O Globo
São crescentes a intolerância e o ativismo
político em nome de Deus
A certa altura do segundo ato de “O Neguinho da Beija-Flor”*, biografia musical do cantor e compositor que se despediu da Marquês de Sapucaí em 2025, após meio século defendendo a mesma agremiação, um momento religioso comove. O artista, como sabemos, enfrentou um câncer no intestino em 2008. Tornou públicos diagnóstico e tratamento. No ano seguinte, recuperado, casou-se com Elaine Reis em pleno Sambódromo e, na sequência, conduziu a escola de Nilópolis por mais um desfile, de cima do carro de som, com o médico ao lado. No palco, Mãe Joana, a ialorixá narradora, comanda um ritual de candomblé pela saúde do protagonista; em seguida, duas mulheres evangélicas oram por ele; por fim, um padre católico reza.
A cena apresentada no Teatro João Caetano
emociona pelo que se vê, mas sobretudo pelo que já se viu numa esquina perto de
você. Quando revelou numa entrevista a Mariana Gross, no RJ-TV, que estava
doente, Neguinho da Beija-Flor recebeu de volta uma avalanche de demonstrações
de fé por sua recuperação. Saía um pai de santo, entrava um pastor. Promessas,
obrigações, correntes de oração multiplicaram-se. Na quadra lotada da escola,
os componentes rezaram em coro um inesquecível Pai-Nosso. Houve um tempo em que
a convivência respeitosa entre sacerdotes e fiéis de diferentes credos não era
somente possível, mas real.
Cresci no subúrbio de Irajá, Zona Norte do
Rio, assistindo a missas na igreja e recebendo, na rua e nos terreiros,
saquinhos de doces em celebração a Cosme e Damião. Demonização das religiões de
matriz africana não é novidade. A perseguição se deu até pelo Estado — a
provar, estão os acervos de peças sagradas sequestradas pela polícia em
operações Brasil afora, desde fins do século XIX. Mas, a despeito da Carta
Magna de 1988, que consagrou a liberdade culto e o Estado laico, são crescentes
a intolerância religiosa e o ativismo político em nome de Deus.
O registro da candidatura à Presidência do
empresário, influenciador digital e coach Pablo Marçal, inelegível até 2032 por
abuso de poder econômico, foi rejeitado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
na semana passada. Antes de sair da disputa, ele foi denunciado ao Ministério
Público Eleitoral (MPE) e à polícia do Rio de Janeiro, por racismo religioso e
discurso de ódio. Atacou religiões afro-brasileiras numa entrevista. Disse que
“todo macumbeiro é um derrotado, é gente invejosa, que não prospera”, entre
outras ofensas. Três advogados, Carlos Nicodemos, Maria Fernanda Fernandes e
Rafaela Batistone, representaram contra Marçal no MPE. O Centro de Articulação
das Populações Marginalizadas (Ceap) ingressou com notícia de fato na Delegacia
de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância no Rio.
No Supremo Tribunal Federal (STF),
o enfrentamento fratricida entre integrantes do colegiado também tem contornos
religiosos. André Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União
de Jair Bolsonaro, indicado à Corte por ser “terrivelmente evangélico”,
imprimiu tom messiânico à investigação que busca aprovar em plenário contra o
colega Alexandre de Moraes. Dias depois de quebrar o sigilo do relatório da
Polícia Federal que identificara Moraes como destinatário de mensagens de
Daniel Vorcaro, agradeceu em vídeo a “irmãos e irmãs” por mensagens e orações.
Foi a senha para a mobilização de evangélicos para a disputa no STF. Na
antevéspera do Sete de Setembro, a ex-primeira-dama e candidata ao Senado
Michelle Bolsonaro (PL-DF) tratou Mendonça como “escolhido e ungido do Senhor”.
No feriado nacional, um boneco inflável do ministro foi erguido no ato de
campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Avenida Paulista, em São
Paulo.
A crise no STF, escancarada após a sessão da
última terça-feira, é gravíssima. Acossa um Poder essencial à democracia, mais
uma vez sob ameaça. Mas não tem nada a ver com Deus ou religião. Tampouco a
corrida presidencial. É desolador que uma nação forjada na combinação de
crenças e ritos de indígenas sul-americanos, negros de África e cristãos
europeus se torne refém de um fanatismo religioso — por devoção de fieis e
oportunismo de líderes — que obstrui possibilidades de diálogo político,
convivência comunitária e respeito aos direitos fundamentais. Democracias
também morrem por essa via.
*O musical “O Neguinho da Beija-Flor” está em cartaz até 1º de novembro, de quinta a domingo, no Teatro João Caetano, Centro do Rio. O texto é de Aydano André Motta, também conhecido como meu marido. Luiz Antonio Pilar dirige. Izak da Hora encarna o protagonista; Verônica Bonfim é Dona Joana. Com eles, um elenco negro talentoso e afinado. Imperdível para amantes das escolas de samba, da música, da cultura e das brasilidades.

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