sábado, 19 de setembro de 2026

A multiplicação dos Dinos, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O jurista Gilberto Morbach escreveu que, eleito Lula ou Flávio Bolsonaro, “cada um a seu modo” terminará “de destruir o tribunal e qualquer resquício de integridade e impessoalidade no sistema de Justiça”. Referia-se ao Supremo e à projeção de o próximo presidente lhe indicar quatro ministros.

A provocação, realista, implica avaliar quais serão hoje os valores que compõem o critério para a escolha. Há uma premissa: o STF como Congresso paralelo, em que o governo forma bancada para ter resolvidos os seus reveses no Parlamento do orçamento secreto. (O Parlamento

do orçamento secreto que tem em Flávio Dino, líder do governo no Supremo, o tesoureiro – aquele que abre e fecha a torneira das emendas – e o carrasco, gestor xandônico de inquéritos mantidos como espada sobre a cabeça dos políticos.)

Quem constitui bancada legislativa no STF constitui também banca para defesa. Senadores-togados e juízes-advogados. Morbach referia-se, particularmente, ao Supremo que se manifestou na sessão da última terça, tomada pela blitz blindadora de Dino e transformada num atropelamento parlamentar como aqueles ditados por Lira.

Para que não se chegasse a votar sobre se deveria ser investigado Alexandre de Moraes, Dino – chefe de grupo político no Maranhão, contra cujos inimigos alugou o inquérito das fake news – criou e dirigiu o que acabaria sendo o julgamento de Edson Fachin, condenado a ex-presidente do STF em atividade. Exemplo superior da arte obstrutora: Dino votando e pedindo vista sobre questão de ordem que ele mesmo formulara. (Dino que criou para si uma relatoria paralela do caso Master e cavalga o Dark Horse em raia livre, a duas semanas da eleição.)

Referia-se Morbach, fundamentalmente, a um Supremo em conflito de gangues, sob a batalha dos rabos-presos, em que ministros da Corte Constitucional de uma facção fazem pescaria no celular de bandido como forma de ameaçar ministros da facção inimiga. Expressão de que violado fora o pacto mafioso por meio do qual haviam pactuado que nenhum deles seria investigado pelas relações com Vorcaro.

Contrato que lavraram, todos, em fevereiro, quando do relatório da PF que expunha a sociedade de Dias Toffoli com a rede vorcárica, ocasião em que Fachin presidiu reunião clandestina na qual o relatório seria considerado “lixo jurídico” e Dino fundaria o STF Futebol Clube, aquele, como no time do presídio, em que só se admitiria suspeição de par por estupro ou pedofilia. Até que André Mendonça traiu o movimento – e o que eles são capazes de fazer foi transmitido ao vivo.

São muitos os estímulos de segurança para que se indique um tanque partidário. Pensando nas modalidades de instrumentalização que compõem o critério para a escolha de um juiz deste STF, identifica-se a um padrão–produto perfeito para tempos de guerra: Lula ou Flávio Bolsonaro, o vencedor em outubro chamará quatro Dinos. •

 

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