quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Rosângela Bittar - Promenade em NY

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro proferiu o discurso de sempre, sem alma, sem ideias, recheado de mistificações

O balanço dos vexames de Jair Bolsonaro na 76.ª Assembleia-Geral da ONU mostrou como um governante pode estragar uma conquista da diplomacia do seu país. O presidente levou o Brasil a perder uma grande oportunidade de se fazer ouvir. Seu negacionismo agressivo com relação à pandemia, as insistentes falsidades, as referências reacionárias à família, além dos desvios de comportamento, superaram as expectativas.

O contragosto começou na véspera, quando Bolsonaro teve de ouvir o discurso de más-vindas do prefeito de Nova York. A partir dali, enfrentou uma sucessão de reações que o obrigaram a zanzar de um lado para o outro fazendo-se de desentendido. A comitiva do governo brasileiro, sem agenda, seguiu o mestre, promovendo cenas inacreditáveis de degradação. 

Almoçar uma pizza na calçada porque, ao descumprir regras sanitárias de Nova York, está proibido de entrar em restaurantes, não é uma cena natural para um presidente da República. Bolsonaro contamina o cargo com sua incivilidade e péssima educação.

Luiz Felipe D'Ávila* - Caráter e liderança

O Estado de S. Paulo

Eis dois dos atributos do futuro presidente da República para tirar o País do lamaçal

Montesquieu dizia que “a indiferença pelo bem comum é a causa da ruína das repúblicas”. Ruína que começa com a indiferença do presidente da República em honrar suas promessas ao povo brasileiro. Prometeu abrir a economia, privatizar estatais e aprovar reformas liberais para desidratar o Estado intervencionista que estrangula os brasileiros que trabalham e produzem riqueza, mas se rendeu à agenda do corporativismo que destrói a produtividade e a competitividade do Brasil e ainda criou mais estatais, como a ENBPar, que recebeu um aporte de R$ 4 bilhões dos cofres públicos.

Prometeu combater a “velha política” e a corrupção, mas se aliou ao Centrão, sepultou a Lava Jato, e pululam escândalos de superfaturamento de vacinas e de seus familiares. Por fim, Bolsonaro prometeu honrar os valores cristãos, mas na hora da pandemia demonstrou falta de misericórdia e de compaixão com milhares de brasileiros que padeceram da covid. Menosprezou a importância da vacina e repudiou o uso de máscara. Ademais, o presidente mostra-se indiferente aos reais problemas que afetam a vida dos brasileiros, como a queda da renda e o aumento do desemprego e da inflação, que vem encarecendo o preço do gás de cozinha, da carne, do arroz e feijão.

Evidentemente, o presidente da República culpa os infortúnios do seu governo à pandemia, à imprensa “esquerdista” e às decisões do Supremo Tribunal Federal e do Congresso. Essa visão infantil de que o problema está sempre nos outros revela sua incapacidade de reconhecer as incompetências política e administrativa do seu governo.

Roberto DaMatta* - É preciso combinar com a lei

O Estado de S. Paulo

O coletivo é governado por normas fora dele que, no entanto, são parte dele ou feitas para ele

A lei, a regra, a norma ou o habitual estão fora de nós. Quando um desejo nascido no fígado ou no coração nos assalta, temos de combinar com os costumes. Sem um acordo entre interesses egocêntricos e leis sociocêntricas não há jogo.

O coletivo é governado por normas fora dele que, no entanto, são parte dele ou feitas para ele. Não é por acaso que mandamentos e leis foram entregues a deuses encarnados, patriarcas, visionários e profetas – a seres extramundanos, como dizia Max Weber – em montanhas mediadoras entre céu e terra, ou em situações dramáticas como tempestades, humilhações, extrema solidão e doenças mortais. 

Por mais, entretanto, que as leis sejam sagradas, somos nós que as honramos com nossa lealdade ou desonestidade. Mesmo vindo do “outro mundo”, não há quem não saiba que as regras mudam e são mudadas. 

Tudo isso para dizer algo simples, mas pouco discutido no Brasil. Nas monarquias e aristocracias, os soberanos e os nobres que são parte de sua corte ou família (pessoas especiais, “cortadas” ou removidas das gentes comuns) não precisam pensar no futuro, pois sua posição social é dada ao nascer. 

Nobres são estruturalmente diferenciados (têm, reza a lenda, sangue azul) e imutáveis. O clero tem uma dinâmica singular porque ninguém nasce padre, bispo ou papa. Mas o “povo” (os membros do chamado “terceiro estado”) tem de construir o seu futuro e esse futuro, como o dos escravos, é preestabelecido. Uma pessoa comum morre como nasce. 

Luiz Carlos Azedo - A bolha chinesa

Correio Braziliense

Uma crise chinesa agora seria muito ruim para o Brasil. Em primeiro lugar, aumentaria a cautela dos investidores — no nosso caso, agravada pela crise fiscal

O discurso do presidente Jair Bolsonaro, na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), confirmou o que aqui já se sabia, embora tenha assombrado o mundo: nosso governante vive num país imaginário, que governa para uma bolha de eleitores que acreditam na sua ficção. O país real, porém, foi tangenciado quando Bolsonaro falou do agronegócio e de infraestrutura, os dois setores do seu governo que, numa análise fria e não-maniqueísta, vão bem, obrigado. Uma segunda bolha no horizonte, porém, pode formar uma tempestade perfeita: a crise de liquidez da Evergrande, uma das principais imobiliárias chinesas e a incorporadora mais endividada do mundo. Uma crise na economia da China é tudo o que o Brasil não precisa neste momento, pelo poder desarticulador que teria tanto nas nossas exportações de commodities agrícolas e de minérios quanto nos investimentos em infraestrutura.

Daniel Rittner - Mentira na ONU é fácil de pegar. E distorções?

Valor Econômico

Desinformação e fake news também podem ser sutis

Fake news não é necessariamente inventar um dado sem pé nem cabeça e divulgá-lo sem lastro nenhum na realidade. Também é pegar um número verdadeiro e distorcê-lo maliciosamente, com o objetivo de manipular a opinião pública ou reforçar as convicções pré-existentes de um segmento dela. Dizer na tribuna das ONU que brasileiros mais vulneráveis receberam US$ 800 do governo não é de todo uma mentira quando a conta soma sabe-se lá quantas parcelas de auxílio emergencial durante a pandemia. Mas é mais ou menos como dar os parabéns para quem ganhou salário mínimo a vida inteira e se aposentou depois de 30 anos: “Caramba, você teve uma renda acumulada de R$ 1 milhão”.

Como há dois anos, quando atacou seus antecessores socialistas no Palácio do Planalto por terem desviado “centenas de bilhões de dólares” para comprar jornalistas e parlamentares, o presidente brasileiro mentiu novamente na ONU. Cifras imaginárias ou fantasmas comunistas que se escondem debaixo da cama ainda podem ser boas armas para animar grupos de WhatsApp de quem está #fechadocombolsonaro, mas são as distorções mais sutis que fazem a turma menos apaixonada balançar em dúvidas quando exposta à máquina de desinformação.

Às vezes, como ontem, basta omitir para distorcer. É verdade que o crescimento da economia está estimado em 5% em 2021, apenas repondo as perdas do ano anterior, mas esconde-se que o desempenho do segundo trimestre foi o terceiro pior do G-20 e que o maior banco privado do país rebaixou sua previsão de alta do PIB em 2022 para meros 0,5% após o flerte golpista de Jair Bolsonaro no 7 de setembro.

Hélio Schwartsman - Você teve vergonha de Bolsonaro?

Folha de S. Paulo

Você sentiu vergonha de ser brasileiro com a viagem de Bolsonaro a Nova York? Eu senti. Motivos não faltaram.

discurso do presidente na ONU foi, ao mesmo tempo, fraco e mentiroso. Quando um autor decide que não irá curvar-se aos imperativos da realidade nem da verossimilhança, espera-se que pelo menos produza uma peça de ficção grandiosa. Bolsonaro não fez isso. Insistiu em suas obsessões paroquianas, embarcou na autoglorificação delirante e não disse nada que preste.

E o discurso não foi o ponto mais embaraçoso da viagem. Não passou despercebido ao mundo que, se Bolsonaro não é o único líder que ainda não se vacinou, é o único que faz questão de propagandeá-lo. Foi ridicularizado por isso pelo prefeito de Nova York, Bill de Blasio, que lhe passou uma lista dos postos de vacinação em operação na cidade. Mesmo o premiê britânico, Boris Johnson, um dos poucos dirigentes de país ocidental que topa aparecer ao lado de Bolsonaro, tirou uma casquinha, recomendando ao brasileiro que tomasse o imunizante da AstraZeneca. A foto da comitiva comendo pizza na rua fala por si só.

Bruno Bogossian – O pacto do cercadinho

Folha de S. Paulo

Presidente reforça pacto com apoiadores fiéis e mostra que não se arrepende de negacionismo

O Jair Bolsonaro que subiu ao púlpito da Assembleia-Geral da ONU é o mesmo que desfila pelo cercadinho do Palácio da Alvorada. O presidente brasileiro levou ao evento sua cruzada conservadora e tentou maquiar a realidade para esconder fracassos do governo. Reforçou seu compromisso com o morticínio da pandemia e com uma agenda de desgaste da democracia.

Bolsonaro não abre mão do posto de garoto propaganda global do negacionismo científico. O presidente repetiu a defesa de remédios ineficazes contra a Covid-19 e mostrou que não se arrepende de ter patrocinado uma política de exposição intencional da população ao vírus.

Diante de muitos governantes que seguiram pesquisas sérias, o brasileiro atacou aqueles que recusaram o uso indiscriminado da cloroquina. "A história e a ciência saberão responsabilizar a todos", disse Bolsonaro, possivelmente em busca de reconhecimento internacional como charlatão.

Mariliz Pereira Jorge - Bolsonaro odeia o Brasil

Folha de S. Paulo

Gesto de Queiroga traduz o discurso mentiroso do presidente

Nenhuma surpresa de que o Jair Bolsonaro que deu as caras na Assembleia-Geral da ONU é aquele que conhecemos desde sempre: canalha e ególatra. Pelo terceiro ano consecutivo, o presidente fez o que faz cada vez melhor: mentiu.

Quem achou que seria diferente não entendeu nada sobre o seu caráter. Bolsonaro não é um sujeito moderado, jamais será. Seus raros recuos não significam mudança nenhuma em sua forma de fazer política e de nos representar. Tal qual a parábola do sapo e do escorpião, ele é capaz de morrer afogado, mas nada o fará trair suas convicções e transformar sua natureza autoritária.

O que ainda me surpreende é que o país continue mais um ano e três meses refém desse mitômano, que usou o palco da ONU apenas para reafirmar o que já sabemos: é um presidente que fala e governa apenas para uma pequena parte da população, aquela que acredita nesse Brasil utópico criado em sua cabeça.

Vinicius Torres Freire - O xiismo de Xi e o tumulto financeiro

Folha de S. Paulo

Reformas socialistas do líder chinês são pano de fundo da crise da incorporadora

Na segunda-feira, os donos do dinheiro do mundo tiveram um paniquito daqueles, como se tudo estivesse para ir à breca por causa do risco de bancarrota da Evergrande. No dia seguinte, calmaria. Amanhã ou depois, se gigante chinesa der calote, pode ser que o fim do mundo volte à agenda do dia. Mas é disso mesmo que se trata, de um problema financeiro gigante, apenas?

Não apenas. A repercussão é grande também porque os mercados financeiros americanos, em particular, estão estressados por motivos próprios. Claro, se a “Sempre Grande” virar pó ou se a falência controlada (pelo governo) fugir do script, contagiando outras empresas e mercados no país, a economia chinesa pode crescer menos, com efeitos reais sobre o planeta. De resto, o contágio financeiro pode estourar bolhas e provocar quebras inesperadas no “Ocidente”.

No fundo, o caso Evergrande é apenas um caldo que entorna, entre várias fervuras. Os solavancos político-econômicos podem durar mais tempo. Está em curso um programa de reforma de cima para baixo, o xiismo, o plano do líder Xi Jinping, que vem de anos e agora se traduz em choques evidentes entre o Partido Comunista Chinês (PCC) e grandes empresas. No caso da Evergrande, limites oficiais para o endividamento dessas incorporadoras, controles de preços e de empréstimos bancários foram a gota d’água. Outros embates já ocorreram, outros virão.

Vera Magalhães - Brasília sem presidente

O Globo

Enquanto Jair Bolsonaro enfileirava mentiras, mistificações, negacionismo científico e climático e completas alucinações, não necessariamente nessa ordem, em seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, Brasília respirava outros ares.

Na capital federal, fora do Planalto e dos ministérios, o que o presidente fala perdeu ainda mais valor de face depois do 7 de Setembro. O recuo a que foi forçado e em que foi ajudado por Michel Temer foi necessário para que o país não colapsasse, avaliam autoridades do Legislativo, do Judiciário e do Ministério Público por cujos gabinetes fiz uma ronda nesta terça-feira quente e seca em Brasília.

A constatação é que Bolsonaro mostrou-se incapaz de dar um golpe de qualquer natureza, mas as instituições também não têm, hoje, meios de expeli-lo, porque faltam rua e apoio congressual ao impeachment.

O que os que têm caneta fazem, neste momento, é traçar um plano de contingência para atravessar a seca de 1 ano e três meses de Bolsonaro sem que ele consiga dilapidar o pouco que resta de institucionalidade e de direitos.

Bernardo Mello Franco - Um palanque em Nova York

O Globo

Jair Bolsonaro tratou a Assembleia Geral da ONU como palanque de sua campanha à reeleição. O presidente usou a tribuna para elogiar o próprio governo e agradar sua base de extrema direita. Chegou a exaltar as marchas do 7 de Setembro, que pregaram golpe e fechamento do Supremo Tribunal Federal.

O capitão se apresentou como um líder que “acredita em Deus”, “valoriza a família” e “deve lealdade a seu povo”. Só faltou concluir o discurso com um “vote em mim”.

Ainda sem partido, o candidato disse que o Brasil estava “à beira do socialismo” antes da sua eleição. Ele recebeu a faixa de Michel Temer, xodó de banqueiros e barões da Fiesp.

Elio Gaspari - A ruína do coronel Queiroga

Folha de S. Paulo / O Globo

Os tupinambás que dançaram em 1550 em Rouen na festa da rainha Catarina de Médici eram pitorescos, e seus costumes intrigavam os franceses. Já a comitiva de Jair Bolsonaro comendo pizzas numa calçada de Nova York não tinha graça alguma. Selvagem seminu, tudo bem, mas Gilson Machado, o ministro do Turismo da Terra dos Papagaios, estava com a parte frontal da cueca para fora da calça. Quem já viu coisa igual ganha um cinto. Ao seu lado, estava o doutor Marcelo Queiroga, quarto ministro da Saúde do governo de um país onde falta pouco para que seja atingida a marca dos 600 mil mortos.

Queiroga comeu pizza de dia, mostrou o dedo à noite e ontem ouviu um discurso delirante. Está há seis meses na cadeira e tornou-se símbolo do caos da administração de Jair Bolsonaro. Quem achava que, depois do general Eduardo Pazuello, qualquer substituto seria boa escolha enganou-se.

No início da pandemia, com 2.141 mortos, Bolsonaro demitiu Luiz Henrique Mandetta e nomeou o médico Nelson Teich, que havia farfalhado em torno do cargo, mas foi-se embora depois de 29 dias, honrando seu diploma. O capitão substituiu-o por um general que ocupou a pasta com uma desastrosa patrulha. Entrou na marca dos 15 mil mortos e saiu com 298 mil. Ficou a lembrança do seu humor de caserna e de um mandonismo inútil. Pior, parecia impossível.

Cristovam Buarque* - O rumo está na escola

Correio Braziliense, 21/9/2021

Em coluna no Correio Brasiliense, Luiz Carlos Azedo, além da honra de colocar-me ao lado de Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, me provocou com o título “Onde perdemos o rumo”, na véspera do bicentenário da Independência: estancados na economia, com pobreza e violência nas ruas e democracia fragilizada.

Nascemos sob o rumo insustentável da economia baseada no trabalho escravo para produção agrícola e mineradora, voltada para exportação. Atravessamos assim 350 dos 500 anos da história, e até hoje temos a economia semi-primária e semi-escravocrata. Fomos governados por populismo ou ditadura, com sistemático desrespeito ao equilíbrio fiscal, insensibilidade às necessidades sociais e urbanas, permanente concentração de renda, depredação ambiental. Tentamos rumo baseado em fazendas, minas, lojas, indústrias, estradas, hidrelétricas, uma nova capital, nunca em escolas.

Perdemos o rumo quando o quase Imperador gritou “Independência ou Morte” em vez de “Independência e Escola”; ou por esperarmos 350 anos para erradicar o escravismo e a Princesa assinar a Lei Áurea com o único artigo abolindo a escravidão, sem estes outros: “a terra pertence a quem nela produz” e “fica estabelecido um sistema nacional de educação para todos”. A bandeira republicana adotou o lema escrito “Ordem e Progresso”, em vez de “Educação é Progresso”, e até hoje não abolimos o analfabetismo: 12 milhões de adultos não reconhecem a própria bandeira.

Opinião do dia – Antonio Gramsci*

 

“Deve-se, portanto, explicar como ocorre que em cada época coexistam muitos sistemas e correntes de filosofia, como nascem, como se difundem, por que nessa difusão seguem certas linhas de separação e certas direções, etc. Isto mostra o quanto é necessário sistematizar crítica e coerentemente as próprias intuições do mundo e da vida, fixando com exatidão o que se deve entender por “sistema”, a fim de evitar compreendê-lo num sentido pedante e professoral. Mas esta elaboração deve ser feita, e somente pode ser feita, no quadro da história da filosofia, que mostra qual foi a elaboração que o pensamento sofreu no curso dos séculos e qual foi o esforço coletivo necessário para que existisse o nosso atual modo de pensar, que resume e compendia toda esta história passada, mesmo em seus erros e em seus delírios, os quais, de resto, não obstante terem sido cometidos no passado e terem sido corrigidos, podem ainda se reproduzir no presente e exigir novamente a sua correção.”

*Antonio Gramsci (1891-1937), “Cadernos do Cárcere”, 4ª Edição, v.1, p.97. Civilização Brasileira, 2006.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAL

Vergonha

O Estado de S. Paulo

Em discurso na ONU, como se estivesse falando a seus fanáticos apoiadores, Bolsonaro esbanjou ignorância, má-fé e oportunismo, expondo o País a vexame mundial

Há poucos dias, o presidente Jair Bolsonaro, após reiteradas ameaças de golpe e seguidas demonstrações de desapreço pelo decoro do cargo, comprometeu-se por escrito a dialogar. Como previsto, no entanto, suas promessas de moderação e racionalidade na tal Declaração à Nação não duraram nem um mês. Em discurso na ONU, Bolsonaro, como se estivesse falando a seus fanáticos apoiadores, esbanjou ignorância, má-fé e oportunismo, expondo o Brasil a um vexame mundial. Ou seja, foi o mesmo de sempre.

Seu pronunciamento foi uma profusão de meias-verdades e mentiras completas, insistindo no negacionismo e na pregação para sua base eleitoral. Bolsonaro ignora a diferença entre discursar na Assembleia-Geral da ONU e falar no cercadinho do Palácio da Alvorada.

Poesia - Carlos Drummond de Andrade - Síntese da Felicidade

Desejo a você:
Fruto do mato
cheiro de jardim
namoro no portão
domingo sem chuva
segunda sem mau humor
sábado com seu amor
Frango caipira em pensão do interior
ouvir uma palavra amável
ter uma surpresa agradável
ver a banda passar
noite de lua cheia
rever uma velha amizade
ter fé em Deus…
Não ter que ouvir a palavra não , nem nunca , nem jamais , nem adeus.
Rir como criança
ouvir canto de passarinho!
Filme de Carlitos
chope com amigos
crônica de Rubem Braga
viver sem inimigos
filme antigo na TV
ter uma pessoa especial
e que ela goste de você .
Música de TOM
com letra de Chico
Sarar de um resfriado
Escrever um poema de amor que nunca será rasgado .
Formar um par ideal
tomar banho de cachoeira
pegar um bronze legal
aprender uma nova canção
esperar alguém na estação .
Queijo com goiabada
por do sol na roça
Uma festa
um violão ,uma seresta
recordar um amor antigo
ter um ombro sempre amigo
bater palmas de alegria
uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
sentar numa velha poltrona
tocar violão para alguém
ouvir a chuva no telhado
vinho branco
Bolero de Ravel
e muito carinho meu!

Música | Chico Buarque - Vai Passar

 

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Merval Pereira - Um pária em NYC

O Globo

Comer pedaço de pizza nas ruas de Nova York pode ser um dos melhores programas da cidade, mas ficar na porta do restaurante porque não pode entrar sem a comprovação da vacina contra a Covid-19 é um vexame sem precedentes para um presidente de qualquer República que se preze. Não é sinal de populismo, nem de ser popular, mas de desleixo com as vidas alheias, que é a marca registrada de Bolsonaro.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, que foi seu companheiro de negacionismo no início da pandemia, mas depois caiu na real, foi sutilmente irônico com Bolsonaro. Fez a apologia da vacina AstraZeneca, fruto de pesquisas da Universidade de Oxford, e incentivou todos a se vacinar. Embora certamente já soubesse, Boris Johnson perguntou a Bolsonaro se ele já havia se vacinado, ao que o presidente brasileiro respondeu com um sorriso sem graça: “Ainda não”.

Carlos Andreazza - O imposto Guedes

O Globo

Paulo Guedes disse que o advento da reeleição consistira no “maior erro político do país”. O desejo por continuidade criaria uma “fixação”. Está certo.

O ministro domina a dinâmica engessadora dos quatro anos, cujo efeito paralisante — acresço — será agravado pela incompetência. O primeiro ano, vento a favor, aquele em que se poderia fazer algo. O segundo, atrapalhado pelas eleições municipais, especialmente fatal — acrescento — para os improvisadores. O terceiro, achatado, seria o do acúmulo, de promessas e de frustrações, um represamento do que não se materializou pressionado pela projeção do quarto ano, o das eleições, em que nada se produz.

Guedes sabia onde entrava. Saberia também, não fosse expoente de uma espécie de liberal exclusivamente econômico, da impossibilidade política de realizar — ainda que fosse capaz de formular políticas públicas, negociá-las e executá-las (e não é) — sob Bolsonaro, um gerador contínuo de instabilidades que, em campanha constante por permanecer no poder, abriu 2022 já em 2019.

Isso nunca o impediu de prometer, o que resultaria na erosão corrente de sua palavra — sujeito desprovido de experiência em administração pública, de súbito posto a comandar ministério que reunira cinco pastas. Um ministro da Economia que, se avaliando competente, avaliou ser possível reformar estruturalmente o Estado sobre um chão imprevisível cuja inconstância é produto do presidente da República. Produto: gasolina a 7 guedes.

Zuenir Ventura - A ONU não vai saber

O Globo

O presidente Bolsonaro fala hoje na Assembleia Geral da ONU, mas o que os líderes mundiais ouvirão deve ser a versão de uma realidade paralela, a dele. Isolado na comunidade internacional, com a reputação tão em baixa lá fora quanto a popularidade aqui dentro, seu discurso (se não foi o Temer, quem será que escreveu?) vai caprichar na retórica.

Ele poderá afirmar que a vacinação avançou nos últimos meses. Mas jamais informará que poderia estar muito melhor se o governo não tivesse feito campanha contra (duvido que tenha coragem de confessar que chegou a dizer que quem tomasse vacina corria o risco de virar jacaré).

Os participantes da Assembleia também ficarão sem saber que, de negacionista, seu governo passou a “negocionista”. Para isso, precisariam ouvir uma citação do presidente da CPI da Covid. Impressionado com aquilo de que tomou conhecimento nestes cinco meses de apuração, o senador Omar Aziz desabafou longe dos microfones: “Se estivesse aqui, Al Capone ficaria corado de vergonha”. Como conhecem bem a fama do personagem citado, compreenderiam a situação do Brasil atual.

Míriam Leitão - Risco chinês piora o cenário

O Globo

Uma crise internacional é tudo que o Brasil não precisa neste momento. E foi isso que se vislumbrou ontem, quando mercados do mundo inteiro despencaram pelo temor do efeito de contágio de uma gigante imobiliária. O centro do problema fica exatamente no país do qual o Brasil mais depende, a China. A equipe econômica tem planos de nos próximos meses vender a Eletrobras — e sonha arrecadar R$ 100 bilhões com ela — leiloar 16 aeroportos e privatizar os Correios. Tudo ao mesmo tempo. O Brasil é um país em crise institucional, risco fiscal elevado e um presidente visto como uma aberração, como se viu ontem em Nova York. A cotação de uma das commodities que o Brasil exporta, o minério de ferro, caiu de US$ 222 a tonelada para US$ 95, em apenas dois meses.

O problema da Evergrande é o seu tamanho e dispersão na economia chinesa, como explica o economista Gilberto Cardoso, CEO da Tarraco Commodities Solutions e analista da plataforma OHMResearch.

— Evergrande é um conglomerado industrial, com foco no mercado imobiliário, mas também em máquinas, baterias, carro elétrico. Acredito que está em iminente falência. Um contágio direto seria sobre os credores, bancos ou outras instituições chinesas. A empresa é controlada por uma pessoa, sócio que tem 70% das ações. E os minoritários são bancos, fundos, empresas chinesas — disse.

Luiz Carlos Azedo - Naufrágio em dique seco

Correio Braziliense

O projeto de construção do submarino nuclear brasileiro, uma parceria com a França, nunca agradou aos Estados Unidos e ao Reino Unido

Jair Bolsonaro participou, ontem, de reunião bilateral com o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, em Nova York, onde estão para participar da 76a Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), hoje. Em vídeo divulgado nas redes sociais do presidente da República, o premier afirma que havia prometido visitar o Brasil, mas a pandemia da covid-19 impediu a viagem. O tema da covid-19 dominou o encontro.

Entretanto, quem quiser que se engane, o pano de fundo das relações estratégicas entre o Reino Unido e o Brasil são a forte presença comercial chinesa no continente, o controle do Atlântico Sul, área de influência dos ingleses, e o acordo militar com a França para construção do submarino nuclear brasileiro. Além disso, o Brasil apoia as pretensões da Argentina no sentido de recuperar a soberania sobre as Ilhas Malvinas (Falkland Islands), arquipélago localizado na plataforma continental da Patagônia, porém um território ultramarino britânico.

Eliane Cantanhêde - Dois ‘Jaíres’, dois Brasis

O Estado de S. Paulo

Jair Bolsonaro, do Brasil, é o único presidente do G-20 (grupo das 20 maiores economias do mundo) que não tomou nenhuma dose contra a covid-19, empurrou ministros a se vacinarem escondido e recorre aos seus “sentimentos” para induzir o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a suspender a imunização de adolescentes, conclamando pais e mães a não vacinarem seus filhos. Um espanto!

Mais espantoso ainda pode ser o discurso de Bolsonaro hoje, na abertura da Assembleia-geral da ONU, em Nova York: o mesmo presidente que se recusa a se vacinar e faz campanha contra imunização de adultos e de adolescentes vai fazer oba-oba com os números da vacinação no Brasil? E acenar com exportação de vacinas para a América Latina?

Almir Pazzianotto Pinto* - Semipresidencialismo

O Estado de S. Paulo

Problema do Brasil está na caótica organização partidária, na corrupção, no sistema eleitoral

Desde a Proclamação da República, em 15/11/1889, o Brasil conheceu 38 presidentes. O primeiro foi o marechal Deodoro da Fonseca, herói da Guerra do Paraguai. Tomou posse após comandar as tropas que depuseram o imperador Dom Pedro II, de quem era amigo e admirador.

Em 23 de julho de 1840, aos 15 anos de idade, Dom Pedro II assumiu o exercício das funções majestáticas, exercidas de forma magnânima e serena até 15 de novembro de 1889. Foram 49 anos, 4 meses e 115 dias sob a Constituição de 25 de março de 1824, emendada uma única vez.

Sobre o reinado de Dom Pedro II, sintetizou Pandiá Calógeras: “Grande e nobre fora a tarefa cumprida pelo Império. Estava o Brasil sob ameaça de desintegração por fatores múltiplos e, entretanto, se manteve unido. Lutas locais duraram cerca de 20 anos, e, entretanto, foram dominadas dentro da união” (Formação Histórica do Brasil, Companhia Editora Nacional, SP, 1967, página 298).

Ana Carla Abrão - Retrocessos

O Estado de S. Paulo

Reforma administrativa é coisa séria. Bem feita, gera aumento na qualidade dos serviços públicos, ajuda a fazer crescer a produtividade da economia e melhora a trajetória fiscal de curto, médio e longo prazos. Malfeita, nos condena à mediocridade e à pobreza ao consolidar a máquina pública como reforçadora de desigualdades sociais.

Um projeto complexo (e confuso) de emenda constitucional chegou ao Congresso Nacional ao final de 2019. Ficou ali dormente até que, recentemente, entrou no rol das reformas a serem entregues neste ano. Foi colocado na mesma esteira desastrosa da reforma do Imposto de Renda. Deu no que deu.

O relatório apresentado pelo deputado Arthur Maia à Comissão Especial da Reforma do Estado tem retrocessos – por si só, inaceitáveis – e inviabiliza avanços futuros. Ele nos dá os motivos para defender o fim da tramitação da PEC 32. Destaco aqui três deles:

Hélio Schwartsman - Barbeiragem legislativa

Folha de S. Paulo

Medida privará o cidadão de ter informações relevantes sobre a eleição

Se um médico comete um erro muito banal, como prescrever insulina para um paciente em quadro de hipoglicemia, fica sujeito a sanções civis e até mesmo penais. Isso vale para quase todas as profissões, incluindo advogados, motoristas, jornalistas, encanadores. Uma notável exceção são os parlamentares. Eles podem escrever leis contendo absurdos sem temer responsabilização pessoal. Pior, as normas por eles criadas terão presunção de legalidade mesmo que tragam prejuízo para a sociedade.

Um exemplo recente de barbeiragem legislativa é a proposta de vetar a divulgação de pesquisas eleitorais na véspera dos pleitos. O dispositivo já foi aprovado pelos deputados e aguarda parecer dos senadores. A medida privaria o cidadão de acesso a informações relevantes sobre a eleição. E como sabemos que são relevantes? Há quem invista pequenas fortunas para produzi-las, e parlamentares estão entre os que mais se mobilizam para obtê-las em primeira mão. E, se um político não quer que você tenha acesso a uma informação que ele se esforça para conseguir, pode desconfiar.

Cristina Serra - O meu, o seu, o nosso dinheiro

Folha de S. Paulo

Livro revela a gastança de congressistas em viagens aéreas

Em abril de 2009, uma série de reportagens do site "Congresso em Foco" abalou o Congresso Nacional ao revelar que parlamentares faziam turismo com dinheiro público. A verba era de uma generosa cota para compra de passagens aéreas relacionadas às atividades do mandato.

Na prática, porém, cada congressista gastava o dinheiro a seu bel-prazer e sem dar satisfações a ninguém. Deputados e senadores ainda levavam a tiracolo parentes, amigos e cupinchas para destinos turísticos no Brasil e no exterior, como Nova York, Miami, Londres, Paris, Milão, Madri. Uma farra!

Doze anos depois, os repórteres Eduardo Militão, Eumano Silva, Edson Sardinha e Lúcio Lambranho revisitam o escândalo e trazem mais novidades no livro "Nas Asas da Mamata", recém-publicado. Eles descobriram agora, por exemplo, que o contribuinte bancou as passagens de Jair e Michelle Bolsonaro para a lua de mel em Foz do Iguaçu, em 2007.

Joel Pinheiro da Fonseca – A desonestidade dos céticos seletivos

Folha de S. Paulo

Questionar eficácia dos imunizantes sem crivo técnico é socialmente desastroso

A atitude cética é fundamental para o avanço do conhecimento. Se estamos confortáveis com nossas crenças, o progresso é impossível ou só virá depois que a realidade aplique golpes duros.

Grande parte da ciência é exatamente isso: procurar problemas nas teses estabelecidas, extrair previsões delas para falseá-las, identificar inconsistências, encontrar explicações que possam reabilitar teorias já descartadas.

Uma possível reação fatal a uma vacina, por exemplo, merece a atenção dos especialistas e os debates que a cercam: será que a morte foi causada pela vacina? Será que a vacina agravou um quadro preexistente que explica a morte? Qual a probabilidade que devemos atribuir a essa possibilidade? Por mais sólido que seja nosso conhecimento, a certeza nunca é absoluta.

No campo do conhecimento, colocar as próprias certezas em dúvida é sempre salutar. Na esfera prática, no entanto, é preciso agir. E essa ação se baseia em alguma crença, melhor ou pior embasada. Se, no momento da ação, a colocamos em dúvida, não iremos agir. Na esfera prática, o ceticismo é paralisante.

Andrea Jubé - Lira, o equilibrista

Valor Econômico

Lei do Mandante inspira solução para PL das “fake news”

Mestre do malabarismo político, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mal começou a articular uma saída para o impasse dos precatórios, e já se viu diante de outro imbróglio espinhoso: o projeto de lei do Executivo que altera o Marco Civil da Internet e, na prática, dificulta a remoção de conteúdos das redes sociais, enviado ao Legislativo na sexta-feira.

O tema é candente, explosivo e o governo tem pressa na matéria: enviou o projeto com urgência constitucional. Pela regra, se não for votado em 45 dias, passa a trancar a pauta da Casa onde está tramitando. Outro complicador é que a proposta é vista como um aceno do presidente Jair Bolsonaro à sua militância digital, afetada pela remoção de conteúdos que violariam as regras de plataformas das redes sociais.

O projeto já nasceu de uma controvérsia: veio substituir a medida provisória (MP) sobre o mesmo tema, que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), devolveu ao Executivo no dia 14.

Pacheco registrou que a MP configurou um “abalo” no desempenho das funções do Legislativo e gerou insegurança jurídica, porque o Senado aprovou proposta semelhante no ano passado - o PL 2630, que está em discussão na Câmara.

O tema é tão polêmico que a ministra Rosa Weber do Supremo Tribunal Federal (STF) também havia suspendido a eficácia da MP, em uma ação que tramita na Corte.

Pedro Cafardo - Socorro de Paulo Guedes lembra súplica de Paulson

Valor Econômico

Só um político habilidoso e com trânsito no Congresso será capaz de liderar o programa de reformas no próximo mandato presidencial

Em um momento quase cômico, na semana passada, o ministro Paulo Guedes fez “um pedido desesperado de socorro” ao Judiciário e ao Legislativo para resolver o impasse do Orçamento de 2022. Ele se referia ao já enfadonho problema dos precatórios, que surpreendeu o governo com uma conta a pagar de R$ 89,1 bilhões em 2022, e não de R$ 54 bilhões como previa o Ministério da Economia.

O socorro solicitado, portanto, seria de R$ 35,1 bilhões, valor que Guedes tenta parcelar ou adiar com auxílio do Congresso e do Judiciário.

O pedido de Guedes virou uma fábrica de memes porque a conversa se deu em um encontro aberto no qual participava, além do ministro, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux. Bem-humorado, Fux defendeu o diálogo entre as instituições e disse: [Guedes] é “tão amigo que coloca no meu colo um filho que não é meu”.

Guedes em geral fala, por impulso, o que lhe vem à cabeça. Mas nessa vez pode ter se inspirado em uma marcante passagem do primeiro volume de memórias do ex-presidente dos EUA Barack Obama: “Uma Terra Prometida”.

Maria Clara R. M. do Prado - Inflação ou emprego?

Valor Econômico

Não há muita margem de manobra para atuar sobre o câmbio, que tem puxado a inflação para cima

À medida que a pandemia da covid-19 começa a dar sinais de arrefecimento, com a queda no nível dos contágios, os bancos centrais deparam-se com um crucial dilema: o que priorizar nesta fase de transição em que as economias ainda não recuperaram as taxas de crescimento anteriores a 2020, o estímulo ao emprego ou o combate à inflação?

A dúvida surgiu nos últimos meses quando o mundo se deparou com um rápido e intenso aumento nos preços de produtos que afetam o bolso dos consumidores, em especial dos desempregados. A questão tomou conta dos debates entre acadêmicos, ganhou a manchete dos jornais e está intimamente inserida nas reflexões dos dirigentes dos bancos centrais.

Em alguns circuitos, tem sido revisitada a crise econômica que afetou o mundo entre meados da década de 60 e início dos anos 80, a partir do significativo aumento nos preços do petróleo, com reflexos na inflação, associada a altos níveis de desemprego. Tenta-se com isso estabelecer algum tipo de comparação com o que tem ocorrido hoje.

O que a mídia pensa - Editoriais /Opiniões

EDITORIAIS

Apoio à democracia é alento no Brasil sob Bolsonaro

O Globo

Os brasileiros continuam a ser a fortaleza a dar sustentação à democracia. A última pesquisa de opinião do Datafolha, feita em todo o país após as manifestações golpistas do 7 de Setembro, dá a dimensão de como o sentimento democrático tem crescido entre os brasileiros — um alento num país governado por um presidente que já demonstrou repetidas vezes não ter muito apreço por ele. Para 70% dos entrevistados entre os dias 13 e 15 deste mês, a democracia é o melhor regime de governo para o país.

É o segundo maior percentual registrado desde que o Datafolha começou a fazer a pergunta, em 1989. Quando Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, em 2018, o apoio à democracia estava em 56%. Num clássico exemplo de ação e reação, os discursos e atos antidemocráticos de Bolsonaro levaram a ampla maioria dos brasileiros a valorizar ainda mais a liberdade de escolher nas urnas eletrônicas quem governa o Brasil.

Na questão mais crítica para avaliar o apoio ao regime democrático, caiu para 9% a parcela daqueles que acreditam que, em certas circunstâncias, uma ditadura poderia ser melhor. É o nível mais baixo da série histórica e quase metade do registrado nos primeiros meses do atual governo. A maioria silenciosa não vai a protestos nas ruas, mas está atenta. Para 51% há a chance de nova ditadura — e é justamente esse receio que impulsiona a valorização da democracia.

Quando critica o voto eletrônico, Bolsonaro só quer criar um pretexto para questionar o resultado em caso de derrota em 2022, sob a falsa acusação de fraude. Mas a campanha autoritária bolsonarista, disfarçada de libertária, só engana os incautos. Dois terços acham que as manifestações e as mensagens nas redes sociais pedindo o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF) ameaçam a democracia.

Poesia | Fernando Pessoa – Tabacaria (Trecho)

Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa,

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Música | Moacyr Luz, Zeca Pagodinho & Samba do Trabalhador - Vida da minha vida

 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Carlos Pereira* - O barco e o timoneiro

O Estado de S. Paulo

No barco do presidencialismo multipartidário, partidos pivô sempre irão existir. O que muda é o timoneiro

Em regimes presidencialistas é o presidente que é percebido como o responsável pelo desempenho de políticas universais. Isso é consequência direta da distribuição de seus eleitores em todo o território nacional. Portanto, não é crível que o presidente transfira responsabilidade para outros atores políticos se, por exemplo, a inflação sair do controle, se a população não for vacinada, ou se o desemprego aumentar. Da mesma forma, se políticas nacionais apresentam um bom desempenho, é o presidente que tem condições de auferir crédito e benefícios políticos desses acertos.

Por outro lado, os legisladores, por terem uma base eleitoral geograficamente mais restrita e delimitada (no caso brasileiro, os Estados), obtêm maiores créditos e retornos eleitorais principalmente a partir de políticas locais e/ou setoriais que venham a gerar benefícios às suas redes locais de interesse na esfera municipal.

Muitos acreditam que o Centrão desembarcará do governo Bolsonaro por uma questão de sobrevivência eleitoral. Mas, será que a sobrevivência eleitoral desse amontoado de partidos ideologicamente amorfos estaria ameaçada com a queda vertiginosa de popularidade do presidente e o aumento de sua rejeição? Será que apoiar o governo Bolsonaro representaria um “abraço de afogados” para o Centrão?

Marcus André Melo* - Bolsonaro Contrafactual

Folha de S. Paulo

E se não tivesse havido a pandemia nem o legado do clã presidencial com a justiça?

O que teria acontecido com Bolsonaro na ausência da pandemia e dos problemas judiciais do clã presidencial? Os efeitos são distintos, mas estão interligados. A crise sanitária representou, sim, um choque exógeno no sistema político, enquanto o legado de problemas da justiça estava escrito em pedra, embora marcado por incerteza e baixa visibilidade nacional.

A pandemia criou uma janela de atenção sobre o comportamento do presidente, revelando à nação, atônita, um presidente sem qualquer empatia ou liderança em uma calamidade social inédita. No curto prazo, Bolsonaro nem sequer usufruiu da onda de solidariedade aos governantes que a pandemia deflagrou na vasta maioria dos países.