Folha de S. Paulo
Revolta justa contra ministro abafa o caso do
candidato da 'rachadinha' e do Rio podre
Um vazamento pode decidir a eleição, temem ou
esperam lulistas e bolsonaristas
Manifestos
de empresários e da "sociedade civil", associações de gente
bem-situada na vida, pedem "transparência" no Supremo. Sob muitos
aspectos, têm razão. Pela decência básica, ao menos dois ministros do STF estariam
com o pé na cova judicial. Sob outro aspecto, a revolta é seletiva, assim como
vazamentos, inquéritos, juízes, a memória etc.
Esquece-se da história de Flávio "Página Virada" Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Perto do passado dele, o que se sabe por ora do dinheiro para financiar as artes da família, o "Dark Horse", ainda é fichinha.
A indignação foi inflamada pela divulgação de
mensagens que Daniel Vorcaro enviava ao celular de um Alexandre
de Moraes, pedindo ajuda para fugir da polícia. Esse "um"
Alexandre de Moraes é um benefício generoso da dúvida. Para merecê-lo, o
ministro teria de provar que o gângster na verdade ligava para o celular de um
Zé Laranja Encerrabodes de Oliveira, não o de Moraes. Não sendo o caso, teria
de explicar por que não chamou a polícia, ainda na hipótese generosa. Sem isso,
o ministro estaria no bico do corvo em um mundo de processos legais.
Por erro ou "erro" de procedimento
de André
Mendonça ou por chicana política, Moraes pode escapar, para aumento da
indignação, mais típica de antilulistas. Lulistas defendiam Moraes e apontam,
em parte com razão, que Mendonça colaborou com o autoritarismo bolsonarista. No
mais, os Moraes e Bolsonaros levaram dinheiro de Vorcaro.
O STF está em guerra de poder e eleitoral. Um
vazamento pode decidir a eleição, temem ou esperam lulistas e bolsonaristas.
Edson Fachin por ora vai levar só Moraes ao cadafalso; Mendonça fica para
depois. Aliados de Xandão podem vir a alterar o processo, com a tese do
"erro de procedimento" ou jogando o caso de mais ministros no
ventilador. Fachin
já sabe do destino do julgamento ou arrisca? De qualquer modo, mandou
Mendonça abrir sigilos, acusação implícita de seletividade. Seja qual for o
resultado da sessão de terça no STF, se houver terça, chicanas políticas vão
cobrir de cinzas a "transparência", que será elogiada por quem vencer
provisoriamente a disputa.
Erro de procedimento é o elixir da vida de
moribundos judiciais, embora devesse ser levado a sério. Erro de procedimento
foi em parte o caso da Lava Jato; muito crime empresarial acaba nisso, sem
motivar manifestos. Erro de procedimento foi o elixir de
Flávio
foi denunciado em 2020 pelo Ministério Público por peculato, lavagem de
dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa. Era acusado de
pegar o salário de seus funcionários na Assembleia do Rio de Janeiro e de lavar
o furto pagando despesas pessoais e compras de imóveis com dinheiro vivo ou por
meio da loja de chocolate. O dinheiro era recolhido por Fabrício Queiroz, elo
de Flávio com milícia. Por falar em Rio, o grupo político de Flávio por lá, que
dominava o governo, é ligado a facções, como o CV, e botou dinheirama de
servidores no Master.
A instância inadequada do processo
("foro") e a "imprestabilidade" de provas obtidas no Coaf
levaram STJ e STF a enterrar o caso em 2021.
A depender do voto para presidente e
conveniência, "fatos" valem mais do que "procedimentos" e
vice-versa. Para quem vier com a conversa de "falsas equivalências":
como defender com razões seu projeto político sem perdão de bandalhas ou, mais
importante, de adeptos da ruína democrática?
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