quinta-feira, 24 de maio de 2012

Bilhões à vista:: Janio de Freitas

Odair Cunha e o presidente da CPI, Vital do Rêgo, estão mal no ridículo não inquérito que comandam

Pssssss -ele entreabriu um olho, mas ainda não despertou. Diz agora o relator da CPI do Cachoeira que, "com base nas provas, aumentam os indícios e a probabilidade de nós quebrarmos o sigilo da Delta nacional".

Se o deputado Odair Cunha conhece "provas" que oferecem base à CPI, não se justifica que a investigação das relações entre a Delta Construções e Carlos Cachoeira sejam só "probabilidades" que apenas "aumentam", ainda.

Sobretudo porque os tais "indícios" são evidentes desde os primeiros vazamentos do caso -para quem não lhes fechou os olhos.

Odair Cunha e o presidente da CPI, Vital do Rêgo, estão mal no ridículo do não inquérito que comandam. Diante da sua insistência em restringir o interesse da CPI à Delta Centro-Oeste, como se sucursal ou subsidiária não se ligasse à matriz, é impossível não reconhecer a alternativa: ou Vital do Rêgo e Odair Cunha não têm o mínimo da capacidade requerida por sua tarefa ou ambos seguem orientações que se opõem à CPI e ao interesse público. Se partidárias ou particulares, seria outra questão.

A relação entre Carlos Cachoeira e a empreiteira Delta e seu "ex-dono", Fernando Cavendish, importa por ser uma oportunidade de desvendar as tramas que minaram numerosas concorrências do Dnit, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes; contratações de obras do PAC, do Minha Casa, Minha Vida, e por aí afora. Contratações não só da Delta, que fez o milagre de em pouco tempo estar repleta delas.

Três rápidos exemplos dessas operações constantes e, até hoje, incontroláveis.

Com a Delta no consórcio contratado (saiu há dias), a obra do Maracanã para a Copa e o seu preço andam de braços dados: ela está em torno da metade, ele já subiu 50%, de R$ 700 milhões a mais de R$ 1 bilhão.

Contratada há oito anos para a construção, na zona oeste do Rio, de um conjunto habitacional com infraestrutura completa, inclusive recuperação ambiental, a Delta recebeu o dinheiro, e a área não recebeu a obra. O Ministério Público estadual batalha para conquistar uma solução.

Por fim, as obras da Copa iam custar, ao que diziam Lula e ministros, a fábula de R$ 14 bilhões: o governo ontem já se referiu ao custo de R$ 27 bilhões.

As "probabilidades" do relator Odair Cunha, no entanto, não incluem chegar até tais inconveniências para a Delta Construções, seu "ex-dono" e vários dos seus contratantes.

Rápido

Nove dias úteis, no total de 13, bastaram à Câmara para dar por recebido o projeto 3.839 e, no nono dia (terça passada), conceder-lhe regime de urgência e aprová-lo -sem os votos apenas do PSOL.

O Senado o espera já com o mesmo acordo de todos os partidos e a mesma exceção.

Estará então aprovado pelo Congresso o direito de candidatar-se dos que, por terem contas de campanha reprovadas ou pendentes, o Supremo Tribunal Federal vetara.

O projeto é do deputado goiano Roberto Balestra. Goiás está mesmo encachoeirada.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Tempo volátil:: Miriam Leitão

Deu a louca nos preços dos ativos, novamente. Desde 2008 tem sido assim. Há temporadas de nervosismo. O dólar sobe em todos os países. O euro bateu no seu mais baixo nível em dois anos. No Brasil, o dólar subiu 22% em três meses. O índice Ibovespa esteve em alta de 20,5% até 3 de março. De lá para cá, perdeu tudo o que ganhou e foi para o vermelho em 3,8%.

O que aconteceu desta vez? Nada de novo no front, exceto a mesma e profunda incerteza e a abundante liquidez. Com muito dinheiro circulando atrás de proteção, e a conjuntura em deterioração, os capitais entram e saem de mercados, moedas e países, e isso produz a volatilidade. O nervosismo decorrente das perdas alimenta mais aversão ao risco e produz movimentos que agravam as quedas.

O temor de que a Grécia saia do euro ficou mais forte ontem. Circulou a informação de que, durante a reunião de ministros das finanças do bloco monetário, discutiu-se diretamente sobre um plano de contingência para o cenário de a Grécia sair da união monetária. Para piorar o pessimismo dos investidores, a reunião de cúpula europeia não trouxe, no primeiro momento, qualquer sinal de concordância. O Bundesbank avisou que qualquer flexibilização extra do pacote de ajuda à Grécia é inaceitável. A situação política no país está cada vez mais confusa. Se a Grécia deixar o euro, cada economia sofrerá um impacto diferente.

A Espanha tem o calcanhar de aquiles que é um sistema bancário fragilizado pela desvalorização dos imóveis. O governo espanhol disse que vai aumentar os aportes no Bankia. As ações do banco já caíram mais de 50% este ano. Socorrer banco a esta altura dos acontecimentos vai pressionar mais ainda o déficit púbico da Espanha.

As ações dos bancos dos países mais frágeis da Zona do Euro estão em queda forte, mesmo se a instituição em si for saudável. O Santander caiu 19,28%; o Bilbao Vizcaya, 24,61%; enquanto o Banco Popular Espanhol despencou 45,51%.

Os efeitos da crise também aparecem nos bancos franceses. O Crédit Agricole perdeu 29% do seu valor de mercado este ano; o BNP Paribas, 12%; e o Société Générale, 6,5%. O cenário é parecido na Itália. A ação do UniCredit caiu 41% este ano; e a do Intesa Sanpaolo, 20,87%.

A queda brusca do real está afastando ainda mais o investidor externo, que perde na queda da bolsa e na conversão para o dólar. As trancas que o governo colocou nas portas de entrada de capital - quando o dólar estava fraco demais - não funcionaram naquela época, mas acentuam o movimento agora que a onda é de desvalorização da moeda brasileira.

O dólar se valorizou 22% frente o real desde o dia 28 de fevereiro. Saiu de uma cotação de R$ 1,70 para R$ 2,08, no fechamento de terça-feira. Chegou a bater em R$ 2,10, ontem, e só não subiu mais porque o Banco Central atuou mais um vez no mercado de câmbio, provendo liquidez no mercado futuro.

Além da crise da Europa, que retira dólares do Brasil, pesa sobre o mercado de câmbio a percepção de que o governo desta vez não vai deixar o real se valorizar novamente, caso a situação melhore. Com isso, as empresas que têm muitas dívidas em dólares, temendo que esse novo patamar da moeda americana vai ser prolongado, estão correndo para o mercado de câmbio em busca de proteção. Elas fazem os chamados contratos de hedge, mas a consequência inicial disso é aumentar ainda mais o valor do dólar, com a elevação da demanda pela moeda americana. O Banco Central não está defendendo um suposto teto do câmbio, mas, nesses momentos de extrema volatilidade, tem vendido dólares para atenuar a virada brusca.

- A queda do real é resultado das medidas adotadas pelo governo e do agravamento da crise, em si, que afasta o capital especulativo, de curto prazo, do Brasil. Esses recursos deixam as bolsas e procuram um ambiente mais seguro, como o dos títulos do Tesouro americano - disse o analista Felipe Queiroz, da Austin Rating.

Segundo o Itaú Unibanco, o BC vendeu US$ 2,85 bilhões na sexta-feira e na terça-feira, por meio de swaps reversos. Ontem, o BC entrou novamente e isso deteve a alta do dólar. A bolsa reduziu as perdas, de -3,5% para -0,76%. Confira no gráfico abaixo o pico de alta do ano e a queda atual de algumas das ações de empresas brasileiras. O ambiente continuará assim, volátil.

FONTE: O GLOBO

O debate do eurobônus:: Celso Ming

Autoridades de vários escalões da Alemanha e de outros países do euro, a começar pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, se adiantaram nesta quarta-feira, antes da reunião informal de cúpula em Bruxelas, para mostrar sua frontal oposição à proposta de criação do eurobônus.

Seria um título emitido e garantido solidariamente por todos os países do bloco, com o objetivo de derrubar os juros da dívida, que hoje estão asfixiando economias altamente endividadas, como Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha.

Do ponto de vista das condições do financiamento do déficit público, o agravamento da crise vem beneficiando fortemente a Alemanha. Nesta quarta, por exemplo, o Tesouro alemão emitiu 4,56 bilhões de euros em títulos por dois anos. Os juros obtidos no mercado foram de 0,7% ao ano. Como a inflação média na área do euro é de 2,3% ao ano, a Alemanha está obtendo empréstimo a juros reais negativos.

Enquanto isso, outros países da Europa estão pagando o olho da cara por emissões equivalentes. A Itália vem pagando 5,6% ao ano e a Espanha, 6,1% ao ano. Se forem mantidos, esses juros tornam a dívida altamente insustentável.

O eurobônus cumpriria a função de derrubar esses custos para alguma coisa acima do que vem pagando a Alemanha, porque os riscos ficariam diluídos.

O formato final desse título teria de prever em que condições essas emissões poderiam ser feitas. Além disso, teriam de ser removidos obstáculos legais decisivos à criação de um título assim. Ainda nesta quarta-feira, a chanceler Angela Merkel declarou que o eurobônus está explicitamente proibido pelos tratados. Mas outros argumentos vêm sendo esgrimidos contra a proposta.

Um deles, mencionado pelo primeiro-ministro da Finlândia, Jyrki Katainen, e pelo primeiro-ministro da Suécia, Fredrik Reinfeldt, tem a ver principalmente com o que se pode entender como "risco moral". A criação do eurobônus afrouxaria pressões em direção às reformas e a governanças responsáveis, na medida em que premiaria com dinheiro barato a gastança que gerou todas as distorções hoje conhecidas.

Outro argumento contrário, exposto nesta quarta pelo ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, é que foram justamente os créditos fáceis a juros baixos que provocaram as bolhas imobiliárias e as políticas frouxas que geraram a crise. Desse modo, o eurobônus "seria uma abordagem errada para solucionar a crise".

O grande defensor da criação do eurobônus passou a ser o novo presidente da França, François Hollande, para quem o instrumento seria indispensável para assegurar mais crescimento e, portanto, facilitar a saída da crise.

Uma das ideias que passaram a circular é que o novo título poderia ser fonte de recursos destinados apenas a refinanciar a dívida insuportável de toda a área do euro. Seria passada uma régua em todos os passivos e, assim, toda a dívida que ultrapassasse determinada porcentagem do PIB iria para um cestão que teria cobertura do eurobônus. As economias se recomporiam e a vida seguiria normalmente.

Por enquanto, está difícil quebrar a resistência dos durões, sobretudo da Alemanha. Mas a corrida aos bancos já começou e a crise pode piorar tanto que talvez não sobre outra saída. A conferir.

CONFIRA

Puxa e estica. O governo Dilma se empenha agora em puxar pelo consumo e pelo crédito. E, pelo que se conclui pelas últimas declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, na avaliação do governo o crescimento do crédito é baixo para o objetivo mais importante: garantir crescimento maior do PIB.

É muito ou pouco? O último dado divulgado pelo Banco Central, de março, aponta para saldo do crédito de 49% do PIB, com crescimento de nada menos que 18% em 12 meses. No entanto, nesta quarta-feira, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton de Araújo, avisou que o Banco Central trabalha com uma expansão do crédito neste ano de 15%.

Passou do ponto. Ou seja, para o Banco Central, o aumento do crédito em 12 meses passou do ponto. Para que se mantenha dentro da meta, seu crescimento deve então ser desacelerado, ao contrário do que sugere o ministro Guido Mantega.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Um cometa vem na nossa direção:: Vinícius Torres Freire

Mundo espera estupefato decisões de Alemanha e Grécia, que podem causar desastre como o de 2008

O mundo da finança e os os governos mais relevantes do mundo estão estupefatos e quase paralisados devido às incógnitas europeias:

1) O que será da política da Grécia (se o país sai ou não do euro depois da votação do dia 17 de junho);

2) Se bancos europeus vão falir;

3) O que a Alemanha vai fazer em relação aos pontos 1 e 2.

Sim, outra vez parece difícil acreditar que a política grega ameace tamanho descalabro. Mas, sim, a Grécia é outra vez a gota d"água que pode estourar a represa da crise financeira que vem desde 2008.

A vitória dos partidos contrários ao acordo greco-europeu na eleição da Grécia tende a provocar:

1) Recusa grega de continuar o arrocho exigido pela União Europeia;

2) Com a recusa, a Grécia fica sem os empréstimos europeus;

3) Em seguida, o governo dá o calote, sai do euro e imprime seu dinheiro a fim de pagar suas contas;

4) Bancos e empresas quebram em massa, o governo confisca os euros, a Grécia entra em depressão;

5) O mero risco de que outros países frágeis da Europa sigam o "exemplo de Atenas" causa danos a bancos e às economias desses países, que mimetizam por contágio o efeitos de uma saída do euro;

6) Os calotes e quebras bancárias causam pânico, secando o mercado de crédito no mundo inteiro.

Apenas a probabilidade de vitória dos partidos antiacordo greco-europeu pode antecipar tal cadeia de eventos (com medo de perder seus euros e da quebra bancária, gregos e europeus de países frágeis correm para sacar dinheiro de seus bancos, levando-os à lona).

A Alemanha é o líder econômico da Europa. Opõe-se à revisão dos acordos que arrocham as economias do continente. Opõe-se à emissão de dívida europeia (bancada por todos os países, em especial pela Alemanha mesmo): que a União Europeia se endivide a fim de bancar países quebrados ou semiquebrados.

Por ora, a Alemanha não oferece nada para aplacar a ira sociopolítica crescente nos países arrochados. A Alemanha, como o faz desde 2009, início da crise grega, espera até o último minuto antes de fazer concessões. De início, não admitia nem que haveria ajuda à Grécia. Quando o caldo engrossou, recuou, nisso e em tantas outras coisas.

O risco mais imediato agora é de agravamento da crise bancária. Talvez a Alemanha ceda para evitar esse problema: isto é, admita que o Banco Central Europeu empreste dinheiro para o fundo de socorro europeu para países quebrados, que então emprestaria dinheiro para os bancos no bico do corvo (mas não para governos semifalidos).

Isso não "resolveria" a crise, que seria apenas empurrada com a barriga, como ocorre desde 2009.

Enquanto não houver decisões alemãs (ou um resultado pró-Europa na eleição grega), o mundo fica em suspenso, à beira do pânico, do medo de uma crise semelhante à que explodiu em 2008. Os investimentos produtivos ficam na gaveta, o crédito mundial vai ficando difícil, o dinheiro sai de ativos de risco (Bolsas, ativos de "países emergentes", commodities etc.). Os governos do planeta se preparam para o pior.

Apenas o medo desses desastres causa os pânicos destes dias, que já provocam por si só uma crise. O mundo, o Brasil inclusive, virou espectador involuntário, mas atento, desse coliseu de horror da finança.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Para Krugman, Europa não deve temer a inflação

Economista defende afrouxamento da política monetária

BERLIM. Em entrevista à revista alemã "Der Spiegel", o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman afirmou que não é hora de se preocupar com dívida e inflação. Para salvar a zona do euro, disse, o Banco Central Europeu (BCE) precisa afrouxar a política monetária, e a Alemanha, deixar a austeridade de lado. "Precisamos ver uma inflação acima de 3% nos próximos cinco anos".

Para Krugman, as políticas de crescimento que vêm sendo discutidas pela União Europeia (UE) equivalem a usar "uma pistola d"água contra um rinoceronte". Sobre a Grécia, ele disse não ver alternativa senão o país deixar a zona do euro. Mas admitiu que isso poderá provocar uma corrida bancária em outros países periféricos do bloco, já que o precedente terá sido estabelecido.

Com relação à austeridade defendida pela Alemanha, Krugman disse que a experiência já dura dois anos e meio, e o único resultado foi o elevado desemprego - na Espanha, atingiu 24%. "Com o desemprego nesse patamar, o estrago é cumulativo. As vidas das pessoas estão sendo destruídas."

Para Krugman, a Alemanha tem de permitir que o BCE relaxe no controle da inflação. "Nada de subir as taxas de juros ao menor sinal de inflação", afirmou. "Emprestem abertamente a governos e bancos." Ele disse que a atuação do BCE equivaleria às medidas de estímulo do governo americano. Perguntado se isso não incharia ainda mais os déficits orçamentários, Krugman citou o economista John Maynard Keynes: "É na expansão, não na desaceleração, que se deve adotar políticas de austeridade."

FONTE: O GLOBO

Crédito cresce de 10% a 15% este ano, diz BNDES

Para o presidente do banco, Luciano Coutinho, ritmo segue mais rápido que a expansão do PIB e alta pode ser ainda maior com queda na inadimplência

Vinicius Neder

RIO - A taxa de expansão do crédito na economia deverá ficar entre 10% e 15% neste ano, na avaliação do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. O ritmo de expansão, segundo Coutinho, segue mais rápido que o crescimento da economia, permitindo aumento da participação do crédito no Produto Interno Bruto (PIB), e poderá voltar a subir com uma queda na inadimplência.

"O crédito chegou a se expandir a 27%, 30%, taxas muito elevadas. Agora, ele tem condição de se expandir de maneira saudável a taxas entre 10% e 15%, dependendo da modalidade", disse Coutinho, após participar da abertura do seminário Saúde, Cidadania e Desenvolvimento, promovido pelo Centro Internacional Celso Furtado, no Rio.

Além disso, o movimento de redução dos spreads (diferença entre o custo de captação dos bancos e as taxas de juros cobradas ao consumidor final) deverá se consolidar, incluindo os bancos privados.

Segundo Coutinho, o sistema bancário nacional tem condições de expandir o crédito de maneira saudável e sustentável, "sem bolhas". A expansão pode voltar a taxas maiores à medida que a inadimplência caia, com as dívidas atuais sendo "recicladas". Uma queda na inadimplência, com a manutenção dos níveis de emprego e renda, também permitirá spreads menores.

"A economia tenderá a crescer mais fortemente nos próximos meses, facilitando a redução da inadimplência e regularizando a capacidade de o sistema de crédito dar passos adicionais em termos de redução do spread."

Aportes. O BNDES precisará de mais recursos para fomentar o aumento do investimento na economia este ano. Segundo Coutinho, os novos aportes, do total de R$ 45 bilhões anunciado em abril, serão necessários para desembolsar valor pouco acima de R$ 150 bilhões neste ano, dos quais R$ 59 bilhões apenas em projetos de infraestrutura.

Ontem, em discurso na abertura do seminário, Coutinho destacou a importância de apoiar a consolidação da cadeia produtiva da saúde e de usar o poder de compra do sistema de saúde para o desenvolvimento tecnológico. Como exemplo de ação do BNDES, Coutinho citou a ampliação do programa Profarma. "Temos buscado apoiar o desenvolvimento de uma cadeia de empresas de capital nacional que possa desenvolver inovações aqui no Brasil."

Em março, o BNDES apoiou a criação da BioBrasil, empresa de medicamentos que terá como sócios tradicionais fabricantes do setor (Aché, EMS, União Química e Hypermarcas) e fabricará medicamentos biológicos. Um segundo grupo de empresas (Biolab, Cristália, Libbs e Eurofarma) também estuda investir.

Caixa corta juro na compra de veículos

A Caixa Econômica Federal anunciou ontem mais uma rodada de corte de juro nos financiamentos para a compra de veículos. A medida beneficia a aquisição de carros novos e usados. Segundo comunicado do banco, o juro mínimo para veículos novos caiu de 0,89% ao mês para 0,75%. Já a taxa máxima passou de 2,25% para 1,65% mensal. Para os carros usados, a maior taxa diminuiu de 2,25% para 1,75%. As novas condições valem a partir de amanhã, beneficiando todos os clientes, afirma a Caixa.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

'Aumentar o crédito é fácil, mas benefícios são pequenos'

Vinicius Neder

RIO - Expandir o crédito a 15% neste ano é fácil: basta o governo oferecer financiamentos subsidiados por meio dos bancos públicos, segundo o professor Márcio Garcia, do Departamento de Economia da PUC-Rio. O problema, frisa, é que os benefícios da estratégia podem ser pequenos diante dos custos.

É possível haver expansão de crédito a 15% neste ano?

Crédito é uma coisa fácil de dar, sobretudo se for subsidiado. Dinheiro barato todo mundo quer. Não vejo dificuldade de aumentar os desembolsos. Agora, o que se vai obter é outra questão. Os benefícios são muito pequenos. Os financiamentos do BNDES não aumentam o investimento agregado na economia e, do lado do consumidor, parece que as famílias já estão endividadas. Segundo os dados do Banco Central, o comprometimento médio da renda está em 22% ao mês, um nível já bastante elevado.

O efeito das medidas pode ser pequeno?

Pode não dar resultado para aumentar o consumo. E, se der, esse aumento pode não ser bom. No momento, pode-se resolver o problema de esvaziar os pátios das montadoras mas, em 2013, pode representar uma queda muito maior (nas vendas) por causa da inadimplência. A inadimplência (no crédito para veículos) era 2,49% em 2010 e agora está em 5,33%, segundo os dados do BC. É de preocupar.

A troca por dívidas com juros menores pode aliviar a inadimplência?

Isso seria muito importante, e é muito importante nos EUA, para imóveis. No Brasil, para trocar a dívida de um banco para outro, os custos de cartório são muito elevados. O governo estaria tomando iniciativas para reduzir esse custo, o que é benéfico. Vai incentivar a competição bancária. É uma coisa que não é difícil de identificar, mas é difícil de mexer.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

PT do Recife tem mais um Dia D

Executiva nacional se reúne em São Paulo e decide sobre candidatura. Entre vários caminhos, pode validar a prévia com vitória de João da Costa, mandar realizar nova votação e até escolher um terceiro nome.

PT procura o "mal menor"

PT x PT Cúpula nacional decide hoje, em São Paulo, polêmica envolvendo a prévia do partido no Recife, que corre o risco de ser anulada

Joana Rozowykwiat

Não há uma solução boa, apenas a menos pior, ou seja, o mal menor. Esta é a avaliação de muitos petistas que esperam hoje o fim do impasse sobre quem será o candidato da sigla à Prefeitura do Recife. Em ambiente de tensão e depois de muito desgaste para a legenda, a Executiva Nacional do PT se reúne nesta tarde, para decidir se valida ou não o resultado da prévia disputada no domingo (20) entre o prefeito João da Costa e o secretário estadual de Governo Maurício Rands. Nenhuma saída será fácil e qualquer que seja o resultado, o desfio será juntar os caquinhos.

Formada por 20 integrantes, a Executiva do partido se reunirá às 14h, em São Paulo. Ouvirá as partes e tomará sua decisão com base numa auditoria realizada para identificar se houve irregularidade no processo eleitoral. Os petistas ligados a Rands afirmam que foram incluídos na lista de votantes filiados que não estariam aptos a comparecer às urnas.

Caso a cúpula nacional decida validar a prévia, hipótese vista como improvável, João da Costa é o vencedor. Ele recebeu 7.503 votos, 553 a mais que o seu adversário. Se a decisão for por anular – como muitos previam ontem -, a Executiva irá deliberar então sobre o que fazer. Várias opções estão na mesa: convocar nova prévia, realizar uma eleição apenas entre delegados ou a própria Direção Nacional resolveria qual petista entrar na disputa.

Neste último caso, a direção pode indicar, inclusive, um terceiro nome, hipótese levantada por membros da Executiva, de acordo com petistas ligados a Rands. Ontem, lideranças aliadas a ele, como o senador Humberto Costa, davam como certa a anulação. "A prévia vai ser invalidada. Digo isso com base em fatos", defendeu Humberto. Já do lado do prefeito, a alegação era de que a vontade da militância deve prevalecer.

Apesar de a discussão ser em torno da tal lista de votação, outras variáveis também pesarão na decisão. O comportamento das partes na prévia, a judicialização do processo interno, o potencial eleitoral de cada um, a relação com os aliados e a capacidade de unir a sigla estão entre os fatores a serem pesados, dizem lideranças. "Toda decisão de partido tem sempre o componente político, embora o dado mais importante seja a aplicação do estatuto", disse Elói Pietá, secretário-geral da legenda. "A disputa foi muito acirrada, tensa, teve declarações pela imprensa. Então o que vai acontecer é uma solução menos pior", disse.

Ontem, o dia foi de tensão e muitas articulações. Em Brasília, Rands e Costa visitaram deputados e membros da Executiva, para expor suas versões. Dirigentes mostravam-se receosos a respeito do que pode acontecer pós-reunião. Sabiam das dificuldades que encontrarão para superar as sequelas de um processo pautado por xingamentos, denúncias e questionamentos à capacidade de gestão dos pré-candidatos. Estavam cientes de que a briga interna irritou eleitores e aliados, que já cogitam lançar outros candidatos, colocando um fim na até então vitoriosa Frente do Recife e favorecendo a oposição.

"Não tem solução que agrade a todos. Qualquer que seja a decisão, deixará marcas, terá uma carga grande de insatisfação. Estamos perdendo com tudo isso, o PT sofre. O nosso esforço é para que os insatisfeitos respeitem a decisão final, seja ela qual for", disse Pedro Eugênio, presidente estadual.

Ontem, os militantes ponderavam sobre o peso que teria cada uma das opções, caso a prévia seja anulada. Realizar uma nova consulta às bases ou mesmo aos delegados demandaria tempo. Isso exporia o partido a pelo menos mais uma semana de crise, o que poderia piorar a situação. Por outro lado, uma intervenção nacional no município é vista como uma medida drástica demais, um "processo duro", como classificou um dirigente.

O próprio João da Costa resgatou o caso do PT do Rio que, em 1998, lançou a candidatura do ex-deputado Vladimir Palmeira ao governo do Estado. O diretório nacional, contudo, interveio na decisão, para garantir um acordo nacional com o PSB. Desta forma, o PT teve que contentar-se com a vaga de vice de Anthony Garotinho. A aliança não prosperou e o partido nunca mais se reergueu no Estado.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Lá vem o Patto !::Urbano Patto

O tempo passa, o tempo voa...

Mais uma vez o governo, para debelar as consequências da crise econômica, aponta com as medidas paliativas de sempre, dizendo que irão aquecer a economia. O refrão do bolero é o mesmo de sempre: redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre a venda de veículos automotores e, quem sabe, outros produtos, e outras medidas de teor semelhante.

Enquanto isso passaram-se dois governos de Lula da Silva e o início deste de Dilma, nada de mexer nos problemas estruturais da economia: a infraestrutura de transportes continua sucateada; o investimento em inovação e tecnologia permanece pífio; o sistema tributário regressivo e em cascata insiste em castigar e empurrar para a clandestinidade quem poderia ser um microempresário e para a sonegação os demais; a legislação trabalhista, de quase um século, desconhece as mudanças profundas nas relações de trabalho com o avanço tecnológico e das comunicações instantâneas; o orçamento da União, antes de mais nada, continua a ser concebido e executado como um instrumento para fazer girar, via superávit primário, a imensa e crescente dívida pública.

E o que parece ser o pior, ao não se promover as reformas necessárias, e nem mesmo iniciar o debate sobre elas, o que poderia se afigurar como medida emergencial de incentivo para dinamização da economia em tempos de crise, torna-se uma bomba-relógio (“bolha” para os agentes “do mercado”): o estímulo desenfreado ao consumo sem poupança e ao crédito sem lastro.

A situação é tratada com o desprezo e a irresponsabilidade de quem parece estar satisfeito com o único objetivo imediato de manutenção dos índices de aprovação e de simpatia nas pesquisas de popularidade. Se a bomba explodir, mesmo que seja no próprio colo, daqui a alguns anos não importa. Se for no colo de outros, menos ainda.

Por isso perde-se tempo precioso, empurra-se com a barriga as tarefas mais trabalhosas e as vezes desagradáveis. Talvez para depois das eleições, talvez nunca.

E na economia o resultado previsível será mais do mesmo, mais uma formidável desovada de estoque de veículos de passeio e motos nas ruas já congestionadas à base de mais crédito fácil e desoneração tributária. Isso fará a base e as máquinas metalúrgicas, sindicais e eleitorais satisfeitas. Pelo menos até outubro.

Enquanto isso, o grande debate político nacional, no Congresso Nacional e na mídia, fica sendo descobrir na CPI quem recebeu ou deu telefonemas para o Carlinhos Cachoeira e outras coisas menos relevantes, de incumbência de investigadores e delegados de polícia, depois da Justiça e, esperamos, do sistema penitenciário.

Mesmo assim, com CPI e tudo, o pivô das maracutaias consegue depor 2 horas e meia e não falar nada e os perguntadores, desta vez, nem conseguem dar o seu show para a platéia e para televisão de tão fraco, esvaziado e irrelevante que está de tornando o parlamento, por não tratar das grandes questões do desenvolvimento nacional, com os parlamentares se movendo em função da dose de emendas parlamentares aplicadas.

Urbano Patto é Arquiteto-Urbanista, Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional, Secretário do Partido Popular Socialista - PPS - de Taubaté e membro Conselho Fiscal do PPS do Estado de São Paulo. Comentários, sugestões e críticas para urbanopatto@hotmail.com

Bola murcha

Faltam 749 dias para o início da Copa do Mundo, mas, a julgar pelo ritmo que o governo petista tem dado às obras necessárias ao evento, parece que ainda temos uma eternidade pela frente. O mais desalentador é que a incúria em relação ao torneio de futebol não destoa do desempenho geral dos investimentos públicos federais.

Segundo balanço oficial divulgadoontem pelo governo Dilma Rousseff, apenas cinco das 101 obras previstas para o Mundial estão prontas. Na outra ponta, 41 empreendimentos ainda não saíram do papel: estão em fase de licitação ou não passaram da etapa de elaboração de projeto, que, pelo cronograma oficial, deveria ter sido finalizada lá atrás, em 2010.

Apenas obras cosméticas em aeroportos foram concluídas - nos terminais de Cuiabá, Porto Alegre, São Paulo e Campinas. Dos R$ 27 bilhões de investimentos previstos para estádios, aeroportos, portos e obras de mobilidade urbana, somente 1%, ou R$ 200 milhões, foi executado.

Na área de mobilidade urbana - das raras que, efetivamente, podem vir a gerar algum benefício duradouro para a população- nenhuma das 51 obras previstas foi entregue até agora. O mais preocupante é que, destas, somente 28 estão em execução neste momento; o resto ainda dormita nas gavetas.

Aldo Rebelo não vê problema algum em empreendimentos que, a esta altura, já deveriam ser areia, cimento e concreto não passarem de rascunhos. Sua frase é lapidar: "Não sei por que o preconceito com obras no papel. Não é porque está no papel que significa necessariamente um atraso".

A manifestação do ministro do Esporte faria algum sentido se já não tivesse transcorrido quatro anos e meio desde que o Brasil foi escolhido pela Fifa para sediar o Mundial de 2014. Teria alguma lógica se, daqui a um ano, o país já não fosse abrigar os jogos da Copa das Confederações e daqui a pouco mais de dois anos não tivéssemos de receber a Copa do Mundo.

Outro lado perverso da negligência da gestão petista, tanto de Lula quanto de Dilma, em lidar com os preparativos para o Mundial é o custo para os cofres públicos. Se, a princípio, dizia-se que o investimento seria eminentemente privado, ao longo do tempo ele foi se tornando preponderantemente custeado pelo governo.

Dos R$ 27 bilhões ora estimados, 84% serão bancados por fontes públicas, seja por meio de investimento direto da União (R$ 4,7 bilhões), financiamentos federais (R$ 11,1 bilhões) ou aportes de estados e municípios (R$ 7,1 bilhões). Da iniciativa privada, virão apenas R$ 4,2 bilhões.

Ressalte-se que o orçamento atual já cresceu mais de 54% em relação à primeira estimativa oficial, de R$ 17,5 bilhões, divulgada no início de 2010, como mostrou a Folha de S.Paulo há duas semanas. Quanto mais lerda a execução, mais cara a obra. E quem paga pela ineficiência somos nós, contribuintes.

O desleixo não é marca dos petistas apenas nos preparativos para a Copa. Também se espraia para a execução orçamentária como um todo, como bem manifestou o Tribunal de Contas da União (TCU) ao julgar as contas do primeiro ano da gestão Dilma.

Embora aprovadas, elas foram alvo de 25 ressalvas e 40 recomendações, entre elas uma que beira o pleonasmo, mas que, nos governos do PT, parece algo impossível: serem "efetivamente priorizadas as execuções das ações definidas como prioritárias". Para o petismo, prioridades nunca são o que é mais importante para a população.

Segundo o TCU, as obras públicas federais apresentam hoje atraso médio de 437 dias. "Por causa de projetos malfeitos e fatores que deveriam ter sido dimensionados no tempo oportuno, várias obras prioritárias para a infraestrutura do País estão atrasadas", mostra O Estado de S.Paulo.

Como se fosse possível, o desempenho executivo foi cadente no primeiro ano de Dilma. A presidente reduziu de 652 para 92 as ações que considerava prioritárias em seu governo. Mesmo assim, somente 54% delas apresentaram o que o TCU classifica como "execução alta". Em 2010, 63% estiveram nesta condição.

A preocupação com o bom andamento e a efetiva realização das obras com vistas à Copa do Mundo não repousa em fazer bonito para o resto do mundo. Dirige-se a aproveitar uma oportunidade única, de alta visibilidade global, para gerar benefícios duradouros para o desenvolvimento do país e para o bem-estar da população. Mas, se depender do governo do PT, vamos chegar atrasados e bater uma bolinha murcha daqui a dois anos.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela. Carta de Formulação e Mobilização PolíticaQuinta-feira, 24 de maio de 2012Nº 473.

Eu luminoso não sou:: José Saramago

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

(in Provavelmente alegria, Editorial Caminho, Lisboa, 1985, 3ª Edição)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

OPINIÃO DO DIA – Rubens Bueno: CPI do Cachoeira

"Que bicho vai dar hoje?"

Rubens Bueno, deputado (PPS-PR), reproduzindo a pergunta que recebeu via twitter

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Câmara manobra contra punição de contas-sujas
Ex-diretor agia em nome da Delta
Julgamento do mensalão deve durar de 3 a 5 semanas
STF divulgará salários de ministros e servidores
Trabalho escravo pode levar a confisco

FOLHA DE S. PAULO
Montadoras cortam preço de veículos em até 10%
Aref pediu propina de R$170 mil, diz dono do Bahamas
Cachoeira se cala, mas diz que ainda tem muito a falar
Réus pedem que STF não julgue mensalão com "faca no pescoço"
Supremo divulgará salário e benefícios de seus ministros
Comissão de Anistia nega indenização ao Cabo Anselmo

O ESTADO DE S. PAULO
Cachoeira se cala e CPI mira Delta
Márcio Thomaz Bastos: De ministro a advogado de bicheiro
Mercado reage mal a pacote de estímulo

VALOR ECONÔMICO
Governo planeja mais ações para destravar o crédito
Inadimplência força bancos a renegociar
Incentivo aos carros, sem contrapartida

CORREIO BRAZILIENSE
O cinismo da esfinge
Quebra de sigilo da Delta surpreende CPI
Presidente da Câmara se agarra a mordomia
Três sessões semanais para julgar o processo
Vendas de carros devem crescer 20%

ESTADO DE MINAS
Ninguém merece tanto deboche
Juros caem, mas tarifas sobem o triplo da inflação

ZERO HORA (RS)
STF decide divulgar salários de ministros, servidores e inativos
Cachoeira na CPI
Economia acelerada e trânsito paralisado
Por que famosos entraram no “Veta, Dilma”

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Fifa aposta em Pernambuco
Silêncio de Cachoeira esvazia sessão da CPI
Governo estuda medidas contra a inadimplência
João da Costa e Rands buscam apoio no PT

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Julgamento do mensalão deve durar de 3 a 5 semanas

O presidente do STF, ministro Ayres Britto, propôs ontem um cronograma para o julgamento do mensalão que prevê de 3 a 5 semanas de trabalhos, a serem iniciados em 4 de junho. O prazo, no entanto, depende da apresentação do voto do ministro revisor, Ricardo Lewandowski.

Mensalão: julgamento deve durar 5 semanas

Ministro Ayres Britto propõe analisar caso a partir de 4 de junho, mas voto do revisor não deve estar pronto até lá

Carolina Brígido

Presidente do STF propõe julgamento de três a cinco semanas

BRASÍLIA. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, enviou aos colegas da Corte três propostas de cronograma para o julgamento do mensalão. Em todas elas, as sessões começariam em 4 de junho. Pelas propostas, o caso poderia consumir de três a cinco semanas. Só o voto do relator Joaquim Barbosa tem mil páginas.

Os ministros estudam a possibilidade de iniciar o julgamento em junho, após a apresentação do voto do revisor do caso, ministro Ricardo Lewandowski. A votação seria interrompida pelo recesso do STF, em junho, e retomada em agosto. Mas ainda não há definição oficial de cronograma.

O relator do processo, Joaquim Barbosa, apresentou outra proposta, sem data de início, que demandaria de cinco a seis semanas de julgamento. Os demais ministros devem concordar com o relator.

As ideias foram apresentadas em sessão administrativa. Após a reunião, Ayres Britto ponderou que a data impressa foi apenas "fictícia", já que o voto de Lewandowski não estava pronto. Nos bastidores, espera-se que o ministro revisor termine o trabalho em meados de junho. Só então o julgamento poderá ser marcado.

- Eu fiz apenas uma simulação. Botei 4 de junho, como poderia ter sido 4 de agosto ou 4 de setembro. Eu não posso dizer minha preferência por data, porque o revisor não disponibilizou o voto e ele tem que ser respeitado em seu planejamento. Foi só um exemplo - explicou o ministro.

Todas as propostas incluem a ampliação do número das atuais duas sessões plenárias semanais, devido ao tamanho do processo (mais de 50 mil páginas) e o número de réus (38). Joaquim Barbosa quer que o julgamento ocorra nas segundas, quartas e quintas-feiras à tarde. As terças-feiras continuariam destinadas às sessões de turma. Na sexta-feira, os ministros se dedicariam a outros processos em seus gabinetes, com a chance de decidir, por exemplo, pedidos de liminar.

-Gostaria de chamar a atenção para alguns aspectos sobre o nosso julgamento. Vamos ter um julgamento extremamente cansativo. O meu voto ultrapassa mil páginas - alertou Joaquim Barbosa.

- Essa é a proposta, mas o martelo não está batido. Ainda vamos fazer outra sessão administrativa para detalharmos os horários e ouvirmos mais uma vez os ministros para saber se essa proposta é a que vai ser deliberada - disse Ayres Britto, que deverá marcar nova reunião para a próxima semana.

O ministro Lewandowski chegou a propor que as sessões avançassem o período da noite, para que o resultado fosse mais ágil. Barbosa se opôs.

- Não podemos avançar muito, porque tenho minhas limitações - disse, referindo-se ao problema de quadril que o impede de ficar por muito tempo na mesma posição.

Celso de Mello fez coro ao relator:

- Também temos nossas limitações físicas.

Os advogados terão 38 horas para defender os réus em plenário. O voto do relator, segundo ele mesmo, seria lido em cerca de quatro sessões. A primeira proposta de Ayres Britto prevê 111 horas de julgamento.

Seriam três semanas, com sessões de cinco a oito horas de duração. A segunda proposta prevê 118 horas distribuídas em seis semanas. As sessões também teriam de cinco a oito horas de duração. Segundo a terceira proposta, o julgamento levaria quatro semanas, com 112 horas. As sessões teriam oito horas diárias.

FONTE: O GLOBO

Cachoeira se cala e CPI mira Delta

O contraventor Carlinhos Cachoeira negou-se ontem a responder às perguntas elaboradas pela CPI que se dedica a investigar o escândalo do qual é pivô. O impasse gerado por sua falta de colaboração teve um efeito colateral indesejado pela base aliada: colocou a Delta no alvo da CPI, que deve avançar na quebra de sigilo nacional da empreiteira. Com ar irônico, que beirou o deboche, Cachoeira repetiu que só vai falar após sua audiência judicial, marcada para 31 de maio e 1º de junho. Quarenta perguntas depois, a CPI acatou a sugestão da senadora Kátia Abreu (PSD-TO) para encerrar a sessão. "Estamos aqui perguntando a uma múmia. Não vou ficar dando ouro para bandido", disse. Ainda assim, houve embate entre governo e oposição: de um lado, os aliados do Planalto e o PT, que tentaram envolver o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, no esquema de Cachoeira; de outro, os tucanos, que fizeram perguntas que citavam o governador do Distrito Federal, o - petista Agnelo Queiroz, que teve assessores flagrados em negociações com Cachoeira

Cachoeira se recusa a depor, repete "não" 48 vezes, e CPI agora mira Delta

Boca fechada. Contraventor, pivô de duas operações da Polícia Federal e personagem central da comissão mista do Congresso, comparece a depoimento, mas se cala diante das perguntas dos parlamentares no mesmo dia em que STF nega seu pedido de liberdade

Alana Rizzo Eugênia Lopes Fábio Fabrini

BRASÍLIA - Personagem principal da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira, o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, disse "não" 48 vezes para os deputados e senadores ontem, ao se recusar a responder às questões da CPI. Com um ar irônico, que às vezes beirou o deboche, Cachoeira repetiu que só vai falar depois de sua audiência, marcada para os dias 31 de maio e 1.º de junho, na 11.ª Vara de Justiça Federal, em Goiânia. A falta de colaboração teve um efeito colateral indesejado pela base aliada: colocou a Delta Construções no alvo da CPI, que, diante da paralisia provocada por Cachoeira, deve avançar na quebra de sigilo da empreiteira em todo o País, e não apenas na região Centro-Oeste. "Não vou falar. Pedimos para reavaliar nossa vinda aqui. Quem forçou para eu vir aqui foram os senhores", reclamou Cachoeira, ao fim das cinco perguntas feitas pelo relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG).

Depois desse momento, ele adotou uma postura entre impaciente e entediado. Cabisbaixo, passou a maior parte da sessão rabiscando um papel à sua frente e repetindo: "Por instrução dos meus advogados, permanecerei calado"; "Só falo depois da minha audiência"; "Posso ajudar muito, mas depois". Passada uma hora e meia, a CPI capitulou e decidiu acatar a sugestão da senadora Kátia Abreu (PSD-TO) para que a ses- são fosse encerrada. "Estamos aqui perguntando a uma múmia. Não vou ficar aqui dando ouro para bandido", disse a senadora. O depoimento de Cachoeira seria o primeiro grande momento da CPI. Mas nem mesmo diante do anticlímax fugiu ao script de embate entre governo e oposição. De um lado, os aliados do Planalto e o PT que, a todo custo, tentaram com suas perguntas envolver o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), no esquema ilegal de Cachoeira. De outro, os tucanos, que fizeram perguntas direcionadas ao governador do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz. Provocado pela oposição, o relator Odair Cunha contrariou a estratégia de blindagem da base governista e defendeu a quebra do sigilo bancário da construtora Delta em âmbito nacional, além de seu principal acionista, Fernando Cavendish.

O argumento é que a Operação Saint- Michel – deflagrada pelo Ministério Público do DF, como continuidade à Monte Carlo – trouxe indícios do envolvimento da cúpula da empreiteira com o esquema de Cachoeira. Segundo integrantes da CPI, documentos obtidos na Saint- Michel mostram que os ex-diretores da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, e no Sudeste, Heraldo Puccini, tinham procuração para movimentar dinheiro em contas nacionais da constru- tora, e não apenas em suas re- giões de atuação, o que implica a autorização prévia da cúpula da empresa, no Rio. A quebra de sigilo, nacionalmente, poderá arrastar novos personagens graduados da política para os holofotes da CPI. "A possibilidade de quebra aumentou muito a partir das informações que recebemos hoje", acrescentou. Segundo o relator, o ex-diretor lidava com ao menos dez contas bancárias. Como a Justiça do DF já autorizou a quebra, uma ideia é apressar o compartilhamento dos dados. A investida de Cunha se deu após o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) citar ontem, durante a sessão, as informações da Saint-Michel. "O que precisamos é quebrar a barreira que a aliança PT-PMDB criou à quebra do sigilo da Delta", criticou. Monitorando o desgaste da Delta, o Planalto avisou que quer distância da crise: "Espero que haja a mais profunda investiga- ção", disse, no Senado, o minis- tro da Fazenda, Guido Mantega, sobre a negociação da empreitei- ra com o grupo J&F. Lorenzoni sugeriu acareações entre Cachoeira e o ex-diretor-geral do Dnit Luiz Antonio Pagot, que deixou o cargo em meio a denúncias de irregularidades no órgão. Pagot se diz vítima de um complô arquitetado pelo contraventor. A acareação também foi proposta pelo depu- tado Carlos Sampaio (PSDB- SP), que insistiu ainda num con- fronto entre Cachoeira e Waldomiro Diniz, ex-assessor do petista José Dirceu. Em 2004, Diniz presidia a Loterj e foi filmado cobrando propina de Cachoeira.

Supremo. Longe da CPI, Cachoeira foi derrotado no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que negou o pedido de liberdade. O advogado de Cachoeira, Márcio Thomaz Bastos, adiantou que repetirá o pedido no Supremo Tribunal Federal (STF).

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Ex-diretor agia em nome da Delta

Cachoeira é levado da cadeia para sessão da CPI, mas se recusa a responder a qualquer pergunta

No dia em que o bicheiro Carlinhos Cachoeira passou duas horas e meia na CPI e se recusou a responder a qualquer pergunta, irritando deputados e senadores, o relator da comissão, deputado Odair Cunha (PT-MG), revelou que o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, tinha procuração da empresa para movimentar contas que teriam abastecido empresas de fachada do contraventor. Com base na informação, a CPI passa a ter dados para quebrar o sigilo da Delta em todo o país, o que vinha sendo evitado por parlamentares do PT e do PMDB, embora a Justiça do Distrito Federal já tenha quebrado o sigilo da construtora. O silêncio de Cachoeira, que teve o tempo todo a seu lado o advogado Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça, pode levar a uma revisão do trabalho da CPI. "Se estamos perguntando diante de uma múmia, o que vão pensar de nós?", protestou a senadora Kátia Abreu (PSD).

Diretor tinha carta branca da Delta

Justiça já quebrou sigilo de contas da Delta nacional; CPI quer investigar empresa em todo o país

Roberto Maltchik, Paulo Celso Pereira

BRASÍLIA - O ex-diretor da construtora Delta no Centro-Oeste Cláudio Abreu recebeu uma procuração da direção nacional da empresa para movimentar contas que abasteceram empresas de fachada utilizadas pelo grupo do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. A informação foi repassada ontem pelo relator da CPMI que investiga as relações de Cachoeira com políticos e empresários, Odair Cunha (PT-MG), que na semana passada impediu a votação da quebra de sigilo da Delta nacional. Por conta das suspeitas de envolvimento de ex-dirigentes da empreiteira com Cachoeira, a Justiça do Distrito Federal já determinou a quebra do sigilo das contas da Delta nacional que Abreu teve procuração para movimentar .

Agora, Cunha admite que existem elementos suficientes para que a CPMI peça as informações bancárias e fiscais da Delta em todo o país. Na semana passada, parlamentares do PT e do PMDB conseguiram evitar que o sigilo fiscal, bancário e telefônico da matriz da construtora fosse quebrado alegando justamente que a atuação de Abreu se restringia às operações no Centro-Oeste. O deputado Ônyx Lorenzoni (DEM-RS) foi o primeiro a revelar que havia recebido a informação assim que chegou à CPI.

- Tanto Cláudio Abreu quanto Heraldo Puccini tinham autorização para operar as contas da Delta Centro-Oeste e da Delta Nacional. Cláudio Abreu inclusive emitiu cheques em nome da Delta Nacional. Agora é inevitável quebrar os sigilos dela - justificou Ônyx.

Embaraçado com a revelação, o relator Odair Cunha (PT-MG) pediu a palavra para afirmar que a CPI já dispunha da informação, até ontem não revelada. Cunha disse que a procuração indica que a direção nacional, inclusive o ex-presidente Fernando Cavendish, conhecia as transações operadas por Cláudio Abreu em nome do grupo de Cachoeira. ,

- A Delta nacional autorizou que Cláudio Abreu movimentasse suas contas através de procuração. Há um indício forte de que toda a diretoria e a presidência da Delta tinham ciência e consentiram com o movimento de Cláudio Abreu. As contas da Delta Nacional, por meio de Cláudio Abreu, foram instrumento de transferência de dinheiro para empresas em nome de laranjas ou empresas ligadas à organização criminosa. Na medida em que se identifica uma conta dessa forma, claro que alguém deu a procuração para que Cláudio Abreu fizesse essas movimentações - explicou o relator, que justificou a mudança de tom: - (Somos movidos) pelas provas, não por pressões políticas partidárias. Com base nas provas, aumentam os indícios e a probabilidade de nós quebrarmos o sigilo da Delta Nacional.

CPI vota quebra de sigilo em junho

Na quinta-feira passada o relator foi o responsável por a comissão não ter determinado a quebra de sigilo da matriz da construtora. Por isso, até agora, a CPI apenas quebrou o sigilo bancário das contas da Delta Centro-Oeste. A votação do requerimento de quebra de sigilo da Delta nacional pela CPMI deve ocorrer somente na reunião administrativa de 5 de junho.

Dados da Operação Monte Carlo, da PF, mostram que a Delta destinou R$ 39 milhões para empresas de fachada, como a Brava Construções e a Alberto & Pantoja, que pagaram despesas da organização e fizeram doações de campanha a parlamentares. Segundo o relator, a procuração requisitada pela CPI mostra que Abreu tinha respaldo da direção nacional para fazer depósitos nas contas das empresas. Cunha, porém, disse que ainda não recebeu informação sobre quais ex-diretores ou mesmo se o ex-presidente Fernando Cavendish assinaram a procuração.

FONTE: O GLOBO

J&F reclama de Delta ser a única construtora ameaçada pela CGU

Em recurso, empreiteira pede para ser tratada com impessoalidade e equidade

Gustavo Uribe, Martha Beck e Roberto Maltchik

BRASÍLIA e SÃO PAULO. Depois de a Controladoria Geral da União (CGU) rejeitar pedido de ampliação do prazo de defesa, a J&F, nova controladora da empreiteira Delta, entregou recurso no processo em que pode ser declarada a inidoneidade da construtora envolvida com o esquema de Carlinhos Cachoeira. No final da tarde e sob protestos, a Delta encaminhou à CGU documento de 48 páginas e pediu que seja tratada com impessoalidade e com equidade.

A empreiteira pode ser proibida de firmar contratos com o governo federal nos próximos cinco anos. No documento, a Delta alega que, diferentemente dela, as demais empresas citadas na Operação Mão Dupla, da Polícia Federal, não estão ameaçadas, pelo menos até agora, de sofrer sanções administrativas, apesar de terem sido apontados indícios de irregularidades

- Não é direito nosso tentar atingir terceiros, mas não se pode deixar de observar que são citadas outras empresas, que, no entanto, não possuem, aparentemente, processos sancionatórios. É necessário que a empresa seja tratada com impessoalidade e com justiça - ressaltou um interlocutor da Delta.

A empreiteira defendeu-se ainda da denúncia, feita pela PF, de que houve pagamento de propina e outros benefícios a servidores da autarquia federal em obras no Ceará. A Delta Construções argumentou que o edital das obras de infraestrutura previa pagamento de despesas inerentes, como diária e transporte, para a fiscalização dos serviços prestados pela empresa.

- O custeio é por conta da contratada, para prover os meios necessários de fiscalização. Como eu acuso uma empresa de algo que é a sua obrigação, exigida no contrato? - questionou um membro da Delta.

No pedido feito à CGU, a construtora alegava que o período para defesa foi curto: "A nova gestão da Delta Construções pediu a prorrogação no processo da CGU. Inicialmente, foram concedidos cinco dias, enquanto de uma forma geral costumam ser concedidos de 30 a 90 dias para empresas que entram com recursos". Segundo a empresa, não houve "igualdade de tratamento", pois a empreiteira tem nova gestão e necessita de um prazo maior para sua defesa.

Em nota, a CGU argumentou que o pedido da construtora foi indeferido com base em parecer da comissão, que apontou o fato de já ter sido concedida uma prorrogação. Além disso, segundo o órgão, a Delta recebeu cópia integral dos autos desde o início do prazo para a defesa.

- Sendo assim, a Controladoria Geral da União não vê motivo algum para nova prorrogação a não ser a clara intenção protelatória - afirmou o Jorge Hage, ministro-chefe da CGU.

Agora, a CGU vai analisar os argumentos da empresa e deve avaliar se precisa ou não de documentos complementares. Ainda assim, Hage, assegurou ontem que mantém a intenção de concluir o processo em até 60 dias. O órgão ainda não recebeu cópia da investigação que resultou na Operação Monte Carlo e aponta as relações entre a Delta e o grupo de Cachoeira. Após receber, a CGU deve abrir outro processo de inidoneidade.

FONTE: O GLOBO

Rubens Bueno para Cachoeira na CPMI: "Nós não somos teu"

Valéria de Oliveira

Deputado também perguntou ao contraventor de onde está saindo o dinheiro para pagar seu advogado, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos

“Parodiando o que ocorreu na semana passada, queria dizer, senhor Cachoeira, que nós não somos teu”, disse o deputado Rubens Bueno (PR), líder do PPS na Câmara, dirigindo-se ao contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, durante depoimento em que ele se manteve em silêncio durante todo o tempo na CPMI que apura as ligações do contraventor com autoridades, governos e empresas privadas. A frase é uma ironia com a mensagem do petista Cândido Vaccarezza (PT-SP) ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB).

Rubens Bueno questionou, antes, “de onde está saindo tanto dinheiro para uma contratação do vulto de (advogado e ex-ministro da Justiça) Márcio Thomaz Bastos”, que estaria cobrando cerca de R$ 15 milhões, “se a autoridade fiscal, em seu relatório, afirma não haver movimentação financeira relevante” de Cachoeira. Mais uma vez, o contraventor alegou que usaria o direito constitucional de manter-se calado.

Reconvocação

O líder do PPS começou ironizando o silêncio de Cachoeira, perguntando-lhe se ele era bem tratado na cadeia. Como o depoente se recusava a falar, pediu ao relator, Odair Cunha (PT-MG), que providenciasse a reconvocação dele após o seu depoimento em juízo. O contraventor será ouvido pela Justiça, em Goiânia, nos dias 31 de maio e 1º de junho.

Outro assunto levantado por Bueno foi o relatório da CPI dos Bingos, em 2005, na qual depôs o então assessor daquele que era o ministro da Fazenda da época, Antônio Palocci, Rogério Tadeu Buratti.

“Lá (na CPI dos Bingos) ele afirmou, clara e determinadamente, que esse grupo do qual o senhor faz parte abasteceu o caixa de campanha do PT em R$ 2 milhões”, afirmou o líder dirigindo-se a Cachoeira, que novamente não quis responder, mas observou que, após depor na Justiça, "terei muito para falar".

Bueno perguntou se havia alguma promessa de legalização do jogo e se os petistas haviam desistido. Em vão. Também não houve resposta para o questionamento sobre as relações com Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central, já que são ambos da mesma cidade, Anápolis.

O líder citou o fato de o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) ter injetado R$ 10 bilhões no frigorífico JBS. A empresa, controlada pela holding J&F, comandada por Meirelles, anunciou neste mês a compra da construtura Delta, que está no central da organização criminosa de Cachoeira.

Bueno referiu-se ainda a uma das conversas gravadas entre Cachoeira e Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta para a região Centro-Oeste, na qual o empresário do jogo afirmara que “o negócio” teria de ficar no nome da Delta e que a parceria precisaria ser em nível nacional. “O senhor tem essa parceria? Existe um contrato de gaveta?, perguntou o líder do PPS, sem mais uma vez obter resposta.

Novas ações

Ao avaliar o depoimento de Cachoeira, Rubens Bueno avaliou que o silêncio já era esperado. "A expectativa foi confirmada, vimos um Cachoeira mudo, mas vamos insistir nas perguntas com outros depoentes e buscar, por meio dos documentos que requisitamos e com base nos dados das quebras de sigilo, o esclarecimento de todos os fatos, cruzando as informações”, ressaltou o deputado.

O deputado espera ainda que na próxima reunião administrativa da comissão, marcada para o dia 5 de junho, seja aprovada a quebra dos sigilos da Delta em todo o país, bem como de seu dono, o empresário Fernando Cavendish. Rubens Bueno defende ainda a convovoção de Cavendish e dos governadores Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro, Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás, todos citados nas investigações.

FONTE: PORTAL DO PPS

Após fotos, Cabral reduz agenda externa

Divulgação de imagens com Cavendish afasta governador de aparições públicas

Cássio Bruno

Depois de aparecer em fotos ao lado do amigo e ex-presidente da construtora Delta, Fernando Cavendish, e de secretários em Paris, o que provocou uma crise política em sua administração, o governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) submergiu no Palácio Guanabara. Ele tem evitado aparições públicas e entrevistas. Segundo a agenda de Cabral, do início deste mês até ontem, ele deixou o gabinete em cinco dias para participar de apenas seis compromissos. Em abril, no mesmo período e antes de as imagens serem divulgadas, Cabral foi às ruas oito vezes, para 18 eventos. Hoje, às 11h, ele é esperado em encontro sobre ciência e tecnologia no Palácio Guanabara.

Neste mês, Cabral apareceu ao lado do ex-presidente Lula duas vezes: no dia 3, em um seminário sobre a África, no BNDES; e, no dia seguinte, no Teatro João Caetano, onde Lula recebeu títulos de Doutor Honoris Causa de universidades públicas do Rio. A presidente Dilma Rousseff também participou. A última vez em que Cabral teve compromisso oficial foi há 11 dias, nas inaugurações de uma UPP nos morros do Adeus e da Baiana, no Complexo do Alemão, e do sistema de saneamento do Lago Javary, em Miguel Pereira.

Reuniões com aliados para minimizar desgaste

Cabral tem feito reuniões com aliados, para tentar estancar o desgaste provocado pelo caso. Um desses encontros ocorreu na última sexta-feira, com o senador Francisco Dornelles (PP), o ex-presidente da Assembleia Legislativa Jorge Picciani (PMDB), deputados federais e estaduais. O grupo de Cabral também traça estratégias para contra-atacar o deputado federal Anthony Garotinho (PR), que divulgou fotos do governador com Cavendish.

As outras agendas públicas do governador neste mês foram no dia 2, no Guanabara, para assinar um termo de compromisso que aumenta a segurança em escolas estaduais. No dia 10, Cabral foi a Duque de Caxias inaugurar a ampliação de um museu. Foi neste evento que o peemedebista deu a única declaração sobre o caso.

- Nosso governo é um governo transparente, que tirou o Rio de um processo de decadência e o colocou na liderança dos investimentos nacionais e internacionais.

Ontem, cerca de 40 manifestantes fizeram, em frente às escadarias da Assembleia Legislativa, no Centro, um protesto contra Cabral e a Delta. Não houve confusão. Eles cobraram explicações das viagens de Cabral para o exterior. O movimento foi organizado nas redes sociais.

Com faixas e cartazes, os participantes ironizaram Cabral e o deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP), que integra a CPI do Cachoeira e mandou torpedo a Cabral durante audiência da comissão. "Pizzaria Vaccarezão: pedindo um Cabral à francesa, você ganha uma CPI brotinho", estampava uma faixa. Procurado, o governador não quis falar sobre os compromissos da agenda pública e o protesto.

Também ontem, o plenário do Tribunal de Contas do Estado do Rio aprovou, por unanimidade, o parecer prévio favorável, mas com ressalvas, determinações e recomendações, às contas de gestão do governo Cabral referentes ao exercício 2011. O conselheiro Aluísio Gama de Souza, relator do processo, ressaltou o cumprimento de todas as normas e trâmites legais por parte do Executivo fluminense.

O processo sobre as contas será enviado à Alerj para votação e para o governador. A decisão dos conselheiros foi unânime. Um dos conselheiros do TCE, Aloísio Neves, aparece nas fotos de Cabral e Cavendish em Paris.

Colaborou Ronaldo Braga

FONTE: O GLOBO

Mercado reage mal a pacote de estímulo

O pacote de estímulo ao consumo lançado pelo governo teve efeito negativo no mercado financeiro. A Bovespa fechou em queda, o dólar deu novo salto e os juros no mercado futuro dispararam. Para os investidores, as medidas, além de tímidas, não reforçam a oferta

Bolsa cai 2,74% e dólar tem a maior cotação em 3 anos, apesar de intervenções do BC

Fábio Alves

O pacote de estímulo ao consu- mo lançado pelo governo ge- rou um efeito negativo no mercado financeiro. Enquanto as bolsas de valores europeias tiveram um dia de recuperação, a Bovespa fechou em forte queda, o dólar deu novo salto frente ao real e os juros no mercado futuro dispararam. O mau humor no Brasil começou logo no início do dia. A crítica entre os investidores era que as medidas foram restritas a alguns setores e repetem a fórmula adotada na crise de 2008 e 2009: o estímulo ao consumo, embora o remédio necessário agora seja dar força à oferta, por meio de reforço à indústria. "Há um questionamento sobre o modelo de crescimento do Brasil", disse o diretor de Pesquisa para Mercados Emergentes da América Latina da corretora Nomura Securities em Nova York, Tony Volpon. "O consumidor brasileiro está muito endividado, então ofertar mais crédito para ele não vai ajudar muito, ao contrário da situação em que vivíamos em 2008." O índice da Bolsa brasileira encerrou em baixa de 2,74%, acumulando queda de quase 12% nos últimos 30 dias – parte das perdas de ontem foi associada à declaração do ex-premiê grego Lucas Papademos de que a saída da Grécia do euro é um risco real. No mercado futuro de juros, os contratos com vencimento em 2013 subiram para 7,91%, ante 7,81% na véspera. As empresas do mercado imobiliário, que ficaram de fora do pacote do governo, foram as que apresentaram maiores quedas na bolsa. A PDG caiu 11,34%, a Gafisa, 9,9%, e a Rossi, 9,31%.

Dólar. Com o dólar em alta desde o início dos negócios, o Banco Central decidiu atuar com mais força no mercado de câmbio. Em dois leilões, o BC vendeu US$ 2,2 bilhões no mercado futuro. Mesmo assim, a moeda seguiu em firme tendência de valorização, até fechar o dia 1,81% mais cara, a R$ 2,079 – o maior preço desde 15 de maio de 2009. Analistas afirmam que o ritmo da alta foi bem superior à deterioração do noticiário e que, se o movimento continuar nessa velocidade, novas intervenções do BC não serão surpresa.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem no Senado que a alta da moeda pode ter efeitos colaterais sobre a inflação, mas avalia que esse repasse será limitado. "Todo remédio tem efeito colateral, mas você não deixa de tomar o remédio", afirmou. "Atuamos sobre o câmbio para mudar seu patamar.

Desde janeiro, ganhamos 20% de competitividade." No mercado, há várias vozes que discordam. Para o diretor de câmbio da Pioneer Corretora, João Medeiros, a subida recente tem sinais de especulação, e a cotação parece começar a preocupar o BC. "A velocidade desse movimento incomoda", disse.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Montadoras cortam preço de veículos em até 10%

Um dia após o governo anunciar a redução de impostos para o setor, as montadoras começaram a baixar os preços dos automóveis. Fiat, Ford, Renault, JAC e Hyundai anunciaram reduções. Os descontos divulgados variam de 4,9% a 10,3%, principalmente para os modelos de carros populares. Com o corte de IPI e IOF, o governo quer elevar o consumo e evitar que o avanço do PIB fique abaixo de 3%

Após pacote do governo, preço de carros cai até 10%

Redução de tributos para impulsionar as vendas vai até 31 de agosto

Objetivo é diminuir os estoques nos pátios das montadoras, que atingiram o maior nível desde a crise de 2008

Venceslau Borlina Filho, Gabriel Baldocchi

RIO, SÃO PAULO - Um dia após o governo anunciar corte de tributos para estimular a indústria automobilística, as montadoras começaram a baixar os preços. Os veículos ficaram até 10% mais baratos.

A redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para a venda financiada de automóveis vale até 31 de agosto.

O objetivo do acordo, selado anteontem entre o ministro Guido Mantega, os quatro maiores fabricantes de veículos e os quatro principais bancos do país, é reduzir os estoques e equilibrar a produção.

O nível de veículos nos pátios das montadoras e concessionárias atingiu 45 dias de vendas -o mais alto desde novembro de 2008, após o estouro da crise nos EUA.

O acordo garante ainda liberação de parte do compulsório dos bancos recolhido pelo Banco Central para financiamentos de veículos. Com isso, a estimativa é que as vendas de veículos alcancem 3,8 milhões de unidades -aumento de 5,5% ante 2011.

A redução

A Fiat reduziu o preço do Uno Vivace 1.0 (duas portas) em 10,3%, e o do Palio Attractive 1.0 flex (quatro portas), em 9,1%. Na Ford, os carros com versão de entrada -Ka 1.0 (duas portas) e Fiesta 1.0 (quatro portas)- tiveram redução de 10%. As tabelas devem sair hoje.

A Renault diminuiu os preços do Logan e do Sandero (versões de entrada) em, respectivamente, 9,9% e 10,1%. A Hyundai também anunciou redução de preços. A chinesa JAC, que tem IPI maior por não ter fábrica no Brasil, mas foi beneficiada em menor proporção, também baixou os preços, entre 4,9% e 5,2%.

Os carros com motor 1.0 feitos no país tiveram o IPI reduzido de 7% para zero.

Os automóveis com motor de 1.0 a 2.0 flex brasileiros tiveram a alíquota reduzida de 11% para 6%. O IPI dos importados com essa mesma variação de cilindrada caiu de 41% para 35,5%.

Para o consultor da PwC Marcelo Cioffi, a redução dos impostos e a liberação de parte do compulsório formaram um pacote que vai criar um "efeito positivo na demanda". "Essa receita foi positiva em 2008, durante a crise, e será mais agora", disse.

Segundo o consultor Arnaldo Brazil, da MSX International, a medida cria um "bom momento" para aquisição de veículos novos.

A Anfavea (associação dos fabricantes de veículos) afirmou que a expectativa é que as medidas possam reverter a queda nas vendas.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Pacote falha ao não abordar os problemas estruturais

Eduardo Sodré

Os fabricantes de automóveis sabiam, desde o início do mês, que as regras de cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) iriam mudar novamente.

Tudo ocorreu conforme o negociado, incluindo o curto prazo de validade da medida (até agosto), que estimula a corrida às concessionárias e antevê provável prorrogação. Contudo, questões importantes foram postergadas.

A manutenção dos empregos é uma boa notícia para os trabalhadores. Entretanto, faltam ações que colaborem para a ampliação da capacidade produtiva nacional (e consequente abertura de vagas), o que só acontecerá se houver condições para exportação.

As marcas que, após as restrições às importações, demonstraram interesse em fabricar veículos no Brasil sabem que o mercado interno não é o bastante para justificar grandes investimentos.

A benesse concedida agora não muda o cenário -e talvez tenha efeito oposto. Constantes mudanças de regras afugentam o investidor.

Fabricantes e importadores estão satisfeitos com a possibilidade de reduzir estoques sem ter de mexer nas margens de lucros -o "prejuízo" ficará com o governo.

O ganho será maior com ações que deem à indústria brasileira possibilidade de se tornar mais competitiva diante de gigantes exportadores como Japão, China e México.

Investir em facilidades para o escoamento da produção, consolidar acordos comerciais, conceder benefícios para a formação de novos polos industriais e corrigir distorções tributárias são medidas que podem gerar impacto positivo a médio e longo prazo, mas têm sido deixadas para um futuro impreciso.

Renúncia fiscal para estimular a indústria é um recurso válido, que tem se mostrado eficaz em momentos de desaceleração da economia. Mas a simples repetição da fórmula não soluciona problemas estruturais.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A armadilha da dívida

Quase metade da renda anual do brasileiro já é engolida com compromissos financeiros

Ronaldo D"Ercole, Roberta Scrivano e Lucianne Carneiro

No momento em que o governo tenta conter de novo o desempenho fraco da economia pelo consumo, o peso das dívidas antigas alcança valores recordes no orçamento das famílias brasileiras. Em abril, só as dívidas financeiras representavam em média 45% da renda anual, segundo projeção do economista Simão Silber, da Universidade de São Paulo (USP), com base em dados do Banco Central (BC). Esse percentual era de 24,94% em janeiro de 2007 e de 35,8% no começo de 2010.

- O comprometimento das famílias com o endividamento aumentou bastante recentemente e dá sinais de saturação. A questão é que o maior acesso a crédito no Brasil é acompanhado por taxas de juros ainda elevadas, o que significa um perfil de endividamento que não é saudável. Isso gera a armadilha da dívida. As pessoas vão se estrangulando e ficam presas aos bancos - afirma o professor de Economia da Uerj Luiz Fernando de Paula, admitindo risco de aumento de inadimplência por causa das medidas de estímulo ao consumo anunciadas pelo governo.

Além disso, atualmemte, todo mês, mais de um quinto da renda das famílias já está comprometida com o pagamento de dívidas bancárias. Neste caso, essa fatia saltou de 18%, em janeiro de 2008, para 22% em fevereiro último. Um percentual muito elevado, segundo economistas, já que o consumidor ainda tem despesas como educação, habitação, transporte, saúde e alimentação. O excesso de dívidas acaba se traduzindo em aumento de inadimplência. Em março, a taxa, que considera atrasos acima de 90 dias, chegava a 7,4% dos financiamentos para pessoas físicas, ou R$ 38,85 bilhões.

Classe C deve 60% de sua renda anual

O educador financeiro Mauro Calil considera o grau de endividamento das famílias hoje elevado. Ele acredita que as novas medidas de incentivo ao consumo podem até ser favoráveis para a sociedade, por estimularem a economia, mas alguns indivíduos pagarão a conta, com mais endividamento.

A situação no Brasil é mais delicada que em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a fatia da renda mensal para quitar dívidas bancárias varia de 15% a 17%. Em países ricos, o nível de endividamento pode até ultrapassar 100% da renda anual. Mas, como os juros são menores e os prazos muito mais longos que no Brasil, o peso final no orçamento mensal das famílias (que é o comprometimento) é proporcionalmente menor. Outro agravante no caso brasileiro, segundo o professor da Uerj, é o prazo mais curto dos financiamentos.

- O endividamento e, principalmente, o comprometimento da renda mensal hoje são muito maiores que em 2008 e 2009, e o pacote do governo é o mesmo. Para voltar a se endividar com crédito, o consumidor tem de recuperar espaço no orçamento - diz Luiz Rabi, gerente de indicadores de mercado da Serasa Experian.

Cálculos da área econômica do banco Pine indicam que o nível de endividamento médio é ainda maior entre as famílias da chamada classe C, com renda mensal entre 2,5 e cinco salários mínimos (de R$ 1.555 a R$ 3.110): chegaria a 60% da renda anual.

- Ultimamente as dívidas que esse extrato têm contraído são mais caras que em 2009, por exemplo. Até então, o endividamento era em CDC (crédito direto ao consumidor), agora há dívida em cheque especial, cujos juros são mais altos - observa Marco Maciel, economista-chefe do banco Pine.

Luiz Fernando de Paula lembra ainda que a baixa renda, além de só ter acesso a crédito com taxas de juros mais altas, tem menos facilidade para negociar suas dívidas com as instituições financeiras.

O encarregado administrativo Daivison da Costa, de 31 anos, foi um dos que se viu envolvido em dívidas que não conseguia pagar. Em 2007, ele teve um cheque de cerca de R$ 2 mil protestado às vésperas de seu casamento. As despesas do dia a dia e os gastos com a cerimônia e com a casa nova dificultaram o pagamento.

- Outro problema foi o parcelamento proposto pelo banco. As parcelas eram muito altas, incompatíveis com meus gastos mensais e com juros muito altos - conta Daivison.

A supervisora de vendas Jane Araújo, de 42 anos, contraiu uma dívida de R$ 1.600 no banco em 2007, mas só deu atenção ao problema quando o débito bateu R$ 6 mil:

- Meu limite era de quase R$ 2 mil, e, a essa altura, era impossível pagar.

Silber, da USP, não vê nas medidas de estímulo ao crédito grande potencial para impulsionar a economia.

- Por mais que o governo queira, vai ser difícil esticar tanto o crédito como já foi feito. E isso não ocorrerá por causa da estrutura atual. Os juros ainda são muito altos e dívidas, mesmo pequenas, já comprometem muito a renda. Além disso, os prazos dos empréstimos são curtos no Brasil - diz Silber, lembrando que o prazo médio dos empréstimos para pessoa física é de 600 dias, menos de dois anos.

A economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC) Marianne Hanson também acredita que o endividamento vai limitar o impacto dessas medidas, porque as pessoas estão mais cautelosas.

As operações de crédito do sistema financeiro alcançaram 49,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no ano passado, mais que o dobro dos 24,1% registrados em 2003. É consenso entre os economistas que a expansão do crédito agora ocorrerá num ritmo menos vertiginoso.

Maciel, do Pine, ressalta ainda que a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de veículos e do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas operações de crédito são muito restritos à indústria automotiva.

Colaborou Evelyn Soares

FONTE: O GLOBO