Folha de S. Paulo
Difícil dizer o que era mais fascinante em
Ismael Nery, se a obra ou a vida
Seu objeto eram homens e mulheres andróginos,
belíssimos, de sedução letal
Se as exposições permitissem que, ao se admirar um quadro, se pudesse ver também através dele e enxergar o artista, poucas seriam tão surpreendentes quanto "Ismael Nery: Armadilha Moderna", em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo. É um dos casos agudos em que não se sabe quem é mais fascinante, se a obra ou o autor. O fascínio em Ismael Nery (1900-1934) é a dificuldade de defini-lo, por suas muitas e inesperadas aptidões. Ele era especial em todas.
Saído da Escola Nacional de Belas Artes, do
Rio, Ismael passou 1921 em Paris, estudando com Marc Chagall, Joan Miró e André Breton. De volta à sua casa em
Botafogo, pintava e desenhava em telas, papelão, papel de pão, pedaços de
jornal, tábuas, o que houvesse, e, ao terminar, amassava, rasgava, pintava por
cima, jogava fora. O ato de fazer lhe bastava. Sua mulher, Adalgisa, e seu
melhor amigo, Murilo, saíam pelo quintal e latas de lixo resgatando esse material
sem ele saber. Ismael nunca admitiu vender um quadro —dava-o. Não tinha nada de
seu nas paredes.
Os mais de 200 trabalhos da exposição compõem
boa parte do que foi salvo. Prepare-se para cair de costas pela modernidade do
que verá. Expressionista, cubista, surrealista? Talvez faltassem ismos para
defini-lo. Seu objeto eram homens e mulheres, andróginos, sensuais, a quem ele
emprestava seu rosto ou o de Adalgisa, belíssimos, de sedução letal.
Não se sabe quando Ismael tinha tempo para
pintar. Era também arquiteto, cenógrafo, figurinista, poeta, matemático,
filósofo, teólogo, bailarino clássico, fotógrafo. Amador em tudo isso, mas
admirado pelos profissionais de cada categoria, que o ouviam como a um guru.
Bispos o tinham em alta conta —um dia, segundo Ismael, a santidade não seria
uma exceção. Visitava prisões, hospitais e hospícios, queria conhecer a
tristeza humana. Morreu de tuberculose, aos 33 anos —como previra anos antes,
ao desenhar seu túmulo e a data.
Sua mulher se tornaria a escritora e política
Adalgisa Nery. Seu melhor amigo, o futuro poeta Murilo Mendes.

Um comentário:
Que personagem!!!
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