sinal da movimentação errática do bolsonarismo, que se vê às portas da condenação por golpismo

Um dos mais medíocres políticos bolsonaristas —se é que essa escala faz algum sentido–, o governador de Minas, Romeu Zema, declarou em entrevista à Folha que a existência da ditadura militar no Brasil é "uma questão de interpretação". A declaração vem em momento de grande alvoroço no bolsonarismo, causado pelo julgamento da trama golpista.

O naufrágio do projeto de anistia, as evidências do envolvimento militar, a proximidade da convocação de Jair Bolsonaro para depor e a firmeza do STF provocam pânico e nervosismo.

Crônica | Furto de Flor, de Carlos Drummond de Andrade

Música | Carminho e Marisa Monte - Estrada do Sol

 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Corte em emendas é fundamental nas medidas fiscais

O Globo

Além de caras, são injustas — 15 dos 20 municípios com pior IDH não receberam um centavo desde 2024

Em democracias, o gasto público é disciplinado por um mecanismo sensato: o Legislativo elabora o Orçamento, e o Executivo controla sua execução. Tal arranjo incentiva a eficiência do gasto. Por tal parâmetro, o Brasil se tornou uma aberração. Aqui, deputados e senadores decidem o destino de 21% — ou R$ 50,4 bilhões — das despesas livres do governo. Como a lógica das emendas parlamentares é paroquial e de curto prazo, as cidades onde se concentram as bases de eleitores recebem mais. Outras ficam sem nada. No momento em que Congresso e governo discutem medidas para equilibrar as contas públicas, as hipertrofiadas emendas parlamentares precisam estar no topo da pauta.

Detalhes fazem diferença – Merval Pereira

O Globo

Pesquisa dá sinais de que benefícios sociais já não são suficientes para levar o voto dos mais necessitados

A pesquisa Quaest divulgada ontem, além do resultado geral que mostra o aumento na desaprovação de Lula para 57% — maior índice do mandato —, traz detalhes importantes que ratificam a tendência de queda na popularidade do presidente. Dos não petistas que votaram em Lula em 2022 para derrotar Bolsonaro, 24% hoje reprovam seu governo. Isso demonstra que quem fez a diferença na recente eleição a favor do presidente pode não estar disposto a repetir o voto em 2026.

Dificilmente a maioria desses eleitores votará numa chapa que tenha um(a) Bolsonaro, mas poderia votar numa direita mais civilizada, representada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ou por outros governadores colocados na largada, como Romeu Zema, de Minas, Ronaldo Caiado, de Goiás, ou Ratinho Jr., do Paraná. Se não houver consenso na direita em torno de um candidato, os votos se dispersarão, ajudando a esquerda. Num segundo turno, porém, esse eleitorado tende a se unir em torno de um nome.

Sem Jair, quase 50% dos bolsonaristas prefere Michelle a Tarcísio e Eduardo – Malu Gaspar

O Globo

Além de apontar a tendência do eleitor para a disputa presidencial de 2026, a pesquisa divulgada pela Genial/Quaest nesta quinta-feira (5) revela que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro tem a liderança absoluta na preferência do eleitor bolsonarista em um cenário sem Jair Bolsonaro, que está inelegível até 2030.

Segundo a Quaest, a preferência por Michelle entre os que dizem ser bolsonaristas é maior do que a soma do percentual daqueles que optariam pelo filho 03 do ex-presidente, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e pelo governador de São PauloTarcísio de Freitas (Republicanos).

Para 44% dos que se declararam seguidores de Bolsonaro, Michelle deve ser apoiada pelo ex-presidente caso ele não viabilize sua candidatura no próximo ano. É quase o triplo da preferência por Tarcísio (17%) e quase cinco vezes a de Eduardo (10%), que na semana passada declarou à revista Veja sua intenção de concorrer ao Palácio do Planalto caso seja convocado pelo pai.

fraudes do INSS afetam a popularidade de Lula na sua base histórica – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Para 56% dos brasileiros, o governo atual está pior do que os dois primeiros mandatos de Lula. Esse número, em janeiro, era de 45%

A pesquisa mais recente do instituto Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira (4/6), revela que a desaprovação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atingiu 57%, enquanto a aprovação está em 40%. É o pior resultado da série histórica desde o início do terceiro mandato de Lula. Realizada entre 29 de maio e 1º de junho, com 2.004 entrevistados em todo o país, tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.

O caso do INSS, com suas denúncias de fraudes e desvios de recursos, aparece como catalisador dessa erosão de confiança. Para 82% dos brasileiros, a crise foi sentida. E 31% responsabilizam diretamente o governo federal. As fraudes do INSS atingem em cheio a principal base de Lula, as camadas mais pobres da população. Já o aumento do IOF, que pode ser derrubado pela Câmara, amplia o desgaste do governo junto à classe média, ainda mais porque o aumento foi anunciado na última semana de prazo para declarar o Imposto de Renda.

Lula empata com Bolsonaro, Tarcísio, Michelle, Ratinho Jr e Leite em eventual 2º turno, diz Genial/Quaest

Lillian Ventunrini e Cristiane Agostine / Valor Econômico

Dois terços dos entrevistados avaliam que nem Lula nem Bolsonaro deveriam ser candidatos em 2026

Com recorde de desaprovação de seu governo, de 57%, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viu sua vantagem eleitoral diminuir em relação aos adversários em um eventual segundo turno das eleições de 2026, segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quinta-feira (5). O presidente e pré-candidato à reeleição aparece empatado, dentro da margem de erro do levantamento, com outros cinco pré-candidatos: o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD) e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD).

Dos oito cenários de eventual segundo turno testados na pesquisa, Lula está na liderança, fora da margem de erro, em relação ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), ao governador de Minas, Romeu Zema (Novo), e do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União).

Congresso Nacional subjuga o Executivo - Maria Clara R. M. do Prado

Valor Econômico

A dependência do Executivo ao Legislativo não tende a diminuir, pelo contrário, sabendo-se que isso nada tem a ver com o governo A, B ou C que estiver alojado no Palácio do Planalto

Assistiu-se na última terça-feira uma demonstração cabal da significativa ascensão do Poder Legislativo no cenário político do país. O forte presidencialismo que dominou a República brasileira desde os primórdios já vinha perdendo poder, mas, se alguma dúvida existia, tornou-se patente nesta semana o enfraquecimento do Poder Executivo. Teve de capitular sem resistência às exigências e determinações do Congresso.

Diante da oposição de deputados e senadores ao decreto do aumento da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e face à urgência de encontrar meios para equilibrar receitas e despesas do orçamento deste ano, restou ao Executivo a submissão. Viu-se obrigado a negociar com os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados as bases de medidas alternativas para o ajuste das contas públicas na ausência da ampliação do IOF ou, pelo menos, de parte dele.

A ‘terceira via’ proposta por Macron e o Mercosul - Assis Moreira

Valor Econômico

Se Macron fizesse um périplo pela América do Sul, as agendas econômica, comercial e ambiental seriam centrais para equilibrar o jogo da UE com EUA e China na região, mas a França não topa o acordo com o Mercosul

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visita hoje a França logo depois de o presidente Emmanuel Macron ter proposto uma “terceira via” entre a China e os EUA com Donald Trump.

Em meio às enormes turbulências geopolíticas, essa “terceira via” foi destacada por Macron durante sua movimentada turnê pelo Sudeste da Ásia na semana passada. Tem ecos da conferência de Bandung há 70 anos, quando sobretudo países asiáticos e africanos começaram a constituir o Movimento de Países Não Alinhados, e de um discurso do general De Gaulle no Camboja em 1966.

Nem sem nem com - William Waack

O Estado de S. Paulo

Lula passa por um momento crucial para as eleições de 2026

Se ainda há estrategistas no que sobrou do antigo Estado-Maior do PT, o dilema é monumental. Não dá para encarar as próximas eleições sem Lula. E se avolumam evidências de que também não dá para encarar com ele.

A questão principal não são números de economia que possam se transformar em índices de popularidade. Ou consigam compensar o efeito negativo de escândalos de corrupção acompanhados de aumento de impostos.

A figura de Lula é a desse dilema provavelmente sem solução. Ele está sendo alcançado pelo que é inexorável na condição humana, visível para eleitores que tomam decisões muito mais a partir de percepções subjetivas diretas do que por “números”.