sábado, 19 de setembro de 2026

Não é pelos 20 centavos, por Eduardo Affonso

O Globo

Uma facção togada decidiu que está acima da lei, e não há uma passeata, uma greve geral, um panelaço — nada

Rio de Janeiro, agosto de 1979. Uma multidão segue rumo à Cinelândia, exigindo anistia ampla, geral e irrestrita aos perseguidos pelo regime militar. Na altura do Theatro Municipal, o estudante de arquitetura de 20 anos recebe das mãos de um desconhecido a vara que sustenta uma das pontas de uma faixa de protesto e a carrega até que o braço se canse, e ele a passe adiante. Ainda levará quase seis anos para que a ditadura acabe, mas em poucos dias os primeiros exilados começarão a chegar.

Fevereiro, Belo Horizonte, 1984. Nunca se saberá ao certo quantos estão ali, na Avenida Afonso Pena, no comício pelas Diretas Já. Funcionário do Banco do Brasil, 24 anos, ele está lá, prestes a ter sua primeira crise de pânico: é gente demais, impossível se mover — e maior que o desejo de enfim votar para presidente é o medo de morrer esmagado. Não morre, e o voto só virá cinco anos mais tarde — no candidato do Partido Comunista Brasileiro.

Junho de 2013, Rio de Janeiro. Corrupção, precariedade dos serviços públicos, violência policial. “Vem pra rua”, “O gigante acordou”, “Queremos hospitais e escolas padrão Fifa”. Aos 54 anos, arquiteto, câmera fotográfica em punho, ele vai aos protestos no Centro, na Barra, em Copacabana, atento para debandar antes que cheguem os black blocs.

Salvador, 2016. Domingo de abril, Jardim de Alah apinhado de gente de verde e amarelo, pedindo o segundo impeachment desde a redemocratização. O arquiteto fechou o escritório, trabalha como freelancer e, às vésperas dos 57, precisa dar um jeito de recomeçar a vida. Acha que o Brasil também.

Setembro de 2026, Rio de Janeiro. Aposentado, tardiamente cronista, 67 anos, ele podia hoje ter retomado as anotações sobre o novo mapa-múndi, o disco que Elis não gravou, as cartas dos leitores, o chacundum, o patrimônio arquitetônico que o Rio está perdendo. Ou, quem sabe, algo lírico sobre seus cachorros. Mas, como se perguntava o grande escritor que ocupava este mesmo espaço às quintas-feiras, “poesia numa hora dessas?”.

Quando o Palácio do Supremo Tribunal Federal foi depredado por vândalos na baderna do 8 de Janeiro, o país reagiu com atos em defesa da democracia. Agora a própria Justiça é vilipendiada pelo escárnio dos ministros, na infame sessão de 15 de setembro, e ninguém foi para a rua protestar. Uma facção togada decidiu que está acima da lei, e não há uma passeata, uma greve geral, um panelaço — nada.

Não é pelas relações impróprias entre um ex-banqueiro e os presidentes da Câmara e do Senado, o procurador-geral da República, servidores do Banco Central. Não é pelos indícios de pagamento de R$ 10 mil a uma prostituta por serviços prestados a um ministro ou de repasses mensais de R$ 500 mil ao filho dele. Não é pelos R$ 35 milhões em negócios envolvendo um resort no Paraná, de empresa da família de outro ministro. Não é pelos R$ 61 milhões para financiar a hagiografia cinematográfica de um ex-presidente — parcialmente desviados, com emendas parlamentares, para fins ainda menos nobres. Não é pelos R$ 130 milhões do contrato com a mulher de um ministro ou pela assessoria clandestina que, ao que tudo indica, esse ministro prestava a um investigado pelos crimes de fraude financeira, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Não é pelos bilhões do Rioprevidência e do Banco de Brasília.

É pelos 20 centavos da nossa dignidade, da nossa cidadania.

E as ruas, as praias, as praças estão vazias.

 

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