O QUE PENSA A MÍDIA
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Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
sábado, 19 de julho de 2008
RIO EM DEBATE: RELATO DE UMA JORNADA
Maria Alice Rezende de Carvalho1
Na manhã do dia 16 de junho reuniram-se no IUPERJ cerca de 30 pessoas interessadas em conhecer aspectos da cidade do Rio de Janeiro postos em discussão pela cientista política e vereadora (PV) Aspásia Camargo, pelo economista Mauro Osório, da Faculdade de Direito da UFRJ, e pelo Coordenador do CEDES Luiz Werneck Vianna. No mesmo dia, à tarde, com público igual, foram palestrantes o titular do Juizado Especial Criminal de São Gonçalo, Dr. Marcelo Anátocles, o Prof. Luiz César Queiroz Ribeiro (IPPUR, UFRJ) e, do CEDES, o Prof. Marcelo Burgos.
O evento foi aberto oficialmente por mim, destacando como objetivo central do encontro o de testar a viabilidade da produção coletiva de um novo diagnóstico sobre o Rio de Janeiro, que tivesse, em relação ao diagnóstico elaborado nos anos de 1980, a mesma abrangência social e similar consenso político, a fim de que pudesse orientar as intervenções públicas e cidadãs no âmbito da cidade.
Considero que, durante os anos de 1980, após uma longa trajetória de debates sobre o Rio de Janeiro, afirmou-se a perspectiva de integração favela-asfalto com vistas à democratização do espaço urbano, o que se materializou em projetos como o Favela-Bairro, até hoje em vigência. Contudo, trinta anos depois, a cidade se tornou exigente de uma nova imaginação pública que a enuncie em termos diversos, pois é outra a tematização proposta por seus atores, e outro, certamente, o repertório intelectual disponível.
Nesse sentido, embora reconhecendo a singeleza de um evento como aquele, e o fato de que o CEDES poderá cumprir papel relevante na animação desse debate, mas não poderá operá-lo sozinho, finalizei minha intervenção com o convite para que todos os presentes, sobretudo os palestrantes, levassem a sério a construção de um fórum permanente sobre o Rio.
A primeira intervenção foi a da Vereadora Aspásia Camargo, cujo relatório da CPI SOBRE A DESORDEM URBANA, conduzida sob sua coordenação, era aguardado com interesse.
Aspásia ponderou, primeiramente, sobre os limites do seu trabalho, já que “desordem urbana” diz respeito a um conjunto de problemas de competência estritamente local. Desse conjunto estão excluídos, portanto, temas como a violência ou o desemprego, cujos efeitos sobre o Rio de Janeiro são nefastos e terríveis, mas não podem ser tratados pelas autoridades urbanas.
Assim, para Aspásia, “desordem urbana é um termo que se incorporou recentemente ao vocabulário político para designar a imissão e cumplicidade do poder público diante da ocupação irregular e crescente dos espaços públicos, lesiva à vida cotidiana e aos interesses dos cidadãos. Os tipos de comportamento ilegal que o termo comporta são os mais variados, incluindo a ocupação de calçadas por bares, boates e restaurantes, o barulho excessivo e a poluição sonora em bairros residenciais, os megashows que estão destruindo Copacabana, as máfias de flanelinhas, a favelização dos bairros da cidade, com a presença de práticas informais que vão dos lava-jatos aos pontos de venda de drogas ”.
A vereadora considera que esse cenário de precarização da cidade é muitíssimo ampliado pelos malefícios econômicos que provoca, com a redução do turismo, do funcionamento do comércio, da presença das sedes de companhias nacionais e internacionais no Rio de Janeiro e com a deterioração do nosso patrimônio cultural e urbanístico.
Como causas de todo o descalabro que se abateu sobre o Rio, a relatora cita: (a) a legislação por decreto, que se tornou uma prática no Rio e concentra cada vez mais poderes nas mãos do Prefeito; (b) a cumplicidade dos agentes do controle urbano com uma política centralizada que emana da Secretaria de Governo e do próprio Prefeito; (c) as práticas discricionárias de licenciamento, que protegem determinados agentes econômicos em detrimento de outros e favorecem o “jeitinho”, as cobranças ilegais de propinas etc.; (d) a inexistência de um Código de Postura Urbana adequado e transparente, de que possa se socorrer o cidadão.
Portanto, a vereadora considera que as causas imediatas do nosso infortúnio dizem respeito à concentração de poderes nas mãos do Prefeito, que administra concessões e licenciamentos de modo arbitrário e imprevisível. Mas, segundo Aspásia, no fundo dessa cultura persistiria um “populismo moribundo, que despreza a economia e amaldiçoa o lucro e as atividades produtivas”.
O diagnóstico do economista Mauro Osório, especialista em planejamento urbano, seguiu de perto as proposições da Vereadora. Segundo Osório, alguns economistas importantes têm dirigido sua atenção para o tema do crescimento urbano.
Por que, afinal, algumas cidades prosperam e outras não? Douglass North, prêmio Nobel de Economia, foi convocado ao debate. Segundo North, há determinados “marcos de poder” que favorecem as cidades e outros que as prejudicam. No caso do Rio de Janeiro, para Osório, o marco de poder ainda em vigência seria o que se organizou nos anos de 1970, em torno do clientelismo e do fisiologismo. Esse paradigma, portanto, não foi quebrado “e todos os governantes que chegam ao poder após o segundo governo Chagas Freitas ou entram articulados com esse marco ou dele se tornam prisioneiros”.
A história do Estado do Rio de Janeiro e de sua capital, segundo o analista, não são inocentes em relação aos problemas urbanos contemporâneos. “Nos anos de 1960, diz Osório, existiam duas lógicas na política fluminense: uma nacional e radicalizada, com base na qual o carioca votava referenciado no debate nacional, e uma lógica fragmentária, que passava pela Câmara dos Vereadores, que tinha pouco poder de fato. Quando ocorrem as cassações no Rio, vão-se a esquerda e a direita, pois a UDN, que aqui era lacerdista, vai de roldão. Tal situação gerou um vazio político na cidade, ocupado por Chagas Freitas, então deputado federal, dono do principal jornal popular e presidente do Sindicato Patronal de Jornais e Revistas da cidade nos anos 50 e 60.”
Para Mauro Osório, assim como para a Vereadora Aspásia, a saída da cidade se encontra na superação desse paradigma clientelista e fisiológico, mediante o encontro da cidade com as principais entidades empresariais. Trata-se, pois, de uma renovação da vida urbana, com a conclamação ao debate de novos atores, até aqui pouco comprometidos com sua projeção.
Por fim, falou Werneck Vianna, para quem a cidade do Rio de Janeiro não conheceu a função ético-pedagógica de um patriciado rural, tal como ocorreu em outros contextos de modernização capitalista. Sem elites, sem autonomia política, por força da nossa condição de Distrito Federal com prefeitos nomeados e uma atividade de vereança subordinada ao Senado, sem mais, a partir de 64, a vertebração que a relação PTB/PCB conferia à cidade, o Rio está carente de política.
Na face terrível ostentada pela cidade – violência, crime, feudalização do território, apropriação privatista de recursos de poder etc. – Werneck vê um método.
“Não há caos nessa cidade. Há uma estrutura de poder que comanda essa Nápoles”.
É isso que permite pensar uma forma de intervenção que desmonte essa estrutura e libere as forças mais enérgicas da cidade: os jovens, os empreendedores, os intelectuais da cidade.
Portanto, para Werneck, a questão não se coloca apenas no plano de uma reorientação das atividades econômicas locais, com a correspondente valorização dos interesses e entidades empresariais. A questão é política, sobretudo.
Á tarde, os trabalhos foram reiniciados com a intervenção do juiz Marcelo Anátocles, há 10 anos trabalhando em São Gonçalo, no Juizado Especial Criminal. Sua intervenção centrou-se no tema da construção daquele espaço institucional e das dificuldades que o próprio Poder Judiciário manifesta quando se trata de valorizá-lo. De qualquer modo, Anátocles reafirma a idéia de que a democratização do acesso à justiça é parte integrante, senão a mais relevante, do processo de pacificação social das cidades.
Sua principal contribuição ao debate consistiu na defesa de uma “prática pública” por parte do juiz dos Juizados, que reconheça o entorno e interaja com ele. Nesse ponto pode-se dizer que suas intuições são muito próximas daquelas que o Prof. Marcelo Burgos vem chamando de “justiça de vizinhança” e que dizem respeito ao conjunto de instituições formais e informais que, em um contexto de proximidade, selam as chances de que diferentes atores, com distintos interesses, se reconheçam como parceiros na construção do bem comum.
Esse, aliás, o mote da intervenção de Marcelo Burgos. Segundo ele, é irônico que uma cidade que tanto representou o espírito que animou a Constituição de 1988, vinte anos depois da sua promulgação pareça ser das mais distantes do ideário de 88.
“Com índices insuportáveis de violência, uma sociabilidade marcada pela baixa civilidade, e politicamente loteado em territórios dominados por “donos do pedaço”, o Rio pouco conseguiu se beneficiar dos incentivos à participação democrática inscritos em uma Constituição de notável inspiração municipalista.”
De positivo, contudo, Marcelo ressalta o fato de que, “não por acaso, o Rio de Janeiro é uma das cidades onde os mecanismos de judicialização da política e da vida social – última retaguarda da democracia constitucional – mais vêm sendo utilizados,através do recorrente recurso ao Tribunal de Justiça para a apreciação de ações diretas de inconstitucionalidade questionando normas aprovadas pela Câmara, do uso intensivo de ações populares e civis públicas interpelando a improbidade administrativa e a omissão do poder público, da presença marcante do Ministério Publico na regulação de conflitos da cidade, em áreas como meio ambiente, e direitos de minorias e de segmentos fragilizados como crianças e idosos, e, ainda, da crescente dependência da ação fiscalizadora da representação política exercida pelo Tribunal Regional Eleitoral.” Portanto, na ausência da política, de uma política democrática que não abandone a cidade e o cidadão no descalabro em que se encontram, os mecanismos de judicialização têm operado e deverão continuar operando, até que se possa recompor o tecido da política.
Por fim, Luiz César Queiroz Ribeiro falou do impasse que reconhece para os atores urbanos contemporâneos. De um lado é preciso aprofundar as conquistas democráticas e conceder voz aos atores emergentes. Mas, por outro, é necessário recolocar na agenda pública carioca uma saída economicamente viável para o Rio.
Sem esse debate, diz Luiz César, será impossível projetar a nossa sobrevivência nas próximas décadas. Portanto, para Luiz César política e economia são dimensões igualmente prioritárias e, com essa sugestão o debate transcorreu por toda a tarde, aquecendo a proposta de um fórum que permitisse o detalhamento de todas aquelas proposições.
1 Professora do Departamento de Sociologia da PUC-Rio e membro da coordenação do Centro de Estudos Direito e Sociedade (CEDES/IUPERJ).
Maria Alice Rezende de Carvalho1
Na manhã do dia 16 de junho reuniram-se no IUPERJ cerca de 30 pessoas interessadas em conhecer aspectos da cidade do Rio de Janeiro postos em discussão pela cientista política e vereadora (PV) Aspásia Camargo, pelo economista Mauro Osório, da Faculdade de Direito da UFRJ, e pelo Coordenador do CEDES Luiz Werneck Vianna. No mesmo dia, à tarde, com público igual, foram palestrantes o titular do Juizado Especial Criminal de São Gonçalo, Dr. Marcelo Anátocles, o Prof. Luiz César Queiroz Ribeiro (IPPUR, UFRJ) e, do CEDES, o Prof. Marcelo Burgos.
O evento foi aberto oficialmente por mim, destacando como objetivo central do encontro o de testar a viabilidade da produção coletiva de um novo diagnóstico sobre o Rio de Janeiro, que tivesse, em relação ao diagnóstico elaborado nos anos de 1980, a mesma abrangência social e similar consenso político, a fim de que pudesse orientar as intervenções públicas e cidadãs no âmbito da cidade.
Considero que, durante os anos de 1980, após uma longa trajetória de debates sobre o Rio de Janeiro, afirmou-se a perspectiva de integração favela-asfalto com vistas à democratização do espaço urbano, o que se materializou em projetos como o Favela-Bairro, até hoje em vigência. Contudo, trinta anos depois, a cidade se tornou exigente de uma nova imaginação pública que a enuncie em termos diversos, pois é outra a tematização proposta por seus atores, e outro, certamente, o repertório intelectual disponível.
Nesse sentido, embora reconhecendo a singeleza de um evento como aquele, e o fato de que o CEDES poderá cumprir papel relevante na animação desse debate, mas não poderá operá-lo sozinho, finalizei minha intervenção com o convite para que todos os presentes, sobretudo os palestrantes, levassem a sério a construção de um fórum permanente sobre o Rio.
A primeira intervenção foi a da Vereadora Aspásia Camargo, cujo relatório da CPI SOBRE A DESORDEM URBANA, conduzida sob sua coordenação, era aguardado com interesse.
Aspásia ponderou, primeiramente, sobre os limites do seu trabalho, já que “desordem urbana” diz respeito a um conjunto de problemas de competência estritamente local. Desse conjunto estão excluídos, portanto, temas como a violência ou o desemprego, cujos efeitos sobre o Rio de Janeiro são nefastos e terríveis, mas não podem ser tratados pelas autoridades urbanas.
Assim, para Aspásia, “desordem urbana é um termo que se incorporou recentemente ao vocabulário político para designar a imissão e cumplicidade do poder público diante da ocupação irregular e crescente dos espaços públicos, lesiva à vida cotidiana e aos interesses dos cidadãos. Os tipos de comportamento ilegal que o termo comporta são os mais variados, incluindo a ocupação de calçadas por bares, boates e restaurantes, o barulho excessivo e a poluição sonora em bairros residenciais, os megashows que estão destruindo Copacabana, as máfias de flanelinhas, a favelização dos bairros da cidade, com a presença de práticas informais que vão dos lava-jatos aos pontos de venda de drogas ”.
A vereadora considera que esse cenário de precarização da cidade é muitíssimo ampliado pelos malefícios econômicos que provoca, com a redução do turismo, do funcionamento do comércio, da presença das sedes de companhias nacionais e internacionais no Rio de Janeiro e com a deterioração do nosso patrimônio cultural e urbanístico.
Como causas de todo o descalabro que se abateu sobre o Rio, a relatora cita: (a) a legislação por decreto, que se tornou uma prática no Rio e concentra cada vez mais poderes nas mãos do Prefeito; (b) a cumplicidade dos agentes do controle urbano com uma política centralizada que emana da Secretaria de Governo e do próprio Prefeito; (c) as práticas discricionárias de licenciamento, que protegem determinados agentes econômicos em detrimento de outros e favorecem o “jeitinho”, as cobranças ilegais de propinas etc.; (d) a inexistência de um Código de Postura Urbana adequado e transparente, de que possa se socorrer o cidadão.
Portanto, a vereadora considera que as causas imediatas do nosso infortúnio dizem respeito à concentração de poderes nas mãos do Prefeito, que administra concessões e licenciamentos de modo arbitrário e imprevisível. Mas, segundo Aspásia, no fundo dessa cultura persistiria um “populismo moribundo, que despreza a economia e amaldiçoa o lucro e as atividades produtivas”.
O diagnóstico do economista Mauro Osório, especialista em planejamento urbano, seguiu de perto as proposições da Vereadora. Segundo Osório, alguns economistas importantes têm dirigido sua atenção para o tema do crescimento urbano.
Por que, afinal, algumas cidades prosperam e outras não? Douglass North, prêmio Nobel de Economia, foi convocado ao debate. Segundo North, há determinados “marcos de poder” que favorecem as cidades e outros que as prejudicam. No caso do Rio de Janeiro, para Osório, o marco de poder ainda em vigência seria o que se organizou nos anos de 1970, em torno do clientelismo e do fisiologismo. Esse paradigma, portanto, não foi quebrado “e todos os governantes que chegam ao poder após o segundo governo Chagas Freitas ou entram articulados com esse marco ou dele se tornam prisioneiros”.
A história do Estado do Rio de Janeiro e de sua capital, segundo o analista, não são inocentes em relação aos problemas urbanos contemporâneos. “Nos anos de 1960, diz Osório, existiam duas lógicas na política fluminense: uma nacional e radicalizada, com base na qual o carioca votava referenciado no debate nacional, e uma lógica fragmentária, que passava pela Câmara dos Vereadores, que tinha pouco poder de fato. Quando ocorrem as cassações no Rio, vão-se a esquerda e a direita, pois a UDN, que aqui era lacerdista, vai de roldão. Tal situação gerou um vazio político na cidade, ocupado por Chagas Freitas, então deputado federal, dono do principal jornal popular e presidente do Sindicato Patronal de Jornais e Revistas da cidade nos anos 50 e 60.”
Para Mauro Osório, assim como para a Vereadora Aspásia, a saída da cidade se encontra na superação desse paradigma clientelista e fisiológico, mediante o encontro da cidade com as principais entidades empresariais. Trata-se, pois, de uma renovação da vida urbana, com a conclamação ao debate de novos atores, até aqui pouco comprometidos com sua projeção.
Por fim, falou Werneck Vianna, para quem a cidade do Rio de Janeiro não conheceu a função ético-pedagógica de um patriciado rural, tal como ocorreu em outros contextos de modernização capitalista. Sem elites, sem autonomia política, por força da nossa condição de Distrito Federal com prefeitos nomeados e uma atividade de vereança subordinada ao Senado, sem mais, a partir de 64, a vertebração que a relação PTB/PCB conferia à cidade, o Rio está carente de política.
Na face terrível ostentada pela cidade – violência, crime, feudalização do território, apropriação privatista de recursos de poder etc. – Werneck vê um método.
“Não há caos nessa cidade. Há uma estrutura de poder que comanda essa Nápoles”.
É isso que permite pensar uma forma de intervenção que desmonte essa estrutura e libere as forças mais enérgicas da cidade: os jovens, os empreendedores, os intelectuais da cidade.
Portanto, para Werneck, a questão não se coloca apenas no plano de uma reorientação das atividades econômicas locais, com a correspondente valorização dos interesses e entidades empresariais. A questão é política, sobretudo.
Á tarde, os trabalhos foram reiniciados com a intervenção do juiz Marcelo Anátocles, há 10 anos trabalhando em São Gonçalo, no Juizado Especial Criminal. Sua intervenção centrou-se no tema da construção daquele espaço institucional e das dificuldades que o próprio Poder Judiciário manifesta quando se trata de valorizá-lo. De qualquer modo, Anátocles reafirma a idéia de que a democratização do acesso à justiça é parte integrante, senão a mais relevante, do processo de pacificação social das cidades.
Sua principal contribuição ao debate consistiu na defesa de uma “prática pública” por parte do juiz dos Juizados, que reconheça o entorno e interaja com ele. Nesse ponto pode-se dizer que suas intuições são muito próximas daquelas que o Prof. Marcelo Burgos vem chamando de “justiça de vizinhança” e que dizem respeito ao conjunto de instituições formais e informais que, em um contexto de proximidade, selam as chances de que diferentes atores, com distintos interesses, se reconheçam como parceiros na construção do bem comum.
Esse, aliás, o mote da intervenção de Marcelo Burgos. Segundo ele, é irônico que uma cidade que tanto representou o espírito que animou a Constituição de 1988, vinte anos depois da sua promulgação pareça ser das mais distantes do ideário de 88.
“Com índices insuportáveis de violência, uma sociabilidade marcada pela baixa civilidade, e politicamente loteado em territórios dominados por “donos do pedaço”, o Rio pouco conseguiu se beneficiar dos incentivos à participação democrática inscritos em uma Constituição de notável inspiração municipalista.”
De positivo, contudo, Marcelo ressalta o fato de que, “não por acaso, o Rio de Janeiro é uma das cidades onde os mecanismos de judicialização da política e da vida social – última retaguarda da democracia constitucional – mais vêm sendo utilizados,através do recorrente recurso ao Tribunal de Justiça para a apreciação de ações diretas de inconstitucionalidade questionando normas aprovadas pela Câmara, do uso intensivo de ações populares e civis públicas interpelando a improbidade administrativa e a omissão do poder público, da presença marcante do Ministério Publico na regulação de conflitos da cidade, em áreas como meio ambiente, e direitos de minorias e de segmentos fragilizados como crianças e idosos, e, ainda, da crescente dependência da ação fiscalizadora da representação política exercida pelo Tribunal Regional Eleitoral.” Portanto, na ausência da política, de uma política democrática que não abandone a cidade e o cidadão no descalabro em que se encontram, os mecanismos de judicialização têm operado e deverão continuar operando, até que se possa recompor o tecido da política.
Por fim, Luiz César Queiroz Ribeiro falou do impasse que reconhece para os atores urbanos contemporâneos. De um lado é preciso aprofundar as conquistas democráticas e conceder voz aos atores emergentes. Mas, por outro, é necessário recolocar na agenda pública carioca uma saída economicamente viável para o Rio.
Sem esse debate, diz Luiz César, será impossível projetar a nossa sobrevivência nas próximas décadas. Portanto, para Luiz César política e economia são dimensões igualmente prioritárias e, com essa sugestão o debate transcorreu por toda a tarde, aquecendo a proposta de um fórum que permitisse o detalhamento de todas aquelas proposições.
1 Professora do Departamento de Sociologia da PUC-Rio e membro da coordenação do Centro de Estudos Direito e Sociedade (CEDES/IUPERJ).
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
O TERCEIRO MANDATO JÁ COMEÇOU
Vinicius Mota
Vinicius Mota
SÃO PAULO - O lulismo continuará no poder em 2011, não importa o vencedor das eleições presidenciais do ano anterior. Quem busca elucidar esse enigma nas movimentações de granadeiros petistas de baixa patente, como o folclórico deputado Devanir Ribeiro, erra o alvo.
A resposta está diante dos olhos, em operações como a compra da Brasil Telecom pela Oi, financiada e permitida por um mutirão governista capitaneado pelo Planalto.
Com R$ 4,3 bilhões do Banco do Brasil e R$ 2,6 bilhões do BNDES, mais da metade da necessidade de capital para a transação será garantida pela gestão Lula. O governo também entra com mão-de-obra normativa -vai mudar o decreto que impede fusões- e a boa vontade de acionistas como fundos de pensão e, de novo, o BNDES.
Tanto empenho há de ser recompensado. A influência, no "big business" telefônico, de diversos núcleos políticos e quadros partidários hoje no governo vai perdurar por longos anos. Na dúvida, consultem-se diretorias e conselhos administrativos e fiscais de grandes empresas beneficiárias das privatizações, da política de juros ou da normatização ("regulação") dos anos FHC. Muitos fernandistas estão firmes em seu quarto mandato.
A queda de Palocci, adepto das relações preferenciais com os bancos, coincidiu com uma mudança de estilo do governo Lula nesse quesito. O apetite para intervir em grandes negócios público-privados deu um salto sob Dilma Rousseff, mãe do PAC e musa dos empreiteiros.
O governo patrocina a reorganização do capital na telefonia, na petroquímica e em outros setores da economia, aprofundando e estendendo no tempo a confluência estatal, sindical e partidária no mundo dos negócios. A simbiose crescente entre principais partidos, sindicatos e empresas do país, sob fiança do erário, é a principal ameaça à capacidade do Estado de arbitrar conflitos a favor do interesse público.
DEU NO JORNAL DO BRASIL

CAMPANHA NÃO SUSTENTA GOVERNO
Villas-Bôas Corrêa
Desta vez nada deu e continua não dando certo. O presidente Lula ajeitou a sua agenda para uma meia trava na ostensiva campanha eleitoral em que se empenhava praticamente em tempo integral, aproveitando o pretexto ou a desculpa – tão falsa como as explicações policiais sobre o mega-escândalo que envolve meio mundo nas trampas da turma do Banco Opportunity – de acompanhar as obras do Plano de Aceleração do Crescimento, o pobrezinho do PAC largado às traças, ao mesmo tempo em que apresentava ao distinto eleitorado a sua candidata para sucedê-lo, a ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, para a ainda distante eleição de 2010.
As coisas não correram como o esperado. Mas, o giro pelos muitos cantos do mundo garantiu boa cobertura na imprensa, com o exotismo da presença presidencial em paises sempre esquecidos, bem explorado pelas redes de TV e nas fotos de jornais e revistas.
Na retaguarda a campanha começou mal e continua como cabra-cega, sem rumo. A sacudidela com o tempero do azar está a exibir mazelas que ninguém queria enxergar, embora à vista na decadência galopante das grandes e médias cidades, na crise ética que corrói como ferrugem a respeitabilidade dos três poderes e assume a dimensão de escândalo no pior Congresso das últimas décadas.
Falta tudo para que a campanha para a eleição de prefeitos e vereadores salte a cerca da província e alcance a desejada projeção nacional. Engambelar o eleitor com a atividade de candidatos em visitas a bairros e subúrbios, distribuindo brindes e prospectos de propaganda, com a verônica em foto caprichada e os retoques que escondem rugas, disfarçam a calvície e as sobras que estufam a barriga ajuda a eleição dos mais afortunados.
É pouco, quase nada. Campanha eleitoral para valer exige partidos fortes, nítidos, com as marcas que o definem e que estimulem a desejada bipolarização na reta da chegada. Ou desde o começo, se o eleitor é da raça que acompanha a atividade política com a atenção de quem sabe da sua importância para a população que dele, de alguma maneira, depende.
Este Congresso que está nos presenteando com a folga do seu curto recesso até o fim do mês parece apostar com o governo o campeonato da incompetência obtusa e suicida. O presidente Lula, antes de recuperar o fôlego, mergulhou às cegas no suspeito desarranjo nas investigações da Polícia Federal sobre as trampas que envolvem bilhões e um elenco de primeiro time na arte de ganhar dinheiro sem suar a camisa. O encontro, no Palácio do Planalto, de Lula com o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, com a presença do ministro Tarso Genro, da Justiça passou para o país a desconfortável sensação de um governo perdido e que bate cabeça nos atalhos do absurdo.
A inflação mostra a sua face com a volta das maquinetas de remarcação de preços, retiradas do baú e em plena atividade, à vista da freguesia atordoada, a refazer as contas das despesas. Ainda não é a indignada decepção de quem descobre que foi enganado. Mas, o claro soar da estridência do alarme.
O cenário está sendo montado para uma recaída da população no depressivo desligamento da campanha, com as exceções conhecidas das cidades em que as rivalidades locais abafem o abatimento com a sensação de mais um logro. Nada pior do que a cólera do povo que se volta contra o governo, com o descrédito da democracia. E é um erro tático irreparável. A indignação precisa ser dirigida para o exemplar corretivo dos que enganaram o eleitor. E o voto é a arma não apenas eficaz, mas a única que o eleitor dispõe para punir os que o tapearam.
Não é tão difícil identificar os patranheiros que o enganaram, os desonestos envolvidos em CPIs, escândalos e roubalheiras e, como quem cata o diamante no garimpo, descobrir o candidato que mereça o seu voto. Se o conselho de velho repórter, que não é e nunca foi candidato a nada, tem algum crédito, sigam as duas regras de ouro: votem, não desperdicem a oportunidade de mandar o seu recado, mas votem com raiva. Com toda a raiva acumulada em anos, décadas de humilhação. Votem em quem mereceu o seu voto. E mandem os patifes para o inferno. Ou votem no novo que justifique a sua confiança.
Villas-Bôas Corrêa
Desta vez nada deu e continua não dando certo. O presidente Lula ajeitou a sua agenda para uma meia trava na ostensiva campanha eleitoral em que se empenhava praticamente em tempo integral, aproveitando o pretexto ou a desculpa – tão falsa como as explicações policiais sobre o mega-escândalo que envolve meio mundo nas trampas da turma do Banco Opportunity – de acompanhar as obras do Plano de Aceleração do Crescimento, o pobrezinho do PAC largado às traças, ao mesmo tempo em que apresentava ao distinto eleitorado a sua candidata para sucedê-lo, a ministra Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil, para a ainda distante eleição de 2010.
As coisas não correram como o esperado. Mas, o giro pelos muitos cantos do mundo garantiu boa cobertura na imprensa, com o exotismo da presença presidencial em paises sempre esquecidos, bem explorado pelas redes de TV e nas fotos de jornais e revistas.
Na retaguarda a campanha começou mal e continua como cabra-cega, sem rumo. A sacudidela com o tempero do azar está a exibir mazelas que ninguém queria enxergar, embora à vista na decadência galopante das grandes e médias cidades, na crise ética que corrói como ferrugem a respeitabilidade dos três poderes e assume a dimensão de escândalo no pior Congresso das últimas décadas.
Falta tudo para que a campanha para a eleição de prefeitos e vereadores salte a cerca da província e alcance a desejada projeção nacional. Engambelar o eleitor com a atividade de candidatos em visitas a bairros e subúrbios, distribuindo brindes e prospectos de propaganda, com a verônica em foto caprichada e os retoques que escondem rugas, disfarçam a calvície e as sobras que estufam a barriga ajuda a eleição dos mais afortunados.
É pouco, quase nada. Campanha eleitoral para valer exige partidos fortes, nítidos, com as marcas que o definem e que estimulem a desejada bipolarização na reta da chegada. Ou desde o começo, se o eleitor é da raça que acompanha a atividade política com a atenção de quem sabe da sua importância para a população que dele, de alguma maneira, depende.
Este Congresso que está nos presenteando com a folga do seu curto recesso até o fim do mês parece apostar com o governo o campeonato da incompetência obtusa e suicida. O presidente Lula, antes de recuperar o fôlego, mergulhou às cegas no suspeito desarranjo nas investigações da Polícia Federal sobre as trampas que envolvem bilhões e um elenco de primeiro time na arte de ganhar dinheiro sem suar a camisa. O encontro, no Palácio do Planalto, de Lula com o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, com a presença do ministro Tarso Genro, da Justiça passou para o país a desconfortável sensação de um governo perdido e que bate cabeça nos atalhos do absurdo.
A inflação mostra a sua face com a volta das maquinetas de remarcação de preços, retiradas do baú e em plena atividade, à vista da freguesia atordoada, a refazer as contas das despesas. Ainda não é a indignada decepção de quem descobre que foi enganado. Mas, o claro soar da estridência do alarme.
O cenário está sendo montado para uma recaída da população no depressivo desligamento da campanha, com as exceções conhecidas das cidades em que as rivalidades locais abafem o abatimento com a sensação de mais um logro. Nada pior do que a cólera do povo que se volta contra o governo, com o descrédito da democracia. E é um erro tático irreparável. A indignação precisa ser dirigida para o exemplar corretivo dos que enganaram o eleitor. E o voto é a arma não apenas eficaz, mas a única que o eleitor dispõe para punir os que o tapearam.
Não é tão difícil identificar os patranheiros que o enganaram, os desonestos envolvidos em CPIs, escândalos e roubalheiras e, como quem cata o diamante no garimpo, descobrir o candidato que mereça o seu voto. Se o conselho de velho repórter, que não é e nunca foi candidato a nada, tem algum crédito, sigam as duas regras de ouro: votem, não desperdicem a oportunidade de mandar o seu recado, mas votem com raiva. Com toda a raiva acumulada em anos, décadas de humilhação. Votem em quem mereceu o seu voto. E mandem os patifes para o inferno. Ou votem no novo que justifique a sua confiança.
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

GOVERNO TENTA REEDITAR A CLÁUSULA DE BARREIRA
Daniel Pereira Da equipe do Correio
Daniel Pereira Da equipe do Correio
Regra que condiciona a liberação de recursos públicos ao número de votos conquistados pelos partidos é um dos itens da reforma política
Na ofensiva que promete deflagar, depois das eleições, pela aprovação da reforma política, o governo tentará ressuscitar a chamada cláusula de barreira em seu formato original. A regra condiciona a liberação de recursos públicos e o direito a tempo de televisão e rádio ao desempenho dos partidos nas urnas. Na prática, tenta reduzir o número de legendas existentes no país e, assim, tornar mais fácil a governabilidade — ou seja, a relação entre o presidente da República e as siglas com mandatos no Congresso. Hoje, são 27 os partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Do total, 14 estão aliados de forma oficial a Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, a aprovação da cláusula de barreira é uma meta de curto prazo. A idéia do governo é incluí-la na Constituição. Assim, seria mais difícil o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubá-la, como fez em dezembro de 2006 ao analisar uma lei sobre o assunto. Na época, o STF julgou ações protocoladas por partidos de pequeno e médio portes, que alegavam ser prejudicados pela regra. A tendência é que reajam da mesma maneira quando a proposta voltar ao Congresso. Para vencer a disputa, o governo conta com o apoio das maiores siglas do país, as quais serão beneficiadas com a iniciativa.
Múcio nega que o objetivo seja facilitar a governabilidade. Afirma que a cláusula de barreira, associada à fidelidade partidária, dará identidade às legendas. “Não é nem para negociar, é para saber o pensamento do partido. Eu acho os partidos hoje muito parecidos, e o eleitor não se vincula a eles”, diz o ministro. “O clube de futebol, por ter bandeira, hino, camisa, forma de jogar, quando o jogador sai a torcida lamenta, mas fica. O partido é como se fosse uma torcida por jogadores isolados. Quando o jogador sai, a torcida vai atrás. Precisamos fortalecer os partidos.”
Primeiro round
Aprovada em 1995 com vigência plena a partir das eleições de 2006, a lei sobre cláusula de barreira dizia que só os partidos que conquistassem 5% dos votos para deputado federal em todo o país e, ao mesmo tempo, 2% dos votos para deputado federal em pelo menos nove unidades da Federação teriam direito a uma série de benefícios. Entre eles, um programa semestral em rede nacional de rádio e televisão, com duração de 20 minutos, e participação garantida no rateio de 99% dos recursos do fundo partidário, orçado em R$ 135 milhões neste ano. Em 2002, só PMDB, PT, PSDB, DEM, PSB, PDT e PP cumpriram tais exigências.
Pela legislação, as siglas com desempenho eleitoral abaixo do fixado dividiriam o 1% restante do fundo partidário e teriam dois minutos por semestre em rede nacional de rádio e TV. Contrariadas com o modelo, legendas de médio e pequeno portes recorreram ao Supremo. Venceram a disputa numa decisão unânime. Ao seguir o voto do relator, ministro Marco Aurélio de Mello, o plenário do tribunal disse que a cláusula impede a pluralidade partidária e a difusão de diferentes correntes de pensamento. Alguns ministros, como Cármem Lúcia, tacharam-na de “cláusula de exclusão”.
A derrota esmagadora no precedente não mudará os planos do governo. A área técnica alega que o STF não terá como derrubar uma emenda constitucional, juridicamente mais forte do que uma lei ordinária. Já os operadores políticos afirmam que o poder público não pode mais alimentar a sobrevivência de siglas sem representatividade, as quais, muitas vezes, vivem apenas para alugar seu espaço na mídia a políticos e legendas de maior expressão. O Planalto reconhece que PCdoB, PV e PPS, por exemplo, não fazem parte do grupo que se pretende expurgar.
Por isso, promete empenho para preservá-los. Para tanto, é possível que seja reeditada a idéia da federação de partidos. Ela abre a possibilidade de agremiações associadas, e não apenas siglas de forma isolada, superarem o número mínimo de votos exigidos pela cláusula de barreira.
Entrevista - José Múcio Monteiro
Fidelidade também na pauta do Planalto
Além da cláusula de barreira, o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, informa ser prioridade para o governo a regulamentação da fidelidade partidária. A meta é assegurar a possibilidade de o político trocar de partido, respeitadas determinadas regras, sem correr o risco de perder o mandato. Múcio não diz qual receita será adotada. Se prevalecer a proposta em tramitação na Câmara, detentores de cargos eletivos terão direito de mudar de legenda nos meses de setembro do ano anterior ao da realização de eleições.
Além da cláusula de barreira, o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, informa ser prioridade para o governo a regulamentação da fidelidade partidária. A meta é assegurar a possibilidade de o político trocar de partido, respeitadas determinadas regras, sem correr o risco de perder o mandato. Múcio não diz qual receita será adotada. Se prevalecer a proposta em tramitação na Câmara, detentores de cargos eletivos terão direito de mudar de legenda nos meses de setembro do ano anterior ao da realização de eleições.
Por que o governo decidiu apresentar uma proposta de reforma política ao Congresso?
Na realidade, o governo não decidiu apresentar uma proposta de reforma política ao Congresso. O governo resolveu ajudar na discussão. Por isso, juntará todas as propostas que estão aí, a do Congresso, que já foi discutida, a da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Na primeira vez que apresentaram a proposta de reforma política, o governo não participou. Desta vez, o Executivo quer colaborar.
Há uma década esse assunto está no Congresso e não avança. Por que o senhor acha que agora será diferente?
Nós não podemos, por conta das dificuldades que enfrentamos há uma década, perder o estímulo, porque a cada dia que passa todo mundo acha que é necessário fazermos alguns aprimoramentos. Evoluímos em alguns pontos. Na questão de mudança partidária, no passado se podia sair de qualquer maneira (a qualquer hora). Agora, não pode sair de maneira nenhuma, com essa interpretação da Justiça de que o mandato é do partido, e não do parlamentar. Qual é a janela para alguém não ficar a vida toda vinculado a um partido? Precisamos avançar na questão da cláusula de barreira. Já avançamos no passado, mas não cuidamos de colocá-la na Constituição e ela caiu. Isso tudo é para discussão. A novidade é que o Executivo quer participar da discussão.
Além da fidelidade partidária e da cláusula de barreira, quais outras medidas são fundamentais?
Acho que esses dois pontos são os mais maduros e de mais curto prazo. Os outros são discussões mais profundas. Tem uma pesquisa que diz que nenhum país está satisfeito com o seu modelo. Quem tem voto em lista quer mudar, quem tem voto distrital quer deixar de ser distrital. De maneira que nós temos de adaptar à realidade brasileira.
Qual é o objetivo da reforma política?
É adaptar as condições eleitorais, os partidos, ao próprio tempo. A questão do suplente de senador, a questão dos vices, o número de senadores e deputados… O mundo ficou menor, as distâncias se encurtaram. Com a comunicação, as pessoas se aproximaram mais. Todos os países estão procurando se aprimorar.
É adaptar as condições eleitorais, os partidos, ao próprio tempo. A questão do suplente de senador, a questão dos vices, o número de senadores e deputados… O mundo ficou menor, as distâncias se encurtaram. Com a comunicação, as pessoas se aproximaram mais. Todos os países estão procurando se aprimorar.
A reforma também tornaria mais fácil a negociação com o Congresso, hoje feita com dezenas de partidos e num cenário de infidelidade?
Não é nem para negociar, é para saber o pensamento do partido. Qual é a bandeira dos partidos? O deputado mudou de um partido por conveniências pessoais e eleitorais ou por algum viés ideológico que o partido tem? Eu acho os partidos hoje muito parecidos, e o eleitor não se vincula a eles. Eu comparo sempre com um clube de futebol. O clube de futebol, por ter bandeira, hino, camisa, forma de jogar, quando o jogar sai a torcida lamenta, mas fica. O partido é como se fosse uma torcida por jogadores isolados. O resultado não é do conjunto. No partido, quando o jogador sai, a torcida vai atrás. O que precisamos é fortalecer os partidos.
Quer dizer, os partidos são parecidos por não ter identidade?
Exatamente.
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
QUATRO HORAS EM QUATRO MINUTOS
Editorial (O Estado de S. Paulo)
Ontem fez uma semana desde que, em visita a Timor Leste, o presidente Lula se saiu com este primeiro - e que deveria ter sido o único - comentário sobre a Operação Satiagraha: “O dado concreto é que a Polícia Federal (PF) tem prestado serviços relevantes. Só tem um jeito de as pessoas não serem molestadas pela polícia no País: andarem direito. Quem achar que pode praticar malversação dos recursos públicos, fazer lavagem de dinheiro ou outra coisa qualquer, e que não vai ser incomodado, só se nós não soubermos. Se soubermos, todos terão que pagar um preço porque o País tem leis.” Era como se tivesse dado o assunto por encerrado, com a mesma atitude de distanciamento assumida quando vieram a público outras investigações envolvendo figurões suspeitos de não andar direito. Se o País tem leis e as instituições funcionam - foi a mensagem implícita -, ao presidente cabe apenas consignar essa virtuosa realidade, deixando as coisas seguirem o seu curso natural.
Naquela mesma sexta-feira, porém, este jornal revelou que em 29 de maio a Polícia Federal gravou um telefonema de um dos advogados do banqueiro Daniel Dantas, o ex-parlamentar petista Luiz Eduardo Greenhalgh, para o chefe de gabinete do Planalto, Gilberto Carvalho. Na conversa, este se compromete a procurar o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, como fizera com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência - sempre a pedido de Greenhalgh -, para esclarecer se a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) investigava o lugar-tenente de Dantas, Humberto Braz. Divulgado o diálogo, Carvalho negou que tivesse levado o assunto adiante. Ainda assim, a mera promessa sugere que o mais próximo colaborador de Lula, à vontade com um companheiro, não se pautou pelo princípio da separação entre interesse público e interesses privados - e que interesses!
De toda maneira, a exposição de Carvalho enfureceu o presidente, trouxe “para dentro do palácio”, nas palavras de um ex-ministro, o problema dos vazamentos de material sob segredo de Justiça - como os transcritos de telefonemas monitorados - e selou a sorte do delegado Protógenes Queiroz, o responsável pela Satiagraha. Ele já estava na mira do diretor da PF por não tê-lo avisado de suas iniciativas, a mais grave das quais foi envolver informalmente a Abin na operação. Não havia duas opiniões nem sobre a necessidade de remover o delegado nem sobre a conveniência de maquiar a remoção, para que não fosse entendida como tentativa de esfriar uma investigação sobre as estripulias de um potentado dos negócios malquisto pela opinião pública. Faltou combinar com os russos, diria Garrincha. Protógenes não só se recusou a oferecer espontaneamente a cabeça ao cutelo, mas fez saber que fora pressionado a se imolar.
Confrontado com o que os seus assessores lhe disseram ser um difuso sentimento de desconfiança, na sociedade, sobre as verdadeiras razões da saída do delegado, Lula recorreu a um desastroso estratagema para salvar a face: investiu rombudamente contra o policial, a quem acusou de “vender insinuações” - ou seja, a verdade dos fatos - e de ser relapso, ainda por cima. “Ninguém pode fazer o trabalho que ele fez por quatro anos e, na hora de terminar o relatório, dizer que vai embora”, o descompôs o presidente. “Tem que ficar no caso.” De novo, não pegou. Diante disso, Lula tirou da manga, imaginando que fosse um ás, o que se revelaria um pífio dois de paus: ordenou que a PF divulgasse a gravação da reunião interna convocada exatamente para tirar Protógenes, a fim de respaldar a patranha de que ele saiu porque quis (a pretexto de concluir um curso). E assim se fez, dando novo significado à expressão “tiro no pé”.
O que a PF liberou foi um áudio selecionado a dedo de menos de 4 minutos de uma reunião que durou cerca de 4 horas. Tudo mais seria confidencial. Nele se ouve o delegado dizer que “falhou”, “criou um grande problema” para os colegas e que não pretende retomar a operação “até mesmo depois da academia”. Ele teria afirmado a amigos, porém, que a fita “adulterou” o que aconteceu ao longo da reunião. É plausível. O Planalto, em suma, perdeu a parada. Protógenes, com todas as suas falhas, sai como vítima, e Lula, como o algoz que o puniu por ter mostrado a intimidade do governo.
Editorial (O Estado de S. Paulo)
Ontem fez uma semana desde que, em visita a Timor Leste, o presidente Lula se saiu com este primeiro - e que deveria ter sido o único - comentário sobre a Operação Satiagraha: “O dado concreto é que a Polícia Federal (PF) tem prestado serviços relevantes. Só tem um jeito de as pessoas não serem molestadas pela polícia no País: andarem direito. Quem achar que pode praticar malversação dos recursos públicos, fazer lavagem de dinheiro ou outra coisa qualquer, e que não vai ser incomodado, só se nós não soubermos. Se soubermos, todos terão que pagar um preço porque o País tem leis.” Era como se tivesse dado o assunto por encerrado, com a mesma atitude de distanciamento assumida quando vieram a público outras investigações envolvendo figurões suspeitos de não andar direito. Se o País tem leis e as instituições funcionam - foi a mensagem implícita -, ao presidente cabe apenas consignar essa virtuosa realidade, deixando as coisas seguirem o seu curso natural.
Naquela mesma sexta-feira, porém, este jornal revelou que em 29 de maio a Polícia Federal gravou um telefonema de um dos advogados do banqueiro Daniel Dantas, o ex-parlamentar petista Luiz Eduardo Greenhalgh, para o chefe de gabinete do Planalto, Gilberto Carvalho. Na conversa, este se compromete a procurar o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, como fizera com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência - sempre a pedido de Greenhalgh -, para esclarecer se a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) investigava o lugar-tenente de Dantas, Humberto Braz. Divulgado o diálogo, Carvalho negou que tivesse levado o assunto adiante. Ainda assim, a mera promessa sugere que o mais próximo colaborador de Lula, à vontade com um companheiro, não se pautou pelo princípio da separação entre interesse público e interesses privados - e que interesses!
De toda maneira, a exposição de Carvalho enfureceu o presidente, trouxe “para dentro do palácio”, nas palavras de um ex-ministro, o problema dos vazamentos de material sob segredo de Justiça - como os transcritos de telefonemas monitorados - e selou a sorte do delegado Protógenes Queiroz, o responsável pela Satiagraha. Ele já estava na mira do diretor da PF por não tê-lo avisado de suas iniciativas, a mais grave das quais foi envolver informalmente a Abin na operação. Não havia duas opiniões nem sobre a necessidade de remover o delegado nem sobre a conveniência de maquiar a remoção, para que não fosse entendida como tentativa de esfriar uma investigação sobre as estripulias de um potentado dos negócios malquisto pela opinião pública. Faltou combinar com os russos, diria Garrincha. Protógenes não só se recusou a oferecer espontaneamente a cabeça ao cutelo, mas fez saber que fora pressionado a se imolar.
Confrontado com o que os seus assessores lhe disseram ser um difuso sentimento de desconfiança, na sociedade, sobre as verdadeiras razões da saída do delegado, Lula recorreu a um desastroso estratagema para salvar a face: investiu rombudamente contra o policial, a quem acusou de “vender insinuações” - ou seja, a verdade dos fatos - e de ser relapso, ainda por cima. “Ninguém pode fazer o trabalho que ele fez por quatro anos e, na hora de terminar o relatório, dizer que vai embora”, o descompôs o presidente. “Tem que ficar no caso.” De novo, não pegou. Diante disso, Lula tirou da manga, imaginando que fosse um ás, o que se revelaria um pífio dois de paus: ordenou que a PF divulgasse a gravação da reunião interna convocada exatamente para tirar Protógenes, a fim de respaldar a patranha de que ele saiu porque quis (a pretexto de concluir um curso). E assim se fez, dando novo significado à expressão “tiro no pé”.
O que a PF liberou foi um áudio selecionado a dedo de menos de 4 minutos de uma reunião que durou cerca de 4 horas. Tudo mais seria confidencial. Nele se ouve o delegado dizer que “falhou”, “criou um grande problema” para os colegas e que não pretende retomar a operação “até mesmo depois da academia”. Ele teria afirmado a amigos, porém, que a fita “adulterou” o que aconteceu ao longo da reunião. É plausível. O Planalto, em suma, perdeu a parada. Protógenes, com todas as suas falhas, sai como vítima, e Lula, como o algoz que o puniu por ter mostrado a intimidade do governo.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1030&portal=
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DEU NO VALOR ECONÔMICO

VOTO EMOÇÃO, VOTO CABEÇA
Por Cláudia Izique, para o Valor, de São Paulo
Na mesa de cabeceira de qualquer marqueteiro engajado nas eleições municipais há um livro intitulado "O Cérebro Político: O Papel da Emoção na Decisão dos Destinos do País". Nele, o psicólogo americano Drew Westen, da Universidade de Emory, defende a tese de que a razão e a racionalidade desempenham papel pouco importante na decisão do voto e que é a emoção que prevalece na escolha. Enquanto os republicanos são pródigos no uso de palavras e imagens que desencadeiam cascatas de emoções durante uma campanha, os democratas, segundo Westen, acreditam que a mente humana age sem paixão - e por isso acabam perdendo eleições.
A tese de Westen, que ele garante estar fundamentada na neurociência, não soa como novidade aos ouvidos dos marqueteiros brasileiros. Desde que a lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965, instituiu o horário eleitoral gratuito e levou a campanha para a TV, eles passaram a perscrutar a cabeça dos eleitores, sem o auxílio de "scanners" ou de aparelhos de ressonância magnética, mas com pesquisas de opinião pública. "Está superada a idéia de que o voto é uma experiência associada à identidade social com o candidato ou à afinidade psicológica do eleitor com o partido, ou fruto de uma escolha racional", constata o cientista político e analista de pesquisas Antonio Lavareda, responsável pelo marketing da campanha do prefeito paulistano Gilberto Kassab, candidato à reeleição. Com mais de 20 anos de experiência no ramo, ele afirma: a decisão de voto é resultado de um "mix" de fatores afetivos e racionais que se associam em diferentes proporções e variam de acordo com tendências individuais.
Westen chegou a conclusão semelhante - ainda que enfatizando o lado da emoção - por um método considerado mais científico: monitorou a atividade cerebral de 30 pessoas filiadas aos partidos Republicano e Democrata enquanto eram confrontadas com afirmações, positivas ou negativas, sobre seu candidato e o do partido oponente - no caso, George W. Bush e John Kerry, em 2004. Diante de afirmações desabonadoras sobre o adversário, a área do cérebro responsável pelo julgamento racional rapidamente entrava em funcionamento. Mas quando o alvo era o candidato do coração, os circuitos neurais envolvidos com a emoção acendiam, ativados pelo desconforto, e o cérebro do eleitor passava a buscar "recompensas" para afastar o conflito, recorrendo, finalmente, à racionalização, para restabelecer a escolha afetiva. Conclusão: o eleitor decide com a emoção e justifica com a razão.
O fato de os Estados Unidos contarem com um sistema bipartidário com 150 anos de história, terem um terço do eleitorado democrata e outro terço, republicano votando com os respectivos partidos - mas todos compartilhando os mesmos valores do "sonho americano" -, muito provavelmente fez com que a tese de Westen pendesse para um lado mais afetivo, pondera o cientista político Eduardo Graeff, que ocupou a Secretaria-Geral da Presidência da República no governo Fernando Henrique Cardoso. Se ele tivesse ouvido os eleitores independentes, talvez não fosse tão radical.
O Brasil, diferentemente dos Estados Unidos, tem um sistema político multipartidário e eleições que funcionam como uma espécie de plebiscito do governo. Se a economia vai bem e os empregos aumentam, o eleitor tende a aprovar o governante. Se as coisas vão mal, é hora de mudar e ele sai à procura de outro candidato, a despeito de compromissos partidários. É nesse trajeto, acreditam os especialistas, que a intuição dialoga com a razão.
"As emoções são anteriores à cognição dentro do processo de tomada de decisão e os dois sistemas afetivos engendram comportamentos racionais", explica o cientista político Jairo Pimentel, autor da tese "Razão e Emoção no Voto em 2006", em que contesta a posição radical de Westen. O marketing político, ele diz, pode até gerar sentimentos positivos ou negativos, mas não consegue manipular o eleitor que já tem predisposição ou já interpretou a realidade.
"O voto tem cálculo e o eleitor faz conta de acordo com o jogo que se arma em cada eleição", diz Jairo Nicolau, cientista político do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), da Universidade Cândido Mendes. Na contabilidade eleitoral, a identificação com a legenda pode ter algum peso para menos da metade do eleitorado e, ainda assim, sem garantia de fidelidade.
"Se o candidato ficar do tamanho do partido, perde a eleição", comenta Graeff. De fato, foi-se o tempo em que os partidos políticos mobilizavam a militância para fazer caixa e lotar comícios. "Isso acabou", sublinha Nicolau. Hoje, os partidos dependem do dinheiro do Estado e, com a campanha na TV, prescindem da militância. "São as organizações não governamentais e do terceiro setor que disputam a atenção da juventude. Os partidos envelheceram e precisam mesmo é de marqueteiro", analisa Nicolau.
Mais que isso: para efeito de voto, é cada vez menos nítido o distanciamento "ideológico" entre legendas. E não só no Brasil. "Não existem mais partidos comunistas ou de direita e há um novo centro. Na Europa, por exemplo, todos são a favor da democracia e contra o desmonte do Estado. Há consenso em relação à democracia e não existem partidos querendo derrubar o regime", afirma Nicolau. Transposto para as eleições municipais brasileiras, o raciocínio identifica consenso em relação às principais demandas das cidades que estão prestes a eleger - ou reeleger - seu prefeito. "As rivalidades, nesse caso, mais se assemelham à disputa de um campeonato de futebol."
Em São Paulo, por exemplo, todos os candidatos têm proposta para melhorar a qualidade dos transportes, do trânsito ou da educação. No caso da educação, a diferença certamente estará fincada em programas de governo que proponham abrir diálogo com o sindicato dos professores ou ampliar o número de horas de permanência dos alunos na escola. Sem grandes diferenças programáticas, as campanhas tendem a ficar centradas na figura dos candidatos, no seu carisma, na competência e na confiança que despertam.
Engana-se, porém, o candidato que pensa levar vantagem se buscar identificação com o eleitor. Esse esforço não produz mais qualquer efeito político. Na primeira campanha com eleições diretas para a Presidência da República, em 1989, os dois bordões do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva - "Trabalhador vota em trabalhador" e "Um brasileiro igualzinho a você" - não funcionaram e Lula perdeu para Fernando Collor de Mello, um caçador de marajás desconhecido, eleito por um PRN ainda menos conhecido. "Em 2002, quando Lula mais se distanciou da identidade popular, ganhou a eleição", lembra Nicolau. Aos que ainda atribuem a vitória de Lula à genialidade do marqueteiro Duda Mendonça - que colocou a imagem de ratos roendo a bandeira nacional sob a frase "Xô Corrupção" - Nicolau adverte: "Lula se elegeu por conta do desgaste de Fernando Henrique Cardoso e da crise econômica e não por causa de imagens, como a das mulheres de branco, correndo no gramado."
"A identificação com a legenda pode ter algum peso para menos da metade do eleitorado e, ainda assim, sem garantia de fidelidade"
Apesar de os recursos simbólicos de Duda Mendonça terem sido avalizados em grupos de pesquisas - "Pôxa, está acontecendo alguma coisa com o meu país", sinalizou um eleitor, descreve Mendonça no livro "Casos e Coisas" -, na lógica do eleitor médio, seis fatores têm peso efetivo, garante o diretor do Instituto Análise, Alberto Carlos Almeida: a avaliação dos governos, a identidade dos candidatos, o nível de lembrança, o currículo e o seu potencial de crescimento, somados à sua insensibilidade aos apoios políticos. "Popularidade e simpatia são intransferíveis", sublinha Almeida. Assim, um candidato de governo com bons índices de avaliação de "ótimo" e "bom", baixo nível de rejeição, com identidade clara e imagem conhecida, que entra numa disputa com um cardápio de realizações e promessas alinhadas às principais expectativas da população, dificilmente perderá uma eleição.
Em maio de 1988, por exemplo, cinco meses antes das eleições presidenciais, Fernando Henrique Cardoso, então candidato à reeleição, fez uma declaração infeliz: "Todo aposentado é vagabundo", lembra Almeida em seu livro "A Cabeça do Eleitor". O deslize do presidente não teve qualquer repercussão nas pesquisas e ele se elegeu no primeiro turno. Sua candidatura estava blindada pelo desempenho do governo. Quatro anos depois, com a avaliação em queda, Fernando Henrique não conseguiu eleger José Serra.
Quando o eleitor opta pela mudança, sai à procura de um candidato identificado com a oposição. "A pior coisa que pode acontecer é a falta de clareza na imagem", adverte Almeida. Em 2002, depois de ter ocupado o segundo lugar nas pesquisas, Ciro Gomes, candidato do PPS, acabou em quarto lugar por que não fincou pé em nenhum terreno do eleitorado, "nem governista, nem oposicionista", lembra Almeida. Outra regra básica na lógica do eleitor e que vale para qualquer campanha eleitoral majoritária: ele tem que conhecer o candidato. "Tornar-se conhecido é, em geral, um esforço de longo prazo", observa o diretor do Instituto Análise.
Por esse critério, na atual campanha para a prefeitura de São Paulo, os candidatos do PT, Marta Suplicy, e do PSDB, Geraldo Alckmin, que já disputaram três eleições, entrariam em situação de vantagem. Em junho, eles tinham, respectivamente, 31% e 25% das intenções de voto. Gilberto Kassab, do DEM - que participou de uma única eleição majoritária, e na condição de vice de José Serra - contava 13%. Sua gestão à frente da prefeitura da capital, no mesmo período, no entanto, tinha 53% de aprovação e o prefeito, um percentual de 37% de "ótimo" e "bom", de acordo com pesquisa Setcesp/Ibope, o que o coloca na condição de candidato com potencial de crescimento. "Até setembro, o que vai valer é a sua exposição na mídia", afirma Figueiredo.
Nessa altura do campeonato, literalmente, o que menos importa é a intenção de voto, afirma Lavareda. As pesquisas eleitorais só começam a ter peso, segundo ele, dez dias depois do início do horário eleitoral gratuito, que começa em 16 de agosto. Hoje, 25 de julho, os marqueteiros podem ser encontrados em campo, definindo planos estratégicos e táticos, e preparando as mensagens que devem conter elementos afetivos e racionais. Pesquisa sobre a eleição paulistana, divulgada pelo Datafolha há uma semana, revelou que, para o eleitor, Marta Suplicy é a "defensora dos pobres", Geraldo Alckmin é considerado "inteligente" e Gilberto Kassab é visto como "emocionalmente desequilibrado." Paulo Maluf é "o mais corrupto."
Ainda há tempo para mudar essa avaliação. "Campanha é ciência e arte", afirma Lavareda, recorrendo a uma imagem bélica para descrever o esforço de marketing: um míssil dirigido ao alvo, armado com uma ogiva onde está inscrita uma "mensagem", cuja forma - definida a critério dos criadores da campanha - deve ser "emocional" o suficiente para mobilizar e enraizar a mensagem.
Os marqueteiros justificam seu esforço com o fato de as campanhas terem de se confrontar com a qualidade da publicidade veiculada na TV. A concorrência, aliás, é uma explicação para o fato de tantos marqueteiros serem dublês de publicitários: o horário eleitoral gratuito convive com grades de programação na TV e as mensagens precisam enquadrar-se no formato de comercial, para ter efeito e "despertar emoções", diz Lavareda.
Nessa altura da campanha eleitoral, a principal ferramenta dos marqueteiros são as pesquisas de opinião, que lhes permitem identificar o "clima", a avaliação que eleitores têm dos candidatos e sua expectativa em relação à mudança. "O momento "A" é diferente do momento "B". A mudança é imponderável e cabe a quem faz campanha ter discernimento para identificar os rumos a serem tomados", ensina Lavareda. São essas pesquisas que municiam os responsáveis pela campanha com informações sobre o que e como comunicar e indicam os meios mais eficientes.
De volta ao polêmico livro de Westen: o sucesso está nas informações, fundamentadas na neurociência, supostamente preciosas para os marqueteiros da campanha presidencial americana. O psicólogo lembra, por exemplo, que as pessoas, "de modo inato", não gostam de assimetrias faciais e que rostos sorridentes ativam partes do cérebro que reforçam felicidade.
Nos Estados Unidos, no entanto, essa sugestões podem não ter repercussão. "Lá, a relação do partido com o marketing político é diferente", compara Graeff. Os consultores e estrategistas dos partidos, ele diz, são engajados e muitos integram o staff do candidato. "Aqui, quem faz campanha são os publicitários e marqueteiros, prestadores de serviço, que nada têm a ver com o partido. Pior: nossos partidos não "brifam" os marqueteiros", critica Graeff. "Não adianta ter propostas dos melhores especialistas para tudo que é problema social e econômico se falta ao partido e a seus candidatos um núcleo básico de valores pelos quais estejam dispostos a brigar."
Por Cláudia Izique, para o Valor, de São Paulo
Na mesa de cabeceira de qualquer marqueteiro engajado nas eleições municipais há um livro intitulado "O Cérebro Político: O Papel da Emoção na Decisão dos Destinos do País". Nele, o psicólogo americano Drew Westen, da Universidade de Emory, defende a tese de que a razão e a racionalidade desempenham papel pouco importante na decisão do voto e que é a emoção que prevalece na escolha. Enquanto os republicanos são pródigos no uso de palavras e imagens que desencadeiam cascatas de emoções durante uma campanha, os democratas, segundo Westen, acreditam que a mente humana age sem paixão - e por isso acabam perdendo eleições.
A tese de Westen, que ele garante estar fundamentada na neurociência, não soa como novidade aos ouvidos dos marqueteiros brasileiros. Desde que a lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965, instituiu o horário eleitoral gratuito e levou a campanha para a TV, eles passaram a perscrutar a cabeça dos eleitores, sem o auxílio de "scanners" ou de aparelhos de ressonância magnética, mas com pesquisas de opinião pública. "Está superada a idéia de que o voto é uma experiência associada à identidade social com o candidato ou à afinidade psicológica do eleitor com o partido, ou fruto de uma escolha racional", constata o cientista político e analista de pesquisas Antonio Lavareda, responsável pelo marketing da campanha do prefeito paulistano Gilberto Kassab, candidato à reeleição. Com mais de 20 anos de experiência no ramo, ele afirma: a decisão de voto é resultado de um "mix" de fatores afetivos e racionais que se associam em diferentes proporções e variam de acordo com tendências individuais.
Westen chegou a conclusão semelhante - ainda que enfatizando o lado da emoção - por um método considerado mais científico: monitorou a atividade cerebral de 30 pessoas filiadas aos partidos Republicano e Democrata enquanto eram confrontadas com afirmações, positivas ou negativas, sobre seu candidato e o do partido oponente - no caso, George W. Bush e John Kerry, em 2004. Diante de afirmações desabonadoras sobre o adversário, a área do cérebro responsável pelo julgamento racional rapidamente entrava em funcionamento. Mas quando o alvo era o candidato do coração, os circuitos neurais envolvidos com a emoção acendiam, ativados pelo desconforto, e o cérebro do eleitor passava a buscar "recompensas" para afastar o conflito, recorrendo, finalmente, à racionalização, para restabelecer a escolha afetiva. Conclusão: o eleitor decide com a emoção e justifica com a razão.
O fato de os Estados Unidos contarem com um sistema bipartidário com 150 anos de história, terem um terço do eleitorado democrata e outro terço, republicano votando com os respectivos partidos - mas todos compartilhando os mesmos valores do "sonho americano" -, muito provavelmente fez com que a tese de Westen pendesse para um lado mais afetivo, pondera o cientista político Eduardo Graeff, que ocupou a Secretaria-Geral da Presidência da República no governo Fernando Henrique Cardoso. Se ele tivesse ouvido os eleitores independentes, talvez não fosse tão radical.
O Brasil, diferentemente dos Estados Unidos, tem um sistema político multipartidário e eleições que funcionam como uma espécie de plebiscito do governo. Se a economia vai bem e os empregos aumentam, o eleitor tende a aprovar o governante. Se as coisas vão mal, é hora de mudar e ele sai à procura de outro candidato, a despeito de compromissos partidários. É nesse trajeto, acreditam os especialistas, que a intuição dialoga com a razão.
"As emoções são anteriores à cognição dentro do processo de tomada de decisão e os dois sistemas afetivos engendram comportamentos racionais", explica o cientista político Jairo Pimentel, autor da tese "Razão e Emoção no Voto em 2006", em que contesta a posição radical de Westen. O marketing político, ele diz, pode até gerar sentimentos positivos ou negativos, mas não consegue manipular o eleitor que já tem predisposição ou já interpretou a realidade.
"O voto tem cálculo e o eleitor faz conta de acordo com o jogo que se arma em cada eleição", diz Jairo Nicolau, cientista político do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj), da Universidade Cândido Mendes. Na contabilidade eleitoral, a identificação com a legenda pode ter algum peso para menos da metade do eleitorado e, ainda assim, sem garantia de fidelidade.
"Se o candidato ficar do tamanho do partido, perde a eleição", comenta Graeff. De fato, foi-se o tempo em que os partidos políticos mobilizavam a militância para fazer caixa e lotar comícios. "Isso acabou", sublinha Nicolau. Hoje, os partidos dependem do dinheiro do Estado e, com a campanha na TV, prescindem da militância. "São as organizações não governamentais e do terceiro setor que disputam a atenção da juventude. Os partidos envelheceram e precisam mesmo é de marqueteiro", analisa Nicolau.
Mais que isso: para efeito de voto, é cada vez menos nítido o distanciamento "ideológico" entre legendas. E não só no Brasil. "Não existem mais partidos comunistas ou de direita e há um novo centro. Na Europa, por exemplo, todos são a favor da democracia e contra o desmonte do Estado. Há consenso em relação à democracia e não existem partidos querendo derrubar o regime", afirma Nicolau. Transposto para as eleições municipais brasileiras, o raciocínio identifica consenso em relação às principais demandas das cidades que estão prestes a eleger - ou reeleger - seu prefeito. "As rivalidades, nesse caso, mais se assemelham à disputa de um campeonato de futebol."
Em São Paulo, por exemplo, todos os candidatos têm proposta para melhorar a qualidade dos transportes, do trânsito ou da educação. No caso da educação, a diferença certamente estará fincada em programas de governo que proponham abrir diálogo com o sindicato dos professores ou ampliar o número de horas de permanência dos alunos na escola. Sem grandes diferenças programáticas, as campanhas tendem a ficar centradas na figura dos candidatos, no seu carisma, na competência e na confiança que despertam.
Engana-se, porém, o candidato que pensa levar vantagem se buscar identificação com o eleitor. Esse esforço não produz mais qualquer efeito político. Na primeira campanha com eleições diretas para a Presidência da República, em 1989, os dois bordões do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva - "Trabalhador vota em trabalhador" e "Um brasileiro igualzinho a você" - não funcionaram e Lula perdeu para Fernando Collor de Mello, um caçador de marajás desconhecido, eleito por um PRN ainda menos conhecido. "Em 2002, quando Lula mais se distanciou da identidade popular, ganhou a eleição", lembra Nicolau. Aos que ainda atribuem a vitória de Lula à genialidade do marqueteiro Duda Mendonça - que colocou a imagem de ratos roendo a bandeira nacional sob a frase "Xô Corrupção" - Nicolau adverte: "Lula se elegeu por conta do desgaste de Fernando Henrique Cardoso e da crise econômica e não por causa de imagens, como a das mulheres de branco, correndo no gramado."
"A identificação com a legenda pode ter algum peso para menos da metade do eleitorado e, ainda assim, sem garantia de fidelidade"
Apesar de os recursos simbólicos de Duda Mendonça terem sido avalizados em grupos de pesquisas - "Pôxa, está acontecendo alguma coisa com o meu país", sinalizou um eleitor, descreve Mendonça no livro "Casos e Coisas" -, na lógica do eleitor médio, seis fatores têm peso efetivo, garante o diretor do Instituto Análise, Alberto Carlos Almeida: a avaliação dos governos, a identidade dos candidatos, o nível de lembrança, o currículo e o seu potencial de crescimento, somados à sua insensibilidade aos apoios políticos. "Popularidade e simpatia são intransferíveis", sublinha Almeida. Assim, um candidato de governo com bons índices de avaliação de "ótimo" e "bom", baixo nível de rejeição, com identidade clara e imagem conhecida, que entra numa disputa com um cardápio de realizações e promessas alinhadas às principais expectativas da população, dificilmente perderá uma eleição.
Em maio de 1988, por exemplo, cinco meses antes das eleições presidenciais, Fernando Henrique Cardoso, então candidato à reeleição, fez uma declaração infeliz: "Todo aposentado é vagabundo", lembra Almeida em seu livro "A Cabeça do Eleitor". O deslize do presidente não teve qualquer repercussão nas pesquisas e ele se elegeu no primeiro turno. Sua candidatura estava blindada pelo desempenho do governo. Quatro anos depois, com a avaliação em queda, Fernando Henrique não conseguiu eleger José Serra.
Quando o eleitor opta pela mudança, sai à procura de um candidato identificado com a oposição. "A pior coisa que pode acontecer é a falta de clareza na imagem", adverte Almeida. Em 2002, depois de ter ocupado o segundo lugar nas pesquisas, Ciro Gomes, candidato do PPS, acabou em quarto lugar por que não fincou pé em nenhum terreno do eleitorado, "nem governista, nem oposicionista", lembra Almeida. Outra regra básica na lógica do eleitor e que vale para qualquer campanha eleitoral majoritária: ele tem que conhecer o candidato. "Tornar-se conhecido é, em geral, um esforço de longo prazo", observa o diretor do Instituto Análise.
Por esse critério, na atual campanha para a prefeitura de São Paulo, os candidatos do PT, Marta Suplicy, e do PSDB, Geraldo Alckmin, que já disputaram três eleições, entrariam em situação de vantagem. Em junho, eles tinham, respectivamente, 31% e 25% das intenções de voto. Gilberto Kassab, do DEM - que participou de uma única eleição majoritária, e na condição de vice de José Serra - contava 13%. Sua gestão à frente da prefeitura da capital, no mesmo período, no entanto, tinha 53% de aprovação e o prefeito, um percentual de 37% de "ótimo" e "bom", de acordo com pesquisa Setcesp/Ibope, o que o coloca na condição de candidato com potencial de crescimento. "Até setembro, o que vai valer é a sua exposição na mídia", afirma Figueiredo.
Nessa altura do campeonato, literalmente, o que menos importa é a intenção de voto, afirma Lavareda. As pesquisas eleitorais só começam a ter peso, segundo ele, dez dias depois do início do horário eleitoral gratuito, que começa em 16 de agosto. Hoje, 25 de julho, os marqueteiros podem ser encontrados em campo, definindo planos estratégicos e táticos, e preparando as mensagens que devem conter elementos afetivos e racionais. Pesquisa sobre a eleição paulistana, divulgada pelo Datafolha há uma semana, revelou que, para o eleitor, Marta Suplicy é a "defensora dos pobres", Geraldo Alckmin é considerado "inteligente" e Gilberto Kassab é visto como "emocionalmente desequilibrado." Paulo Maluf é "o mais corrupto."
Ainda há tempo para mudar essa avaliação. "Campanha é ciência e arte", afirma Lavareda, recorrendo a uma imagem bélica para descrever o esforço de marketing: um míssil dirigido ao alvo, armado com uma ogiva onde está inscrita uma "mensagem", cuja forma - definida a critério dos criadores da campanha - deve ser "emocional" o suficiente para mobilizar e enraizar a mensagem.
Os marqueteiros justificam seu esforço com o fato de as campanhas terem de se confrontar com a qualidade da publicidade veiculada na TV. A concorrência, aliás, é uma explicação para o fato de tantos marqueteiros serem dublês de publicitários: o horário eleitoral gratuito convive com grades de programação na TV e as mensagens precisam enquadrar-se no formato de comercial, para ter efeito e "despertar emoções", diz Lavareda.
Nessa altura da campanha eleitoral, a principal ferramenta dos marqueteiros são as pesquisas de opinião, que lhes permitem identificar o "clima", a avaliação que eleitores têm dos candidatos e sua expectativa em relação à mudança. "O momento "A" é diferente do momento "B". A mudança é imponderável e cabe a quem faz campanha ter discernimento para identificar os rumos a serem tomados", ensina Lavareda. São essas pesquisas que municiam os responsáveis pela campanha com informações sobre o que e como comunicar e indicam os meios mais eficientes.
De volta ao polêmico livro de Westen: o sucesso está nas informações, fundamentadas na neurociência, supostamente preciosas para os marqueteiros da campanha presidencial americana. O psicólogo lembra, por exemplo, que as pessoas, "de modo inato", não gostam de assimetrias faciais e que rostos sorridentes ativam partes do cérebro que reforçam felicidade.
Nos Estados Unidos, no entanto, essa sugestões podem não ter repercussão. "Lá, a relação do partido com o marketing político é diferente", compara Graeff. Os consultores e estrategistas dos partidos, ele diz, são engajados e muitos integram o staff do candidato. "Aqui, quem faz campanha são os publicitários e marqueteiros, prestadores de serviço, que nada têm a ver com o partido. Pior: nossos partidos não "brifam" os marqueteiros", critica Graeff. "Não adianta ter propostas dos melhores especialistas para tudo que é problema social e econômico se falta ao partido e a seus candidatos um núcleo básico de valores pelos quais estejam dispostos a brigar."
DEU NO VALOR ECONÔMICO
AÇÃO DA PF EMBARALHA DISPUTA INTERNA NO PT
Thiago Vitale Jayme, Cristiane Agostine e César Felício
A atuação do ministro da Justiça, Tarso Genro, na operação Satiagraha embaralhou a disputa interna dentro do PT com vistas à presidência e já influencia o debate sobre a renovação do comando partidário em 2009.
Formada depois do episódio do mensalão, a corrente de Tarso - Mensagem ao Partido - que ficou em terceiro lugar na eleição interna da sigla, mas conseguiu ganhar espaço na composição da direção do partido - prepara um novo embate com os grupos do PT paulista, ainda majoritários, na eleição interna do próximo ano. A ação policial, entretanto, afetou integrantes de um e outro lado, unidos na insatisfação com o ministro.
A menção no noticiário do secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho, do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), e , sobretudo, do secretário-geral do PT, deputado José Eduardo Cardozo (SP), integrante da corrente de Tarso e candidato do ministro à presidência petista na eleição interna de 2007, fez com que o ministro começasse a ser criticado, ainda sob reserva, pelos seus próprios aliados internos de São Paulo, que classificam a atuação do ministro no caso como "errática". A avaliação de um dirigente aliado de Cardozo é que o ministro perdeu o controle das ações da PF e cometeu equívocos que desgastaram o PT e envolveram pessoas próximas a Lula.
Cardozo foi envolvido no noticiário depois de reportagem da "Folha de S.Paulo" levantar suspeitas de que o parlamentar teria usado o mandato para atuar em benefício do banqueiro Daniel Dantas. Dentro do PT, Cardozo recebeu solidariedade de outros dirigentes do grupo "Mensagem" e mesmo de outras tendências petistas. Ontem o deputado conversou com diversos dirigentes e encaminhou aos integrantes da direção do partido uma correspondência em que afirma que procurou apenas dar seguimento a uma denúncia que recebeu sobre a venda da Companhia Telefônica do Rio Grande do Sul .
"Cardozo chegou à secretaria-geral do partido pelas mãos de Lula. O que Genro faz tem abalo no Planalto", disse um petista com bom trânsito com o ministro da Justiça. "O que ficou para nós é que ele não tem controle sobre as ações da PF e assim, prejudica até quem não tem a ver com a história, como foi o caso do Cardozo", comentou. "Ele dá argumentos para os adversários."
Fora de São Paulo, os aliados do ministro da Justiça minimizam o episódio. "Em relação a todo caso da Operação Satiagraha vejo apenas um episódio policial e não encontro consequências para a disputa interna do PT" , comentou o governador de Sergipe, Marcelo Déda, que apoiou Cardozo no ano passado. "O ministro não tem que ter controle sobre a Polícia Federal, que precisa de sua autonomia. Não pode existir subordinação política", afirmou o deputado estadual Raul Pont, da corrente Democracia Socialista, que compõem o grupo "Mensagem".
O episódio fez com que se reavivasse a confrontação -já antiga- do ministro com a ala petista influenciada pelo ex-ministro José Dirceu e pela a ex-ministra do Turismo Marta Suplicy, em São Paulo. "Ele foi defensor da tese de que o PT tinha que se despaulitizar. Isso fez com que atraisse ódio para si, não apenas fora , mas também dentro da própria tendência", apontou um integrante da Executiva do PT de São Paulo, ligado a Marta. Em 2005, quando ocupou a presidência do PT por alguns meses , Genro lançou a proposta de "refundação" do partido, com a exclusão dos quadros petistas do grupo integrado por Dirceu.
Uma parcela considerável do partido também vê com ressalva a forma como Greenhalgh foi investigado pela PF. "É difícil acreditar na tese de que a polícia é independente e ele não sabia de nada. Sobretudo quando há um grampo que capta uma conversa do chefe de gabinete do presidente", diz um influente integrante da Executiva Nacional.
A avaliação geral de caciques petistas de diferentes correntes internas é que Greenhalgh agiu com imprudência. O ex-deputado advoga para o banqueiro Daniel Dantas, acusado pela PF de uma série de crimes que passam por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Os agentes federais desconfiam de que o ex-parlamentar teria praticado tráfico de influência ao conversar com integrantes do governo - sobretudo com o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho - sobre possíveis investigações relacionadas ao seu cliente. Ex-deputado, Greenhalgh teve apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para concorrer à presidência da Câmara Federal, em 2005, mas foi derrotado por Severino Cavalcanti.
Um parlamentar paulista também criticou o ministro. "Tarso colocou uma crise do DEM e do PSDB- que são os pais do Daniel Dantas- dentro do Palácio do Planalto e no colo do PT", afirma. Esse entendimento, no entanto, não é majoritário, já que alguns caciques petistas avaliam que quem trouxe a crise para o partido foi Greenhalgh.
Alguns petistas apontam também motivação eleitoral por trás das ações do ministro da Justiça. "O que o move é a vontade de não perder espaço na disputa pela Presidência, em 2010", comentou um dirigente da mesma tendência política de Genro. "Lula estava lançando Dilma (Roussef) e outros nomes estavam aparecendo, como o de Marta (Suplicy). Ele quis mostrar serviço e se precipitou. Suas ações geram confusão", afirmou o dirigente. "Genro está se atrapalhando. Não é como Dilma, que "apanhava da oposição". Tarso está se queimando antes mesmo de Lula tomar a iniciativa de lançá-lo", pontuou o petista.
O ministro da Justiça foi procurado ontem, por meio de sua assessoria, para se pronunciar sobre as críticas, mas não quis fazer nenhum comentário.
Com isso, a crise da Operação Satiagraha deverá ter repercussões na disputa interna na legenda. Embora Greenhalgh e o presidente nacional do PT, o deputado Ricardo Berzoini -que está em visita política a Cuba- não sejam aliados de longa data, o ex-deputado o apoiou na disputa interna, se colocando em oposição ao ministro da Justiça. O grupo paulista do PT - que tem representantes de diversas correntes, como os deputados João Paulo Cunha, José Mentor e Devanir Ribeiro, além do ex-ministro José Dirceu - já vinha de uma seqüência de infortúnios e ficou ainda mais debilitado.
O núcleo da crise do mensalão atingiu em cheio o PT paulista, que depois ficou ainda mais enfraquecido com o episódio da elaboração de um dossiê às vésperas da campanha de 2006 contra o tucano José Serra. O termo "aloprados" foi cunhado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para classificar os assessores de Berzoini que participaram do episódio.
Com os grupos fragilizados mais uma vez, abre-se a possibilidade de outros galgarem espaço dentro do partido. E há diversos candidatos para 2009. Há a tendência liderada pelo prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Podem ter mais espaço os aliados da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, como o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (RS), e Maria do Rosário (RS).
A esquerda do partido, fortalecida nas eleições internas de 2006, poderá vir com Raul Pont e o deputado Walter Pinheiro (BA). Por fim, o grupo da candidata à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, com seus aliados os deputados Jilmar Tatto (SP) e Cândido Vacarezza (SP) - que de vez em quando se aproximam estrategicamente de Berzoini - também poderá se beneficiar. O consenso no PT, entretanto, é que os possíveis candidatos à sucessão de Berzoini só aparecerão após as eleições municipais.
Thiago Vitale Jayme, Cristiane Agostine e César Felício
A atuação do ministro da Justiça, Tarso Genro, na operação Satiagraha embaralhou a disputa interna dentro do PT com vistas à presidência e já influencia o debate sobre a renovação do comando partidário em 2009.
Formada depois do episódio do mensalão, a corrente de Tarso - Mensagem ao Partido - que ficou em terceiro lugar na eleição interna da sigla, mas conseguiu ganhar espaço na composição da direção do partido - prepara um novo embate com os grupos do PT paulista, ainda majoritários, na eleição interna do próximo ano. A ação policial, entretanto, afetou integrantes de um e outro lado, unidos na insatisfação com o ministro.
A menção no noticiário do secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho, do ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), e , sobretudo, do secretário-geral do PT, deputado José Eduardo Cardozo (SP), integrante da corrente de Tarso e candidato do ministro à presidência petista na eleição interna de 2007, fez com que o ministro começasse a ser criticado, ainda sob reserva, pelos seus próprios aliados internos de São Paulo, que classificam a atuação do ministro no caso como "errática". A avaliação de um dirigente aliado de Cardozo é que o ministro perdeu o controle das ações da PF e cometeu equívocos que desgastaram o PT e envolveram pessoas próximas a Lula.
Cardozo foi envolvido no noticiário depois de reportagem da "Folha de S.Paulo" levantar suspeitas de que o parlamentar teria usado o mandato para atuar em benefício do banqueiro Daniel Dantas. Dentro do PT, Cardozo recebeu solidariedade de outros dirigentes do grupo "Mensagem" e mesmo de outras tendências petistas. Ontem o deputado conversou com diversos dirigentes e encaminhou aos integrantes da direção do partido uma correspondência em que afirma que procurou apenas dar seguimento a uma denúncia que recebeu sobre a venda da Companhia Telefônica do Rio Grande do Sul .
"Cardozo chegou à secretaria-geral do partido pelas mãos de Lula. O que Genro faz tem abalo no Planalto", disse um petista com bom trânsito com o ministro da Justiça. "O que ficou para nós é que ele não tem controle sobre as ações da PF e assim, prejudica até quem não tem a ver com a história, como foi o caso do Cardozo", comentou. "Ele dá argumentos para os adversários."
Fora de São Paulo, os aliados do ministro da Justiça minimizam o episódio. "Em relação a todo caso da Operação Satiagraha vejo apenas um episódio policial e não encontro consequências para a disputa interna do PT" , comentou o governador de Sergipe, Marcelo Déda, que apoiou Cardozo no ano passado. "O ministro não tem que ter controle sobre a Polícia Federal, que precisa de sua autonomia. Não pode existir subordinação política", afirmou o deputado estadual Raul Pont, da corrente Democracia Socialista, que compõem o grupo "Mensagem".
O episódio fez com que se reavivasse a confrontação -já antiga- do ministro com a ala petista influenciada pelo ex-ministro José Dirceu e pela a ex-ministra do Turismo Marta Suplicy, em São Paulo. "Ele foi defensor da tese de que o PT tinha que se despaulitizar. Isso fez com que atraisse ódio para si, não apenas fora , mas também dentro da própria tendência", apontou um integrante da Executiva do PT de São Paulo, ligado a Marta. Em 2005, quando ocupou a presidência do PT por alguns meses , Genro lançou a proposta de "refundação" do partido, com a exclusão dos quadros petistas do grupo integrado por Dirceu.
Uma parcela considerável do partido também vê com ressalva a forma como Greenhalgh foi investigado pela PF. "É difícil acreditar na tese de que a polícia é independente e ele não sabia de nada. Sobretudo quando há um grampo que capta uma conversa do chefe de gabinete do presidente", diz um influente integrante da Executiva Nacional.
A avaliação geral de caciques petistas de diferentes correntes internas é que Greenhalgh agiu com imprudência. O ex-deputado advoga para o banqueiro Daniel Dantas, acusado pela PF de uma série de crimes que passam por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Os agentes federais desconfiam de que o ex-parlamentar teria praticado tráfico de influência ao conversar com integrantes do governo - sobretudo com o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho - sobre possíveis investigações relacionadas ao seu cliente. Ex-deputado, Greenhalgh teve apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para concorrer à presidência da Câmara Federal, em 2005, mas foi derrotado por Severino Cavalcanti.
Um parlamentar paulista também criticou o ministro. "Tarso colocou uma crise do DEM e do PSDB- que são os pais do Daniel Dantas- dentro do Palácio do Planalto e no colo do PT", afirma. Esse entendimento, no entanto, não é majoritário, já que alguns caciques petistas avaliam que quem trouxe a crise para o partido foi Greenhalgh.
Alguns petistas apontam também motivação eleitoral por trás das ações do ministro da Justiça. "O que o move é a vontade de não perder espaço na disputa pela Presidência, em 2010", comentou um dirigente da mesma tendência política de Genro. "Lula estava lançando Dilma (Roussef) e outros nomes estavam aparecendo, como o de Marta (Suplicy). Ele quis mostrar serviço e se precipitou. Suas ações geram confusão", afirmou o dirigente. "Genro está se atrapalhando. Não é como Dilma, que "apanhava da oposição". Tarso está se queimando antes mesmo de Lula tomar a iniciativa de lançá-lo", pontuou o petista.
O ministro da Justiça foi procurado ontem, por meio de sua assessoria, para se pronunciar sobre as críticas, mas não quis fazer nenhum comentário.
Com isso, a crise da Operação Satiagraha deverá ter repercussões na disputa interna na legenda. Embora Greenhalgh e o presidente nacional do PT, o deputado Ricardo Berzoini -que está em visita política a Cuba- não sejam aliados de longa data, o ex-deputado o apoiou na disputa interna, se colocando em oposição ao ministro da Justiça. O grupo paulista do PT - que tem representantes de diversas correntes, como os deputados João Paulo Cunha, José Mentor e Devanir Ribeiro, além do ex-ministro José Dirceu - já vinha de uma seqüência de infortúnios e ficou ainda mais debilitado.
O núcleo da crise do mensalão atingiu em cheio o PT paulista, que depois ficou ainda mais enfraquecido com o episódio da elaboração de um dossiê às vésperas da campanha de 2006 contra o tucano José Serra. O termo "aloprados" foi cunhado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para classificar os assessores de Berzoini que participaram do episódio.
Com os grupos fragilizados mais uma vez, abre-se a possibilidade de outros galgarem espaço dentro do partido. E há diversos candidatos para 2009. Há a tendência liderada pelo prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel. Podem ter mais espaço os aliados da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, como o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (RS), e Maria do Rosário (RS).
A esquerda do partido, fortalecida nas eleições internas de 2006, poderá vir com Raul Pont e o deputado Walter Pinheiro (BA). Por fim, o grupo da candidata à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, com seus aliados os deputados Jilmar Tatto (SP) e Cândido Vacarezza (SP) - que de vez em quando se aproximam estrategicamente de Berzoini - também poderá se beneficiar. O consenso no PT, entretanto, é que os possíveis candidatos à sucessão de Berzoini só aparecerão após as eleições municipais.
DEU NO JORNAL DO BRASIL
OS ESBARRÕES DO CONGRESSO COM A ÉTICA
Villas-Bôas Corrêa
À margem do caudaloso rio de lama que atravessa o território dos três poderes com as revelações da Operação Santiagraha, investigada pela Polícia Federal e que denunciou a rede operada pelo banqueiro Daniel Dantas – garantindo a liderança absoluta do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda na metade do segundo mandato, como o recordista de escândalos em toda a história deste país, o Congresso andou esbarrando com a ética e, de maneira surpreendente, escapou de despencar no bueiro, com risco de quebrar o pescoço.
A rapinagem no cofre da viúva foi articulada nos esconsos do plenário e nos cochichos nos corredores e envolveu a Mesa Diretoria do Senado, com a adesão entusiástica à proposta indecorosa da criação de 97 cargos de assessores, a serem preenchidos pelos 81 senadores no rateio de parceiros do golpe, ao custo anual de cerca de R$ 12 milhões.
Cada um dos 97 assessores técnicos, de competência presumida, com a dispensa da exigência constitucional do concurso público, embolsaria R$ 9.970,24 mensais. Nem todos, pois o senador nomeante poderia dividir o mimo entre vários favoritos.
Ora, para a estafante carga de trabalho nos três dias úteis da semana, cada senador dispõe, no seu confortável gabinete privativo, de seis assessores de livre nomeação e seis secretários parlamentares.
Gente é o que não falta. Como toda regra tem exceções, nunca se fez a estatística ou a reportagem sobre a rotina dos 81 gabinetes senatoriais e dos 513 deputados federais.
Mas, é de uma evidência de sol de meio-dia que a ociosidade compulsória, pela falta do que fazer ganha de goleada dos exemplos de dedicação em tempo integral de parlamentares que levam a sério o seu mandato.
Em período mais ameno, com alguns protestos abafados pelo entusiasmo da maioria, a proposta de criação de assessores seria aprovada em tempo recorde. Mas, com a campanha municipal para a eleição de prefeitos e vereadores na rua e na rede nacionais de TV e emissoras de rádio – a base que deverá garantir a reeleição de senadores e deputados, no mutirão da escolha do presidente da República e governadores caiu em si e sorveu de um gole o cálice do juízo.
Os ilustres componentes da Mesa Diretora do Senado que aprovou a proposta brejeira, deram meia volta e tomaram a iniciativa de comunicar ao presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN) a decisão do recuo.
O presidente, o único derrotado no oba-oba da suspeita proposta, cuidou do enterro do natimorto antes do recesso parlamentar.
Um corretivo retardado, mas que pegou o último bonde. Até então, solitário no pódio, o deputado Clodovil Hernandez, dos mais votados da bancada paulista, desfrutava o justo reconhecimento da sociedade decepcionada com a crise ética que devasta o conceito do Congresso, com a apresentação da surpreendente emenda constitucional, com o número regimental de assinaturas, que propõe a redução de três para dois senadores por Estado e de 513 deputados federais para duas centenas e quebrados.
A possibilidade de sua aprovação a frio, é zero. O que em nada desmerece a atrevida iniciativa de um deputado estreante e que está abrindo o seu caminho, saltando pelos muitos erros cometidos com os exageros do seu temperamento.
A crônica dos deputados que se elegem na onda de popularidade construída em atividades profissionais com largo contato com o público é sabidamente frustrante. São meteoros que riscam o céu e desaparecem na mediocridade da atuação parlamentar omissa, equivocada e, às vezes, ridícula.
O famoso Clodovil Hernandez pagou todos os micos da fama e das tentativas de furar a barreira apelando para o repertório das excentricidades.
Afinal, acertou um tiro na mosca. E que deve estar incomodando a muita gente.
Villas-Bôas Corrêa
À margem do caudaloso rio de lama que atravessa o território dos três poderes com as revelações da Operação Santiagraha, investigada pela Polícia Federal e que denunciou a rede operada pelo banqueiro Daniel Dantas – garantindo a liderança absoluta do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda na metade do segundo mandato, como o recordista de escândalos em toda a história deste país, o Congresso andou esbarrando com a ética e, de maneira surpreendente, escapou de despencar no bueiro, com risco de quebrar o pescoço.
A rapinagem no cofre da viúva foi articulada nos esconsos do plenário e nos cochichos nos corredores e envolveu a Mesa Diretoria do Senado, com a adesão entusiástica à proposta indecorosa da criação de 97 cargos de assessores, a serem preenchidos pelos 81 senadores no rateio de parceiros do golpe, ao custo anual de cerca de R$ 12 milhões.
Cada um dos 97 assessores técnicos, de competência presumida, com a dispensa da exigência constitucional do concurso público, embolsaria R$ 9.970,24 mensais. Nem todos, pois o senador nomeante poderia dividir o mimo entre vários favoritos.
Ora, para a estafante carga de trabalho nos três dias úteis da semana, cada senador dispõe, no seu confortável gabinete privativo, de seis assessores de livre nomeação e seis secretários parlamentares.
Gente é o que não falta. Como toda regra tem exceções, nunca se fez a estatística ou a reportagem sobre a rotina dos 81 gabinetes senatoriais e dos 513 deputados federais.
Mas, é de uma evidência de sol de meio-dia que a ociosidade compulsória, pela falta do que fazer ganha de goleada dos exemplos de dedicação em tempo integral de parlamentares que levam a sério o seu mandato.
Em período mais ameno, com alguns protestos abafados pelo entusiasmo da maioria, a proposta de criação de assessores seria aprovada em tempo recorde. Mas, com a campanha municipal para a eleição de prefeitos e vereadores na rua e na rede nacionais de TV e emissoras de rádio – a base que deverá garantir a reeleição de senadores e deputados, no mutirão da escolha do presidente da República e governadores caiu em si e sorveu de um gole o cálice do juízo.
Os ilustres componentes da Mesa Diretora do Senado que aprovou a proposta brejeira, deram meia volta e tomaram a iniciativa de comunicar ao presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN) a decisão do recuo.
O presidente, o único derrotado no oba-oba da suspeita proposta, cuidou do enterro do natimorto antes do recesso parlamentar.
Um corretivo retardado, mas que pegou o último bonde. Até então, solitário no pódio, o deputado Clodovil Hernandez, dos mais votados da bancada paulista, desfrutava o justo reconhecimento da sociedade decepcionada com a crise ética que devasta o conceito do Congresso, com a apresentação da surpreendente emenda constitucional, com o número regimental de assinaturas, que propõe a redução de três para dois senadores por Estado e de 513 deputados federais para duas centenas e quebrados.
A possibilidade de sua aprovação a frio, é zero. O que em nada desmerece a atrevida iniciativa de um deputado estreante e que está abrindo o seu caminho, saltando pelos muitos erros cometidos com os exageros do seu temperamento.
A crônica dos deputados que se elegem na onda de popularidade construída em atividades profissionais com largo contato com o público é sabidamente frustrante. São meteoros que riscam o céu e desaparecem na mediocridade da atuação parlamentar omissa, equivocada e, às vezes, ridícula.
O famoso Clodovil Hernandez pagou todos os micos da fama e das tentativas de furar a barreira apelando para o repertório das excentricidades.
Afinal, acertou um tiro na mosca. E que deve estar incomodando a muita gente.
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

DECLARAÇÃO DE LULA É 'BLEFE', DIZ OPOSIÇÃO
Ana Paula Scinocca, BRASÍLIA
Ana Paula Scinocca, BRASÍLIA
Reação do presidente em defesa de delegado irrita líderes oposicionistas
A oposição classificou como “blefe” e “jogo de cena” a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que defendeu anteontem a volta do delegado Protógenes Queiroz ao comando da Operação Satiagraha - a Polícia Federal manteve o afastamento. Para o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), Lula “minimiza a inteligência do povo brasileiro”.
O presidente do PPS, Roberto Freire, chamou de “pantomima” o apelo de Lula. Na véspera, o presidente reagiu à alegação de que a saída de Protógenes tenha ocorrido por intervenção do governo. “Isso parece jogo combinado. Está claro que existem duas facções dentro da PF e que o delegado não é da facção afinada com o governo. Diante da repercussão negativa do afastamento, ele recorreu ao blefe e defendeu a continuidade do Protógenes”, afirmou Freire.
Ele disse que as declarações do presidente parecem ter sido feitas “por um ator de quinta categoria, que fugiu do script”. “Essa encenação do presidente da República, se não causa vergonha a ele, causa vergonha aos brasileiros.”
PESQUISASLíder do PSDB na Câmara, o deputado José Aníbal (SP) afirmou que o comportamento de Lula faz dele uma “metamorfose ambulante”. “É óbvio que essa última declaração defendendo a permanência do delegado é jogo de cena. Ele vê o que as pesquisas dizem, o que é mais simpático aos olhos do povo.”
O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), avalia que Lula deve ter detectado, via pesquisa, que a repercussão da saída de Protógenes arranhou a imagem do Planalto. “Devem ter visto que o afastamento ficou muito ruim e aí, de forma oportunista, eles (governistas) fazem a inversão”, disse. “O que o presidente Lula quer é tirar qualquer problema do colo dele. Só quer ficar com a parte boa.”
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
A ENCENAÇÃO DO PRESIDENTE
Editorial
Editorial
Ao chamar de mentiroso o delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal (PF), por ter difundido a história - verdadeira - de que foi removido do comando da Operação Satiagraha por uma decisão política, o presidente Lula representava seu papel numa farsa muito mal ensaiada por seus protagonistas. Obter o afastamento do delegado foi o único motivo da tensa reunião ocorrida na sede da superintendência da PF em São Paulo, segunda-feira à noite. Dela participaram, além do próprio Protógenes e de seus colaboradores mais próximos no caso, o superintendente regional e emissários da cúpula do órgão. Num esforço inútil para evitar que a sua saída fosse interpretada como um acerto para beneficiar o banqueiro Daniel Dantas - ou como precaução contra novas evidências do envolvimento de gente próxima do governo com o principal alvo da Satiagraha - fabricou-se a esfarrapada versão do desligamento “a pedido”: o delegado precisaria concluir um curso de 30 dias, iniciado em março.
Deu tudo errado.
De pronto, ele resistiu ao arranjo, pedindo para continuar instruindo o inquérito, embora longe dos holofotes, pelo menos nos sábados e domingos, quando não teria aulas a freqüentar em Brasília. No relato da Polícia Federal, foi como se ele tivesse querido abandonar a investigação, ou dela se ocupar apenas nos fins de semana. “A sugestão não foi acatada, já que traria prejuízo às pessoas convidadas a prestar esclarecimentos”, foi o máximo que uma nota da PF conseguiu tecer. Vencido, Protógenes não só contou a amigos o que se passara, mas ainda lhes disse que a gravação mostra como os fatos se passaram. Fingindo ignorá-los - e fazendo de conta que nada tinha a ver com o defenestramento -, Lula simulou uma repreensão a “esse cidadão”, que “não pode, depois de fazer todas as coisas que tinham de ser feitas no processo, na hora de finalizar o relatório dizer ‘eu vou embora fazer meu curso’ e ainda dar vazão a insinuações de que foi tirado”.
Na realidade, resolveu atirar no cidadão depois de ser alertado sobre os efeitos adversos, para o governo, de sua retirada abrupta. A advertência chegou tarde, depois que circulou pela mídia a versão de que o presidente, o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa - nem sempre pelos mesmos motivos -, queriam ver Protógenes pelas costas. Por isso, sob a suspeita de que ordenara uma operação-abafa para poupar Daniel Dantas, Lula tratou de se desvincular do problema, culpando o policial pelo que, afinal, lhe fizeram. Implicitamente, porém o bastante para os insiders entenderem, também alvejou Genro e Corrêa, porque não teriam sabido conduzir a fritura, sem respingos na imagem presidencial. É pouco provável que a descompostura tenha outro resultado além de evidenciar, pela enésima vez, que Lula jamais se afogará por ter cedido a alguém o último colete salva-vidas.
A esta altura, de fato, ele não tem como “desvazar” as gravações que lançam luz sobre o acesso ao Planalto dos interesses do banqueiro de quem Lula guarda profilático distanciamento. Companheiros históricos do presidente, como o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh e, mais ainda, o seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, foram flagrados cuidando, de uma forma ou de outra, das conveniências de Dantas. Também o nome da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, entrou no circuito, embora ela possa invocar ter dito certa vez a Greenhalgh que o seu cliente era “encrenca”. Sintomaticamente, nenhum deles joga no time de Tarso Genro. Ao ministro se atribui, por exemplo, a intenção de se substituir à “mãe do PAC” como eventual candidato petista à sucessão de 2010. E o antagonismo entre ele e o ex-ministro José Dirceu - que quis aproximar Dantas de Lula - é escancarado.
O que leva a pensar que, se a equipe de Lula e a Polícia Federal têm algo em comum, é a onipresença de suas facções. Os críticos mais estrepitosos do desempenho de Protógenes são do grupo do diretor-geral Corrêa (que não o perdoa por tê-lo mantido no escuro sobre as gravações de petistas). Já os seus defensores se alinham com o antecessor de Corrêa e atual diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Paulo Lacerda. A decisão de Protógenes de envolver a Abin na investigação, aliás, polarizou a corporação e foi decisiva para a sua degola. Na hora da crise, as divisões se acentuam - e escapam ao controle da hierarquia.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
A CORRUPÇÃO DOS OUTROS
Fernando de Barros e Silva
Fernando de Barros e Silva
SÃO PAULO - Com o olhar agitado, evitando as câmeras e a multidão de repórteres, e a fala alterada, denotando desconforto e irritação, o presidente Lula dizia anteontem que, "moralmente, este cidadão tem de continuar no caso", "a não ser que diga publicamente e espontaneamente que não quer". O que não pode, seguia a bronca, "é vender insinuações à sociedade".
Protógenes Queiroz desde então nada disse -nem pública nem espontaneamente. O governo decidiu falar pelo delegado. Fez liberar fragmentos de uma reunião gravada na PF, na qual Protógenes estaria jogando a toalha por sua escolha. Mentira. A fala editada do outro que não quis falar é coisa de regime de exceção -teatrinho stalinista.
Protógenes foi afastado à revelia de suas funções, como sabe qualquer adulto. E não caiu em função de seus erros -muitos e graves-, mas porque parte deles, junto com os acertos da investigação, chegou perto demais do coração do poder sem que os palacianos percebessem a dimensão da encrenca em curso.
Não foram, é claro, imagens como a de Celso Pitta de pijama e algemado o que derrubou Protógenes. Caiu porque usou arapongas da Abin para espionar o presidente do STF -supremo delírio. Mas sobretudo porque entrou com o grampo no Palácio do Planalto e instalou uma bomba perto demais de Lula.
Seu chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho, foi flagrado num diálogo pouco republicano com Luiz Eduardo Greenhalgh, petista histórico a serviço de Humberto Braz, capanga dileto de Daniel Dantas.
O papel vexatório de Greenhalgh -lobista com anel de doutor- o coloca na rabeira de uma longa fila de petistas e/ou amigos de Lula que já caíram na folha de pagamento de Dantas, do advogado Kakay ao compadre Roberto Teixeira. O deputado Zé Eduardo Cardozo diz que nada tem com isso -hummm...
O PT e o governo têm mesmo razões de sobra para se preocupar.
E a oposição tucano-democrata, tão loquaz na condenação da tapioca, emudeceu agora, diante deste suculento banquete de tubarões.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
DEU EM O GLOBO

TEATRO DE ABSURDOS
Míriam Leitão
Míriam Leitão
O Brasil não vive uma crise institucional. Vive um surto de nonsense desde o começo do caso do banqueiro Daniel Dantas. A entrevista conjunta do presidente do Supremo e do ministro da Justiça, depois de ambos levarem uma chamada do presidente Lula, foi um despropósito institucional. O presidente do STF não é um dos ministros de Lula; não é subordinado ao chefe do Executivo.
Para falar uma expressão tão em voga: nada disso é republicano. Já que a República, como se sabe, assenta-se na independência dos poderes. A queda-de-braço entre o presidente do STF, Gilmar Mendes, e um juiz de primeira instância; a fratura exposta da Polícia Federal; o bate-boca entre Gilmar Mendes e o ministro Tarso Genro; a nota de Gilberto Carvalho negando o que sua própria voz dizia na gravação; e a justificativa para o afastamento do delegado que dirigia a investigação são flagrantes de um teatro de absurdos.
Alguém acreditou na explicação de Tarso Genro para a saída do delegado Protógenes Queiroz? Nem o chefe dele, o presidente Lula, que ontem disse que o delegado tem de voltar à função. A justificativa havia sido a seguinte: ele saiu porque todo delegado, após dez anos, tem que fazer um curso de reciclagem, e ele até entrou na Justiça pelo direito de fazer o tal curso. Ora, ou bem é uma rotina profissional, ou ele brigou na Justiça para fazer o curso. É um desrespeito à inteligência alheia uma explicação assim tão pedestre. Se o chefe da PF acha que ele é "descontrolado", como diria o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, tinha que ter sido transparente e explicado que erros o delegado supostamente cometeu. Agora está na constrangedora situação de voltar atrás.
O risco na atrapalhada maneira com que o governo lida com esta crise é esquecer-se do principal, que é sustentar com provas sólidas as acusações feitas aos envolvidos: lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, evasão de divisas. A tentativa de suborno de um policial é crime; cometido para acobertar os outros pelos quais eles estavam sendo investigados. A gestão fraudulenta de instituição financeira tem que ser avaliada e investigada pelo Banco Central também, como alertou, em artigo no GLOBO, o empresário Roberto Teixeira da Costa. A resposta dada pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, ao senador Aloizio Mercadante é outro despropósito. Mercadante disse que ou a PF está exagerando quando fala em "gestão fraudulenta" ou houve omissão do Banco Central. Meirelles, ao responder, comparou o caso do Opportunity a um "funcionário de banco que comete crime nas horas vagas". Uma resposta espantosa: o BC tem que ter algo a dizer e a fazer neste caso.
O presidente Lula tem feito contorcionismos para defender Gilberto Carvalho. A uma repórter que perguntou ontem sobre a estranha conversa entre Carvalho e o advogado de Daniel Dantas, Lula respondeu: "Se você me telefonar, quem vai atender é o Gilberto Carvalho. Peço a Deus que seu telefonema não esteja sendo gravado, pois pode aparecer a sua conversa com Gilberto Carvalho." O fato de o secretário ser o filtro para telefonemas para o presidente é rotina em qualquer Presidência, o que não é normal é o teor da conversa. Um advogado não pode pedir ao secretário da Presidência que apure, junto a órgãos do governo, se um cliente seu está sendo investigado; o secretário não pode estar disponível para esse tipo de serviço encomendado. Da resposta do presidente se depreende que só Deus - e não os limites institucionais - protege as pessoas de gravação de telefonemas.
Na conversa gravada pela Polícia Federal, Carvalho diz, com todas as letras, que o tal sujeito que teria abordado o cliente de Greenhalgh só pode ter identidade falsa: "O general me deu retorno agora... Aqui não tem nada. O cara tava armando com documento falso, o que é muito comum no Rio de Janeiro." Na nota de explicação para a conversa em que ambos transportam para a esfera pública uma camaradagem que tem de estar restrita às questões privadas, Gilberto Carvalho garante ter dito que, sim, o tenente em questão estava credenciado na Presidência. Foi um momento pitoresco ouvir a voz do secretário dizendo uma coisa e ele, em nota, garantindo não ter dito o que todos o ouviram dizer. Mas tudo vai ficar por isso mesmo. A moribunda CPI do Grampo tenta ressuscitar com este episódio, mas não vai convocar exatamente os dois envolvidos neste espantoso diálogo.
Pelo visto, o surto de nonsense vai ter agora outro capítulo com o ex-banqueiro Salvatore Cacciola. O habeas corpus concedido pelo presidente do STJ, Humberto Gomes de Barros, para que não fosse algemado ao chegar ao Brasil foi com o argumento de que ele "é idoso". Cacciola é um condenado que fugiu do país aproveitando-se de um habeas corpus e não foi preso num asilo de velhos, e, sim, em animada viagem a Mônaco.
Este caso mal começou. O risco é que a trapalhada continue e sirva para minar a confiança dos cidadãos nas instituições do país. O risco é, mais uma vez, o país ter que engolir o inaceitável, o comportamento desviante de autoridades. O risco é o caso ser esquecido antes de ser esclarecido, como aconteceu com o compadre do presidente Lula, Roberto Teixeira, que também usava os privilegiados canais que tem para beneficiar os clientes da sua banca de advocacia.

TUDO LADRÃO
Carlos Alberto Sardenberg
Carlos Alberto Sardenberg
As pessoas estão dizendo que a Lei Seca é uma arbitrariedade e que a polícia está fazendo uma baita intimidação com as batidas. Dizem que ninguém é obrigado a soprar o bafômetro. E que, de todo modo, a "tabela" para zerar o índice alcoólico é de 600 reais, nas grandes cidades. Mais ainda: logo a lei cai no esquecimento.
As pessoas também estão dizendo que a Polícia Federal faz muito bem de algemar esse bando de banqueiros e seus comparsas. E que "esse" Gilmar Mendes só pode estar levando algum para soltar todo mundo, isso provando que a lei não funciona para os ricos.
São opiniões que a gente ouve por aí - senso comum. Mas não podem estar corretas ao mesmo tempo. Por que a Polícia Federal pode algemar seus suspeitos e a Polícia Militar não pode obrigar os seus a soprar o bafômetro?
Uma opinião coloca direitos individuais (cada um sabe seu limite de bebida, por exemplo) contra a arbitrariedade da lei e da polícia. A outra vai pelo caminho inverso: dá à PF o poder de decretar a culpa e já sair punindo os suspeitos com algemas e prisões.
Bem vistas as coisas, os dois pontos de vista estão errados.
A Lei Seca não é uma arbitrariedade. Qualquer adulto pode beber quanto quiser. O que não pode é dirigir depois de beber - e na via pública, porque isso põe em risco a vida de outros, que não têm nada com isso. É o caso clássico em que o direito de um interfere no do outro. Se alguém quiser encher a cara e dirigir um carro de corrida em sua propriedade particular, isolada, sem ameaçar ninguém, sinta-se à vontade.
Muitos entendem e estão respeitando a lei. Parece, porém, pelo que se ouve aqui e ali, que a maioria está contrariada. As batidas têm apanhado a classe média, não os pobres, e essa classe tem uma relação ambígua com as leis. Reclama que não funcionam, mas não gosta quando se vê apanhada pela lei. Acha que a polícia não faz nada, mas reclama quando cai diante dos policiais.
Esse pessoal entende também que sempre se pode driblar a lei e a polícia com alguma astúcia, um "sabe quem eu sou", um "deixa pra lá, gente boa" ou, no limite, uma propina. Nesses termos, as ações ostensivas da polícia, públicas (ou republicanas), não são bem-vistas. Impedem a conversa "aqui entre nós". Por que então a satisfação com as ações espetaculares e televisionadas da Polícia Federal? Porque apanha os outros, melhor ainda se os outros são ricos.
Aqui, o senso comum parece coincidir com a ideologia de muitos integrantes da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário. Para o senso comum, se não todos, quase todos os ricos são culpados e se aproveitam do seu dinheiro para levar vantagens.
Lendo o relatório da Polícia Federal na operação Satiagraha, pode-se observar por trás de tudo uma profunda desconfiança com o negócio financeiro, em particular, e com o capitalismo em geral. Movimentações de dinheiro parecem suspeitas simplesmente por serem isso, movimentações volumosas. O sistema é descrito como predador, um polvo cujos tentáculos envolvem o mercado, a imprensa, juízes, políticos, os bastidores dos governos.
É por isso que muitos policiais, promotores e mesmo juízes defendem ritos sumários e restrições, por exemplo, à concessão de habeas corpus. Como se parte do conceito de que o capitalismo é um mal e de que o mercado financeiro é sua pior parte, todos os que estão ali já são culpados. Só falta grampear e colocá-los na cadeia.
Isso fragiliza a investigação e a denúncia. Partindo do suposto de que estão diante de criminosos, os policiais federais tendem a se satisfazer com qualquer indício e a tomar como prova simples suspeitas. Assim, um pedido de orçamento de compra de artigos já publicados parece manipulação da mídia.
Com isso, não se produzem as provas efetivas, a demonstração de que o dinheiro foi roubado. Isso aparece no andamento do processo, quando os caras são soltos. E tudo parece se encaixar. O delegado prende, o ministro do Supremo solta e o governo afasta o delegado. Não estava mesmo tudo dominado?
Um desastre, porque, pelo jeitão da coisa, há mesmo ilícitos a apurar, especialmente nas conspícuas ligações do capital privado com o Estado. Mas isso não aparece. E quando um juiz lembra que o princípio básico da civilização é o da inocência, que a prisão vem depois do processo e da prova, isso parece uma manobra para livrar óbvios culpados.
Tempos difíceis.
CARLOS ALBERTO SARDENBERG é jornalista.
O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1029&portal=
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
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RECONCILIAR O RIO DE JANEIRO COM A CONSTITUIÇÃO DE 1988
Marcelo Baumann Burgos1
O Rio foi uma das cidades que mais fez pela conquista da Constituição de 88.
Marcelo Baumann Burgos1
O Rio foi uma das cidades que mais fez pela conquista da Constituição de 88.
Partiu dela boa parte da energia cívica que tomaria conta do país na década de 1980, quando a Cidade se viu tomada por um intenso e diversificado associativismo em torno dos bairros e das favelas, da questão operária, ambiental, da infância, das questões da mulher e racial. Em torno desses movimentos sociais se aglutinaram partidos de centro e de esquerda, além das universidades e dos intelectuais. Toda essa mobilização andou junto com uma participação eleitoral de clara oposição ao regime militar e com a luta pela redemocratização, que culmina na memorável mobilização das Diretas – Já, em 1984, que levou mais de um milhão de pessoas no comício da Candelária.
Tamanha importância na reconstrução do projeto de país fez do Rio um dos principais, senão o principal, centro de animação e inspiração do núcleo dogmático da Carta de 88, cujo espírito foi insculpido no seu generoso preâmbulo, que instaurou os “direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social”.
Ironicamente, vinte anos depois da promulgação da Carta Cidadã, constata-se, com desalento, que nenhuma das grandes cidades brasileiras parece estar tão distante do ideário de 88 quanto o Rio de Janeiro. Com índices insuportáveis de violência, uma sociabilidade marcada pela baixa civilidade, e politicamente loteado em territórios dominados por “donos do pedaço”, o Rio pouco conseguiu se beneficiar dos incentivos à participação democrática inscritos em uma Constituição de notável inspiração municipalista.
Ao contrário, a Cidade parece estar se afastando daquilo que Luis Roberto Barroso chamou de “sentimento constitucional”, quando definiu a capacidade da Constituição para “simbolizar conquistas e mobilizar o imaginário das pessoas para novos avanços”. E, não por acaso, o Rio de Janeiro é uma das cidades onde os mecanismos de judicialização da política e da vida social – última retaguarda da democracia constitucional – mais vêm sendo utilizados, através do recorrente recurso ao Tribunal de Justiça para a apreciação de ações diretas de inconstitucionalidade questionando normas aprovadas pela Câmara, do uso intensivo de ações populares e civis públicas interpelando a improbidade administrativa e a omissão do poder público, da presença marcante do Ministério Publico na regulação de conflitos da cidade, em áreas como meio ambiente, e direitos de minorias e de segmentos fragilizados como crianças e idosos, e, ainda, da crescente dependência da ação fiscalizadora da representação política exercida pelo Tribunal Regional Eleitoral.
De fato, a Cidade parece estar abandonando suas melhores tradições cívicas.
Com uma administração pública afastada da sociedade civil organizada, e com baixa capacidade de reação política através da via partidária, sua população não ocupou, senão muito timidamente, os espaços participativos abertos pela Carta de 88, seja em torno dos conselhos populares – em áreas estratégicas como educação, saúde e infância –, seja através do Plano Diretor, instrumento criado para a regulamentação democrática da vida citadina. Tampouco apostou em canais alternativos para a discussão pública de temas relacionados à “função social da cidade” de que falam a Constituição e o Estatuto da Cidade, como são os fóruns populares, o orçamento participativo, as audiências públicas ou, ainda, as mídias alternativas.
Uma cidade desanimada e amedrontada é o legado das duas últimas décadas, e que, por isso mesmo, acompanha passivamente a tendência de fragmentação territorial, cujos efeitos se fazem sentir na crescente submissão de favelas, loteamentos e bairros às milícias, aos seguranças privados, e a gangsters que usurpam o espaço da política para se apoderar de parcela da Cidade.
Levada ao limite, essa tendência pode destruir a possibilidade de um projeto comum de Cidade.
Prova maior de sua impotência diante desse quando de ameaça à Cidade é a sua crônica incapacidade para superar sua principal questão urbana, que é a relação com as favelas.
Diversamente do que as melhores expectativas acalentadas nos anos de 1980 faziam esperar, as favelas não foram integradas à Cidade, ou pelo menos não foram integradas à Cidade da Constituição. Malgrado o investimento em urbanização e em política e ações sociais, que melhoraram sua infra-estrutura urbana e o acesso a oportunidades e equipamentos coletivos de seus moradores, mais do que nunca as favelas têm sido tratadas como territórios à margem da Constituição e do Estado Democrático de Direito. Ao jugo do tráfico e da milícia, que submete a população desses territórios a toda sorte de arbítrio, se junta a ação imprudente e igualmente arbitrária do Estado, através das polícias civil e militar. Evidências fortes disso são, para citar apenas os mais recentes, os lamentáveis e injustificáveis episódios como o da desastrosa e trágica atuação do Exército no Morro da Providência, que resultou na morte de três jovens; e, principalmente, a mega-operação policial realizada em junho de 2007, no Complexo do Alemão, que envolveu cerca de 1200 policiais, e que deixou um rastro de sangue, com vários feridos, inclusive crianças, e 19 pessoas mortas com claros sinais de execução, além de uma incomensurável seqüela psicológica em uma população de mais 70 mil habitantes. O descompasso entre o custo humano desse tipo de operação e o seu resultado prático fica evidente quando se considera que o saldo da operação teria sido a apreensão de apenas 14 armas.
A experiência vivida pelos moradores do Alemão não encontra nenhum respaldo na Constituição, e nem mesmo se tivesse sido decretado o “estado de defesa”, previsto em seu artigo 136 – o que já seria um absurdo – nem assim os direitos à vida, e à integridade física e psíquica de toda uma população poderiam ter sido violados como foram. O mais grave, porém, é que a afronta à Constituição não encontrou na Cidade, senão em setores isolados, a reação indignada que dela se deveria esperar.
Com o novo ciclo eleitoral, abre-se uma janela de oportunidade para a Cidade, pois uma nova câmara e um novo prefeito poderão jogar um papel importante na sua reanimação, despertando a memória cívica que nela ainda repousa. Para tanto, seria importante que a Cidade conseguisse viver o processo eleitoral, debruçando-se sobre temas municipais como a questão da educação pública, excessivamente fechada no interior de escolas que já não pretendem funcionar como pólos de civismo; a questão do transporte público, há muito refém dos lobbies de empresários e do laissez faire das kombis e vans; da segurança pública, que longe de ser matéria exclusivamente estadual e federal pode e deve ser estruturada segundo uma perspectiva preventiva de alcance municipal; da saúde pública, que reclama políticas de aproximação com a
população; da questão habitacional, que deve incluir a participação dos moradores das favelas na discussão sobre o problema da favelização; e, ainda, da questão metropolitana, que carece de uma atuação mais positiva do Município do Rio na sua condução.
Mas, o que é realmente indispensável nesse momento é reconciliar a Cidade com a Constituição que ela tanto ajudou a criar, através do fortalecimento daquilo que Luiz Werneck Vianna define como as “duas democracias” que ela encerra: a da dimensão participativa e a da dimensão representativa. Por isso, antes mesmo de pensar na reforma das políticas públicas setoriais, será necessário lutar para devolver à Cidade o direito de acesso à Política, da qual ela está momentaneamente privada. Para tanto, será preciso criar mecanismos e espaços de comunicação que permitam que os diferentes segmentos da Cidade voltem a se encontrar e a conversar, incorporando, desta vez, os interesses e as opiniões dos novos seres citadinos oriundos dos segmentos emergentes das favelas e periferias. Somente assim será possível formular uma nova imaginação sobre a Cidade, e construir uma agenda pública que a reconcilie
com os valores supremos de que falam o preâmbulo da Constituição.
1 Sociólogo, professor da PUC-Rio, assessor da UNIG e membro do Centro de Estudo de Direito eSociedade (CEDES/IUPERJ)
DEU EM O GLOBO

DINHEIRO!
Cora Rónai
Cora Rónai
Ganhar dinheiro é uma ambição humana universal, legítima e eterna. Dinheiro não traz felicidade, mas manda buscar; resolve problemas de educação, moradia e saúde; compra supérfluos indispensáveis; e, desde que elas se esforcem um pouquinho, torna as pessoas mais bonitas, mais magras e mais bem vestidas. Ainda que não mais elegantes. Mas aí já é outra história.
Na base da felicidade estão, pelo menos em tese, o sossego e a paz de espírito, e é razoável supor que a maioria dos seres humanos corra atrás de dinheiro em busca de mais segurança e sossego.
Os limites individuais disso variam enormemente. Eu seria feliz com o suficiente para viajar sempre que me desse na telha e para não precisar me preocupar com o futuro dos próximos seis meses. Há quem, embora não ligue para viagens, não abra mão, nos seus sonhos, de um carro zerinho. De preferência blindado. Há quem queira uma casa no campo ou na praia; um veleiro. E há os que, pura e simplesmente, querem só ficar de barriga pra cima e não mexer mais uma palha.
Compreendo qualquer espécie de sonho, assim como compreendo que pessoas com diversos degraus na escadaria da ambição dediquem-se com maior ou menor empenho à realização dos seus objetivos. Só não entendo para que passar a vida caçando dinheiro quando já se tem mais do que se pode gastar em várias gerações, e quando, na esteira do excesso de pecúnia, vem uma bagagem medonha de desassossego. De que adianta ter toda a grana do mundo e entrar no escritório às sete sem hora para sair, não confiar na própria sombra, não gostar de comida, sexo ou conversa fiada, trabalhar sem parar e viver com medo da polícia?! Isso lá é vida?!
Daniel Dantas, por exemplo. Foi preso, solto, preso e, sem nenhuma surpresa para ninguém, solto novamente (está na hora de investigar o juiz que o soltou, não o que o prendeu). Pergunto: isso vale a pena (jurídica)?! O inconveniente, o estresse, as manchetes nos jornais, para não falar da noite com o Pitta na mesma cela?! A Polícia Federal que me perdoe, mas esse cara não tem que ser preso, tem que ir para um hospício.
Sei que o que não falta ao dr. Dantas é advogado, mas apresento, a título de contribuição à sua defesa, essa mais que legítima tese de insanidade mental. O meu PF (não é Policia Federal, é Por Fora) a gente discute depois.
- Você, mais uma vez, não entendeu nada - dizem as pessoas que nunca entendem nada. - O que faz a cabeça de um tipo assim não é dinheiro, é poder.
Compreendo qualquer espécie de sonho, assim como compreendo que pessoas com diversos degraus na escadaria da ambição dediquem-se com maior ou menor empenho à realização dos seus objetivos. Só não entendo para que passar a vida caçando dinheiro quando já se tem mais do que se pode gastar em várias gerações, e quando, na esteira do excesso de pecúnia, vem uma bagagem medonha de desassossego. De que adianta ter toda a grana do mundo e entrar no escritório às sete sem hora para sair, não confiar na própria sombra, não gostar de comida, sexo ou conversa fiada, trabalhar sem parar e viver com medo da polícia?! Isso lá é vida?!
Daniel Dantas, por exemplo. Foi preso, solto, preso e, sem nenhuma surpresa para ninguém, solto novamente (está na hora de investigar o juiz que o soltou, não o que o prendeu). Pergunto: isso vale a pena (jurídica)?! O inconveniente, o estresse, as manchetes nos jornais, para não falar da noite com o Pitta na mesma cela?! A Polícia Federal que me perdoe, mas esse cara não tem que ser preso, tem que ir para um hospício.
Sei que o que não falta ao dr. Dantas é advogado, mas apresento, a título de contribuição à sua defesa, essa mais que legítima tese de insanidade mental. O meu PF (não é Policia Federal, é Por Fora) a gente discute depois.
- Você, mais uma vez, não entendeu nada - dizem as pessoas que nunca entendem nada. - O que faz a cabeça de um tipo assim não é dinheiro, é poder.
Poder. Perfeito. Ainda assim, para que serve o poder pelo poder, já que não consta que, em nenhum momento, o dr. Dantas tenha tentado mudar o mundo? Serve, sejamos sinceros, para aquela coisa rasteira e menor que motiva os políticos brasileiros, vale dizer, descolar uma vida mansa e interessante às custas do contribuinte. E para juntar mais dinheiro - o que nos leva de volta à casa um. A questão é que, para usufruir disso, é preciso ter algo que se pareça minimamente com uma vida. Chegar ao escritório às sete sem hora para sair, não confiar em ninguém, blá blá blá... Repito: isso lá é vida?!
Nessa história de dinheiro, por sinal, o exemplo de casa é sempre muito importante. Vejam o caso do Eike, esse rapaz simpático que me conquistou quando disse que queria despoluir a Lagoa. Ele teve um ótimo exemplo em casa. O pai era ministro das Minas e Energia, e ele, visionariamente, comprou umas terrinhas lá nos cafundós onde, logo depois, descobriu-se uma mina de ouro. Daquelas bem reluzentes.
Já eu segui os passos dos meus pais, ambos professores. Por isso eu, em vez de comprar umas terrinhas auríferas, como faria qualquer jovem bem orientada, dei de sair comprando livros. Francamente! Aí está o resultado - o Eike comprando minas até hoje, e eu aqui até hoje comprando livros. Moral: um mau exemplo na infância ferra a pessoa para o resto da vida.
Ultimamente, meu consolo de pobre são as "edições limitadas".
Encomendei um produto para cabelo. É uma loção chamada Complexe 5, que existe há pelo menos 20 anos, e que, dessa vez, veio numa embalagem completamente diferente daquela à qual estou habituada. Olhei com mais atenção: na parte de trás está escrito "Édition limitée, 06325/20000".
Notem que não se trata de um perfume com frasco de cristal numerado e valor de coleção, nada disso; trata-se de um prosaico tônico capilar, com a velha fórmula de sempre, que tenta afagar o meu ego classe média com a falsa sensação de usar algo exclusivo.
Depois foi a coleção do "Blade runner", que saiu numa caixa com a (má) edição do diretor e a outra, que foi exibida nos cinemas, e da qual eu tinha tanta saudade. Há muitas outras alegrias na caixa, a começar por ela mesma, que parece uma maletinha: a versão final de Ridley Scott; a que foi exibida nos cinemas americanos; um DVD cheio de extras; uma miniatura do spinner; um unicorniozinho prateado... Enfim, um tesouro, mas um tesouro humilde, que me custou US$63 na Amazon (parte da fortuna da Amazon vem das minhas economias). Pois, no fundo da caixa, o que se lê? "Limited edition, 035913/103000". Não! Vocês acreditam?
Vocês estão lendo uma das 103 mil pessoas que possuem essa exclusivíssima caixa!!!
Eu ainda não tinha me recuperado da emoção deste privilégio quando, lendo a embalagem do iogurte no café da manhã, dei com uma barrinha dourada que nunca vira antes. E adivinhem o que está escrito lá? Ganha um doce quem responder "edição limitada".
E o que é Daniel Dantas tem a ver com as "edições limitadas" ilimitadas? A rigor, nada. Mas um assunto puxou o outro porque me peguei pensando sobre o ser e o ter, hoje tão filosoficamente misturados que mesmo as pessoas mais objetivas têm dificuldade de perceber o que é uma coisa e o que é a outra.
Em tempo: guarde bem este jornal! Ele é um exemplar único da edição limitada desta quinta-feira.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

NEGÓCIOS? NEM LEGAIS
Clóvis Rossi
Clóvis Rossi
SÃO PAULO - Sergio Ramírez é um notável escritor nicaragüense, que se tornou revolucionário, lutou com a Frente Sandinista de Libertação Nacional contra a nefanda ditadura Somoza, elegeu-se vice-presidente e, afinal, rompeu com os companheiros, horrorizado com o nível de corrupção a que se dedicaram uma vez instalados no poder.
No auge do escândalo do mensalão, ele me disse uma frase que não me sai da cabeça: "Se eu fosse presidente, antes da posse chamaria todos os parentes e amigos e lhes diria que, durante o meu governo, não poderiam fazer negócios. Nem negócios legais".
O Brasil certamente seria um país melhor se o presidente Lula tivesse adotado o conselho. É incrível a quantidade de parentes, amigos e companheiros próximos do presidente envolvidos em negócios, talvez legais, talvez não, em um país em que jamais se esclarece definitivamente algo que implique política e políticos.
O filho do presidente envolveu-se em negócios, justamente na área de telefonia, que foi um dos focos de atuação de Daniel Dantas. Envolveu-se em negócios, vários aliás, o compadre do presidente, o advogado Roberto Teixeira. Aparece em "grampos", também relacionados ao caso da telefonia, o atual secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo, justamente o que assumiu a bandeira da decência em um partido marcado pelo rótulo de "organização criminosa".
Para não falar em Luiz Eduardo Greenhalgh, que, por tabela, envolveu nos seus negócios o lealíssimo braço direito do presidente, Gilberto Carvalho. Todos dizem que são negócios legais ou intervenções inocentes. Mas ajudaram a criar esse ambiente de pântano em que a República vive mergulhada.
PS - Graças a habeas corpus concedido pela Folha, fujo para 10 dias de férias.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

DO ABAFA À INDIGNAÇÃO
Eliane Cantanhêde
Eliane Cantanhêde
BRASÍLIA - Na terça, os delegados da operação Satiagraha se recolheram (ou foram recolhidos) à sua insignificância, o diretor-geral da PF tirou férias, e o presidente do Supremo e o ministro da Justiça trocaram de bem, sob as bênçãos do presidente da República. A imprensa ficou falando sozinha de Celso Pitta, Naji Nahas e Daniel Dantas -que são o que interessa.
Ontem, o governo percebeu o erro monumental que estava cometendo. Diante da evidência de pressões para abafar o caso e da indignação generalizada, houve um meia-volta-volver: Lula fez o gênero indignado com as "insinuações", o delegado tomou depoimento de Dantas, até a Justiça tocou o barco.
No início do imbróglio, Lula conclamou todos a "andar na linha", porque os tempos são outros: "Quem achar que pode viver de picaretagem algum dia vai cair". Mas vai demorar, presidente...Por enquanto, a discussão é outra: preservar o Estado Democrático de Direito, coibir abusos contra cidadãos ilibados e expostos com algemas à execração pública e investir mais nas Defensorias Públicas, que vão igualar, já, já, os pobres e os ricos diante da lei e da ordem.
O melhor mesmo (para os suspeitos) é pular a fase do inquérito e ir logo para a do processo: de recurso protelatório em recurso protelatório, as testemunhas não têm mais crédito, as provas são desqualificadas, e os delegados, juízes e promotores, ironizados por só quererem aparecer. As acusações desmoronam como castelo de cartas. E TVs, rádios, jornais elegem outros temas, igualmente quentes.
Daqui a algum tempo, sobra uma leve lembrança de habeas corpus concedidos tarde da noite e da discussão algema-não-algema. Pitta, Nahas e Dantas nem precisarão se dar ao trabalho de disputar eleições para a Câmara ou o Senado -na prática, foro privilegiado é o que não lhes falta.
Ah! E vamos ligar logo a TV. O jogo do Corinthians vai começar.
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