terça-feira, 21 de outubro de 2014

Eliane Cantanhêde - Sai de baixo!

- Folha de S. Paulo

Aécio Neves saiu bem do primeiro turno, como a grande novidade, e abriu bem o segundo, ultrapassando numericamente Dilma no primeiro Datafolha. A reviravolta desta segunda (20) vem numa hora muito ruim para o tucano --a hora da consolidação dos votos.

Essa pesquisa: 1) mostra que os ataques de Dilma estão dando certo; 2) pode mover milhões de indecisos ou votos infiéis pelo país afora. A dias da eleição, o ímpeto é votar em quem está na frente.

A campanha de Aécio estima crescer e até ultrapassar Dilma em Estados chaves como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, além de reduzir bastante a vantagem em Pernambuco, onde o tucano conquistou o apoio da viúva, dos filhos e dos aliados de Eduardo Campos.

É nesses quatro focos que Aécio pensa contrabalançar a desvantagem no Norte e Nordeste, redutos petistas, mas a estratégia parte da premissa de que os votos nos demais Estados estão cristalizados. Estão?

Dilma investe nos mesmos quatro --MG, RJ, PE e RS--, mas não descuida daqueles em que o PT é forte e nos quais ela já saiu vitoriosa no primeiro turno. Além de evitar a sangria em redutos que podem oscilar, como o Rio, quer se fortalecer (ou enfraquecer Aécio...) onde ela já é forte.

O interessante é que São Paulo, maior colégio eleitoral do país, entra de forma enviesada, mas é central na estratégia. É a maior vitrine da campanha de Aécio (que passou a se referir a Alckmin e a Serra nos debates), mas começou a ser também uma perigosa vidraça, por causa da crise da água. O confronto de Dilma não é mais com o governo FHC, é com o governo do PSDB em São Paulo, bem mais atual, convenhamos.

A campanha petista tem rumo, sabe aonde quer chegar e não tem o menor prurido de usar todo e qualquer meio para chegar lá. Está bem mais difícil dar certo com Aécio do que deu com Marina. Mas, com empate técnico, esses últimos dias serão de vida e morte. Sai de baixo!

Luiz Carlos Azedo - O Brasil é grande

• As políticas de mobilidade social implementadas pelo governo Lula, com o abandono dos fundamentos econômicos do governo FHC, perderam sustentabilidade por causa do baixo crescimento

- Correio Braziliense

Uma das maiores falácias dessa campanha eleitoral é a suposta polarização entre trabalhadores e patrões, pobres e ricos, esquerda e direita, a partir de uma perspectiva ideológica com que se procura caracterizar a disputa entre a presidente Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Na verdade, trata-se de uma velha estratégia do PT para mobilizar a militância, que estava desmotivada por causa das denúncias de corrupção envolvendo o partido, principalmente depois da Operação Lava-Jato.

Sun Tzu, o famoso general chinês da Arte da guerra, já dizia que um exército encurralado, sem uma rota de fuga, se torna muito mais perigoso — porque lutará até a morte. É mais ou menos o que está acontecendo com a militância petista encastelada nos órgãos federais, empresas estatais e fundos de pensão. Até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz a campanha do PT nos estados com uma virulência que não condiz com um ex-ocupante da Presidência. Teme ter a imagem “desconstruída”, da mesma forma como o seu antecessor.

Quem acompanha os militantes petistas nas redes sociais tem a sensação de que o Brasil vive um processo revolucionário e que haveria uma contra-revolução em marcha. O que se passa não tem nada a ver com isso, muito pelo contrário. Não há ameaça de retrocesso; há uma estagnação. O ímpeto transformador das políticas de transferência de renda do governo Lula, com o Bolsa Família, nunca teve nada de revolucionário, nem reformista. Trata-se tão somente de uma política social-liberal de focalização dos gastos sociais nas parcelas mais pobres da população, em detrimento das políticas de bem-estar social na Previdência, na saúde, na educação, nos transportes públicos etc. — essas, sim, de caráter social-democrata.

Não há demérito nisso, pelo contrário: a escala de benefícios concedidos às populações mais pobres — em torno de 13,5 milhões de famílias — contribuiu não só para melhorar a vida dessas pessoas, como também para ampliar o mercado interno. Mais importantes para isso, porém, foram a recuperação do salário mínimo e as aposentadorias rurais, que representaram uma formidável injeção de recursos nas regiões mais pobres do país, principalmente no Norte e no Nordeste. Além disso, o chamado bônus demográfico — a redução de número de dependentes (crianças e idosos sem renda) em relação à população economicamente ativa — ajudou a elevar a renda familiar.

Avanço ou estagnação
Nada disso seria possível sem o Plano Real, lançado ainda durante o governo de Itamar Franco, e a estabilização da economia, na gestão Fernando Henrique Cardoso, que também enfrentou com coragem a crise fiscal do Estado brasileiro. Esse problema demandou, além das privatizações, uma mudança de mentalidade dos gestores públicos em relação às contas de estados e municípios. A aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal foi a contrapartida dos políticos brasileiros à “securitização” pela União das dividas dos demais entes federados. Isso explica por que a dívida pública federal aumentou exponencialmente no período.

A lógica que opõe de forma atemporal o governo de Fernando Henrique ao de Lula, para além do que realmente separa uma gestão de outra, é sectária e agride o bom senso, uma vez que enfrentaram conjunturas mundiais diferentes e cumpriram tarefas da agenda nacional também diversas. O mesmo já não se pode dizer do governo de Dilma Rousseff, que recebeu o Palácio do Planalto com o país crescendo 7,5% ao ano, com a maior base de sustentação no Congresso de que se tem notícia e apoio empresarial sem precedentes. Entre amigos, o ex-presidente Lula cansou de se queixar da petista, que, em três anos e meio de mandato, jogou tudo isso pela janela. Não é à toa que, agora, enfrenta tantas dificuldades para se reeleger, o que seria mais natural.

Na verdade, o experimentalismo econômico e o excesso de intervenção estatal nas relações de mercado durante o governo Dilma Rousseff, além de sua notória inabilidade para contornar os obstáculos políticos , fizeram o país desandar. Estamos com a inflação raspando o teto da meta, taxa de crescimento quase zero e uma crise de confiança dos investidores privados no governo. Tivesse Dilma Rousseff mantido os fundamentos da economia e negociado com a oposição no Congresso, teria feito um governo mais bem-sucedido.

O xis da questão nesta eleição é que as políticas de mobilidade social implementadas pelo governo Lula, com o abandono dos fundamentos econômicos do governo Fernando Henrique Cardoso, perderam sustentabilidade por causa do baixo crescimento. Além disso, a agenda do governo Dilma no primeiro mandato permanece inconclusa: os problemas de infraestrutura demandam investimentos privados e a saúde, a educação, os transportes, a segurança e a Previdência dos trabalhadores do setor privado exigem um salto de qualidade.

Raymundo Costa - Governo novo, crise antiga

• Lula se incomoda com Graça Foster à frente da Petrobras

- Valor Econômico

Entre os últimos sábado e domingo, a presidente Dilma Rousseff avançou dois passos e deu um para trás no chamado escândalo da Petrobras. Cobrada a se posicionar pelos adversários, desde o primeiro turno, a presidente avançou quando reconheceu que houve desvio de dinheiro público em operações capitaneadas pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa. Não se tratava de saber se houve ou não desvio de recursos. " Houve, viu?", disse, em entrevista coletiva concedida no sábado no Palácio da Alvorada. No debate da TV Record, domingo à noite, a presidente da República foi um pouco mais cuidadosa e disse que havia "indícios de desvio" de dinheiro público.

No sábado, a candidata não deixava margem para dúvidas. "Nós queremos ele (o dinheiro desviado) de volta", disse aos repórteres escalados para ouvi-la num dos dias mais quentes e secos deste ano, em Brasília. "Ninguém sabe ainda o que é que deve ser ressarcido, porque a chamada delação premiada, onde tem os dados mais importantes, não foi entregue a nós" disse a candidata. "Agora, ressarcir, eu farei todo o meu possível para ressarcir o país se houve desvio de dinheiro público".

As declarações feitas no debate da Record deixaram Dilma mais próxima de seu partido, o PT. Com alguns de seus quadros envolvidos na delação premiada de Paulo Roberto Costa, o Partido dos Trabalhadores insiste que não bastam as declarações do ex-diretor da Petrobras ou de qualquer uma das outras quatro pessoas que fizeram acordo com a Justiça para contar a verdade em troca de redução de penas. É preciso também que apareçam recibos, depósitos, transferências de dinheiro para que as delações não sejam apenas denúncias vazias, mas fatos concretos que possam ser comprovados. O Supremo Tribunal Federal (STF) é que dará a palavra definitiva sobre o que foi delatado especialmente por Costa e pelo doleiro Alberto Youssef.

Até o domingo à noite, os interlocutores mais assíduos da presidente apostavam muito mais na Dilma de sábado que na Dilma da TV Record. Com o mandato renovado, ela estaria disposta a enfrentar o sistema político que permite a um condomínio de partidos nomear e manter por anos um diretor como Paulo Roberto Costa, mas também disposta a bater de frente com a tendência dominante no PT, chamada de Construindo um Novo Brasil (CNB), grupo que está por trás de todas as denúncias nas quais o PT esteve envolvido, depois que assumiu o Palácio do Planalto, em 2003.

Resenha breve: a cúpula da CNB esteve envolvida no mensalão, no episódio dos aloprados e agora alguns de seus integrantes foram citados no escândalo da Petrobras. A acomodação no governo, a prisão e as denúncias contra seus principais dirigentes fizeram com que a CNB deixasse de formular políticas e de dirigir o partido. Deve-se atribuir grande parte do péssimo desempenho eleitoral de Dilma e do PT, em São Paulo, à implosão da CNB. Não é à toa que o PT é rejeitado por pouco mais de 21% dos paulistas, índice que no Ceará não passa da casa de um dígito. Já no Paraná, próximo a São Paulo, também governado pelo PSDB, o índice de rejeição do petismo chega a cerca de 13%.

Não importa o vencedor de domingo, o escândalo da Petrobras vai cair no colo do próximo presidente da República. Dilma ou Aécio Neves (PSDB), o candidato da oposição, podem fazer um bom uso dele, pois há um consenso, entre os dirigentes partidários, que o caso tem potencial para atingir toda a atual cúpula de um Congresso controlado pelo PMDB, é certo, mas com fatias de poder mãos do PT e dos demais partidos aliados. No limite, a crise política decorrente da implosão do esquema Petrobras tem o mesmo poder de destruição da CPI do Orçamento, nos anos 1990, e do mensalão, de 2005. As duas atingiram a elite dirigente do Congresso.

A crise pode levar a um realinhamento de forças no Legislativo, o que deve exigir dedicação, habilidade e poder de articulação do presidente da República com o Congresso. Uma oportunidade para o encaminhamento da proposta de reforma política, cujo êxito será maior à medida que não represente os interesses de um só partido, sobretudo o PT (no governo ou na oposição). Constituinte exclusiva, como quer a presidente, tem poucas chances de sucesso. Está amadurecendo o fim das coligações proporcionais. Junto com mudanças na legislação sobre o financiamento de campanhas, essas duas mudanças em duas ou três eleições poderiam reduzir o número de partidos com representação no Congresso dos 28 que elegeram parlamentares, na eleição, a cinco ou seis. O financiamento público encontra dificuldades entre os congressistas, mas tudo indica que o STF vai acabar com o financiamento de empresas.

Se conseguir a reeleição, no domingo, a presidente Dilma terá de lidar também com o contencioso interno do PT. À exceção de Ricardo Berzoini (Relações Institucionais), os nomes projetados para o próximo governo são de tendências concorrentes da CNB, como a Democracia Socialista (DS) do ministro Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário) ou a Mensagem ao Partido, do governador da Bahia, Jaques Wagner. Peça-chave nessa recomposição da maioria, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não terá dificuldades para rifar a CNB, se lhe for conveniente. Ele próprio tem convocado o PT a voltar às ruas. Mas a Petrobras é uma das causas principais da tensão que permeou suas relações com a presidente, durante a atual campanha eleitoral.

Lula se incomoda particularmente com a atuação de Graça Foster à frente da presidência da Petrobras, como se tudo o que houve de ruim na estatal tivesse ocorrido em seus dois mandatos.

Boa parte do PT de Brasília planeja votar em Jofran Frejat para o governo distrital, candidato do PR que tem como vice a mulher do ex-governador José Roberto Arruda. O candidato favorito é um aliado histórico dos petistas, Rodrigo Rollemberg. Argumento: com o PSB no poder, será mais difícil fazer oposição.

José Casado - E a vida real, presidente?

• A cinco dias da votação os eleitores não têm a menor ideia de como o próximo presidente imagina fazer na crise de água e de energia, no caos da saúde e do saneamento público

- O Globo

A vida real começa na próxima segunda-feira. O presidente eleito deverá enfrentar um cenário de emergências urbanas e rurais. Seus efeitos só podem ser parcialmente mitigados, mas, se não houver eficiência na resposta imediata, poderá resultar em pesado ônus político logo na estreia do novo governo.

Falta água em uma de cada três cidades brasileiras. Das margens do Tietê, em São Paulo, até à beira do Riacho do Sangue, no interior do Ceará, sobram sol, plantações dessecadas, desemprego na agroindústria, torneiras sem água e esperança com arribações de verão.

As chuvas não devem demorar, mas serão insuficientes para assegurar a reposição dos reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste até o nível mínimo (42%) necessário para garantir o abastecimento de energia — avisam diferentes institutos meteorológicos.

Significa que o presidente eleito no domingo corre o risco de atravessar o primeiro semestre de 2015 no papel de gerente de um racionamento de água e de energia no Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Crises dessa natureza costumam impor um alto custo político aos governantes de plantão.

Aécio Neves e Dilma Rousseff sabem que racionamento de energia ainda não aconteceu porque caiu o consumo nacional, em decorrência da estagnação da economia e da grande elevação nas tarifas cobradas à indústria, o maior consumidor.

Não há discurso que resolva a seca na Bacia do São Francisco, fonte de abastecimento para 521 municípios (10% do território nacional), ou o esgotamento dos reservatórios de usinas hidrelétricas no Paraná, em São Paulo e em Minas Gerais. Em outubro do ano passado estavam cheios em mais da metade. Agora, a água disponível mal ultrapassa 20% da capacidade de armazenamento.

A abstração da crise de água para consumo humano e produção de energia, assim como o caos no sistema saúde e saneamento público, foi um dos aspectos mais curiosos dessa campanha eleitoral caracterizada por golpes abaixo da linha do intelecto.

A cinco dias da votação os eleitores não têm a menor ideia de como o próximo presidente imagina fazer para lidar com:

a) a escassez de água nas torneiras e nas usinas hidrelétricas;

b) a crise no Sistema Único de Saúde, do qual dependem oito em cada dez brasileiros. Ela está no topo das prioridades do eleitorado e produz uma rotina de matança nos pronto-socorros (no atendimento do Hospital de Urgências, de Teresina, registraram-se seis mortes por dia no primeiro trimestre);

c) o déficit de saneamento básico, que adiciona à superlotação dos hospitais um contingente de 700 mil novos pacientes por ano. Oito em cada dez projetos federais anunciados há quatro anos, por exemplo, não saíram do papel.

Como não se sabe se Aécio e Dilma têm propostas para lidar com essas emergências nacionais, cujas características são doenças em disseminação, mortes no atacado e destruição econômica, resta uma possibilidade: talvez ainda não tenham conseguido enxergar o problema.

Paulo Hubert - Pesquisas improváveis

- Valor Econômico

Os resultados das eleições de 5 de outubro trouxeram algumas surpresas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, Tarso Genro (PT), aparecia com larga vantagem nas pesquisas (35% contra 20% dos votos totais no último levantamento do Ibope). Após a apuração, caiu para o segundo lugar, com 28,7% do total de votos. Na Bahia, aconteceu o contrário: o candidato do mesmo partido, Rui Costa (PT), aparecia com 36% dos votos totais, e terminou com 45,5%, eleito em primeiro turno. Em São Paulo, mesmo acertando o resultado final (Geraldo Alckmin do PSDB reeleito no primeiro turno), a última pesquisa Datafolha apontava uma votação 3,5 pontos percentuais acima do que foi observado nas urnas. A pergunta que ocorre então é: como explicar essas diferenças? São erros aceitáveis, já que as pesquisas são amostrais? Devem ser atribuídas à metodologia utilizada pelos institutos? Ou será o contrário: é o próprio resultado das urnas que não representa perfeitamente a vontade dos eleitores, que seria mais bem capturada pelas pesquisas?

Consideremos em primeiro lugar o erro aleatório. As pesquisas, afinal, são feitas com base em amostras de no máximo 2 mil eleitores (no caso das pesquisas para o governo dos Estados). Seria razoável portanto que, por mero acaso, ocorressem diferenças dessa magnitude. Ou não?

Conhecendo os resultados finais na população toda, podemos calcular uma medida de probabilidade associada a cada pesquisa. Assumindo que uma amostra aleatória seja retirada da população final, utilizamos um modelo simples (distribuição hipergeométrica) para obter a probabilidade de que ocorram, ao acaso, diferenças iguais ou maiores do que as que vimos nas pesquisas. Esse cálculo produz resultados interessantes. Em São Paulo, por exemplo, a última pesquisa Ibope apresentou uma diferença cuja probabilidade de ocorrência é de cerca de 1,27% (sempre considerando a probabilidade de diferenças iguais ou superiores à encontrada). Isso significa que esperaríamos encontrar uma diferença desse tamanho (ou maior) em uma a cada 79 pesquisas, aproximadamente. No caso do Datafolha, também em São Paulo, o resultado é ainda mais extremo: probabilidade de 0,0045%, uma diferença que ocorreria, ao acaso, apenas uma vez a cada 22.154 pesquisas (ver tabela).

Podemos interpretar esses valores de diferentes maneiras. Primeiro: sabemos que os institutos de pesquisa brasileiros não utilizam a amostragem aleatória. Esse tipo de estudo tem um custo elevado, e leva um tempo maior para ser concluído. Mas a utilização de metodologias alternativas (como a amostragem por cotas, por exemplo), de custo mais baixo, só deveria ser aceitável se produzisse estimativas de qualidade próxima àquelas feitas de forma completamente aleatória. E não parece ser esse o caso, já que uma amostra aleatória raramente produziria diferenças tão grandes como essas.

Em favor dos institutos, porém, há uma segunda interpretação possível: a mudança de opinião dos eleitores. Entre a realização da pesquisa e a votação propriamente dita, pode haver uma migração de votos de um candidato a outro. Para analisar esse argumento, podemos repetir o exercício acima e calcular qual o tamanho dessa mudança para que as diferenças observadas atingissem uma probabilidade mínima (digamos 5% - uma ocorrência a cada 20 pesquisas em média). A resposta é diferente em cada Estado. Em Alagoas, por exemplo, seria necessário que o primeiro colocado, Renan Filho (PMDB), perdesse 1,7% dos votos totais entre a realização da última pesquisa Ibope (entre 28/09 e 3/10) e a votação. No Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB) teria que ter amealhado 3,6% dos votos entre a pesquisa e o pleito. Já em Pernambuco, Paulo Câmara, também do PSB, precisaria ter conquistado 9,8% dos eleitores nos últimos dias da campanha, para que a diferença entre a pesquisa Ibope e o resultado das urnas pudesse ser explicada pela mudança de opinião.

Não podemos descartar como impossíveis essas migrações. As próprias pesquisas, porém, mostram que grandes variações num espaço de poucos dias não são comuns. De modo que restaria, então, a terceira possibilidade: é o resultado das urnas que é impreciso. Seja pela dificuldade que alguns eleitores podem encontrar ao interagir com as urnas eletrônicas, seja por falhas mais graves no processo. Esta linha de argumentação ganha força se verificarmos a diferença entre os eleitores que declaravam voto em branco ou nulo, nas pesquisas, e a proporção final desse tipo de voto. Em todos os Estados, os levantamentos Ibope e Datafolha mais próximos do dia do pleito subestimaram a proporção de nulos e em branco. No Ceará, as pesquisas dos dois institutos apontavam 6% de nulos e em branco, e no final foram 14,8% dos eleitores a votar assim. No Piauí a diferença foi ainda maior: 2% no último levantamento do Ibope, contra 12,2% nas urnas. Isso significaria, portanto, que uma grande parcela de eleitores declarava preferência por algum candidato, mas terminou por anular seu voto. Se dispensarmos aqui a hipótese de mudança de opinião, as explicações possíveis são duas: ou o eleitor mentia para os entrevistadores, vítima de algum tipo de incômodo em declarar voto nulo, ou de fato a anulação do voto foi um ato contrário a seu desejo.

Não é objetivo deste artigo apontar qual das hipóteses acima é verdadeira. Constatamos, porém, um fato: as pesquisas para os governos estaduais forneceram estimativas distantes demais do resultado final, do ponto de vista estatístico. Considerando que essas mesmas pesquisas tiveram (e têm) grande influência em diversos setores da sociedade - da variação do índice Ibovespa à cobertura midiática das campanhas, passando pelo processo decisório de muitos eleitores - e que, além disso, esses erros podem levar a questionamentos sobre a eficácia do processo eleitoral eletrônico e sobre a isonomia dos institutos, acreditamos ser necessária e urgente uma ampla discussão sobre esses levantamentos e sua metodologia. Só assim podemos aceitar as pesquisas como o que elas pretendem ser: instrumentos científicos de mensuração da preferência dos eleitores.


Paulo Hubert é mestre em estatística pelo IME-USP. Colaborou Samuel Moura, cientista político e pesquisador do Cebrap

Míriam Leitão - O real do salário

- O Globo

O salário mínimo começou um forte processo de recuperação logo após o Plano Real. Ele subiu acima da inflação quase todos os anos. O maior aumento real, descontado o IPCA, foi no primeiro ano do governo Fernando Henrique: 16,7%. O segundo maior reajuste foi de 13,11% em 2006, no último ano do primeiro mandato de Lula. Ao todo, de 1994 a 2013, o salário subiu 158%.

A vitória sobre a hiperinflação iniciou a recuperação do valor real do salário mínimo. Antes, era impossível manter a capacidade de compra. Em termos de aumento médio por período de governo, a presidente Dilma deu aumento real de 3,7% ao ano nos três primeiros anos de mandato. Em 2014, o aumento nominal foi de 6,78%. Se o IPCA ficar em 6,45%, o ganho real este ano ter á sido de míseros 0,3%. E isso reduzirá a média anual do governo Dilma para 2,85%. No primeiro governo Fernando Henrique, o aumento médio real ao ano foi de 6,83%. No segundo período, houve duas quedas, nos anos de crise de 1999 e 2002.

Mesmo assim, o aumento foi só um pouco menor do que o da presidente Dilma: reajuste real de 2,56% ao ano, em média. No primeiro governo Lula, houve apenas um ano de aumento baixo, 0,68% em 2004, mas foi o mandato com a maior média anual, 8,19%. Já no segundo governo, a média do reajuste caiu para 4,51%. Há também outra forma de se fazer as contas, que é o acumulado em cada período de governo, como se pode ver abaixo. A melhor fase foi o primeiro governo Lula, com 36,5%. O segundo melhor é o FHC I, com 29,5%. Depois, Lula II, em que o aumento foi de 19,2%.

O pior período foi o segundo governo tucano, 10%, encostado em Dilma, com 11,7%. A recuperação da capacidade de compra do salário mínimo, descontada a inflação, é constante com um ou outro ano de desempenho baixo ou negativo. A fórmula de reajuste agora estabelece que o mínimo sobe de acordo com o crescimento de dois anos antes e a inflação do ano anterior. Daqui a dois anos o aumento real será zero, porque o país está estagnado em 2014.

Os governos do PT e PSDB não estão divididos entre elevadores e redutores do mínimo. Em todos os períodos houve alta acima da inflação, e o segundo pior desempenho desde o Real é o da atual presidente. Difícil entender o que a presidente Dilma quer dizer quando garante que, se a inflação for a 3%, a taxa de desemprego vai a 15%. O professor Márcio Garcia, da PUC-Rio , disse que a teoria do "trade off" entre inflação e desemprego é dos anos 60.

"A estagflação pós-primeira crise do petróleo mostrou que isso era falso." Ele garante que "dizer que uma inflação de 3% no médio prazo levaria a desemprego permanentemente alto é desconhecimento de teoria e empiria econômica". Quem olha em volta vê países com baixa taxa de inflação. A do Peru será de 3% este ano, e o país vai crescer 3,1%, com expectativa de 5,5% de expansão no ano que vem. Isso tudo com desemprego em 5,6%

Murillo de Aragão - Reforma política, o debate inadiável

- O Estado de S. Paulo

Em tempos de eleição devemos fazer uma reflexão aprofundada sobre a democracia e a política. É importante, no entanto, não cair no discurso fácil de que, dado o gigantismo de nosso processo eleitoral, somos uma democracia madura. Temos um processo eleitoral relevante e exemplar em muitos sentidos, mas o processo político que precede as eleições é doentio, viciado e carente de aperfeiçoamentos.

O Brasil de hoje, mesmo com os avanços institucionais obtidos desde a redemocratização, em 1985, ainda vive sua infância democrática. E para que soluções não democráticas não prevaleçam cuidados são essenciais. É certo afirmar que democracia e desenvolvimento econômico e social andam juntos, pois países com índice de desenvolvimento humano avançado quase sempre são democracias consolidadas. Este é o ideal que o Brasil deve perseguir: ser uma democracia socialmente justa e desenvolvida.

Entretanto, nossos vícios e desvios estão ameaçando nosso caminho na busca por uma democracia madura. Retrocessos, infelizmente, integram o processo histórico e não é diferente no Brasil. Além do risco de retrocessos, temos ainda aspectos que não evoluíram ou evoluem lentamente. O autoritarismo faz parte de nosso dia a dia, por exemplo, na humilhação que cidadãos sofrem na mão de servidores e funcionários públicos arrogantes, na qualidade precária de muitos serviços públicos e no desproporcional poder do Estado perante a sociedade.

Não falo dos poderes que o Estado deve ter, mas da opacidade e da desconexão com que o Estado brasileiro funciona. Aponto ainda a intervenção brutal do Estado na economia, direcionando recursos para setores premiados; a carga tributária abusiva, se comparada à contrapartida dada ao contribuinte; e o uso político e corporativo de empresas estatais na destruição de valor, como a ocorrida na Petrobrás.

Existem ainda três outras graves expressões de autoritarismo disfarçado: o corporativismo, não a velha ideologia, mas a reles atuação destinada a salvaguardar benefícios em detrimento do bem comum; o clientelismo que engraxa as relações políticas; e a corrupção. O corporativismo é tão vil e destruidor quanto os demais vícios, pois sonega ao bem comum os recursos desviados para castas privilegiadas.

O clientelismo é igualmente trágico para a sociedade na medida em que onera o custo dos bens e dos serviços públicos. A corrupção contamina as relações entre a sociedade e governo: dando vantagens indevidas na obtenção de negócios, alimenta esquemas escusos de financiamento de políticos e partidos, sendo praticada tanto como forma de alcançar benefícios quanto como solução ante o arbítrio e a ineficiência.

Porém temos muitos outros problemas em nossas instituições e seria cansativo listá-los. A prova de que o sistema não anda nada bem é a sucessão de escândalos políticos. Os famigerados "mensalões" foram praticados por quase todos os partidos, entre os principais. Quase 2 mil candidatos nestas eleições foram impugnados por causa da Lei da Ficha Limpa. Alguns partidos são meras agremiações de competição eleitoral, outros são valhacoutos de interesses muitas vezes escusos e inconfessáveis ou feudos de "empresários" políticos.

As coligações partidárias mascaram os partidos e os nanicos transformam-se em vendedores de vagas e de tempo de televisão na propaganda eleitoral. Celebridades e abonados têm seu caminho pavimentado para o Congresso em detrimento do político comum, em extinção. A Câmara de 2015 iniciará seus trabalhos com nada mais, nada menos que 28 partidos. O que não é nada bom para o sistema político.

A política no Brasil deveria ser sempre uma atividade nobre e generosa, destinada ao progresso econômico e, sobretudo, ao desenvolvimento humano. Quando a política funciona bem, promove muitos avanços. Os avanços nos direitos humanos e trabalhistas, por exemplo, foram decorrentes de boas políticas.

A má política gera atrasos e injustiças, num círculo vicioso. A degradação da política gera mais degradação. E o inacreditável é que a resposta de nossas instituições é lenta, muito lenta. Tivemos avanços, como a implementação da urna eletrônica, a imposição judicial da fidelidade partidária e a instituição da Lei da Ficha Limpa. Mas estamos muito aquém do que necessitamos.

Nestas eleições, apesar das declarações em favor da reforma política, não percebi o ardor necessário dos candidatos para avançar em favor de uma reforma ampla e profunda. Falta-nos, nesta quadra de nossa História, um movimento como aquele em favor da anistia ampla e irrestrita do final dos anos 1970. E, sobretudo, falta sentido cívico a nossos líderes políticos para assumirem a necessidade de reformar o que não está funcionando bem.

Uma oportunidade está aparecendo no horizonte: em 2015 muitos políticos e parlamentares deverão responder a processos no STF por causa das delações ligadas ao escândalo na Petrobrás.

São gravíssimas as acusações envolvendo corrupção e uso político da empresa. O episódio poderá ter poder devastador nas lideranças políticas, que serão obrigadas a se defender na mais alta Corte de acusações que devem vir solidamente fundamentadas por estarem inseridas numa das mais cuidadosas investigações de nossa Justiça. Se necessitamos de crises para avançar, a crise de 2015 já está anunciada.

Não devemos esperar piorar para fazer o que é certo. O caminho é a criação de um pacto em favor de uma reforma política que tenha a participação dos três Poderes e da sociedade civil. Os temas que devem ser debatidos são de conhecimento: financiamento de campanha, teto de despesas de campanhas, fidelidade partidária, cláusula de barreira, fim das coligações para eleições proporcionais, fiscalização pela sociedade civil do fundo partidário, limite à reeleição de presidentes de agremiações e ao nepotismo em partidos, entre outros. Sobram temas e urge a necessidade. Falta interesse e falta coragem.

*Murillo de Aragão é advogado, mestre em Ciência Política, doutor em Sociologia pela UNB e autor do livro 'Reforma Política - O Debate Inadiável'

Arnaldo Jabor - A hora de a onça beber água

- O Globo / Segundo Caderno - O Estado de S. Paulo /Caderno 2

Dilma Rousseff: seu duro passado de militância e luta lhe deixou um viés de rancor e vingança, justificáveis. Ela foi uma típica "tarefeira" da VAR-Palmares e hoje, como tarefeira do PT, ela quer realizar o sonho de sua juventude. Por isso, quer estatizar o que puder na economia, restos de sua formação... (eu ia dizer "leninista", mas é "brizolista"). Seus olhos fuzilam certezas sobre como converter (ou subverter) a pátria amada. Petistas e brizolistas acham que democracia é "papo para enrolar as massas", como já declarou um professor emérito da USP; ela idealiza o antigo "proletariado" e despreza a classe média "fascista", como acha outra emérita professora. Ela desconfia dos capitalistas e empresários, ela quer se manter no poder e virar o PT num PRI mexicano; ela finge ignorar a queda do muro de Berlim, o fim da Guerra Fria , ela ama o Lula , seu operário mágico que encarnou o populismo "revolucionário ". Conheci muitas "Dilmas" na minha juventude. As Dilmas eram voluntariosas, com uma coragem irresponsável diante da muralha da ditadura.

Professavam uma liberdade mais grave do que os hippies da época; era uma liberdade dolorosa, perigosa, sacrificial, suicida, sem prazer, liberdade e luta. Até respeitável. Mas, para as "Dilmas " e os "Dirceus " do passado , a democracia era uma instituição "burguesa ". Ela se considerava e se acha ainda "membro" (ou "membra"?) de uma minoria que está "por dentro" da verdade, da chamada "linha justa " que planejava um outro tipo de "liberdade" (Lênin: "É verdade que a liberdade é preciosa; tão preciosa que precisa ser racionada cuidadosamente " ). Ela se julgava e se julga superior — como outros e outras que conheci (inclusive eu mesmo — oh, delícia de ser melhor que todos; oh... que dor eu sen ti ao perder essa certeza ...). Nós éramos os fiéis de uma "fé cientifica", uma espécie de religião da razão que salvaria o mundo pelo puro desejo político —éramos o "sal da terra ", os "sujeitos da História ".

Toda a luta progressista de hoje se trava entre a esquerda que amadureceu e ficou social-democrata e a esquerda que continua na ilusão de 63. A velha esquerda brasileira existe como nostalgia de uma esquerda que desapareceu. Dilma foi executiva da comissão de frente que organizou a aliança de Lula com a liderança sindicalista-pelega e com a direita mais vergonhosa do país, liderada por Sarney et caterva. Como ela era "trabalhadeira", Lula se impressionava com ela (ele que odeia o batente) e transformou-a em um "poste" que se revelou persistente no erro, com a típica burrice dos teimosos. E aí ela começou a governar com um medidas e táticas pretensamente "socialistas" em um país capitalista. Dá em bolivarianismo, esse terror contra o povo da Venezuela.

A "clique" sindicalista que subiu ao poder nunca desistiu de seus planos; suas mentes são programadas para repetir as mesmos táticas. A esquerda velha continua fixada na ideia de "unidade", de "centro", de Estado-pai, ignorando a in trincada sociedade com bilhões de desejos e contradições. Muitos riquinhos e mauricinhos hoje dizem que votam na Dilma porque ela seria "contra a pobreza". Não sabem de nada, tinham 10 anos quando FHC fez o Plano Real contra a vontade do PT e seus aliados. Hoje, esses mauricinhos se dão ao luxo de se sentirem de "esquerda " antes de ir em para a balada. São absolutamente ignorantes sobre política e acham que o PT é um partido de "esquerda", quando é claramente de "direita". ("É a economia, estúpidos!" — James Carville , assessor do Clinton contra Bush). O povão do Bolsa Família não pode entender isso , mas esses babacas que estudaram deviam ser menos primitivos.

Os petistas dão graças a Deus que muitos de seus eleitores não sabem ler . Por exemplo, eles não têm ideia do que seja o escândalo da Petrobras e do aparelhamento do Estado cleptomaníaco que foi montado. Não entenderam nem o mensalão, pois, como disse o Lula, "povo pensa que dossiê é doce de batata". Votarão no escuro de suas vidas. Como se explica isso? Resposta: o país tem um movimento "regressista " vocacional. O verdadeiro Brasil é boçal, salvacionista, para gáudio dos seus exploradores. E o PT aproveita. Acrescente complexidade da situação mundial na economia e na política os faz desejar um simplismo voluntarista que rima bem com o fundamentalismo islâmico ou com a boçalidade totalitária dos fascistas: "complexidade é frescura, o negócio é radicalizar e unificar, controlar, furar a barreira do complexo com o milagre simplista" (Lênin: "Qualquer cozinheiro devia ser capaz de governar um país").

O Plano Real, e uma série de medidas de modernização que abriram caminho para a economia mundial favorecer-nos, é tratado como se fosse uma política do governo atual, que só fez aumentar despesas públicas e inventar delírios desenvolvimentistas virtuais. Não houve um lampejo de reconhecimento pelo país que FHC deixou pronto para decolar e que foi desfeito (Stalin: "A gratidão é um sentimento de cachorros..."). Nesta eleição, não se trata apenas de substituir um nome por outro. Não. O grave é que tramam uma mudança radical na estrutura do governo, uma mutação dentro do Estado democrático.

Quer em fazer um capitalismo de Estado, melhor dizendo, um "patrimonialismo de Estado". Para isso, topam tudo: calúnias, números mentirosos, alianças com a direita mais maléfica. Não esqueçamos que o PT não assinou a Constituição de 88, combateu a Lei de Responsabilidade Fiscal, foi contra o Plano Real para depois roubá-lo como se fosse obra do Lula. Alardeiam coisas novas que "vão" fazer, se eleitos de novo mas, pergunta-se: por que não fizeram nada durante 12 anos? É isso aí, bichos... Se Dilma for eleita, teremos o início de um bolivarianismo "cordial"

Edu Lobo - O Trenzinho do Caipira ((Heitor Villa Lobos – com poema de Ferreira Gullar)

Murilo Mendes - Noite carioca

Noite da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa.
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido tão tarde.
Casais grudados nos portões de jasmineiros...
A baía de Guanabara, diferente das outras baías, é camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara.
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
as sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos bairros distintos
não são mais obras importantes do gênio imortal,
são valsas arrebentadas...
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos criouléus suarentos

O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Opinião do dia – Pedro Simon

Votar na presidente Dilma é uma interrogação cruel. Como ela vai governar se todos os nomes do seu partido estão envolvidos em corrupção? O Aécio representa a última esperança de paz neste país.

Senador Pedro Simon (PMDB-RS), em discurso sábado em Porto Alegre

No penúltimo debate, nada de ataque pessoal

• Na Record, Dilma e Aécio evitam citar familiares, tentam priorizar propostas, mas denúncias envolvendo governos petistas e tucanos não ficam de fora

Pedro Venceslau, Ricardo Galhardo, Isadora Peron, Carla Araújo, Elizabeth Lopes - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - No penúltimo debate do 2.º turno da eleição presidencial, promovido neste domingo pela TV Record, os candidatos Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) tentaram ser mais propositivos e evitaram os ataques pessoais que marcaram o confronto anterior da dupla, na semana passada. Mais uma vez, porém, o tema corrupção, principalmente as denúncias envolvendo a Petrobrás, dominou boa parte do evento.

Coube a Aécio, no fim do primeiro bloco, provocar Dilma a respeito do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, citado pelo ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa, em depoimento na Justiça Federal, como elo do partido com o esquema na petrolífera. O tucano perguntou mais de uma vez se Dilma confiava no tesoureiro petista. Também citou o fato de Costa na delação premiada ter dito que repassou R$ 1 milhão para a campanha ao Senado da ex-ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, em 2010. Gleisi e Vaccari negam irregularidades.

Dilma reagiu repetindo a tática de acusar gestões tucanas de não investigar denúncias de corrupção. Entre outros casos, voltou a citar suspeitas de pagamento de propina para a implantação do sistema de vigilância no espaço aéreo da Amazônia durante o governo Fernando Henrique Cardoso e o cartel dos trens em São Paulo. A petista também lembrou que Costa disse na delação que o ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE) - que morreu no início do ano -, recebeu R$ 10 milhões em propina para esvaziar a CPI da Petrobrás no Senado, em 2009.

“Fico estarrecida (de ver) o senhor falar de governança com aquela lista imensa, nunca investigada, sempre engavetada (...) o senhor outro dia me chamou, falou que eu tinha prevaricado. Quem prevaricou foi o seu partido e o seu governo”, disse Dilma, que não respondeu aos questionamentos sobre Vaccari.

“Esse País tem instituições...Triste de um país onde um presidente manda investigar, isso funcionaria em ditaduras amigas de seu governo’’, respondeu Aécio, aplaudido.

O terceiro debate da segunda etapa da campanha pelo Palácio do Planalto, contudo, transcorreu em um clima de desconforto com o nível de agressividade registrado no encontro anterior. No evento promovido pelo SBT, UOL e Jovem Pan, na quinta-feira passada, Aécio e Dilma estabeleceram uma discussão intensa, que envolveu familiares - os irmãos dos presidenciáveis Andréa Neves e Igor Rousseff foram citados - e temas pessoais em clima de forte tensão.

No domingo, os candidatos chegaram à sede da emissora, na região oeste da capital paulista, prometendo um debate propositivo. Logo na primeira pergunta, Dilma perguntou a Aécio o que ele acha da universalização da Lei do Simples, um regime de tributação simplificado para micro e pequenas empresas do País. O tucano destacou que a legislação foi criada no governo Fernando Henrique Cardoso e que sua intenção, se eleito, é ampliá-la. Dilma citou números, afirmou que o Simples cresceu em sua gestão. Na tréplica, Aécio concluiu: “É isso mesmo. Governar é aprimorar boas ideias”.

Economia. Já na pergunta de Aécio, embora o tucano tenha questionado a presidente sobre os gastos do governo federal com segurança pública, o debate evoluiu para uma discussão sobre o desempenho da economia nacional. Enquanto o candidato do PSDB reiterou críticas aos baixos crescimentos do Produto Interno Bruto e ao que chamou de sucateamento da indústria nacional, a petista insistiu nas comparações das taxas de desemprego, afirmando que o País tem um dos menores índices da história.

Aécio falou em “crescimento nulo” em 2014 e Dilma ironizou, classificando o adversário como “muito pessimista” em relação ao desempenho do Brasil. O candidato do PSDB apontou “recessão técnica” e criticou declarações de Dilma de que a inflação está sob controle. Em resposta, a petista disse que a inflação não está descontrolada como “querem” os adversários. “Vocês sempre gostaram de plantar inflação para colher juros.”

A plateia, formada por assessores dos dois candidatos, ignorou em alguns momentos a proibição de se manifestar. Após as considerações finais de Dilma, houve vaias e aplausos. Quando Aécio concluiu seu discurso de encerramento, a claque do tucano o aplaudiu de forma ruidosa, a ponto de abafar o áudio dos apresentadores do evento.

As mais recentes pesquisas Ibope e Datafolha mostraram que os candidatos se mantêm em situação de empate técnico, com o tucano numericamente à frente da petista - 51% ante 49% dos votos válidos.

Candidatos deixam ataques pessoais de lado, mas mantêm críticas à corrupção

• Amparados em pesquisas que mostraram rejeição à agressividade do debate anterior, Dilma e Aécio adotam tom propositivo

• Petista fala em 'indícios de desvios' na Petrobras e tucano ironiza, apontando suposto recuo de rival

Catia Seabra, Daniela Lima, Marina Dias, Natuza Nery, José Marques, Gustavo Patu e Ranier Bragon – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, BRASÍLIA - Amparados em pesquisas internas que mostraram certa rejeição à agressividade que predominou no último debate, os dois candidatos à Presidência da República adotaram um tom mais propositivo no confronto deste domingo (19), na TV Record, o penúltimo antes do segundo turno.

Em vez das trocas de acusações pessoais de nepotismo e desvios éticos, Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) discutiram nos primeiros 30 minutos do evento temas como inflação, desemprego e segurança pública.

Apesar disso, focaram na crítica mútua à atuação de uma ou outra gestão, sem a apresentação detalhada do que pretendem de fato fazer.

O escândalo da Petrobras não deixou de ser tema do debate. Desta vez, porém, a petista e o tucano trocaram termos como "mentira" e "leviandade" -repetidos várias vezes no debate de quinta-feira (16), no evento do SBT/UOL/Jovem Pan- por palavras como "estarrecedor".

Depois do virulento debate da quinta, o PT passou a divulgar a versão de que Aécio foi excessivamente agressivo com Dilma -ela chegou a passar mal momentos após o evento-, o que levou os marqueteiros do tucano a aconselhá-lo a colocar o pé no freio.

Já o PT detectou em suas pesquisas rejeição ao tom belicoso praticado por Dilma, que chegou a insinuar que o adversário dirigiu sob efeito de álcool e drogas quando foi pego em uma blitz em 2011 e se recusou a assoprar o bafômetro.

A inflexão dos candidatos também ocorre depois que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) decidiu vetar a veiculação de propagandas com ataques recíprocos.

No confronto de ontem, coube a Aécio abordar o escândalo da Petrobras, já no final do primeiro bloco, citando declaração da Dilma da véspera em que ela reconhecera desvios na estatal.

Ele então perguntou se a petista confiava no tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, apontado como integrante do esquema pelo ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef. Os dois afirmaram à Justiça que Vaccari era o elo do partido com o esquema. Na ocasião, Vaccari e o PT negaram.

Dilma respondeu lembrando que Costa também acusou o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra, morto neste ano, de receber propina para abafar uma CPI. "Eu acredito no seguinte, eu sei que há indícios de desvio de dinheiro. Agora, o que ninguém sabe, nem o senhor nem eu, é quanto foi e quem foi", disse Dilma.

Aécio ironizou, registrando que a declaração de sábado, de que "houve desvio", virou "indícios de desvio".

E atacou a adversária. "Mais uma vez a senhora não mandou investigar, que triste um país onde o presidente da República é quem determina quem seja investigado. Isso pode funcionar em algumas ditaduras amigas do seu governo, mas não no Brasil."

Ao discutirem a melhor forma de gerir a estatal, Dilma soltou um "candidato, você é engraçado", acusando o PSDB de ter pretendido privatizar a Petrobras.

Intenção essa que, segundo Dilma, os tucanos teriam em maior grau: "Se eu fosse funcionário do Banco do Brasil, da Caixa ou do BNDES ficaria com três pulgas atrás da orelha." Alvo de campanha similar em 2006 e 2010, o PSDB sempre negou intenção de privatizar as principais estatais.

Um dos temas mais debatidos foi a economia, com Dilma repisando a estratégia de sua campanha de tachar o adversário como representante de um grupo político que, uma vez no poder, irá levar o Brasil ao desemprego.

"Vocês sempre gostaram de plantar inflação para colher juros, esta sempre foi a sua política e vocês governaram sim o Brasil. O Fernando Henrique, o senhor foi líder e foi liderança daquele governo naquela época. Então, candidato, não lave suas mãos, o senhor tem responsabilidade no Brasil", afirmou Dilma.

Menos agressivo, debate entre presidenciáveis centra polêmica em escândalo da Petrobras

• Sem ataques pessoais, Dilma e Aécio abordaram questões propositivas no primeiro bloco, e compararam as gestões tucana e petista

Maiá Menezes, Alessandra Duarte, Letícia Fernandes e Fábio Vasconcellos – O Globo

RIO — Em tom mais ameno do que no último confronto e sem ataques pessoais, os presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PMDB) se enfrentaram neste domingo pela terceira vez no segundo turno, em debate da Rede Record. O primeiro bloco, com oito perguntas diretas, foi tomado por questões propositivas. A corrupção só veio à tona na referência ao escândalo da Petrobras. Aécio trouxe para a pauta o reconhecimento de Dilma, feito na véspera, de que houve, de fato, desvios na estatal. O tucano cobrou da presidente uma posição em relação ao tesoureiro do PT, João Vaccari, que é também conselheiro de Itaipu. Perguntou três vezes à presidente se ela não o puniria, visto que ele fora citado pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, na delação premiada. Aécio deu a entender que Vaccari ocupou o cargo quando Dilma era ministra das Minas e Energia.

— Cobrei nestes últimos debates uma posição em relação à Petrobras e não obtive. Quero fazer um reconhecimento de público: ontem, a senhora reconheceu que houve desvios. Quando apresentamos a proposta da CPI, fomos tachados de aproveitadores eleitorais. A senhora confia no seu tesoureiro, João Vaccari Neto, que é conselheiro de Itaipu? A senhora confia nele? — perguntou Aécio.

Dilma devolveu a pergunta com outra, deixando clara uma estratégia de associar o escândalo também a aliados de Aécio:

— O senhor confia em todos aqueles que, segundo as mesmas fontes que acusam Vaccari, dizem que o ex-presidente do seu partido, lamentavelmente morto, recebeu recursos para acabar com a CPI? — disse Dilma, citando a referência feita por Paulo Roberto Costa ao ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra. — Porque, da última vez que um delator denunciou pessoas do seu partido, no caso do metrô e dos trens, o senhor disse que não ia confiar na palavra de delator.

Dilma, então, disse que sabe que “há indícios de desvio de dinheiro” na Petrobras, e que ela deveria ser cumprimentada porque disse que iria investigar assim que o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal (STF) divulgassem informações e punissem os que cometeram delitos. A petista voltou a lembrar casos de corrupção nos governos tucanos:

— No caso específico do seu governo (gestões tucanas), não podem responder onde estão os corruptos da pasta rosa, da compra de votos para a reeleição, do processo Sivam, dos trens e metrôs. Todos inteiramente soltos. Sou a favor da punição, doa a quem doer. E contra engavetamentos.

Ao comentar as declarações da petista, Aécio disse que teria havido “um recuo'” de Dilma em relação à declaração dada na véspera, de que houve desvios na estatal. Lembrou ainda que o delator citou o nome da senadora Gleisi Hoffman, ex-ministra chefe da Casa Civil, e seu marido, Paulo Bernardo, ministro das Comunicações. E defendeu a profissionalização da Petrobras.

— A senhora não acha mais que houve desvio, mas indícios de desvios — disse o tucano, voltando a perguntar se ela confiava no tesoureiro Vaccari, e a lembrar da presença dele no conselho de Itaipu. — Na Petrobras, onde ele (Vaccari) não tinha acesso formal, dois terços (da propina) eram para ele. E em Itaipu, onde ele tem um crachá, assina documentos? (A corrupção) Está acontecendo também em outras empresas? Governança foi o que faltou.

Aécio: comparação com 'ditaduras amigas'
Ao ouvir de Dilma que foi o governo petista que investigou, Aécio reagiu:

— As instituições é que investigam. Que triste é o país em que o presidente manda investigar. Isso pode funcionar em algumas ditaduras amigas do seu governo — disse Aécio.

Ao defender o Bolsa Família, Dilma se referiu aos projetos sociais da gestão Fernando Henrique como “o seu Bolsa Família”. E, ao comparar com o programa em sua gestão, chamou de “meu Bolsa Família”.

— Não faça isso com os brasileiros. O seu Bolsa Família? Não é seu — retrucou o tucano, citando o “terrorismo eleitoral’’ que a campanha adversária estaria fazendo ao afirmar que ele, caso eleito, acabaria com o programa— (O Bolsa Família) É do povo brasileiro. É uma marca perversa do PT achar que os programas sociais lhe pertencem — disse Aécio, que, ao falar do Mais Médicos, afirmou não querer “um programa para chamar de meu”.

A despeito da discussão em torno da Petrobras, o debate não se aproximou de questões pessoais. Mais suave, vestida de branco e batom roxo, Dilma foi a primeira a perguntar. Quis saber de Aécio se ele se comprometeria com a continuação do Simples, que beneficia os pequenos empreendedores. Na resposta, o tucano afirmou que a posição é “a mesma que tivemos quando criamos o imposto, no governo Fernando Henrique”.

— A minha preocupação, candidata, é que estamos tendo um decréscimo na geração desse emprego — disse Aécio.

Dilma afirmou que universalizou o Simples. O clima estava tão ameno que Aécio chegou a agradecer a qualidade da primeira pergunta feita por Dilma. Afirmou que não é preciso brigar pela paternidade dos projetos. Em seguida, disse que o crescimento do país será “praticamente nulo”, de 0,3%. A partir daí, os candidatos começaram a debater a veracidade dos dados que cada um apresentava.

— Não sei por que o senhor é tão pessimista em relação ao crescimento do país. É melhor rever suas contas. O senhor também está errando nas contas da Segurança. Gasto R$ 4,4 bilhões ao ano. O governo FH gastou R$ 1,2 bilhão ao ano.

Dilma voltou a associar a gestão tucana à privatização de bancos públicos:

—Escutei várias falas do seu candidato a ministro da Fazenda (Arminio Fraga) de que ele iria reduzir o papel dos bancos públicos, e no fim não sabia o que ia ficar. Acho lamentável esse terrorismo em relação aos bancos públicos — disse Dilma.

A gestão em Minas foi usada por Dilma para tentar atacar o tucano. Que reagiu, dizendo que concorria à Presidência. Dilma afirmou que, no Mapa da Violência, o Sudeste registrou queda de 37% nos homicídios — em MG houve um aumento de 52%.

Aos questionamentos sobre sua atuação como governador, Aécio afirmou que “gostaria de repetir no país o que fez em Minas”. Ao lembrar que o MP acionou o governo de Minas porque, na gestão de Aécio, ele não cumpriu o investimento mínimo constitucional em Saúde, Dilma leu o que disse ser uma frase de um conselheiro do Tribunal de Contas de Minas: “É duro engolir que vacina para cavalo seja contabilizada como despesa para Saúde”.

A atuação de Aécio Neves como presidente da Câmara também foi questionada por Dilma. Ela perguntou sobre projeto posto em pauta em 2001 que flexibilizava as leis trabalhistas e “significava perdas históricas para os trabalhadores”. Aécio respondeu lembrando que fora “deputado constituinte” e que sempre garantiu o direito dos trabalhadores. Ao reagir à pergunta sobre a inflação, que estaria fora do controle, Dilma afirmou que “vocês sempre gostaram de plantar inflação para colher juros”.

No terceiro bloco, Aécio se dirigiu aos nordestinos e acusou Dilma de ter deixado obras inacabadas no Nordeste, citando a transposição do Rio São Francisco e a Transnordestina. Segundo ele, os nordestinos não foram beneficiados com sequer “uma gota d’água da transposição”. Dilma respondeu que as obras estão andando e acusou o tucano de ter como obra-modelo de sua gestão em Minas Gerais um centro administrativo superfaturado.

Tom mais baixo para não perder eleitor

Marcelo de Moraes – O Estado de S. Paulo

Depois do vale-tudo, repleto de ataques pessoais nos debates da semana passada, Dilma e Aécio fizeram ontem um confronto diferente e muito mais ameno. As críticas pelo baixo nível do debate passado fizeram com que petista e tucano mudassem suas estratégias e optassem por trocar perguntas e respostas sobre propostas para seus eventuais governos.

Obviamente, não faltaram críticas e acusações, mas as formulações foram feitas de forma muito mais suave. Sumiram expressões como “leviana”, por exemplo. No lugar, surgiram palavras muito mais leves como “o senhor é engraçado” ou “é estarrecedor”. Também não apareceram tópicos como as do debate passado, como agressão à mulheres, álcool, família, entre outros.

As críticas foram feitas de forma diferente. Aécio bateu na tecla das denúncias de irregularidades na Petrobrás, insistindo, por três vezes, se a presidente confiava no tesoureiro do PT, João Vaccari, justamente um dos acusados de receber propina pelo ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa.

Dilma desviou do assunto e não respondeu. Mas ninguém perdeu a calma.

Pior: a presidente deu a impressão de ter recuado da declaração feita no sábado, quando reconheceu que houve desvio de recursos na Petrobrás. Ontem, no debate da TV Record, falou apenas de indícios de irregularidades, o que gerou a cobrança de explicações pelo adversário.

Já Dilma mirou mais uma vez os indicadores do governo de Minas Gerais, especialmente na administração de Aécio. Mas não aproveitou direito o que poderia ser uma ótima estocada no tucano, quando acusou a administração de Aécio em Minas de ter contabilizado vacinas em cavalos como gastos para a Saúde. Feita na última intervenção da presidente num dos blocos, a afirmação acabou caindo no vazio.

A presidente também aproveitou para martelar as críticas ao economista Arminio Fraga, anunciado por Aécio como seu ministro da Fazenda, insinuando que ele poderia mexer com os bancos públicos.

Sem a troca de acusações pesadas, o debate mostrou equilíbrio entre os candidatos e exibiu a clara preocupação de não aumentar a rejeição dos eleitores, aborrecidos com as baixarias na campanha. 

Além disso, ambos puderam começar a discutir temas que pareciam esquecidos como Saúde e Educação, ainda que abordados ainda de forma superficial. Assuntos como Cultura, Esporte, Turismo, Relações Internacionais seguiram sendo ignorados. E pontos polêmicos do primeiro turno, como as questões LGBT, sumiram completamente do mapa. A prioridade ontem era não correr riscos.

Aécio cobra de Dilma punição a tesoureiro do PT

• No Rio, tucano diz que presidente deveria ter cobrado punição de tesoureiro do PT no caso Petrobras

Cássio Bruno – O Globo

A uma semana para a eleição presidencial, no próximo domingo, o candidato do PSDB ao Planalto, Aécio Neves, mobilizou ontem, na orla de Copacabana, na Zona Sul do Rio, pelo menos cinco mil pessoas, segundo a Polícia Militar. Entre elas, políticos de vários partidos, artistas, esportistas, cabos eleitorais e simpatizantes à campanha. Em uma carreata de cerca de uma hora e 20 minutos, pela Avenida Atlântica, o tucano, atraiu a atenção de banhistas e moradores do bairro, onde, no primeiro turno, venceu com 60.587 votos.

Aécio percorreu a orla na caçamba de uma caminhonete. Ao lado dele, estavam a mulher, Letícia, o ex-jogador Ronaldo Nazário, o senador Francisco Dornelles (PP-RJ), o senador eleito José Serra (PSDB-SP) e o presidente nacional do PPS, Roberto Freire. Moradores dos prédios de frente à praia acenavam para o candidato pelas janelas.

Antes da carreata, Aécio Neves adotou um tom menos agressivo do que aquele que marcou os últimos dias de campanha ao dar uma entrevista coletiva no Clube dos Marimbás. Porém, o tucano cobrou da presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, uma atitude em relação às denúncias envolvendo o tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, feitas pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e pelo doleiro Alberto Youssef, presos pela Operação Lava-a-Jato, da Polícia Federal. No sábado, Dilma admitiu, pela primeira vez, ter havido desvios de recursos na estatal.

- Não vi nenhuma atitude da presidente em relação àquele que é denunciado pelo delator como receptor da parcela (de dinheiro) que pertencia ao PT, que é o tesoureiro do partido - disse Aécio Neves.

O tucano disse achar uma "evolução" e um "avanço" o reconhecimento de Dilma sobre supostos casos de corrupção na Petrobras:

- É uma evolução, um avanço. Foi isso que eu cobrei dela em todos os debates. Quando pedi uma CPI no Senado, o PT disse que era factoide. Quantas vezes eu ouvi que o "Aécio Neves queria denegrir a imagem da nossa maior empresa". Pois bem: as investigações avançaram. A delação premiada mostra a extensão desta rede. Mas é um avanço a presidente pelo menos admitir que isso aconteceu. Talvez um pouco tarde, mas essa admissão é algo positivo.

E completou:

- Quero nessa última semana fazer aqui um convite a nossa adversária para que nós possamos debater propostas e falar do futuro do Brasil para que os brasileiros conheçam de forma mais clara e profunda aquilo que nos separa - disse Aécio - Sou de uma escola política do meu avô (Tancredo Neves) que diz que quem deve brigar são as ideias, e não as pessoas

Pelo menos 50 policiais militares e 16 homens do Batalhão de Choque acompanharam, além da Guarda Municipal. A carreata saiu do Forte de Copacabana e terminou na altura da Rua Miguel Lemos, em frente ao prédio em construção do Museu da Imagem e do Som. Não houve incidentes durante o trajeto, segundo informou a PM, mas a caminhada provocou engarrafamentos.

Reação de Andréa Neves
Alvo da presidente Dilma Rousseff nos últimos debates, a jornalista Andréa Neves, irmã de Aécio Neves, se emocionou ontem ao falar sobre o caso. A petista acusou o tucano de nepotismo quando era governador de Minas Gerais. Segundo Dilma, Aécio empregou Andréa na área de ações sociais em sua gestão. Segundo a irmã do candidato, a versão é produto das "mentiras do PT" e é pautada por uma "luta covarde e desleal".

- O que impressiona a cada um de nós e a milhões de brasileiros é o absoluto descompromisso com a verdade. Como é que dados são falseados, números são alterados, informações são dadas sem nenhum compromisso com a verdade? Cabe a nós, que estamos próximos ao Aécio agora, manter o coração mais firme e confiar no bom senso das pessoas - disse Andréa.

A jornalista ponderou, entretanto, que confia na população brasileira.

- Essa campanha, com tanta mentira, com tanta calúnia, com tanta infâmia patrocinada pelo PT, vai acabar servindo para alertar a população brasileira a respeito do que está por trás de tudo isso. O que fazemos hoje na reta final é confiar no bom senso dos brasileiros - completou Andrea.

Andréa comentou a atitude de Aécio Neves de acusar o irmão de Dilma, Igor Rousseff, de ter sido, segundo o tucano, funcionário fantasma na prefeitura de Belo Horizonte, na gestão do petista Fernando Pimentel:

- O que ele fez foi reagir a um tipo de calúnia e de massacre. Nossa família foi trazida para o debate político com base em mentiras. Não há nenhum caso de nepotismo em Minas Gerais. Quem disse foi o Ministério Público. Não é questão de opinião. É fato.

Após denúncias, oposição quer convocar Gleisi Hoffmann para depor na CPI da Petrobras

• Senadora teria recebido R$ 1 milhão do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa

André de Souza – O Globo

BRASÍLIA - Líderes da oposição partiram para o ataque contra a senadora e ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR), após as denúncias publicadas neste domingo que envolvem seu nome nos depoimentos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. O líder do Solidariedade na Câmara, o deputado paranaense Fernando Francischin informou hoje que vai apresentar um requerimento com o objetivo de convocar a senadora para que ela deponha na CPI mista da Petrobras no Congresso.

Outros nomes da oposição, como o líder do PSDB na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), e o deputado Rubens Bueno (PPS-PR), também avaliam chamar a senadora para depor.

Fernando Francischin quer que Gleisi dê explicações sobre a denúncia de que teria recebido R$ 1 milhão do ex-diretor da estatal. Segundo o jornal "O Estado de S.Paulo", a informação partiu do próprio Paulo Roberto Costa, que participa de um processo de delação premiada. O dinheiro teria sido desviado da Petrobras para financiar a campanha de Gleisi, que tentava uma vaga ao Senado em 2010.

Segundo Francischini, está claro agora por que Gleisi tentou retardar a instalação da CPI que investiga irregularidades na estatal.

“No dia em que Renan Calheiros (presidente do Senado), outro citado pelo Paulo Roberto Costa, ia instalar a comissão a Senadora Gleisi fez uma questão de ordem alegando ‘fatos desconexos’, o que atrasou ainda mais a instalação. Escalaram ainda Gleisi para apresentar ações judiciais no STF contra a instalação da CPMI da Petrobras. Agora está explicado o motivo pelo qual a presidente Dilma Roussef e a senadora Gleisi Hoffmann, ex-ministra da Casa Civil da Presidência da República, lutaram tanto para impedir a abertura da CPMI da Petrobras", informou Francischini por meio da assessoria de imprensa.

Já Antonio Imbassahy (PSDB-BA), também avaliam chamar Gleisi para depor na CPI. Ele disse já ter conversado com o líder do PPS, deputado Rubens Bueno (PPS-PR), sobre o assunto. Mas Imbassahy mostra dúvidas sobre a viabilidade de conseguir convocá-la.

— É um fato grave, porque ela exerceu um cargo importante. A função era da mais íntima relação e confiança, na antessala da presidente da República. O que ela está dizendo não é suficiente para isentá-la. Estamos pensando, vamos discutir na segunda-feira com mais líderes de oposição, convocá-la para que deponha na CPI — disse Imbassahy, acrescentando: — Eu acho que conseguir uma aprovação é difícil, porque a maioria dos governistas (na CPI) é esmagadora, e está mais que claro que operam sob orientação do Palácio do Planalto para não deixar investigar.

A reportagem diz que o ex-diretor da Petrobras recebeu um pedido do doleiro Alberto Youssef para “ajudar na candidatura de Gleisi”. Ele ainda afirmou que Paulo Bernardo, ministro das Comunicações e marido da senadora, teria recebido o dinheiro. Segundo o depoimento de Costa, o repasse de R$ 1 milhão para a campanha seria comprovado através das anotações que ele mesmo fez em sua agenda pessoal, apreendida pela Polícia Federal no dia 20 de março, três dias depois de deflagrada a operação Lava Jato.

Petistas atacam para tentar aumentar a rejeição de rival

• Dilma afirma que Aécio 'precisa aprender a respeitar as mulheres';comitê diz que partido só reage a 'ódio eleitoral'

Ricardo Galhardo - O Estado de S. Paulo

A campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff chegou à conclusão de que há poucas chances de obter mais apoiadores daqui até o dia da votação, no domingo que vem, razão pela qual não pretende abandonar os ataques ao adversário Aécio Neves. Com isso, o comitê petista espera aumentar a rejeição do adversário, reduzindo suas chances. A tática da vitimização, já ensaiada no final da semana passada com discursos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também será explorada.

A própria Dilma entrou no assunto ontem, antes do debate da TV Record. Disse que Aécio precisa "aprender a respeitar as mulheres". "Com mulher não pode ser assim", disse.
Na internet, o comitê de Dilma lançou a campanha "Mais Dilma, Mais Amor", na qual combate o "ódio eleitoral" e usa como exemplos casos de petistas agredidos nas ruas por tucanos nas últimas semanas.

Os petistas tem uma preocupação especial com o debate da TV Globo, nesta sexta-feira, que classificam como decisivo. "Sempre tem aquele impacto", diz o presidente do PT, Rui Falcão.

Enquanto isso as propagandas na TV e principalmente no rádio e na internet continuam divulgando denúncias contra Aécio. Ontem, um texto sobre a "dificuldade de Aécio em respeitar as mulheres" teve destaque especial na página da campanha da petista na internet.

Os integrantes do comitê da campanha à reeleição estão guardando munição contra o tucano.

Afirmam que Dilma "não vai apanhar calada" caso seja agredida pelo adversário.

Em outra frente, o PT vai tentar atrair o eleitorado que votou em Marina Silva (PSB) no 1.º turno. O principal alvo é a classe média que historicamente votava no PT e hoje rejeita o partido.

Para isso a campanha de Dilma convocou artistas e intelectuais para um ato hoje no Tuca - histórico teatro na PUC de São Paulo -, com a presença de intelectuais petistas, além de reforços de última hora, como o economista Luiz Carlos Bresser Pereira, fundador do PSDB, e o antigo desafeto Francisco Oliveira, cientista político que estava afastado do PT desde o início do governo Lula, em 2003.

Nas viagens, o foco da campanha será o Sudeste, com destaque para São Paulo, onde o PT sofreu uma derrota acachapante no 1.º turno - obteve apenas 26% dos votos. A estratégia é explorar a crise de abastecimento de água, como fez na propaganda eleitoral na TV ontem. "Mostraremos propostas para saúde e emprego, mas em São Paulo é água, água e água", diz o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante.

Para consolidar a liderança no Nordeste, Dilma vai colar sua imagem à de Lula. Ambos participarão de ato no centro do Recife amanhã. A ministra da Cultura, Marta Suplicy, finalmente foi convencida a se integrar à campanha. Ela vai ao evento no Tuca e deve participar de atividades na periferia da capital paulista. /Colaborou Isadora Peron

Na TV, Aécio lembra que Dilma já o elogiou por gestão em Minas Gerais

• Presidente atribui a crise de água em São Paulo ao "modelo de gestão tucano"

• Elogios. Reprodução do programa de TV de Aécio mostra fala de Dilma de 2009, quando ela era ministra de Lula

- O Globo

BRASÍLIA - Em meio aos ataques das duas candidaturas, que permanecem nas peças de rádio e TV apesar das restrições impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) à propaganda eleitoral, a campanha do presidenciável Aécio Neves (PSDB) exibiu ontem uma declaração de Dilma Rousseff (PT) elogiando a gestão do tucano à frente do governo de Minas Gerais. A fala é de 2009, quando a presidente ocupava o cargo de ministra da Casa Civil da Presidência da República, no governo Lula. Em entrevista a uma rádio de Minas, Dilma afirmou, na ocasião, que Aécio era um dos melhores governadores do país.

Texto e áudio foram reproduzidos na propaganda de Aécio no rádio e com inserções na TV. Antes da exibição do áudio com a fala da candidata petista, o locutor anuncia: "Preste atenção no que Dilma fala de Aécio". Na sequência, aparece a declaração dela: "O governador Aécio Neves é um dos melhores governadores do país" e informa que a declaração de Dilma foi feita à Rádio Itatiaia, em 17 de abril de 2009. Após a exibição desse trecho da entrevista, volta o locutor do programa tucano: "Aécio é aprovado até pela Dilma".

Ataques aos adversários continuam
Mesmo com as vedações impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de que a propaganda no horário eleitoral se restrinja à apresentação de propostas, os programas na TV de ontem dos dois candidatos atacaram os adversários. Boa parte do programa do PT que foi ao ar criticou a crise no abastecimento de água que atinge São Paulo, destacando que o problema seria decorrente do "modelo de gestão tucano".

Entre falas de atores, de um narrador e da própria presidente Dilma, o vídeo sustenta o discurso de que o governo federal teria alertado para o problema e tentado ajudar o governo de São Paulo, mas que o tucano teria preferido o lucro de investidores da empresa de abastecimento à realização das obras necessárias. "Quero fazer chegar até você eleitor, mais um exemplo do modelo de gestão tucano, que meu adversário defende (&) Aécio representa bem esse jeitinho tucano de governar", afirma Dilma em um trecho.

O programa petista exibiu um depoimento de Marcelo Freixo, deputado estadual pelo PSOL, no Rio, reeleito com maior votação, com pouco mais de 350 mil votos. Ele declara seu "veto em Aécio" e seu "voto em Dilma". No programa, um dos locutores ressalta que o "jeito tucano de governar" seria "sem transparência, fugindo da realidade e pouco se importando com as pessoas". O ex-presidente Lula voltou a aparecer na TV, comparando os governos do PT com o do PSDB.

Mais cedo, no programa da tarde de Dilma, focado em segurança pública, um ator se refere a taxas de violência em Minas Gerais para dizer que o estado governador por Aécio Neves durante duas gestões teria índices piores que o restante da região Sudeste. "Minas, que Aécio e seu grupo governaram por 12 anos, também vive uma grave crise na segurança", diz o ator.

Parentes de Aécio vão para a TV
No seu programa de tevê, Aécio apresentou os familiares, que gravaram depoimento. Andréa (irmã), Leticia (esposa), Gabriela (filha) e Inês Maria (mãe) apareceram no programa. Aécio anunciou que esta é a última semana antes da votação, dia 26, e enalteceu o papel da família. O senador citou programas que teria desenvolvido durante em seu governo de Minas, como Mães de Minas. O tucano anunciou que, se eleito, trará vinte milhões de adultos para as salas de aula. Esses antigos alunos receberão um salário mínimo de estímulo por mês. Ele chamou a iniciativa de "mutirão escolar".

O candidato tucano fez duras críticas ao governo Dilma. Os locutores atacaram os seguintes pontos: menor crescimento; maiores juros do mundo; maior carga de impostos; maior déficit da história da indústria; apenas 12% das obras do PAC concluídas; o Brasil registrou 181 apagões; a inflação voltou; promoveu a Copa do Mundo mais cara da história.

“PT está no rumo de derrota acachapante”

• Entrevista Aloysio Nunes - Candidato a vice na chapa de Aécio Neves

- Zero Hora (RS)

Como o senhor avalia a campanha no segundo turno?
Participo da política há mais de 30 anos e nunca vi tamanha agressividade como essa do PT. Não apenas as mentiras, calúnias, difamações veiculadas na internet, aquela enxurrada de sujeira, mas também o que a Dilma faz na TV. Primeiro, foi a Marina. Antes, o Eduardo Campos e, agora, o Aécio. Nosso interesse é discutir o futuro. Mas ela não tem outra atitude a não ser colocar a faca entre os dentes nos debates. É uma coisa sórdida. Basta você frequentar as redes sociais para ver o quão criminosa é a campanha do PT.

O instituto da reeleição, aprovada no governo FH, tem sido debatido. O senhor é a favor?
Um sistema político é tanto mais democrático quanto mais amplas forem as opções oferecidas ao eleitor. Não vejo por que negar a ele o direito de reconduzir um governador, um prefeito, um presidente que ao seu juízo esteja tendo um bom desempenho. A reeleição não significa a vitória de quem está no cargo. Veja o que está acontecendo com o Tarso, que está no rumo de sofrer uma derrota acachapante. É o que vai acontecer com Dilma.

A reeleição não faz com que os políticos trabalhem pensando no próximo mandato?
Depende do político. Você pode fazer políticas populares, ou seja, que interessem, que promovam a maioria sem ser populista. Agora, este meu ponto de vista é absolutamente minoritário dentro do meu partido e creio que também dentro do Congresso. Hoje, existe ampla maioria pela revisão do instituto, e é essa a posição do Aécio Neves e também da Marina Silva.

O senhor definiu as ciclovias paulistas como um "delírio autoritário" do prefeito. O senhor é contra o uso de bicicletas como meio de transporte?
Sou plenamente a favor. O problema é que, quando as ciclovias são mal planejadas, podem aumentar, agravar o caos das cidades, provocando congestionamentos. As ciclovias são opção de transporte excelente, saudável, não poluidora, mas, se provocam congestionamento, agravam a poluição. Por isso, elas têm de ser bem planejadas. Não é o caso daquelas que são feitas na cidade de São Paulo.

Por que o senhor é favorável à descriminalização do aborto?
Não sou a favor do aborto. O aborto é um trauma. A mulher que é levada, por qualquer que seja a razão, a interromper a gravidez já passa por um sofrimento intenso. Além disso, submetê-la a uma pena de prisão é desumano. Temos de tratar isso de outra forma, prevenindo a gravidez na adolescência e dando às mulheres que não têm condições de criar os filhos políticas públicas adequadas.

Como o PSDB pretende construir maioria para governar?
O PT saiu diminuído da eleição. Os escândalos da Petrobras e outros, revelados depois do mensalão, abalaram o prestígio, diminuíram o voto de legenda e, em consequência, a bancada. Teremos um ponto de partida para a formação de maioria parlamentar que são os deputados e senadores eleitos pela nossa coligação. Agora, penso que o presidente da República, tendo um programa legislativo claro, coisa que o governo atual não tem, tendo uma pauta bem definida, de temas que sejam pertinentes à solução dos problemas do Brasil, pode formar maioria sem prostituir a política como o PT fez.

Caso o PSDB vença, o senhor teme a retomada de protestos de movimentos sociais?
Teremos diálogo com todos os movimentos sociais. Mas não é possível o que aconteceu recentemente em Brasília. Um badernaço organizado pelo MST, com tentativa de invasão do Palácio do Planalto e, no dia seguinte, os seus dirigentes são recebidos como chefes de Estado pela presidente. Isso é inadmissível. E vamos voltar à regra de que terra invadida não pode ser desapropriada. A lei que existe tem de ser respeitada.

Na ditadura, o senhor foi guerrilheiro. Qual sua relação hoje com o seu passado?
Não tenho arrependimento, apenas uma visão crítica da opção que fiz naquele momento, que me parecia o caminho mais eficaz para combater o regime. A revisão sobre a luta armada se deu ainda naquele período, no início dos anos 1970, diante do evidente fracasso desta tática e da percepção crítica em relação à própria ideologia que nos orientava. Porque, se éramos contra a ditadura, tínhamos também uma visão autoritária do que poderia ser a forma de Estado que sucederia a ditadura. Éramos muito próximos do pensamento autoritário de partidos como o comunista cubano. Quem venceu a ditadura foi o movimento de massas, a resistência dos intelectuais, dos artistas e dos sindicatos. O povo brasileiro, na sua maioria, jamais poderia optar pela forma de luta pela qual optamos. Representávamos uma elite com grau profundo de ilusão sobre a própria capacidade de transformar as coisas.

Como o senhor explica a sua mudança de espectro político ao longo das décadas?
Continuo sendo um homem de esquerda, um socialdemocrata, radicalmente democrático, defensor dos direitos humanos, das liberdades, das minorias. Acredito que não podemos nos conformar em viver em um país com tamanho grau de injustiça como o nosso.